5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

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Pedro Farinha
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Pedro Farinha » 09 Aug 2008 19:22

Meia hora depois estava confortavelmente instalado num sofá de pele preta com um copo de Cardhu com duas pedras de gelo que tanto levada à boca como á têmpora que ainda sentia a latejar.

Tinha tomado banho e desinfectado as feridas na casa de banho do apartamento de Joel Raposo. Uma criada fardada de preto com um avental bordado de branco que mais parecia saída de um filme antigo entrara pela casa de banho a dentro sem bater á porta e sem se mostrar incomodada com a minha nudez e pegara com um ligeiro ar de repulsa nas minhas roupas abandonadas num rodilho ensanguentado no chão de mármore e estendera-me um roupão de branco imaculado.

Foi com este roupão vestido que me dirigi à sala onde o Joel me esperava defronte do bar e me serviu generosamente do seu whisky de malte. Não era a minha marca, mas podia ser pior.

- Antes de mais tenho de lhe pedir desculpa por o ter envolvido nesta embrulhada. Mas afinal de contas é a sua profissão, não ?

Assenti com a cabeça o que não favoreceu em nada as dores que me assolavam. Despejei o resto do líquido pela goela abaixo e levantei-me para ir buscar mais. Joel esperou que eu me sentasse antes de confessar.

- Catarina e eu somos amantes desde Novembro passado. Em Dezembro recebi umas cartas anónimas a que não dei demasiada importância. – a voz dele manteve-se calma mas os seus olhos negros saltitavam de objecto em objecto que ornamentavam a sala mostrando a sua agitação interior – depois… depois aconteceu algo mais e achei melhor ir à polícia.

- Algo mais…

Não pegou na deixa. Ao invés levantou-se e foi a vez dele ir encher o copo. Não sei porque não tinha pousado logo a garrafa e o balde de gelo na mesinha que nos separava. Quando se sentou contou-me o resto da história, ou pelo menos o resto da história que estava disposto a contar-me.

Pela primeira vez na sua vida algo lhe tinha fugido ao controlo e a polícia não o soube ajudar. Deve ter posto uns tantos homens em acção sem qualquer sucesso. Depois a coisa amainou mas apenas durante um par de meses até que surgiram novas cartas desta vez dirigidas à Catarina Bragança. Foi então que alguém sugeriu o meu nome, Joe Wilson, ao que parece ainda que esse pormenor me cheirasse tão mal como as roupas que a criada levara.

Por qualquer razão tinham decidido que apenas iam contar-me a parte relativa à Catarina.

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby azert » 12 Aug 2008 00:09

- Não foi uma coisa planeada… sabe como é… aconteceu – explicou, seguramente devido a uma consciência pesada, já que acolhi a revelação de que ele e a Catarina eram amantes sem qualquer surpresa e sem fazer qualquer tipo de juízo. Aliás, em tratando-se de um mulherão como aquele, o que seria estranho é que não tivesse nenhum amante. Mas a uma coisa, pelo menos, Catarina mantinha-se fiel – os homens com que se envolvia não sabiam o que eram dificuldades financeiras.

- Quando recebi as cartas, pensei que fosse alguém descontente com algum negócio. Enfim, não se enriquece sem se deixar algumas pessoas insatisfeitas pelo caminho… Mas quando a Catarina recebeu umas cartas iguais às minhas, comecei a pensar que o motivo devia ser outro. – disse ele, levantando-se para encher o terceiro copo, obviamente esquecido das regras de cordialidade.

- Ciúmes? – perguntei, servindo-me eu mesmo de mais um copo de malte.

Não respondeu, limitando-se a esboçar um sorriso enigmático. Tinha a testa e o lábio superior cobertos de gotas de suor. O tipo estava mesmo perturbado. Achei que era a minha oportunidade para sacar a limpo alguns pormenores que me estavam a incomodar. Porra! Já estava farto de que tentassem fazer de mim gato-sapato!

Mandei o Cardhu mais o copo às malvas e agarrei-o pelos colarinhos.:

- Oiça lá, já começo a ficar farto destes joguinhos. Ou me explica o que se está a passar aqui, ou então arranje-se sozinho. Eu é que não vou ficar para limpar a porcaria dos outros, disso pode ter a certeza!

Mais incomodado com o meu hálito, do que com o facto de o estar a segurar pelos colarinhos, levantou as mãos, num gesto de rendição. Serviu-se de mais um copo de malte e, desta vez, teve a gentileza de substituir-me o que eu tinha partido. Atirou-se pesadamente para o sofá, disposto a falar.

- Eu e a Catarina… não pense mal dela. Sei a impressão que uma mulher como a Catarina deve dar aos homens, mas ela não é nada do que parece. – Pelo menos neste último ponto, estávamos de acordo – Ela queria ter filhos, ter uma vida normal… Sabia que o Rafael foi o primeiro homem na vida dela? Ela tinha dezoito anos quando conheceu o Rafael. A família dela é muito católica e deu-lhe uma educação rígida. A Catarina… quando casou… ela nunca tinha estado com um homem, percebe?

Eu percebia. Percebia até muito bem. Mais uma historinha para adormecer. Mexi-me no sofá e pus-me a olhar para a sola dos sapatos. Os meus gestos de impaciência não passaram despercebidos ao Raposo.

- Bom, mas você não deve estar interessado nisso. Resumindo, a Catarina e o Rafael estavam longe de serem um casal feliz. O Rafael tinha… como hei-de dizer? … alguns gostos bastante peculiares.

Olá! Isto já me começava a interessar!

- Peculiares em que sentido? – perguntei.

- O Rafael Bragança não era o que parecia – pois, isso parece ser a norma com toda esta gente, pensei - Acho que devia tentar falar com o Júlio Mascaranhas. Ele tem muitas coisas interessantes para contar… É capaz de se fazer rogado, a princípio, mas estou certo de que isso não será um obstáculo para alguém no seu ramo.

Ao dizer estas últimas palavras, já me tinha acompanhado até à porta de saída, totalmente refeito do impulso confessional de há uns segundos atrás.

