5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

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Thanatos
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5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Thanatos » 08 Jul 2008 08:11

Este tópico serve apenas para colocar texto integrante do conto. Os comentários e a discussão devem ser feitos aqui.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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anavicenteferreira
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby anavicenteferreira » 08 Jul 2008 12:57

Há um milhão de histórias nesta cidade e eu começava a perguntar-me porque só as mais banais me vinham bater à porta.

Não era assim que devia ser. Cresci a ver filmes do Bogart e a ler livros do Chandler, do Hammett e do Spillane, onde os detectives privados eram tipos duros que investigavam casos de vida ou morte, muitas vezes com repercussões internacionais e sempre envolvendo belas mulheres de pernas monumentais e olhos de corça. Quando a oportunidade me surgiu de fazer o curso de formação, mandei o resto à fava e nem hesitei.

Cinco anos depois, nada restava senão amargura e desapontamento. A maior parte do que me aparecia eram tipos a quererem saber se as mulheres os enganavam ou mulheres que se iam divorciar do marido e precisavam de provas de infidelidade para garantir a custódia dos filhos e uma pensão mais choruda. Tinha tido um caso de uma adolescente desaparecida que me dera alguma esperança, mas afinal a miúda tinha-se posto a andar com o namorado para a Andorra para passar férias na neve. O resto era tudo coisas triviais, mesquinhas... Uma fulana até me tinha contratado para provar que a ratazana canina da vizinha da frente lhe andava a escavar os canteiros de petúnias.

Pagava as contas. Mas não era assim que devia ser.

Ainda pensara que o problema era estar a trabalhar em Portugal, onde os investigadores privados não eram levados a sério e pouco acontecia de interessante. Ponderei a hipótese de emigrar; Nova Iorque ou Chicago seriam o ideal, Paris servia na falta de melhor. Uma viagem a Las Vegas para uma conferência internacional de profissionais do ramo em breve me rebentava com as ilusões. As histórias eram as mesmas: adultério, conflitos com os vizinhos, carros roubados, o desaparecimento ocasional, nada de entusiasmante.

Naquele dia, estava mais uma vez a tentar decidir se deixava de vez aquela merda de trabalho, só para esbarrar na questão do que fazer em vez disso. Tirei a garrafa de Jack Daniels do fundo da última gaveta da secretária e enchi um copo. Tinha acabado de o esvaziar de um gole, quando bateram à porta.
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azert
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby azert » 09 Jul 2008 21:18

Levantei-me e antes mesmo de abrir a porta, consegui sentir um cheiro envolvente a perfume. Ali, do lado de fora, estavam um metro e oitenta de carne firme, generosamente distribuída por todos os sítios certos, incluindo nos lábios vermelhos que sobressaíam na pele branca.

A mulher entrou sem esperar que me afastasse, o que me deu a sensação de ter tocado naquela pele macia.

Sentou-se na cadeira em frente da secretária e eu fui ocupar o meu lugar no lado oposto. Ofereci-lhe um cigarro que ela declinou, estendendo-me em troca uns envelopes.

Peguei-lhes e li as cartas que continham: eram as clássicas ameaças de morte em letras recortadas de jornais.

- Para quem são? – perguntei-lhe, no tom mais profissional de que fui capaz.

Ela retirou os óculos que até então lhe ocultaram os olhos, fitou-me e respondeu – Para mim.

- Quando é que as recebeu?

- A última recebi-a hoje. Há quatro semanas que recebo uma todas as segundas.

- Não serão alguma brincadeira?

O olhar dela dispensou qualquer palavra.

- Hmmm, disse eu enquanto olhava vagamente as cartas, tem alguma suspeita?

- Não precisaria de si se assim fosse. Sou capaz de tratar dos meus assuntos sozinha.

A frieza dos seus olhos azuis e o seu tom de voz desafiador convenceram-me da verdade da afirmação.

- Onde é que apareceram as cartas?

- No assento do meu carro.

- Onde é que guarda o seu carro?

- Na garagem, respondeu, como se lhe tivesse feito uma pergunta absurda.

- E quem é que tem acesso à garagem?

- Eu, o meu marido… a minha enteada… e os criados.

- E qual é o meu papel nisto?

Ela sacudiu a farta cabeleira negra, com exasperação – Descobrir quem escreveu as cartas antes que me matem!

A resposta dela fez-me sentir envergonhado. E isso que não me envergonho facilmente!

- Muito bem. Falta tratar do assunto dos honorários.

- O dinheiro não é um problema.

Senti-me intimamente satisfeito por alguém ter finalmente proferido essas mágicas palavras dirigindo-se a mim!

Ela levantou-se, pousou um cartão de vista na secretária e disse – Espero notícias suas. – E saiu.

Peguei no cartão e rodei-o entre os dedos, pensando que há dias em que o trabalho não era assim tão mau. Ficar com uma amostra do cheiro que cobria aquele magnífico corpo nas mãos, seria já suficiente, mesmo sem a perspectiva de obter uma quantidade de dinheiro interessante. Não estava certo do caso ir dar em alguma coisa, mas não tinha ficado sentado à secretária tantos anos seguidos, rememorando os casos fabulosos dos melhores detectives da história da literatura policial, em vão. Eu saberia como fazer render o caso.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Samwise » 10 Jul 2008 16:32

Dirigi-me à janela ainda a tempo de ver um coupé branco arrancar a toda a velocidade, deixando uma nuvem de fumo e poeira atrás de si. Memorizei a matrícula.

- Catarina Castro Bragança... Rua D. Amélia, Viv. 45 ... - abanei o cartão entre os dedos e sorvi mais uma golfada daquele perfume enlouquecedor. Uma mistela cara, de certo.

