Flores de papel no meu jardim

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azert
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Flores de papel no meu jardim

Postby azert » 26 Apr 2009 04:10

Ela estava grávida. Trazia no ventre um fruto a formar-se, mas ainda por nascer.

Naquele dia, levou uma cassette para o Jardim-Escola. Pô-la a tocar e disse às crianças que se levantassem.

Porque a hora chegara, depois de muitos e muitos anos, para lá do longe, ela, grávida, trouxe uma cassette. E na sala do Jardim-Escola, a única onde havia rapazes, a música ouviu-se.

As crianças tinham-se levantado, por instrução da mulher grávida. Não mais estariam paradas, acompanhariam com os seus passos a música que havia soado lá longe e que estava a chegar, tinha chegado já. Os passos de um exército de crianças soaram nas tábuas do Jardim-Escola, ao ritmo da canção.

Começaram os preparativos, há muito iniciados fora das paredes do Colégio, mas só então, só depois daquele dia lá longe, ao som de uma canção, possíveis entre aquelas paredes.

Do papel de crepe verde e vermelho moldado pelas pequenas mãos das crianças, nasceram flores e foram postas em cestos. Corolas e pétalas cingidas aos corpos infantis, inundaram o Jardim-Escola.

E as crianças saíram à rua e de cesto no braço ofereceram cravos. Porque lá longe já era Abril.




<!--coloro:#808080--><!--/coloro-->(Lembro-me do dia em que a educadora levou uma cassette com o "Grândola vila morena" para o Jardim-Escola, aquela mulher grávida que não voltei a ver, ainda que a festa dos cravos entregues aos adultos no recreio do colégio tenha ido em frente. Aconteceu em 74, uma ano antes da independência de Moçambique, onde então vivia.)<!--colorc--><!--/colorc-->
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Pedro Farinha
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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby Pedro Farinha » 26 Apr 2009 08:41

Bonita recordação.

Do 25 de Abril recordo acima de tudo as emoções dos meus pais. A apreensão primeiro, quando souberam já a minha irmã tinha saído para a escola e ignorando, ainda, de quem era a revolução (temia-se um golpe de estado da direita ainda mais extrema nessa altura) e a alegria depois, já todos reunidos em casa. Os discos proibidos (que éramos obrigados a ouvir baixinho) a tocar alto, com as janelas abertas e as colunas a debitarem Sérgio Godinho, Zé Mário Branco e Zeca Afonso.

Para mim esse foi o dia em que os meus pais riam feitos tontos por tudo e por nada, colados ao rádio e nos abraçavam com os olhos húmidos.

No entanto os anos que se seguiram é que me marcaram profundamente. A minha infância (tinha seis anos em 74) foi marcada por ter assistido a Sessões de esclarecimento, ocupações de casas, reuniões e debates políticos lá em casa. Novos amigos que entraram na nossa vida. Em miúdo, nas brincadeiras com os meus irmãos, tanto era o Sandokan, como Che Guevara ou Salgueiro Maia. Aos 8 anos entrei para um grupo de teatro infantil onde íamos representar a fábricas, comissões de moradores ou a bairros degradados - tínhamos de levar o D do desenvolvimento a todo o país. Foi nessa época, com interesses e vivências um pouco diferentes das de uma criança normal, que comecei a escrever. Coisas ridículas, pirosas em que a palavra liberdade rimava com fraternidade e canção com revolução.

Em dias como o de ontem, por vezes falo disto aos meus filhos que me fitam com o mesmo assombro com que eu ouvia o meu pai a recordar o fim da segunda guerra mundial e os sinos a tocarem em Lisboa. O passado é uma coisa distante.

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby azert » 26 Apr 2009 13:22

O pós-25 de Abril passou-me um pouco ao lado. Só cheguei a Portugal mais de um ano depois, tinha eu quase 7 anos. Tendo vindo parar a Braga e sendo filha de um pai de direita politicamente descomprometido, mal me apercebi das mudanças. Tanto mais que em Moçambique a ditadura não pressionava os dias da mesma forma que na metrópole.
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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby zé.chove » 26 Apr 2009 16:01

Interessantes os vossos textos. A mim que sou um pouquito mais novo do que vocês a revolução não me diz absolutamente nada. Talvez seja falta de consciência da minha parte... Ontem vi o filme "As Vinhas da Ira" do John Ford que retrata o período pós Grande Depressão. Ver os americanos a viver como ciganos a lutarem por vinte dias de trabalho a apanhar fruta... não me entra na cabeça... e visto na tela até parece romântico e belo... e não foi assim há tanto tempo... nem o 25 de Abril... Pode ser que esta crise que se vai adivinhando ainda me deixe provar das agruras de novas revoluções.

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby Thanatos » 27 Apr 2009 07:56

azert penso que já li este teu texto noutro sítio. Tira-me a dúvida; publicaste-o no teu blogue?