Saí pensando no meu próximo passo. Júlio Mascaranhas, hã? Sim, já era altura de lhe fazer uma visita. Mas isso ia ter que esperar. Há um limite para o que um corpo consegue aguentar, mesmo um repleto de malte.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Samwise » 12 Aug 2008 23:46

Quatro da tarde. As nódoas negras no meu corpo aumentavam na proporção directa da perda de noção do tempo que me toldava a concentração. Os efeitos prolongados da presença de álcool na corrente sanguínea começavam a fazer efeito. Tinham passado dois dias desde que este caso me entrara pelo gabinete adentro, enfiado num par de saltos altos de 10 cm, meias rendilhadas e uma mini-saia que não evidenciava sinais de castidade.

Apanhei o primeiro taxi que passou na avenida, meia-hora depois de ter saído do apartamento do Raposo. Durante essa meia-hora em que me arrastei dolorosamente pelo passeio, apoiando-me aqui e ali para não me espalhar ao comprido, e enquanto mantia uma certa atenção nas vagas de trânsito que os semáforos iam soltando, conjecturei os próximos passos. Ligar ao Ed. Arrancar informações às meninas do tio Joe. Preparar a conversa a ter com o Mascaranhas. Enfiar-me na cama e dormir durante um mês.

Apetecia-me largar um bom par de tabefes no rosto de Catarina, castigá-la pela astúcia do golpe, pelo papel de vítima que desempenhara com tão libidinoso afinco. Complementarmente, apetecia-me despi-la e pedir-lhe desculpas pelos dedos que lhe deixara na cara da melhor maneira que conhecia.

Muitas variáveis estavam ainda por explicar e não me podia dar ao luxo de tirar conclusões precipitadas. A conversa que tivera com o Raposo só me deixara com mais dúvidas. Certezas, só uma: tinha um fio de nylon atado às extremidades de cada um dos meus braços e pernas, e alguém andava a puxá-los para se divertir.

Conforme instruções minhas, o taxi circundou a rua do meu gabinete, e depois a do meu apartamento. Os locais estavam vigiados por polícias à paisana, desses que fazem turnos dentro de carros estacionados do outro lado da rua, a umas dezenas de metros de distância dos pontos assinalados.

Saí na rua paralela à Travessa das Marianas, onde ficava situada uma velha pensão a cair aos bocados, um local seguro onde não faziam perguntas. Um dos locais para onde as meninas do Joe costumavam levar os clientes. Antes de entrar, liguei para o Ed a partir de uma cabine telefónica. Há muito que me tinha habituado a não usar telemóveis. Deixei-o gritar durante cinco minutos seguidos, mantendo o auscultador afastado do tímpano, até sentir que já havia soltado a fúria toda. Disse-lhe que estava inocente mas que não podia aparecer sem ter provas sólidas para explicar o caso todo. Pedi-lhe para aguentar a barra por mim junto dos superiores. Assegurei-lhe que um cheque com vários zeros estaria à sua espera no final do processo, como garantia da minha boa fé em manter a nossa longa amizade. Desliguei o telefone após uns segundos de silêncio do outro lado. As palavras "Não me lixes, Zé" ecoaram-me na memória.

Ajeitei as roupas e entrei na pensão. Larguei uma nota de cinquenta em cima do balcão.

- A Jandira, em que quarto é que está?

- Homem, em vinte e três anos de serviço nunca vi ninguém tão à rasca para...

- EM QUE QUARTO????
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby pictish scout » 16 Aug 2008 19:52

Jandira era uma brasileira de 1,60 m, mulata e com o cabelo descolorado; uma autêntica barbie dos trópicos. Estava sentada à janela fumando rápida e nervosamente o seu cigarro.
- O Joe morreu – disse eu sem rodeios. Ela olhou para mim sem emoção e voltou a virar a cara para a rua.
Puxei uma cadeira e sentei-me.
- Até bem pouco tempo acreditava que as mulheres eram sentimento da cabeça aos pés. Mas estes últimos dias abriram-me os olhos para uma nova realidade: dois homens mortos e duas gajas que se estão pouco marimbando.
- O que é que você quer aqui? – Perguntou ela com uma voz rouca, quase sumida.
- Quero respostas, Jandira. Quem matou o Joe?
- Não sei de nada.
Pressenti que talvez necessitasse de mais privacidade; tranquei a porta e meti a chave ao bolso. Ela não pareceu importar-se, mas um movimento ténue dos olhos demonstrou nervosismo e apreensão.
- Posso pagar-te bem – continuei eu. – Só preciso de uma pequena informação. Conta-me o que sabes. Quem matou o Joe?
Ela não respondeu. Levantou-se lentamente como se nada fosse, pegou no cinzeiro e aproximou-se de um balde do lixo para o esvaziar. Saltei da cadeira e encurralei-a contra a parede.
- Ouve-me bem, Jandira. Não estou aqui para brincar nem para perder tempo. Há gente atrás de mim, querem tramar-me. Olha para a minha cara!
Jandira era uma miúda forte. Era uma das meninas mais antigas do Joe, e havia algo especial entre eles. Pode-se dizer que era uma espécie de capitão de equipa. Mas estava muito fragilizada, perdera muito da sua força. Ela sabia algo.
- Achas que estas marcas foram feitas por acidente? Quem tramou o Joe também anda atrás de mim. Vamos, diz-me quem o matou. Tu sabes de algo. Diz-me!
- Me solta! Não sei nada. Socorro!
Quando ela começou aos berros tive uma vontade incontrolável de partir para a ignorância. Algo me conteve e atirei-a para cima da cama e encostei o seu rosto ao meu.
- Tenho a vida em risco – sussurrei. – Achas mesmo que vou parar aqui? Se não me dizes a bem, hás de dizer a mal. Deixei dinheiro suficiente lá em baixo para que nos deixassem em paz durante horas, Jandira. É melhor começares a falar. Quem matou o Joe?
- Não sei! Ninguém matou ele… ele se suicidou…
Bingo. Estava a começar a desesperar. A ideia de torturar todas as meninas do Joe, para além de ser perigosa, era impraticável. Tive sorte, pela primeira vez neste caso.
- Suicidou-se? Como é que sabes?
Vi o seu olhar vitrificar-se em pânico, reconhecendo que tinha caído na armadilha.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby grayfox » 16 Aug 2008 21:27

-Não posso falar. Você sabe o que ele me fará? - A vontade dela de não falar justificava-se, afinal sempre que o fazia largava mais migalhas de pão para eu seguir estrada fora.

