O mundo de Balduino

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

O mundo de Balduino

Postby azert » 13 Feb 2009 20:11

<!--coloro:#696969--><!--/coloro-->Há um par de anos comecei este texto que nunca cheguei a conseguir acabar.
<!--colorc-->
<!--/colorc-->
O mundo onde Balduíno implantou a sua casa era muito pequeno porque a sua casa era todo o seu mundo. Do quarto à cozinha, da janela ao quintal, da porta das traseiras à sala e da sala para o universo, tudo ficava a umas páginas de distância (era assim que se deslocava Balduíno). Este homem gostava de ter o mundo à mão, o mundo na mão, a mão a abrir caminhos no mundo. Da sua poltrona tinha acesso a todos os comandos de que necessitava: o da luz, o do gira-discos e o da máquina de café.
Nas estantes possuía fragmentos de todos os mundos existidos e por existir: todos os continentes, todos os mares, os céus, os sentimentos, as cores, os edifícios, as aves, os materiais, as escalas musicais, as pontes, as anatomias, todos os versos, todas as histórias, todos os milagres, as plantas, os mecanismos, os cálculos, os silogismos, todas as imagens – a cores, incolores, fixas, em fuga, surpreendidas e surpreendentes – todos os sons, todas as esperas, todos os desgostos de amor, todos os nomes, os nascimentos, os erros, as emendas, as estradas, os becos sem saída, os fusos horários, os grãos de areia e uma foto do seu cão.
Mas apesar de tão exaustiva lista, Balduíno, todos os dias e todas as noites, e, ainda, a todas as horas que decorriam entre o amanhecer e o anoitecer e entre este e o novo amanhecer, olhava pela janela e descobria reflexos novos no mundo. Mesmo com tão aturado esforço analítico, dava-se conta de que cada coisa nova lhe baralhava e tornava ridículas todas as categorias, todas as arrumações das suas estantes e do seu pensamento.
Balduíno, insurgido contra os limites das páginas publicadas, que sempre eram demasiado estreitos para abarcar a realidade (ou a ficção, para o caso, dava no mesmo) sobre a qual se debruçavam os escritos, extraiu um diluente textual do livro dos químicos e apagou à letra todas as inscrições constantes dos inúmeros volumes que povoavam as suas prateleiras, deixando todas as páginas imaculadamente brancas.
O primeiríssimo alvo da sua ira foi a "Gramática". Após a sua fúria branqueadora, toda a escrita passou a reger-se pela falta de regras, pela anarquia, a libertinagem, o caos.
Balduíno sorria, como que embriagado, perante o desgoverno das palavras que agora, mais do que nunca, se viam impossibilitadas de descrever coisa alguma. (...)
Image Image

User avatar
Thanatos
Edição Única
Posts: 13871
Joined: 31 Dec 2004 22:36
Contact:

Re: O mundo de Balduino

Postby Thanatos » 13 Feb 2009 20:22

Está muito interessante.

E era engraçado ter uma amostra dessa escrita caótica, ou seja passares de narrador a personagem e lermos então pela escrita dele.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: O mundo de Balduino

Postby Pedro Farinha » 13 Feb 2009 22:23

Também gostei bastante e também concordo com o Thanatos. O teu texto podia continuar:

No entanto Balduíno percebeu que estava a per der o contr lo das co sas. Do seu sof já só conseg ia controlar parte do mund pois `med da que apagava as let as tamb´m os obje t s desapareci a m. Só n~o se viu sent do no chão por q e os sues ol hos iam per den do a ca pa ci da de de jun tar as i ma gens que se for ma vam.


Estou a brincar. A ideia do Thanatos até podia ser bem desenvolvida.

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: O mundo de Balduino

Postby Samwise » 13 Feb 2009 23:52

Hehehe. Muito fixe. É pena não ter continuação.

Mesmo com tão aturado esforço analítico, dava-se conta de que cada coisa nova lhe baralhava e tornava ridículas todas as categorias, todas as arrumações das suas estantes e do seu pensamento.


Faz-lhe falta um computador potente e um sistema de gestão de bases de dados relacionais, para fazer o trabalhinho todo por ele. :mrgreen4nw:

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: O mundo de Balduino

Postby azert » 14 Feb 2009 00:29

Ricardo Loureiro in Memórias dum Funcionário Público

Cadê? :pcorn:
Image Image


Return to “azert”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 11 guests

cron