Por esta altura tinha a perfeita noção de que me estava a meter na maior alhada da minha vida. Várias campainhas de alarme tocavam o solidó na minha cabeça e nenhuma delas era mais pequena do que os sinos da catedral de Notre-Dame. Quando uma pessoa recebe ameaças de morte normalmente dirige-se à polícia. Ou então tem algo a esconder. É para isso que serve a palavra "privado" em frente à de detective. Garantimos um trabalho discreto e sigiloso. E se houver a azar, quem come com a bala somos nós. Para mim, a Catarina sabia mais do que aquilo que me contara. Havia sido tudo muito rápido. A conversa não durara nem cinco minutos. Não se trata de um assunto com esta importância em tão pouco tempo.

Sentei-me à secretária, enchi novamente o copo e ataquei o trabalho de frente. Havia vários telefonemas a fazer. O primeiro foi para a esquadra onde trabalhava o Ed Jones, um velho conhecido de infância que tinha subido às suas custas, até Tenente, na corrupta hierarquia policial. Eu pagava-lhe uma avença mensal em troca de alguns serviços.

- Viva, Ed, como estás? A família? Tudo a correr bem?..... Sim, comigo também.... O costume: preciso que verifiques uma matrícula... sim, quero tudo... registo automóvel, a quem pertence, ultima morada conhecida, antecedentes criminais, etc. etc... Consegues ainda hoje?... Óptimo....BF-25-63... Tenho também um nome para ti... Catarina Castro Bragança... Falo contigo logo à noite. Adeus.

A chamada seguinte foi para o laboratório forense da Infante Santo. Queria passar a pente fino aquelas cartas, para saber se houvera algum descuido com impressões digitais ou fluidos corporais de qualquer espécie. Combinei passar por lá ainda de manhã para deixar os exemplares.

Esvaziei o copo antes de fazer o último telefonema. O whisky puro arranhou-me a garganta a aterrou como brasas incandescentes no estômago - em matéria de maltes, o velho Jack ainda ditava as regras do jogo. Disquei o número do arquivo criminal de Lisboa.

- Sim? Bom dia...licença de "privado" nº 10002544... Melo, José... Desejo consultar o arquivo microfilmado... todos os casos reportados de ameaças por carta anónima nos últimos 20 anos... Hoje à tarde? 15:00? Muito bem.

Vesti a gabardina, peguei no chapéu e sai. Para uma manhã de fim de primavera, o céu passeava demasiadas nuvens.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby pictish scout » 13 Jul 2008 22:02

Segui a pé até ao eléctrico. Não me estava a apetecer esperar pela camioneta e precisava de apanhar ar para pensar.

A rua fervilhava de movimento e pairava um cheiro de combustível queimado no ar. Uns miúdos, que deviam estar na escola, barraram-me o caminho para me pedirem uns trocos. Levei a mão ao bolso das calças e senti a textura de uma nota amarrotada.

- Uma moedinha, senhor.

Sorri com o ar mais triste que consegui arranjar e fiz que não com a cabeça. A nota continuou confortavelmente no bolso; uma escolha que acabaria por me salvar a vida, mais tarde.

O eléctrico não tardou em chegar, fazendo os carris estalar. Senti um pingo de chuva no nariz e inspirei profundamente o ar frio matinal. Estava bastante confiante, até ousei enfrentar o olhar altivo de uma jovem que saltou do metro para a rua. Sentiu-se ultrajada pela minha persistência e virou a cara, caminhando rapidamente para fora do meu campo de visão. Sorri, vitorioso.

Subi a rua lentamente, podendo observar, ao fundo, o rio e a ponte sobre o Tejo. Estava inspirado e senti-me entrar na personagem. Apalpei os envelopes para me assegurar que não os tinha perdido.

Saí na Rua das Pedras Negras e segui para o quiosque do Crespo para comprar o jornal. Planeava lê-lo no café para fazer tempo antes de passar pelo laboratório. Lembrei-me que não tinha jogado no Totoloto, mas não me importei muito com isso. Nem a chuva miudinha atrapalhava os meus pensamentos. Estava completamente concentrado e tinha consciência que muito em breve receberia algumas respostas positivas.

As notícias no jornal eram terrivelmente banais. Estive mais tempo a fazer as palavras cruzadas e a frustrar-me com o Sudoku. Nunca fui grande coisa com os números.

O café estava queimado e sabia a cinzas. Acabei por salvar o palato com um pastel de bacalhau enquanto que me divertia a escutar uma discussão na mesa do lado.

Levantei-me para ir à casa de banho para passar água fria no rosto. Devo ter olhado para o relógio umas três vezes, antes de chegar ao lavatório; começava a impacientar-me com a minha própria demora.

Rodei a maçaneta e entrei no WC. Sustive instintivamente a respiração e abri a torneira. Levei as mãos molhadas à cara e senti-me relaxar. Passei a mão pelo pescoço e nuca e massajei lentamente os músculos doridos. Limpei as mãos nas calças e hesitei em voltar a abrir a porta. Puxei a manga direita sobre o punho e usei-a como pega para não entrar em contacto directo com a maçaneta infestada de vermes. A superfície metálica da maçaneta estava demasiado polida, o que fez com que a minha mão escorregasse para trás. Tentei uma segunda vez, segurando com mais força. A porta abriu-se lentamente com um leve ranger. Dei um passo para o lado para a abrir completamente, quando fui violentamente empurrado para trás.

Devo ter escorregado no chão húmido. A força do empurrão, só por si, não me poderia ter lançado ao chão daquela maneira. Antes de ter tempo de perceber o que aconteceu, fui socado na cara. Por pouco não perdi os sentidos, mas o meu olho esquerdo não voltou a abrir. Estranhei o silêncio. Fui completamente imobilizado de modo a que não me conseguisse mexer nem gritar por ajuda.

Não, nunca gritaria por ajuda. Teria resolvido a situação se não tivesse sido apanhado desprevenido e desarmado. Porque raio não andava armado?