- Ele quem? É melhor começares a falar…

- O que você fará? Não acredito que tenha coragem ou imaginação para fazer algo que este corpo não tenha sofrido. – Naquela posição em que me encontrava senti algo roçar-me o sexo, primeiro pensei ser apenas eu próprio a ficar excitado, afinal já passara muito tempo desde que estivera deitado sobre uma mulher… mas era Jandira que usava a sua hábil mão para tentar convencer-me da melhor maneira que conhecia, da maneira profissional…

-Você lembra quando o Joe te devia toda aquela grana e não tinha jeito de te pagar? – Sorriu um sorriso de quem se lembra como o Joe me pagou.

- Achas que tenho tempo prós teus joguinhos? – estava cada vez mais irritado e excitado, a racionalidade fugia cada vez mais e sentia o animal a surgir, um animal há muito enjaulado e faminto – Fala!

- Vem dizer que não gostou! Haha… me lembro disto!! – já não havia tecido a separar a mão dela do meu sexo.

A chave estava no meu bolso… ninguém se lembraria de me procurar lá… tinha tempo… não, não tinha… ou tinha?

- Você sabe como me fazer falar, doutro jeito não lembro nada…- cada vez mais o animal em mim tentava convencer o racional que era isso que era necessário para a fazer falar. Mas justificações já quase não eram necessárias, o racional estava cada vez mais fraco. Hoje lembro-me do último pensamento do racional, o ultimo antes do animal tomar conta de mim: "Ela quer perder tempo!".

Castiguei-a, castiguei-a da maneira que ela queria e da maneira mais dura e animalesca que consegui. Castiguei-a e o tempo todo pensei em Catarina Bragança .
A melhor assinatura chinesa da actualidade.

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Pedro Farinha » 18 Aug 2008 00:19

De repente caí em mim. Não foi por acaso, tinha-me esvaziado em iguais proporções de sémen e asco.

Parado. Extenuado. A sensação de nojo invadiu-me o corpo todo. Puxei as calças para cima verificando que a chave do quarto continuava na algibeira e enfiei-me na casa de banho.

O cansaço acumulado mais a consciência do que acabara de fazer deram-me a volta ao estômago e enfiei a cabeça na sanita deitando um cocktail de whisky com bílis de travo amargo. Despi-me e enfiei-me no chuveiro tentando não pensar em nada. Nem na Jandira que abandonara no chão, nem na Catarina ou no corpo inerte de Joe.

Com a água do chuveiro soltaram-se-me as lágrimas e chorei como não fazia desde a morte do meu pai. Agachado no fundo da banheira com os braços a envolverem os joelhos esqueci-me de todo o presente, de que era um detective empedernido, que a polícia procurava-me lá fora e que tinha sido atraído para uma armadilha.

O frio do azulejo contra a minha face contrabalançava com a água quente, quase a ferver que me encharcava os cabelos.

Não sei quanto tempo ali fiquei mas foi quase uma eternidade. Aos poucos recuperei a serenidade e mesmo sem nenhum plano de acção percebi que tinha de sair dali e enfrentar o mundo. Enxuguei-me à única toalha que me pareceu que não tinha sido já usada e vesti-me apressadamente. Pus a mão no bolso e tirei de lá a chave. Foi de chave na mão que abri a porta e procurei a prostituta com o olhar.

Estava quieta, a olhar para mim com os olhos esbugalhados de espanto e medo, e da garganta cortada estendia-se um mar de sangue sobre o corpo seminú que eu maltratara.

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby anavicenteferreira » 19 Aug 2008 22:55

Senti o cano de uma pistola encostada à nuca. Olhei para o espelho colocado num canto. Um gigante ruivo estava de pé atrás de mim, com um sorriso que só me fazia ter vontade de lhe partir os dentes todos. Nem dera pelo tipo ao atravessar o quarto.

É por isto que não bebo Cardhu. Com o velho Jack, desde que não abuse, sinto-me confortado, mas desperto; organiza-me as ideias. Com o Cardhu não; dá-me uma moleza estúpida, os sentidos embotam-se-me, perco noção do que me rodeia. A ponto de não ouvir alguém entrar no meu quarto de hotel e matar a prostituta que ainda tem as marcas das minhas mãos; ao ponto de não me aperceber de que esse alguém ainda estava cá dentro.

Fazíamos um par desigual. Ele uns bons dois palmos mais alto e mais largo do que eu, vestido de escuro, limpo e saudável. Eu no meu fato cinza, um pouco mais limpo graças aos esforços da criada do Raposo, mas ainda amarrotado e a precisar de uma boa lavagem; a minha cara marcada das pancadas, das perseguições, da falta de sono... Restaria poucas dúvidas a quem nos visse quem iria sair vencedor deste confronto.

O tamanho inusitado dele despertou-me uma memória e pergunto:

– És o gajo que me atacou no café, com o Rafael?

Ele empurrou o cano da pistola com mais força contra a minha cabeça.

– Pega na faca.

Os meus olhos caíram pela primeira vez na faca que está no chão aos pés de Jandira. É minha. Faz parte de um conjunto que um cozinheiro me ofereceu depois de eu ter descoberto quem é que andava a mexer nas contas do restaurante. Supostamente são umas facas japonesas especiais. Não sei, nunca as usei: as minhas capacidades culinárias limitam-se a telefonar para o take-away mais próximo; mas mantenho-as num bloco em cima da bancada da cozinha porque gosto do dragão de metal que têm embutido nos cabos vermelho-escuros.

– Pega na faca, – repetiu o mastodonte fulvo.

Sem ter por onde escapar, marquei a arma do crime com as minhas impressões digitais. O homem empurrou-me em direcção à varanda.

– Dá-me a carteira e as chaves.

