Salão Paraíso

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azert
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Salão Paraíso

Postby azert » 25 Oct 2008 19:58

Ele ali está, sentado na mesa do canto, omnividente. Peço um café e uma nata para levar, procurando subtrair-me rapidamente à sua atenção. Já não suporto aqueles olhos enormes a quererem que eu caiba neles. No outro dia mandou-me pelo empregado um daqueles guardanapos que dizem "obrigado pela sua visita". Que patético!

Fica para ali sentado todas as tardes, à espera, com certeza, de poder ver-me no intervalo do lanche, quando deixo as cabeças em transição do moreno para o loiro ou do encaracolado para o liso, numa busca barata de novas identidades. Qualquer dia é bem capaz de seguir-me ao sair do salão e de forçar a entrada no meu prédio, ou então, de passar a espiar-me, escondido atrás dos carros, esperando ver-me passar lá em cima, através da transparência das cortinas.

Volto apressada para as senhoras em fila às portas do fim de semana, desejosas de agradar a maridos que não dão por elas ou de captar a atenção de algum divorciado na avenida, tão necessitado de companhia quanto elas. A minha missão é proporcionr-lhes a beleza escolhida nas revistas cor de rosa, como se os penteados fossem meio caminho andado para as vidas dos famosos; mal sabem elas que também há celebridades que dormem em quartos despidos de casas demasiado grandes. Mas à sexta-feira acreditam sempre e eu digo amén com a escova.

À hora de fechar sigo, despenteada e descrente, para o meu apartamento. Meto uma refeição pré-cozinhada no micro-ondas e mastigo-a na companhia dos apresentadores da tv. Antes de deitar-me, espreito pela janela, não vá o tarado do café estar lá em baixo e eu ter vontade de deixá-lo subir, ao filho da mãe a quem todas as noites, na intimidade do meu quarto, deixo que me coma com os olhos, satisfazendo a fome de ambos.
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Pedro Farinha
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Re: Salão Paraíso

Postby Pedro Farinha » 26 Oct 2008 14:18

Não sendo dos teus textos que mais gostei está muito interessante o dilema entre o detestar a "perseguição" e o necessitar dela. Não tendo nada a ver fez-me lembrar o Nívea onde o desejo a levou à morte.

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azert
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Re: Salão Paraíso

Postby azert » 26 Oct 2008 18:40

Comecei a escrever o texto com uma ideia em mente, mas depois apareceram outras que se meteram pelo meio, e aconteceu-me, sabes como é, ter de tentar escrever à velocidade das ideias, para não perdê-las.
No fim, a coisa ficou assim um bocado para o misturado, mas enfim. E claro, não tenho por costume mexer nos textos, uma vez acabados, a não ser para corrigir pequenos pormenores. É como se, acabada a inspiração, se cortasse o fio que deu origem ao texto, o fôlego. :rolleyes:

A questão do "desejo" veio-me da leitura do ALA, daquela solidão toda que atravessa o livro (nas partes que correspondem ao presente), da coexistência da repulsa e do desejo.
A Nívea, era diferente, ela queria um desejo destrutivo, ela queria tanto o desejo quanto a destruição por meio dele, a aniquilação, uma espécie de morte amorosa.
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Re: Salão Paraíso

Postby Samwise » 27 Oct 2008 18:54

Para além do tema recorrente do "querer e não querer ao mesmo tempo", normalmente enveredando para os lados do desejo sexual, e para além da faceta de "crónica de pequenos costumes" (familiares ou de bairro...), há o mui agradável formato de construção da história que a azert habitualmente utiliza, em que nem tudo é evidente logo de início - durante as primeiras frases o leitor anda como que perdido, tentando perceber quem são, ou o que são, os personagens, e quais são os seus papeis tanto na sociedade como no conto.

Esta "estranheza", imposta a que lê, resulta numa mais valia para os contos. Há como que uma vertente de descoberta sempre associada à leitura.

São pequenos tesouros que vão aparecendo.

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Re: Salão Paraíso

Postby Aignes » 27 Oct 2008 19:08

azert wrote:Mas à sexta-feira acreditam sempre e eu digo amén com a escova.


E agora um comentário brilhante: que frase tão gira. :wink:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Salão Paraíso

Postby azert » 27 Oct 2008 23:24

As frases de que mais gosto neste texto são precisamente as ligadas à cabeleireira. :mrgreen4nw: Foram as tais que se intrometeram e que, na minha opinião, vieram salvar a honra do convento.
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