Senti um aperto forte no pescoço. Um braço musculado e pálido manteve-me quieto e mudo enquanto era revistado rápida e eficientemente por um segundo indivíduo. Não o consegui ver porque usava um cachecol em frente da boca e óculos escuros sobre um nariz rosado e coberto de sardas. Parecia ser um homem muito alto e forte, com porte atlético.

Assim que encontrou as cartas, olhou para mim fixamente. Fez sinal ao outro para me soltar, abriu a porta e desapareceu. Antes de poder reagir fui socado e pontapeado no abdómen, ficando sem fôlego para gritar. Pensei que iria sufocar até à morte.

Deixei-me estar deitado no chão húmido do WC, tremendo e esforçando-me por respirar enquanto sentia o pastel de bacalhau e o café a subirem rapidamente pelo esófago.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby anavicenteferreira » 18 Jul 2008 21:44

Sentei-me e encostei a cabeça aos joelhos, tentando controlar a náusea. O cheiro do café mal-tirado boiava-me na boca, acompanhado do gosto a gordura retardada que parecia ser tudo o que restara do magnífico paste de bacalhau. Incapaz de reter o vómito, mal tive tempo de me virar para a sanita.

Lavei a cara e bochechei com água. Quando saí, perguntei ao empregado se tinha visto os dois homens. Disse-me que tinham saído apressados, mas como já tinham pago a conta, ele não reparar para onde tinham ido.

Agradeci-lhe e preparei-me para sair do café. Um miúdo de uns nove anos puxou-me pela manga do casaco.

– Eu vi-os, os tipos que saíram daqui a correr. Entraram num carro, que estava parado lá fora há uma data de tempo.

Inclinei-me para ele e aferrolhei um sorriso de tio preferido no rosto.

– E de que cor era o carro? Era um carro grande ou pequeno?

O puto franziu o sobrolho e deitou-me um olhar de desprezo antes de começar a debitar com sobranceria de conhecedor:

– Era um Seat Leon FR, cinzento zenith, com jantes de 18 polegadas.

– E a matrícula não viste?

– As letras eram GH, não me lembro dos números, mas acho que havia um 7.

Dei-lhe um piparote na cabeça.

– Obrigado, pá.

Ele apontou para o olho que me começava a inchar como uma lanterna chinesa.

– Foram eles que lhe fizeram isso? São bandidos?

Os olhos brilhavam-lhe e lembrei-me de mim mesmo, quando tinha a idade dele, cada vez que ouvia as sirenes da polícia a passarem na minha rua.

– Não sei, ainda não sei. Mas vou descobrir.

Saí do café e parei, encostado à esquina, enquanto tentava ordenar as ideias e tomava nota do que o miúdo me dissera. Olhei para o relógio, ainda ia a tempo.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby azert » 19 Jul 2008 18:28

O que me esperava, vinte anos de cartas anónimas escritas no mesmo tom seco, breve e ridículo, tão ridículo como as cartas de amor, fazia-me bocejar por antecipação. Entrei no edifício, mostrei as minhas credenciais e preparei-me para o trabalho que me esperava, tão excitante como ver o musgo a crescer nas pedras do Castelo de S. Jorge.

O café que deixara a boiar na sanita, juntamente com o pastel de bacalhau, mais os copos de Jack Daniels tomados há tempo suficiente para entrarem na circulação sanguínea, tornavam difícil manter os olhos abertos. Felizmente, houve um tempo em que uma ricaça se embeiçou por mim o suficiente para me dar um presente pelo Natal – um MP3 de 4 GB que eu enchera de blues e jazz. Sim, é um cliché, mas ser detective privado também o é.

Passadas umas horas, entoava-me Sarah Vaughan o “Whatever Lola wants, Lola gets” aos ouvidos, apercebi-me de algo curioso numas cartas de há apenas uns meses atrás. Já não tinha as cartas da bela Catarina comigo, para poder comparar, mas se havia coisa de que me podia gabar era da minha memória visual. Sim, não havia dúvida, havia ali uma semelhança que não podia ser só coincidência. Anotei no meu inseparável bloco, mais gasto de andar no bolso do casaco do que por escrever nele, o conteúdo das cartas de Dezembro, recebidas por um empresário da noite, o Joel Raposo, bem como o das cartas da Catarina, copiadas de memória. Saí e apanhei o metro para o escritório.

Quando cheguei, descalcei-me, tirei o casaco e afrouxei o nó da gravata. Fui buscar gelo à cozinha para um copo de Jack Daniels e um saco para o olho inchado. Estendi-me no sofá e voltei a ouvir a Sarah Vaughan. Aquela voz era capaz de convencer até um morto a levantar-se. Tinha ainda algumas horas de espera até à noite, altura em que saberia algo mais sobre a Catarina Castro Bragança, o coupé branco e o Joel Raposo, cortesia do Tenente Ed Jones.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Samwise » 21 Jul 2008 20:50

O telefone tocou as vezes suficientes para me arrancar dos braços esguios de Catarina, das unhas que me rasgavam as costas, do calor húmido que inundava o quarto. A situação era grave. Conhecera a mulher há poucas horas e já andava a ter sonhos eróticos com ela. Limpei a baba dos cantos da boca e fiz um esforço para me levantar.

O telefone parou de tocar.

O olho inchado continuava inchado e o saco de gelo estava cheio de água morna... Catarina, Catarina... Arranquei os headphones, agora mudos, e saltei fora do sofá. Uma claridade ténue passava a custo pelas frinchas do estore. Quase noite.

O telefone tocou outra vez. Atendi à segunda.

- Sim?

- Zé, old buddy, ouvi dizer que andas a assustar miudinhos na rua com esse teu olho à Belenenses.