Obedeci, enquanto o meu cérebro tentava descobrir uma saída, mas aquela pistola mantinha-se firmemente encostada à minha cabeça, mesmo enquanto atravessávamos as portadas decrépitas que acediam à velha varanda. Pousei as mãos na balaustrada de ferro forjado. O metal desfez-se em flocos de ferrugem sob os meus dedos.

– É uma bela carteira. A minha bem andava a precisar de ser substituída, – disse o homem atrás de mim. – E agora vais saltar.

– Porque havia de fazer isso?

– Porque eu tenho a arma. – Por esta altura, já devia haver uma nódoa negra circular no meu escalpe. – Pensa nisto assim; se eu disparar, morres de certeza; se saltares, talvez só partas uns ossos e vais para Caxias em vez de te enfiarem no calabouço da Judite.

– Se me matares a tiro, a polícia fica a saber que não fui eu quem matou a Jandira ou o Joe e aí para que serve toda esta fita?

A arma deslizou para o lado direito da minha cabeça.

– Suícidio de uma maneira ou suicídio de outra... a mim tanto se me dá.

Olhei para baixo. Deviam ser uns quinze metros até ao empedrado do passeio. Tentei recordar-me de tudo o que aprendi nos vários cursos de preparação física que fui fazendo ao longo dos anos. Ultimamento tinha-me descuidado com o ginásio; falta de motivação, não é preciso estar em muito boa forma para perseguir adúlteros. As probabilidades de chegar lá abaixo inteiro e conseguir pôr-me a andar não me pareciam boas. Inclinei-me sobre a balaustrada e uma mão pousou-me sobre o ombro esquerdo.

– Espera. Não vale a pena levares isto contigo, não para onde vais.

A mão dele deixou-me o ombro e senti-o inclinar-se sobre mim, atraído por qualquer coisa que vira no bolso de trás das minhas calças. Ao mesmo tempo, a pistola afastou-se da minha têmpora.

Desesperado, virei-me e ataquei, aproveitando o breve momento de distração. Agarrei-lhe a mão que segurava a arma e mantive-a afastada. Debatemo-nos, mas ele era mais forte e pesado do que eu e em breve me empurrava contra os ferros da varanda.

Num último esforço, dei-lhe um empurrão e consegui inverter a nossa posição, mas a balaustrada carcomida pelo tempo e pelo descuido não aguentou a pressão. Cedeu e caímos em direcção à rua.

Ele aterrou de costas e eu caí em em cima dele, dorido, mas vivo. Ergui-me sem fôlego e olhei em volta. A travessa estava vazia na semi-obscuridade do entardecer. No chão uma poça de sangue alargava-se, formando um halo demoníaco à volta da cabeça quebrada do mastodonte.

Recuperei a minha carteira e chaves e peguei também nas dele. Mais tarde iria examiná-las; talvez se conseguisse encontrar o covil da besta, pudesse perceber um pouco mais do que se passava. Naquele momento, porém, precisava de sair dali. Corri até à esquina seguinte e enfiei por mais duas vielas, até chegar a uma rua mais movimentada; aí recomecei a andar calmamente, tentando não atrair atenções.

Enfiei-me na primeira estação de metro que encontrei e sentei-me num dos bancos da gare, respirando pesadamente e tentando organizar as ideias. Quase de mote própria, a minha mão dirigiu-se ao bolso traseiro das calças, precisava de saber o que atraíra a atença do meu assassino.

Fiquei a olhar por momentos para a nota amarrotada. Dez euros; os últimos dos sessenta que tinha levantado uns dias antes. Comecei a rir; um riso mecânico, metálico, estranho.

Ia ter de emoldurar a porra da nota.
Ana

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Samwise » 20 Aug 2008 21:37

Tempo para arejar a cabeça. Tempo para clarear as ideias. Tempo para um duplo Jack pela goela abaixo.

Enfiei-me na primeira composição que passou e rezei para o revisor não aparecer. Uma escaramuça com a polícia era a última coisa de que necessitava naquele momento e o aspecto da minha cara, o mesmo que vira há uns minutos atrás reflectido no espelho daquele quarto miserável, não deixava margem para dúvidas: o pobre assalariado do Metro contactaria de imediato as autoridades assim que tivesse o meu B.I. nas mãos.

Saí no fim da linha, do outro lado da cidade. Passei num multibanco e levantei os últimos 100 euros da conta. Entrei no primeiro bar que encontrei e sentei-me numa mesa do fundo, num canto pouco iluminado, afastado dos olhares curiosos dos transeuntes que passavam na rua. Pedi um copo com gelo e uma garrafa de Daniels por abrir.

Durante a viagem de metro, uma suspeita começara a ganhar contornos bem definidos entre os pensamentos difusos que cruzavam o labirinto contorcido de neurónios no meu cérebro: Ed Jones.

Ed sabia como eu pensava. O tempo que passáramos juntos, durante a infância e adolescência, toda essa nossa vivência conjunta, havia tornado a os meus metodos previsíveis e transparentes para Ed. Passando em revisão os acontecimentos dos últimos dias, as coisas pareciam encaixar umas nas outras: o jantar com ele, afastado do meu escritório e apartamento, depois a visita a casa da primeira da Catarina, a propósito do primeiro cadáver - tempo suficiente para um grupo de macacos entrarem à sucapa nos dois locais e surripiarem o meu livro de cheques, uma das facas Kaisen, e sabe-se lá mais o quê -; a conversa sobre o prestar declarações na esquadra às 10 da manhã do dia seguinte - dando-me tempo suficiente para eu aparecer antes no apartamento de Joe -; e finalmente o gorila fulvo calmamente à minha espera no quarto da Jandira. O Ed sabia que mais cedo ou mais tarde eu quereria falar com uma das meninas. Era a acção lógica a tomar - se o Joe sabia de alguma coisa, era por intermédio da sua rede de contactos. Tudo planeado ao mínimo pormenor. Body Count, até agora: 4, e uma puta de uma sorte por não fazer parte desse número. A minha cabeça estava a prémio.

Mas porquê? Qual a relação entre Ed e as cartas anónimas. E a Catarina, que papel no meio da intriga?

Dois copos de whisky de uma assentada. Senti-me arder por dentro. O meu animo começava a regressar.

Lembro-me de ter lido uma vez num livro que a primeira coisa para onde um detective deve de olhar é para o dinheiro. Segue o rasto do dinheiro com atenção e desvenderás o caso. A coisa que o Ed mais gostava era de dinheiro. Pensei na mulher dele e nos filhos. Pobres coitados.

Saquei a carteira do mastodente para fora do casaco. Yuri Kroschenko. À parte da documentação normal, B.I., contribuinte e passaporte - originário da Ucrânia - e de um par de notas de 5, apenas encontrei um cartão de um clube nocturno, o Ousadias - "Tudo aquilo que desejar". Não tive de fazer lá grande esforço para associar aquele nome ao Júlio Mascaranhas.

Ed e Mascaranhas? Tráfico de Droga? Tráfico humano? Tráfico de Armas? Uma ou várias, por certo. Dinheiro. Big Bucks.

O dia aproximava-se da noite e decidi jantar ali mesmo, às custas do bruto que agora jazia na morge. Pedi um bitoque ao rapaz e, enquanto tratavam de o afogar em banha de porco a ferver, dei um pulo à cabine telefónica mais próxima. Mais tarde planeava passar pelo Ousadias e tentar falar com o Mascaranhas. Um passo arriscado? Talvez não, se tomasse as devidas percauções. Alguém levantou o auscultador do outro lado da linha.

- Polícia Judiciária, Agente Sandra Lopes

- Passe-me à inspectora Mariana Henriques, por favor. Tenho pistas importantes sobre o assassinato de Rafael Bragança.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby azert » 21 Aug 2008 17:22

- Inspectora Mariana Henriques. - a voz era decidida, profissional.

- José Melo.

- Sim, o amigo do Ed. - não consegui perceber se o tom desaprovador se devia a mim, ao Ed ou a ambos.

- Tenho algumas informações que devem interessar-lhe.

Silêncio. Como a inspectora não me fez nenhuma pergunta, continuei. - Suponho que já deve ter ouvido falar de Júlio Mascaranhas...

- Já. E?

Caramba, que mulher mais seca!

- Penso que deve estar implicado na morte do Rafael Bragança. - deixei as outras mortes convenientemente de fora.

- E como chegou a essa brilhante conclusão? - perguntou ela, com um sarcasmo cortante. Via-se que não tinha a profissão de detective privado em grande consideração.

- Toda a gente sabe que ele conhece os segredos mais sórdidos de toda a gente importante. Acontece que o Rafael Bragança, além de importante, tinha também os seus segredos. E agora está morto.

- E onde está a novidade disso?

Porra para a gaja! Estava com o período, ou quê? Inspirei fundo antes de responder - Porque não lhe faz uma visita no Clube dele? Não preciso dizer-lhe o nome, já vi que sabe tudo... Hoje à noite era uma boa altura.

- Ai sim? E então porquê?

- Disse-mo um passarinho. - respondi em tom de gozo.

- E acha que vou mobilizar os meus homens só porque um detective bêbedo anda a ter conversas com pardais?

Filha da... ! Eu já lhe dizia o “detective bêbedo”!

- Estava só a tentar ajudar! Mas se não estiver interessada, não me importo de ficar com os louros só para mim. Depois não venha dizer que ando a obstruir a justiça e essas merdas todas!

- Agradeço a atenção. Agora, se é só isso, desculpe, mas tenho muito que fazer. Passe bem, Sr. Melo.

Desliguei desejando que o orgulho profissional da Henriques vencesse o bom senso e a levasse ao Ousadias. Se não, era quase certo que iria acabar a noite dentro de um saco preto... na melhor das hipóteses.

Enquanto sorvia o meu terceiro Jack Daniels, tentei pôr as ideias em ordem e traçar um plano de acção... ou o mais próximo disso possível.

O mastodonte ucraniano devia trabalhar para o Mascaranhas a arranjar tipas, drogas e tudo o mais que os clientes do Ousadias pudessem desejar, como dizia o slogan. O Rafael Bragança devia ser freguês. Sabe-se lá quais seriam os desejos dele. Algo de sumarento, certamente, suficientemente escabroso para o chantagear. Só não percebia muito bem qual era o papel da Catarina e do amante no meio disto tudo. Andaria o Mascaranhas a chantageá-la por causa da ligação com o Joel Raposo? E porque é que me tinham querido implicar no caso? E o Ed, old buddy, estaria a fazer pontaria com um punhal às minhas costas?
Uma coisa era certa: a resposta passava por uma visita ao Ousadias e isso significava que tinha de estar preparado - o Mascaranhas não era para brincadeiras. Sem ter a certeza de contar com o apoio da inspectora, não tinha outro remédio senão velar eu próprio pela minha saúde e arranjar um guarda-costas de bolso. Já tinha adiado a coisa tempo demais.

Saí do bar depois de um telefonema a um dos poucos conhecimentos que ainda não constavam do rol de mortes deste caso. O “sargento”, como lhe chamavam, tinha uma colecção de armas de fazer inveja a um exército. Nunca soube bem onde é que as conseguia e também não era agora que me ia preocupar com isso. O importante era apetrechar-me com algo mortífero.
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby pictish scout » 24 Aug 2008 15:28

Senti o peso da minha nova aquisição: uma Glock, modelo 17. Um brinquedo fiável e que cabia bem num bolso do casaco. Para minha surpresa, não me sentia muito mais confiante, afinal, ia meter-me na boca do lobo e esperava não ter de usar a arma.
Fui a pé. Apetecia-me pensar um pouco enquanto apanhava chuva fresca na cara. Mas acabei por mudar de ideias. Comprei um chapéu-de-chuva a um cigano que defendia que mais valia gastar 10 euros num chapéu do que pagar mais na farmácia para curar uma constipação.
Cada um faz o que pode…
Cheguei ao Ousadias. Fiquei surpreendido porque até era um sítio com algum bom gosto. Turístico, até. Parecia bem frequentado.
Dois gorilas bem trajados guardavam a entrada e temi que não me deixassem entrar. Fiz o ar mais natural possível e caminhei para a porta.
Não fui barrado. Até me ajudaram a abrir a porta.
O truque não era entrar. Começava a desconfiar que a grande questão era sair daqui com vida.
O lugar era espaçoso e tresandava a um mescla de perfume e charutos cubanos. Fui logo atendido por uma jovem em mini-saia em padrão escocês e um top bastante sugestivo. Ofereceu-me champanhe e indicou-me uma mesa para me sentar.
Caminhei lentamente, estudando a sala com o olhar. Identificando possíveis saídas, guarda-costas, algumas caras conhecidas da televisão e da política; sentia-me como Daniel na cova dos leões.
Pendurei o chapéu-de chuva nas costas da cadeira e sentei-me para apreciar as vistas.
Fiz por poupar ao máximo o meu champanhe para fingir que estava ocupado e para não necessitar de ir à casa de banho. Havia sítio melhor para uma emboscada? Já me tinha bastado uma vez.