Joe Wilson, aquele velho ratazana. Não me havia lembrado dele a propósito deste caso. Não estava assim tão desesperado para recorrer aos seus serviços, e o caso ainda tinha muita corda para andar. Ao ouvir a sua voz pelo telefone soube logo que havia novidades. Joe era um marinheiro reformado, corpolento e pesado, que agora "protegia" algumas miúdas de rua. Garantia-lhes segurança física e um território alargado de actividade em troca de uma pequena percentagem dos lucros. Sabia tudo o que se passava nas ruas.

- Joe, não tenho paciência para as tuas merdas. Diz quanto queres e cospe a informação.

- O resto da matrícula e o nome de quem encomendou o trabalho. Trezentas biscas, aqui comigo, amanhã.

- Cospe.

- GH-25-78. Júlio Mascaranhas, patrão do alterne nocturno. Alguém com quem não te queres meter, a não ser que tenha uma boa razão para isso. Uma MUITO boa razão. Mas tu já deves saber essa parte. O teu olho sabe dessa parte. Amanhã. Não te esqueças.

Desligou. Uma boa razão para isso. O corpo suado de Catarina regressou aos meus pensamentos por uma fracção de segundo. Boas razões não me faltavam. Fiquei a pensar em Joe Wilson, o tipo que uma vez me havia dito que não comungava na missa porque não sabia onde tinham andado as mãos do padre nos momentos que precediam a cerimónia. Joe Wilson, que até agora não tinha falhado uma única informação.

Comecei a ligar os pontos soltos... Catarina, casada, filhos, uma senhora da alta, bom nome, brazão de família, metida com um tipo deste gabarito... algo correra mal, ela quisera acabar, ele não... ameaças de morte. Agora era fácil... contratava um detective privado para arranjar provas para o incriminar, depois faria chantagem com ele. Como podia ser tão estúpida? Ninguém faz chantagem com um tipo daqueles!

Peguei no telefone. Tirei o cartão dela da carteira. Ia ouvir das boas.

A campainha tocou. Ed, pensei.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby pictish scout » 23 Jul 2008 21:28

Caminhei lentamente até à porta, demorei tempo suficiente para que quem estivesse lá fora voltasse a tocar. Mas tal não aconteceu. Estranhei e, com mais cuidado, espreitei pelo buraquinho da porta. Não estava lá ninguém.

Abri-a, sem medo. Esperava encontrar um dos matulões que me agredira no café, talvez os dois. Estava tão consumido pela frustração e raiva que me sentia capaz de os mandar para o hospital ao mesmo tempo. Mas não, não estava lá ninguém. Brilhava apenas a luzinha no elevador indicando que estava no rés-do-chão.

Não passara de uma brincadeira ou uma tentativa de me intimidar. Mas eu não estava intimidado, não ainda.

Olhei pela janela e esperei durante um ou dois minutos, a ver a chuva bater no vidro em meio ao nevoeiro cinzento formado pela poluição urbana. Ninguém saiu do prédio.

Amanhã compro uma arma, planeei eu.

O telefone tocou bruscamente.

- Não queres vir jantar comigo? – A voz de Ed soou rouca como sempre, mas continha algum entusiasmo… ao contrário da minha.

- Já não apareces por cá?

- Dá-me mais jeito se combinarmos noutro lado, hoje saio um pouco mais tarde. Vamos jantar à Portugália, pago eu.

- Hum… - A ideia não me agradava. Estava sem apetite e não queria perder tempo com deslocações desnecessárias. Queria entregar-me de corpo e alma ao caso, mas o Ed podia ajudar-me. – Tens a informação que te pedi?

- Claro. Às 9h, então.

- Ás 9…

O Ed era um tipo porreiro. Corrupto até ao tutano, mas nunca me deixara ficar mal. Se não tivesse havido a grande recessão económica na Inglaterra nunca o teria conhecido. Talvez fosse melhor assim. Por causa disso, Lisboa parecia-se cada vez mais com o “Allgarve”, só faltava a praia. Nunca me importei muito com isso. Ainda era uma criança quando o Estado, ao mesmo tempo que expulsava malta do Leste e de África, abrigou as famílias inglesas que escolheram Portugal para recomeçar a viver. Anos depois, o Ed apareceu na escola e sentou-se ao meu lado. O destino tem dessas coisas, tal como a ajuda humanitária aos euro-comparsas.

Por causa de uma avaria no metro, a quinta em três dias, apanhei o eléctrico e um táxi que me deixou quase a 100 metros do restaurante. Tive de caminhar à chuva até ver o casaco amarelo de Ed a brilhar à luz dos faróis dos carros.

Dei-lhe uma pancadinha nos ombros para o cumprimentar e seguimos até ao restaurante, não antes dele fazer pouco do meu olho inchado. Não fiz caso, mas começava a sentir um vazio no estômago.

- Desembucha – disse eu antes que a comida chegasse.

- Catarina Bragança – começou Ed com um sorriso matreiro. – Uma jovem esposa do empresário Rafael Costa Bragança. A morada confirma-se e vivem lá desde que se casaram. Dois anos de um casamento feliz. Ela é licenciada em História da Arte. O carro está em nome do marido, tal como a casa.

- Antecedentes criminais?

- Nada, não encontrei nada – retorquiu ele.

- Tenho de lhe fazer uma visita – disse eu, mais para mim do que para Ed. – Parece que quem anda a ameaçá-la é um chulo armado em mafioso. Não sei o que se passou entre eles, mas vou descobrir.

- Um chulo? – Os olhos de Ed reviraram-se. – De certeza que a senhorita está agarrada à coca, deve uma boa massa ao chulo e não quer pagar com o corpinho.

- E leva com ameaças de morte em bilhetinhos? – Sim, a ideia de Ed era ridícula. – Não me parece. Quanto muito, ameaçava contar ao marido dela ou fazia qualquer outro tipo de chantagem. Tem de haver algo muito mais grave entre eles, isto se o chulo for o autor das cartas.

- O que pensas fazer?