As vozes foram abafadas pela música que vinha das colunas espalhadas pela casa. O lugar tornou-se mais escuro e confuso, com as luzes a piscar por todo o lado. Levei a mão à pistola para me confortar. Todo o meu estudo do local tinha ido por água abaixo.

- Senhor Melo? – Ouvi uma voz por trás de mim. A música toldara-me os sentidos e não consegui detectar a aproximação de duas figuras perdidas na penumbra.
Voltei-me lentamente. O indicador estava já a acariciar o gatilho.
- O senhor Mascaranhas quer vê-lo – disse um dos homens. – Faça o favor de nos acompanhar ao seu escritório.
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grayfox
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby grayfox » 27 Aug 2008 01:45

Fui gentilmente conduzido por um corredor de serviço onde se viam os bastidores sujos e crus. Uma porta mágica fazia fronteira entre o ambiente acolhedor da música de fundo, das meninas simpáticas, dos cadeirões escarlate e o corredor que agora percorria com caixas empilhadas, sacos do lixo encostados á parede e lâmpadas fundidas.
Ora do lado esquerdo ora do direito surgiam portas, umas abertas outras encostadas. Tentei olhar discretamente para as que o permitiam mas não podia parar para apreciar pois tinha os gorilas atentos e colados a mim. Consegui espreitar a cozinha suja, uma dispensa tipicamente atolada de todo o tipo de detergentes, insecticidas e mata-ratos, e finalmente um quarto pequeno e iluminado por uma simples lâmpada que nem à vaidade de um candeeiro tinha direito, onde duas mulheres se debruçavam sobre uma linha de pó branco. Quanto mais percorria mais o ambiente era degradado e estava agora convencido que iria para o sitio mais fétido e escondido onde poderiam espancar-me ou, se não lhes apetecesse perder tempo, rapidamente terminar comigo. Ao chegar perto do fundo mandaram-me parar junto de uma porta do lado direito e um dos gorilas começou a revistar-me. Lá se ia o meu seguro de vida! Quando a sentiu lançou-me um sorriso como se me tivesse apanhado a espreitar os seios de uma mulher, e tirou-a lentamente com as pontas dos dedos como se lhe tivesse nojo. Então o colega de zoo abriu-me a porta.
À minha frente encontrava-se uma sala generosamente mobilada. Sentado numa poltrona estava um homem sorridente, com os cotovelos sobre uma mesa onde se viam alguns documentos, um pequeno candeeiro e dois copos com gelo. As suas mãos tocavam-se apenas pelas pontas dos dedos. O escritório de Júlio Mascaranhas encontrava-se forrado a papel de parede vermelho, por trás dele erguia-se uma enorme estante a transbordar de livros, do lado direito havia um daqueles móveis metálicos com várias gavetas para guardar documentos, do lado esquerdo uma planta exótica com perto de um metro e meio de altura, e ao lado desta, um quadro com a pintura de uma mulher nua junto a uma árvore, a pegar numa maçã e com uma cobra por trás. Assim que entrei Mascaranhas levantou-se para me cumprimentar.

- Júlio Mascaranhas, muito prazer! – o sorriso parecia genuíno, em poucos segundos convenceu-me que seria uma das pessoas mais educadas que conheci, apontou para uma cadeira que se encontrava á sua frente, do lado oposto da mesa – Faça favor de se sentar!

- Muito prazer, José Melo! – sentei-me ao mesmo tempo que tentava organizar as ideias.

- Sim, eu sei. – O gorila que me tinha revistado trouxe a pistola e entregou ao patrão que ficou a olhar para ela uns segundos – Podes ir Yuri!

Júlio ficou a vê-lo sair, e assim que ele fechou a porta voltou a olhar a arma rodando-a para ver de vários ângulos.

- Interessante! – deu uma ultima olhada e ergueu-se um pouco da poltrona para pousar a arma na mesa mesmo ao meu alcance e completamente fora do seu.

- Posso perguntar que acha interessante? – perguntei ainda atónito.

- Ontem você não tinha esta arma! Hoje vem á minha procura com ela, sinto-me lisonjeado.

- Tenho essa arma há dois anos! – tentei o bluff!

- Ora ora, Senhor Melo. Certamente não acha que eu me posso dar ao luxo de não conhecer as pessoas com quem… negoceio!! - retirou da gaveta uma garrafa de Jack Daniels e serviu os dois copos arrastando depois um deles para junto de mim – No meu ramo, a informação vale ouro.

- Então saberá certamente o que me traz ao seu encontro.

Sorriu.

- Sempre directo ao assunto Senhor Melo. Muito bem, deixe-me só chamar a Senhora Catarina Bragança.
A melhor assinatura chinesa da actualidade.

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Pedro Farinha » 27 Aug 2008 22:53

Um ligeiro estalido com os dedos e uma porta abriu-se de onde parecia não haver porta nenhuma. Catarina entrou com um vestido justo mais letal que a Glock que me tinham confiscado. Trazia vestido no rosto o mesmo olhar arrogante de sempre mas que mudou repentinamente para um ar submisso assim que os olhos do Mascarenhas se fixaram nela.

- Senta-te querida.

Puxou de uma cadeira e cruzou as pernas de uma forma que faria a Sharon Stone corar de inveja. A custo desviei o olhar e voltei-me para o meu anfitrião que não me poupou a um olhar de gozo.