Pensei por alguns segundos. Ainda só passara um dia e parecia que tinha feito muita coisa. Conclui que isso era uma ilusão.

- Para já, tenho de arranjar uma arma antes que as coisas fiquem descontroladas – disse com o ar mais natural que consegui arranjar. – Depois, preciso de uma conversa séria com a Catarina Bragança e, de seguida, tenho de entrevistar os empregados que trabalham em sua casa, já que são eles os únicos com acesso ao carro quando os patrões não estão. As cartas foram encontradas dentro do carro da Catarina Bragança.

Antes que pudesse responder, Ed foi surpreendido pelo cheiro quente do bife afogado em molho de manteiga.

- Mais uma imperial, fachavor – disse eu ao empregado de mesa, enquanto metia o guardanapo sobre as pernas. Alguma coisa me fez lembrar que tinha informação acerca de um tal de Joel Raposo, empresário da noite, que também fora ameaçado através de cartas anónimas. Talvez Catarina Bragança soubesse de alguma coisa sobre isso.

Empresário da noite, chulo… ao menos a miúda sabia divertir-se.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Pedro Farinha » 27 Jul 2008 21:38

Senti um nó no estômago como sempre me acontece quando algo não bate certo e não, nada tinha a ver com o delicioso molho de natas ou com as batatas fritas que fariam o meu médico trepar paredes da próxima vez que voltasse a fazer-me análises ao colesterol. Um dia vais morrer de um AVC avisava-me ele. Ou de uma cirrose… ou mesmo de uma úlcera no estômago desse péssimo hábito de emborcar bebidas a 40º em jejum.

Nenhuma dessas maneiras de morrer se me afigurava digna para um detective particular, razão pela qual pouco caso fazia das suas palavras e se o continuava a visitar regularmente devia-se mais à amizade que nos unia que a uma relação paciente-médico.

Os primeiros acordes da missão impossível acordaram-me destes pensamentos. Ed levou a mão ao telefone, fez-me um gesto com a mão como que a dizer não saias daí e afastou-se para um canto onde pudesse falar mais discretamente.
A sensação que algo nesta história não batia certo continuava a fustigar-me. Nomeadamente o porquê da agressão e do roubo das cartas anónimas, apenas por elas terem sido roubadas eu tinha obtido alguma pista quanto ao seu autor. Teria sido um aviso… talvez, mas apenas espicaçara a minha vontade de por tudo em pratos limpos.

Ed voltou com um ar mais sério que o costume. Pegou no casaco que enfeitava a cadeira e disse-me: paga a conta e vem ter comigo lá fora, espero por ti no carro.

Olhei desolado para o metade do bife que restava no meu prato mas algo no olhar dele me fez perceber que não havia tempo a perder.

Só após ter entrado no carro e ele ter arrancado sem se quer me ter dado tempo para fechar a porta é que me contou – O Rafael Bragança foi assassinado, e tu vens comigo que eu quero saber tudinho, quero saber porque me fizeste aquelas perguntas sobre a mulher dele, de onde é que a conheces, em que caso estás metido, quem te pintou o olho de roxo. Até quero saber a cor das peúgas que trazes calçadas por isso vens comigo mas bico calado. Percebeste?

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby anavicenteferreira » 28 Jul 2008 19:58

A minha cabeça recusava-se, de momento, a ponderar a ideia de Rafael Bragança estar morto. Não fazia sentido nenhum. Os meus neurónios viraram-se, por isso, de todas as coisas, para o toque de telemóvel do Ed. Missão Impossível? O tipo sempre fora um cromo. Bastava dizer que o seu filme preferido era um dos do Batman e aquele em que entrava o Clooney ainda por cima!

Perdido na ponderação dos gostos do meu velho amigo, demorei a perceber que não íamos a caminho da esquadra. Ed apercebeu-se da maneira como me endireitei no assento.

– Estás com sorte, pá, – disse. – Vais poder ver uma cena de crime à séria.

Parou o carro em frente a uma casa grande, pintada de branco e rosa claro, um dos muitos palacetes recuperados da zona. O enorme portão estava aberto e um carro de polícia estava estacionado num dos lados da alameda de acesso. Dois PSPs fardados controlavam as entradas. Já tinham começado a aparecer jornalistas; não era só Ed quem recebia algum por fora.

Passámos sem problemas, apesar de alguns dos polícias me deitarem olhares de esguelha. Ed não lhes explicou nada; como me dissera uma vez: ele era o tenente e não tinha que lhes contar porra nenhuma se achasse que não lhes dizia respeito.

– Temos vista de estudo?

Encostada a uma parede, a capitã Henriques observava o trabalho dos tipos da forense. O rosto de Ed ficou roxo como se ele estivesse prestes a sufocar. A promoção da fedelha ficara-lhe entalada. Clareou a garganta.

– Aqui o Melo é capaz de saber alguma coisa sobre o caso. Trouxe-o para ver se nos pode ajudar.

Mariana Henriques sorriu friamente. Antes de se afastar em resposta ao chamamento de um dos técnicos, disse:

– Já era altura de ser ele a ajudar-nos a nós, não acha, Jones?

Nunca tinha perguntado a Ed o que se passara entre os dois. Ele já vira outros tipos ultrapassá-lo nas promoções e nunca lhes ficara com tanto ódio. Também não me parecia que fosse só pelo facto de ela ser mulher. A mulher dele tinha uma pequena empresa, ganhava várias vezes mais do que ele e Ed nunca se importara com isso. Mas há coisas em que um gajo não se mete, por muito amigo que se seja de alguém, e o instinto dizia-me que este era um desses casos.

O cadáver estava caído no chão. A princípio não lhe consegui ver o rosto. O médico legista estava debruçado sobre ele.

Quando ele se afastou, tive um sobressalto. A vítima tinha sido estrangulada com um cachecol de caxemira bordeaux e azul-marinho que me era familiar. Os meus olhos percorreram o corpo alto e forte, de porte atlético, o fato escuro de bom corte. Inclinei-me: mesmo através da descoloração causada pelo estrangulamento, as sardas no nariz ainda eram visíveis.