- Belo espécimen, hem ? – e deu-lhe uma palmada amistosa na coxa. – Mas vamos falar de negócios Sr. José Melo, o senhor está numa situação difícil, detective particular de reputação duvidosa, amigo de longa data do polícia mais corrupto da cidade e agora envolvido num caso de homicídio. Acho que precisa da minha ajuda.

Ainda que ele tivesse razão precisava tanto da ajuda dele como de um clister pelo rabo acima, no entanto acenei afirmativamente. Precisava de algumas cartas na mesa.

- Eu sei que não foi o senhor que assassinou o Joe, nem a puta dele. Mas se não foi o senhor, alguém terá de ter sido não é?

- Pois.

- Então eu arranjo um Yuri, peço desculpa mas chamo a todos eles Yuris ainda que alguns tenham outros nomes, para assumir a responsabilidade por estes crimes. Não se preocupe – disse ao ver que o ia interpelar – depois de ficarem convencidos que encontraram o assassino, de uma forma ou de outra, o Yuri sai do país antes que tenha tempo de perceber o que lhe aconteceu.

O de uma forma ou de outra, cheirou-me que uma das formas podia ser com um peso amarrado aos pés e o rio Tejo como destino turístico.

- Mas isto é um negócio, percebe? Num negócio todos temos de sair a ganhar.

Catarina inclinou-se para a frente deixando ver uma parte não desprezável do jardim do éden, no entanto o que isso me revelava é que agora ela estava interessada. Tão interessada que se dignou a sorrir para mim, ainda que apenas com a boca pois os olhos mantinham a distância e a frieza habituais.

- Então, o que é que um humilde detective como eu pode fazer para o ajudar?

Júlio Mascarenhas recostou-se na cadeira. Gostava de contar as coisas com calma: - Neste mundo cada um tem de fazer a sua parte. Por exemplo, o Joel Raposo passou uns belos momentos aqui com nossa amiga, mas em troca teve de lhe matar o marido.

- O meu marido obriga-me a fazer cada coisa, eu não aguento mais, às vezes só me apetece morrer – Catarina encarnou rapidamente a personagem que seduzira o Joel, as palavras foram ditas num sussurro louco que mesmo eu ao ouvi-las e sabendo o quão falsas eram não pude evitar um arrepio na espinha.

- Quanto a si, meu caro José Melo, tem apenas de limpar o sebo a uma jovenzinha.

- Sim – a voz da Catarina regressara ao tom cortante – a maldita da herdeirazinha.

urukai
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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby urukai » 28 Aug 2008 14:46

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->A minha garganta nem sentiu o whisky a escorrer pelas suas paredes.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->— Encha! – rosnei para o Júlio enquanto o meu olhar permaneceu fixo na Catarina. Não saberia dizer se por raiva se por luxúria. Talvez um misto de ambos. O brilho dourado do Jack, de novo a inundar-me o copo, quebrou o transe hipnótico dos lábios carnudos no qual me encontrava retido. Peguei no copo e despejei tudo. Soube-me a água.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->— Vocês querem que eu mate uma criança?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->— Não se pode chamar criança a uma pirralha de 15 anos que tem a mania que é a adulta. — desabafou Catarina enquanto se levantava com a sensualidade entrelaçada nos seus movimentos.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->— Sim, não é propriamente uma criança. Não interessa o nome, não queremos que se apegue demasiado. Basta saber que é filha do primeiro casamento do Rafael e a principal beneficiada no testamento dele. É uma jovem intrometida, mimada e daqui a 3 anos, quando herdar a fortuna do pai, será estupidamente rica o que só vai aumentar-lhe estas qualidades detestáveis. Na prática, estamos a fazer-lhe um favor. — Júlio com o seu sorriso de diplomata e as mãos com as pontas dos dedos a tocarem-se parecia estar a vender um oásis num deserto.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->— Vocês são doidos!<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->— Não! Somos meticulosos, ambiciosos, inteligentes e, admito até, um pouco cruéis. Mas, decididamente, não somos doidos. Esta é a última peça do puzzle Sr. Melo e acredite que no final não se vai apenas sentir realizado por o terminar. Para além de dinheiro, oferecemos-lhe a ilibação do homicídio de que é acusado e pode sempre arranjar-se um ou outro bónus, não é querida?<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->Quando me apercebi já Catarina estava por detrás da minha cadeira. Os seus braços, quais serpentes de pecado, percorriam o meu peito e massajavam-me os músculos doridos. Tentei levantar-me, resistir, mas o perfume dela prendeu-me à cadeira e senti a cabeça a latejar. Queria abstrair-me das mãos que me palmilhavam o baixo ventre e dos seus lábios no meu pescoço. Abri os olhos e foquei a visão no quadro de Júlio. A Eva já não era rotunda. Era estonteante, de cabelos loiros, lábios devoradores e as suas formas pecaminosas tentavam-me o espírito aliadas aos dois inebriantes penalties de Jack.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->Acabou tão rapidamente como começou. Saiu de trás de mim e os seus cabelos já não me faziam festas no pescoço. Era novamente senhor dos meus movimentos, mas sentia o cansaço dos últimos dias infiltrado nalgum recanto do meu corpo.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->— Vamos, preciso de uma resposta. Tem aqui a sua arma, a morada e uma foto da miúda. Sei que é um homem de recursos. O seu percurso tem-no provado. A única coisa que queremos é que quando estiver despachado venha ter connosco e diga que temos mais uma Maddie. Sem rasto. Sem corpo. Sem culpados. Só dinheiro e vantagens para si. — Júlio estava de novo em pé, à minha frente, com a coronha da arma ao meu alcance.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->A jogada era de mestre, seduziam e atraiam homens para o esquema deles que depois chantageavam de modo a que lhes fizessem os trabalhinhos sujos. Pelos vistos o objectivo final, toda a fortuna de Rafael, estava próximo. Mas não era um puzzle o que me pediam para terminar. Sentia-me antes num jogo de xadrez. Era um peão à mercê dos desejos e ordens dos grandes do tabuleiro. Estava farto, queria acabar com tudo e afogar-me num copo de whisky.<!--colorc--><!--/colorc-->

<!--coloro:#222222--><!--/coloro-->Levantei-me, peguei na arma e percebi o que tinha de fazer. Quando só se consegue avançar uma casa de cada vez e se chega ao pé do rei, a jogada é apenas uma:<!--colorc--><!--/colorc-->

— Cheque-Mate. — respondi ao disparar a arma apontada à cabeça de Júlio.