Não havia qualquer dúvida na minha mente: Rafael Bragança era um dos homens que me atacara naquela manhã. E agora a sua morte fazia ainda menos sentido.
Ana

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby azert » 30 Jul 2008 00:36

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->Recapitulei: uma tipa da alta recebe cartas anónimas com ameaças de morte, contrata um detective privado para investigar o caso, o marido rouba-lhe as cartas, que são idênticas às recebidas por um tal Joel Raposo, foge no carro de um chulo e depois aparece morto? Este caso cheirava mal, mesmo muito mal. E diabos me levem se ia deixar que me fizessem passar por parvo.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->Aproximei-me do Ed para tentar saber mais detalhes sobre o homicídio do Rafael Bragança. A capitã Henriques estava a pô-lo ao corrente dos pormenores.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- O médico legista estima a hora da morte entre as 19 e as 20h, hora a que o corpo foi encontrado.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Quem é que avisou a polícia? – inquiriu o Ed.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- A mulher do falecido – Mariana Henriques consulta as suas notas – Catarina Castro Bragança.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->O Ed lançou-me um olhar inquisidor. Eu olhei para a pontas dos meus sapatos.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Foi ela que o encontrou?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Sim, quando ia chamá-lo para jantar.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Hmmm… Vamos lá falar com a viúva, então.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->Entrámos no casarão e a capitã Henriques guiou-nos até à sala de visitas. A Catarina estava sentada na ponta de um magnífico cadeirão de pele, com um vestido preto que realçava ainda mais, se possível, as estonteantes formas do seu corpo. A cor vinha mesmo a calhar…<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->O Ed pigarreou antes de começar a falar, sinal de que estava nervoso. Não era caso para menos, aquela mulher desestabilizava qualquer um.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Tenente Jones. – Ed mostrou-lhe o crachá – Importa-se que lhe faça algumas perguntas?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Faça favor. - A voz de Catarina saiu segura, sem mostrar um pingo de emoção. Seria assim tão forte? Fez um gesto com a mão convidando-nos a sentar. – Tomam alguma coisa? – O meu olhar treinado já tinha avistado uma garrafa do velho Jack sobre a mesinha ao lado do sofá, pelo que respondi afirmativamente. Se havia momento em que me fazia falta a companhia de Jack, era aquele.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->Depois de servir as bebidas (nada para a capitã), Catarina encarou o Ed, pronta para o interrogatório.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Foi a senhora que encontrou o corpo do seu marido?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Fui, sim.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- A que horas foi isso?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Às oito em ponto. O Rafael fazia questão de que se cumprissem escrupulosamente os horários e essa era a hora estipulada para o jantar.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Compreendo. E quando entrou no escritório dele, reparou nalguma coisa estranha, algo que faltasse ou estivesse fora do lugar?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Não, estava tudo no lugar. – respondeu Catarina sem hesitar.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Tem a certeza?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- O meu marido era tão meticuloso com o sítio de cada coisa, como com os horários. Nada, naquele escritório, muda nunca de lugar, nem por uns milímetros.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Estou a ver. A porta do escritório estava aberta?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Fechada só com o trinco.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Então qualquer pessoa da casa poderia ter entrado lá?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Sim – respondeu Catarina naquele tom de desdém que já lhe conhecia. <!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Vou precisar de uma lista de todos os que estavam em casa nessa altura.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Creio que a Capitã Henriques já tratou disso…<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->Ed não se deixou intimidar pelo olhar de enfado da Catarina.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- E do lado de fora, pode aceder-se ao escritório?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Sim. – Foi a resposta concisa e seca dela.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Bom, já irei ver com os meus próprios olhos. Diga-me, sabe de alguém que tivesse motivos para querer ver o seu marido morto?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Seria mais fácil se me fizesse a pergunta oposta. – aqui até o veterano Ed ergueu a sobrancelha de espanto. Não tinham sido tanto as palavras dela, mas o modo desprendido como as tinha dito.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->- Creio que por ora é tudo. Não queremos importuná-la mais neste momento de dor. – Ed também sabia ser irónico – Peço-lhe que não saia de Lisboa e que me contacte se entretanto lhe ocorrer mais algum pormenor sobre o caso.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#000000--><!--/coloro-->Ed deixou-lhe ficar um cartão e dirigiu-se em seguida para o escritório. Eu segui-o sem pressas, queria ver se com o Jones fora de cena, a Catarina dava mostras de me ter reconhecido. Mas, à parte o ter-me servido o uísque, não me olhou uma única vez, nem mesmo depois da saída do Ed. Isso era interessante, muito interessante.<!--colorc--><!--/colorc-->
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Samwise » 31 Jul 2008 02:04

Dei passagem à Capitã, que saiu da sala sem fazer cerimónia. Antes de fechar a porta, fixei os olhos nos de Catarina. Ela dirigiu-me um olhar ríspido, altivo, como que a desafiar-me para um combate de estátuas. Fiz um gesto de telemóvel com as mãos, soletrei "Ligue-me" com os lábios e coloquei sobre eles o indicador esticado em sinal de shhhhhhh. Queria discutir o assunto com ela, a sós, sem a interferência de terceiros. Mais tarde.

Nesta altura não sabia em quem confiar ao certo.

Uma ideia nova começava a formar-se na minha cabeça: e se as cartas de ameaça não tivessem como destino a Catarina? Em nenhum lugar no seu texto estava indicado um nome, pelo que me lembrava. Bem que podiam ter sido elaboradas a pensar no Rafael e terem acabado erradamente nas mãos de Catarina. Era uma hipótese a considerar, mesmo que, segundo ela, as cartas tivessem aparecido dentro do seu carro.