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby anavicenteferreira » 31 Aug 2008 15:48

O repercurtor embateu no cartucho e nada aconteceu. Júlio sorriu, enquanto rodeava a cintura de Catarina com um dos seus braços peludos.

– Tu bem disseste que ele era estúpido. – Apontou com a cabeça para a arma. – Munição de manejo. Porque é que pensas que te tirámos a arma antes de entrares?

Afastou a mulher com um empurrão que a lançou para um dos sofás e tirou de trás das costas uma Browning GP, que me apontou. Devia ter um coldre preso ao cinto, um brinquedo daqueles não se transporta no bolso das calças. E eu devia ter reparado no coldre, tal como devia ter pensado na possibilidade da minha Glock ter sido recarregada com munições de manejo ou inertes. Parvalhão de merda!

– É uma pena ter de te eliminar, depois de tanto investimento, – disse Júlio, – mas é óbvio que não és um jogador e nesta altura já sabes demais para te podermos deixar andar por aí.

Atirei-me ao chão , no momento em que o vi disparar. A bala rasou-me o ombro, arrastando tecido, pele e sangue. Rebolei pelo chão. Um segundo tiro estilhaçou a porta de vidro de um armário.

Agarrei num vaso negro que estava no chão entre dois móveis e lancei-o à cabeça de Júlio. Ele desviou-se e eu aproveitei a distração para me atirar a ele. Desferi-lhe um golpe no nariz com a palma da mão dobrada para trás. A dureza do escafóide foi o suficiente para lhe rebentar o nariz que se desfez em sangue.

Enquanto ele levava as mãos à cara, arranquei-lhe a pistola. Júlio avançou para a secretária, não sei se para ir buscar outra arma, se para carregar nalgum botão que chamaria os seus Yuris para me neutralizarem. Agarrei em Catarina pelos cabelos, puxei-a para mim e encostei-lhe a arma à têmpora.

– Dás mais um passo e eu dou cabo aqui do teu bilhetezinho de lotaria. – Júlio imobilizou-se e eu assenti. – Agora vais-me mostrar onde é que é a saída de emergência. E não me venhas com merdas; um gajo com o teu tipo de negócios não se vai encurralar numa sala sem janelas e só com uma porta se não tiver uma alternativa de escape. Só p'ró caso. Vá, vamos lá, mas devagarinho.

Ele dirigiu-se ao quadro da Vénus e tirou-o da parede. Ocultava uma espécie de maçaneta que ele fez rodar, abrindo uma porta que até então estivera disfarçada pelo ligeiro riscado do papel de parede vermelho. Podia ver que tinha uma tranca por dentro, para dificultar a vida a possíveis perseguidores. Óptimo!

– Eu e a senhora vamos sair por aí, mas primeiro vais-me explicar uma coisa: se as cartas que me entregaram eram só um engodo para me enterrarem nesta merda toda, porque é que o Rafael estava tão desesperado para as ter de volta?
Ana

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Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby azert » 03 Sep 2008 11:58

Esgueirei-me pela porta oculta, com a Catarina firmemente presa pela cintura. A saída ia dar ao beco das traseiras do Ousadias, cujo pivete a urina e restos de comida levava a crer que era evitado pelos funcionários da Câmara.
Meti-a no coupé branco dela, no lugar do condutor. Enquanto lhe apontava a Browning à têmpora direita, ela entreabria pernas e lábios, num espectaculozinho privado. Se o que queria era excitar-me, não podia dizer que não estivesse a ter sucesso. A vontade que sentia de marcar-lhe a cara com a minha mão, não era maior que a de marcar-lhe o pescoço com a boca. Mas sabia que um só beijo dela me seria mortal. Antes as putas - sempre cobram menos e não trazem nem um décimo de complicações.
Parámos no palacete dos Bragança. Mal saí do carro, com a Catarina quase a rastos, fui directo ao Jack Daniels, grato por, ao menos no whiskey, eu e o falecido Rafael termos gostos comuns.
Deixei-me cair no sofá, enquanto a Catarina acendia um cigarro e o ia fumar em frente às portadas que davam para o jardim. Fiquei a remoer as palavras do Mascaranhas.
- Permite-me que fume? - tinha perguntado o Júlio Mascaranhas, de charuto em punho. Sem esperar resposta, tinha-o acendido, numa calma em gritante dissonância com a situação. Dirigira-se então à secretária e pegara num papel. Aproximara-o do calor do charuto, sem deixar de fitar-me. Fora então que, para surpresa minha, tinham começado a surgir umas letras no verso da folha, invisíveis um segundo atrás.
- Sumo de limão - dissera o barão da noite, visivelmente divertido - nunca experimentou?
Quase deixara a ira levar-me a melhor, por não me ter ocorrido o que qualquer puto que goste de brincar às mensagens secretas sabe.
- Leia! - convidara, estendendo-me a folha com o braço direito e erguendo o esquerdo, numa paródia de rendição.
Era óbvio que a Catarina não tinha sido honesta quanto ao destinatário das cartas anónimas. Mas isso, nela, não era nada de novo. Falavam do quanto o Rafael gostava da filha. Mas de um modo que não era natural num pai.
- Oh, que pena não poder ver os vídeos - fingira lamentar o Mascaranhas - No mínimo, imaginativos! E com a participação da Catarina. Humm, a farda do colégio da enteada assentava-lhe mesmo bem! - exclamara, com o olhar perdido algures no tecto e a língua lambendo os beiços nojentos. - Claro que em matéria de modelitos, não havia quem batesse o Rafael. O Yuri de estimação dele que lhe diga! Mal empregados para serem rasgados pelo Yurichenko antes de sodomizar o Rafael à bruta! Ha, ha, ha!
Não admirava que o defunto quisesse tanto recuperar as cartas!
O perfume inconfundível da Catarina por trás de mim, fez-me regressar ao Jack que segurava distraidamente na mão.
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