Ed indicou-me um taxi e pediu-me para sair dali para fora. A investigação no local estender-se-ia pela noite dentro e não queria ninguém a mais a dificultar o processo de recolha de provas e a contaminar o local.

- Vai para casa, Zé. Amanhã quero-te na esquadra às dez em ponto, para prestares declarações. Se tens uma história para inventar, é bom que penses muito bem nela durante esta noite. Não me lixes, ok? Aquele ao telefone há bocado era o Procurador Geral da República. Tenho rédea curta para este caso - não quero que andes a arranjar problemas com quem não deves, estás a ouvir?

A mensagem era clara: nada de falar com o Júlio Mascaranhas ou sequer tentar investigá-lo. O Ed sabia muito bem onde estava metido e onde EU estava metido. Em resumo, mais lenha para a fogueira e uma ordem directa para me manter afastado dela.

Fui para casa. A Catarina não me Ligou. Passei a noite em branco, a pensar no corpo do morto e no corpo da viúva, segundo diferentes perspectivas. Ambas me secavam a boca.

Às nove da manhã estava plantado em frente à recepção da pensão Vilarinho, duas estrelas, local onde morava, desde há muito, o Joe. Se queria respostas concretas, ele era pessoa certa para me as dar. Queria saber também porque me mentira a propósito do servicinho contratado. O recepcionista, um sujeito magricela de uns 50 anos, estava em camisa interior de alças, barba grisalha de três dias e um palito ao canto da boca. Um cliché num conto de clichés.

- Sim, pode subir, ele está no quarto. Ainda não desceu para tomar o pequeno-almoço.

- Segundo me recordo, 314, não é?

- Certo... Onde arranjou esse olho negro?

- Caí de uma escada.

- Uma escada com dois bons punhos...

- Meta-se na sua vida.

Subi ao terceiro andar. O corredor tresandava papel de parede descolado e a carpete velha empestada de tabaco. 314. Bati duas vezes e esperei. Bati outra vez. Dez, vinte segundos, nada.

- Joe? Estás aí?... JOE?

Desci as escadas a saltar andares, pedi ao sujeito para agarrar na chave mestra e obriguei-o a subir à minha frente. Algo tinha acontecido a Joe. O sujeito destrancou a porta. Joe rodopiava lentamente, pendurado pelo pescoço no fio elétrico que descia do tecto. Havia uma cadeira deitada no chão, por baixo de si. Tinhas as mãos soltas e os braços desprendidos, ao lado do corpo.

- Chame a polícia. JÁ!!!... Peça para falar com o tenente Ed Jones.

O sujeito manteve-se parado durante uns segundos, pálido e impávido que nem uma parede, a recuperar do choque. Empurrei-o para fora do quarto. Largou a correr corredor fora.

Vasculhei tudo. Nada que indiciasse homicídio.

Em cima da escrivaninha, uma mensagem no verso de um cheque, escrita na caligrafia desalinhada de Joe: "Adeus mundo cruel".

Virei o cheque. José Eduardo Cunha de Melo... 300€... à ordem de Joe Wilson... datado do dia anterior... a letra passava bem pela minha....

O chão e as paredes a rodopiarem de súbito. Enfiei o papel no bolso. Algum tinha estado no meu escritório. Alguém tinha aberto o meu cofre. Alguém tinha assassinado Joe Wilson. Alguém havia deixado uma prova incriminatória escrita pela minha própria mão. Alguém...

Sirenes.
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Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby pictish scout » 03 Aug 2008 02:10

Podia ter ficado quieto e esperado pela polícia; eram três carros lá em baixo. Podia ter passado a manhã a depor e a tentar explicar a minha inocência. Mas não é assim que as coisas funcionam. Não nesta cidade.
Tinha de responder a muitas perguntas. Estava comprometido até ao pescoço.
Quando dei por mim, estava já do outro lado da janela. Passei para o quarto do lado agarrado a um cano enferrujado que seguia pela parede até ao telhado.
Não olhes para baixo, pensei eu. Mas não resisti. Os agentes entraram rapidamente no edifício. Não tinha muito tempo.
Continuei a passar de janela em janela pelo lado de fora, escorregando nas caganitas dos pombos e maldizendo à minha pouca sorte.
Assustei-me quando ouvi a voz estridente do recepcionista. Estavam a interrogá-lo e, de certeza, que já os informara da minha fuga. Estava na altura de passar para um outro nível de improvisação.
Saltei para o telhado de uma casa, ao lado. Bati com os joelhos nas telhas. Algumas soltaram-se e quase que me arrastavam para o abismo. Corri para o outro lado do telhado para escapar à vista da polícia, mas o estrondo chamou a sua atenção. Dois saíram para a rua e tentaram cercar a casa enquanto chamavam por ajuda.
Apanhei balanço e saltei para o edifício ao lado. Ignorei a dor no joelho direito e continuei a correr.
Estava tramado, completamente tramado. Quem não deve não teme. Então, porque optara por uma fuga tão visível e desastrada?
Acabei por tropeçar e cair de uma altura de três andares. Caí directamente de encontro ao chão, sem nada que me amparasse a queda. Desloquei dois dedos da mão direita e acabei por cuspir um bocado do lábio inferior que arrancara à dentada. Senti o gosto férreo do sangue. Isso manteve-me consciente. Não era uma ferida grave, nem muito grande, mais sangrava que nem um porco.
Meti-me pela ruela e continuei o mais rápido que consegui para fora daquela zona. A minha queda teve um efeito positivo: consegui despistá-los.
Estava tramado. O meu trabalho incomodara algum peixe graúdo. Alguém esperto e com recursos para me incriminar.
Restavam-me três nomes na lista: o chulo, a viúva rica e, possivelmente o Joel Raposo.
Começava a duvidar que o chulo e a madame estivessem relacionados. Rafael Bragança e o chulo pareciam fazer mais sentido. Fui atacado por dois, no café. O outro poderia muito bem ser o Júlio Mascaranhas.
Porém, começava a desesperar. Não conseguia fechar a mão e sentia uma dor aguda no lábio. O joelho estava inchado e não conseguia abrir um olho. Começava a duvidar que chegaria vivo ao final deste caso.

- Estou sim? Senhora Catarina Bragança? – A minha voz tremeu um pouco enquanto tentava ocultar o rosto na cabine telefónica. – Sou eu, José Melo. Temos de falar com urgência.

- De momento estou um pouco ocupada, senhor Melo

- Um pouco ocupada? – Começava a perder a paciência. – Este caso já está a tornar-se um assunto pessoal. Você pediu-me ajuda e acabei por me meter na maior embrulhada da minha vida. Por isso, não me venha com conversas. Sei onde encontrá-la e irei atrás de si se não me deixar outra alternativa. Quero encontrar-me consigo ainda hoje.

Sentia a sua hesitação do outro lado da linha.

- Está bem – disse ela, lutando para manter a frieza habitual. Percebi que tinha conseguido derreter um pouco daquele gelo. Tentei sorrir, mas a dor lancinante convenceu-me a manter a seriedade.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby grayfox » 07 Aug 2008 16:36

Pousei o telefone e súbitamente acordei para um mundo novo. Um mundo onde não podia caminhar calmamente pelas ruas de Lisboa. Onde cada olhar despreocupado dos transeuntes me fazia encolher de temor. As ruas escuras e sujas que sempre evitara pareciam agora muito convidativas. Por vezes parava para tentar racionalizar mas não era fácil fazer frente aos sobressaltos de um carro que passa ou da mulher que põe a roupa a secar. Sentia-me como um vampiro condenado a caminhar pelas sombras, e os olhares das pessoas eram os raios de sol que me enfraqueciam.
Senti-me cair psicológicamente. Pensava agora em quão estúpido havia sido. Boas notas, bolsas de estudo, possibilidade de um futuro risonho... Tudo deixado para tras por um sonho de aventuras e emoções. As emoções e a aventura chegaram sim, e com um estrondo ensurdecedor! Era isto que sempre sonhara? Fora por isto que largara tudo? Pensava agora naquelas crianças que sempre invejei e odiei, filhinhas de papás que sempre queriam os brinquedos mais estúpidos quando eu só desejava um livro para ler. Como elas davam pouco valor ao que realmente era importante, e pior que tudo, o brinquedo satisfazia-as breves dias ou minutos, em pouco tempo ficava arrumado a um canto. Eu tinha-me tornado numa dessas crianças mas a um nível muito maior, o meu brinquedo era o meu futuro, o meu desejo era a excitação de estar envolvido em casos de cahntagem e homicidio, o meu livro era um futuro em medicina ou engenharia, que tantos outros desejavam mas que eu rejeitara para brincar aos detectives. Qualquer outro detective teria optado por uma vida mais fácil se tivesse possibilidade, se tivesse cabeça para ter um curso superior. Qualquer outro detective...se tivesse cabeça...
Naqueles momentos recordei todas as decisões que tinha tomado nos ultimos anos e todas elas me pareciam erradas, dolorosamente erradas. "Isto é estúpido" pensei "apenas há quinze minutos fugi pela janela, eles se calhar ainda nem tiveram tempo de arranjar uma foto minha, quanto mais distribuir pelos agentes que andam pela cidade, é quase impossível ser reconhecido." Mas a razão desta vez não conseguia vencer e sempre que via ao fundo a luz de uma avenida tentava em vão caminhar até ela e percorrê-la como qualquer outro cidadão despreocupado. Não consegui caminha-las, mas usei-as como referência pois conhecia pouco os bairros que percorria, e isso fêz-me pensar ainda mais em como estava pouco preparado para viver escondido do mundo. O percurso que deveria levar quinze minutos até casa de Catarina Bragança demorou quase cinquenta. E antes de me apróximar da casa levei o meu tempo a observar todas as movimentações, sabe-se lá se a policia continuava a estudar o local onde Rafael Bragança falecera. Tudo parecia calmo, demasiado até. No momento em que saí das sombras para atravessar a rua iluminada pelo sol aqueles pensamentos voltaram: "Qualquer outro detective...se tivesse cabeça...".
De repente tudo começou a fazer sentido. Eu não havia sido contratado para resolver caso nenhum, mas sim para ser manipulado de maneira a cair que nem um pato nas armadilhas montadas, podendo ser assim responsabilizado por algum crime que planeavam cometer. Sim, fazia sentido, o sentimento de revolta cedo deu lugar à confiança. Claro, um detective privado era uma pessoa que se sabia movimentar de maneira a estar no sito certo na hora errada. Quase todos frustrados que não conseguiram ir mais longe na vida e se deixaram ficar por esta actividade, mais pelos conhecimentos e ligações que tinham ás ruas da cidade do que própriamente pela sua inteligência. Sim, era muito fácil, bastava recorrer a um, especialmente um que fosse novo, dar-lhe a entender que tinha um caso importante pelas mãos. E quando já não fosse necessário, cortar-lhe a única arma que tem, os conhecimentos, ou no meu caso, o Joe. Mas eu não era um detective como outros, nisso estavam enganados. "Foi azar, foram logo escolher o único que tem inteligência e trabalhava por amor à profissão". O amor á profissão fora-se em poucos minutos de perseguição, mas a vontade de resolver o caso era maior do que nunca. Ao chegar ás traseiras da casa onde combinara encontrar-me com Catarina, esbarrei com um homem que caíu desamparado no chão.

- Desculpe posso ajudá-lo? - perguntei enquanto estendi a mão para o levantar.

- Mais do que você imagina! - respondeu com um sorriso enquanto se levantava. - O meu nome é Joel Raposo.
A melhor assinatura chinesa da actualidade.


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