E a minha recordação do pós-25 de Abril é igualíssima à tua, azert, exceptuando a parte do pai de direita -à tua e à de tantos outros.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby Ripley » 27 Apr 2009 11:33

A minha recordação de 74 aproxima-se mais da do Pedro.
Receio, escassez de alimentos, prateleiras vazias no supermercado. Vozes populares contra o "açambarcamento" e os meus pais juntando umas latas de grão, feijão e atum, uns pacotes de arroz e açucar num caixote de papelão debaixo do divã onde dormia. Quando tudo se desencadeou, o medo da minha mãe (quase estrangeira, chegada há poucos anos a um país desconhecido, tinha tirado a carta há pouco tempo e hesitava ainda em conduzir) a levá-la a pegar no carro e ir buscar-me ao colégio - porque ficava a 200m do quartel dos Comandos. Coladas ao rádio a ouvir relatos da progressão dos acontecimentos até ao alívio da chegada do meu pai a casa. O receio de sair de casa nos dias seguintes. Os preços altíssimos e a escassez de combustíveis que originavam longas filas nas bombas, horas de espera em que eu adormecia no banco traseiro do automóvel. O regresso a casa a uma hora tão tardia que não tive tempo de fazer os TPC deu lugar à unica vez que fui castigada na escola com dez reguadas na mão diante de toda a turma.
Dois anos depois, o projecto paterno de comprar casa própria adiado pela atribuição das casas aos "retornados". A minha revolta por ter que continuar a dormir na sala de um apartamento minúsculo só porque "essa malta" nos tinha "tirado a casa". Só anos mais tarde conheci alguém "dessa malta" e apaguei a revolta no conhecimento dos seus medos e das necessidades que passaram à chegada a um país que lhes diziam que era o seu mas que alguns nunca tinham visto antes.

Quando hoje digo aos meus filhos que não devem desperdiçar comida e lhes conto que era raro ter manteiga ou carne de vaca para comer quando era pequena perguntam-me "Mas vocês eram pobres?" - custa-lhes perceber, nestes tempos de abundância de tanta coisa, que o pouco que havia (quando havia) era muito caro e que era necessário ser inventivo com os mesmos ingredientes de todos os dias. Olham para mim com estranheza e fazem-me desejar que nunca tenham que passar pelo mesmo.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby Samwise » 27 Apr 2009 12:33

zé chove wrote:Interessantes os vossos textos. A mim que sou um pouquito mais novo do que vocês a revolução não me diz absolutamente nada. Talvez seja falta de consciência da minha parte... Ontem vi o filme "As Vinhas da Ira" do John Ford que retrata o período pós Grande Depressão. Ver os americanos a viver como ciganos a lutarem por vinte dias de trabalho a apanhar fruta... não me entra na cabeça... e visto na tela até parece romântico e belo... e não foi assim há tanto tempo... nem o 25 de Abril... Pode ser que esta crise que se vai adivinhando ainda me deixe provar das agruras de novas revoluções.


Lê o livro que essa sensação desaparece. (foi essa uma das razões que me levou a não achar grande piada à adaptação do Ford).

A mim também me passa um pouco ao lado, mas uma vez que tenho ascendentes familiares que desempenharam um pequenito papel na oposição ao regime, o "ao lado" acaba por ser vivido com alguma emoção que não consigo conter. Um dos meus tios apareceu num programa da TSF que passou no Sábado de manhã, a contar umas historietas relativas à "canção de oposição".

Não sei se repararam na edição da Visão da semana passada: está com um grafismo "censurado". Todos os artigos vêm acompanhados por um carimbo da censura, e estão marcados com as mesmas regras a que estariam sujeitos se a publicação tivesse sido antes do 25 de Abril. Metade de toda a edição está com "X"s a riscar os textos todos (artigo que nunca seriam publicados).

Azert,

O teu texto é uma pequena evocação, feita de um ponto de vista que provavelmente seria o de uma criança da tua idade que na altura tivesse passado pela experiência. Tem aquela metáfora da gravidez e da vida nova que representam a data, mas é um texto que fica aquém, em termos de profundidade e sensibilidade, de outros trabalhos teus. Da maioria dos teus trabalhos, até.

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby azert » 27 Apr 2009 18:02

Thanatos wrote:azert penso que já li este teu texto noutro sítio. Tira-me a dúvida; publicaste-o no teu blogue?


De facto, o texto aparece no meu blogue, mas foi colado daqui para lá, minutos depois de ter sido escrito. :mrgreen4nw:


Sam, fico contente por a minha ideia da gravidez não te ter passado ao lado. :smile: Mas o texto não foi escrito "como se fosse uma recordação infantil". Ele é, literalmente, a minha recordação dos acontecimentos cuja importância, em Moçambique, teve mais a vêr com a independência que os seguiu.

[img]http://i410.photobucket.com/albums/pp184/maria_pgrs/cravos.jpg[/img]
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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby Pedro Farinha » 28 Apr 2009 00:46

azert wrote:Mas o texto não foi escrito "como se fosse uma recordação infantil". Ele é, literalmente, a minha recordação dos acontecimentos cuja importância, em Moçambique, teve mais a vêr com a independência que os seguiu.



De tanta vez que se escreve o que se imagina e os outros acham que se trata de realidade que alguma vez haveria de se retratar o real e alguém havia de pensar que se tratava de ficção.

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby zé.chove » 28 Apr 2009 15:34

Bela foto! Qual é que tu és?

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby azert » 28 Apr 2009 17:00

zé chove wrote:Bela foto! Qual é que tu és?


Pensei que seria óbvio... :rolleyes:
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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby Samwise » 28 Apr 2009 17:02

A menina da cesta?

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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby azert » 28 Apr 2009 17:03

Samwise wrote:A menina da cesta?

Sam


A bolinha da cesta, sim. :mrgreen4nw:
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Re: Flores de papel no meu jardim

Postby Pedro Farinha » 28 Apr 2009 19:16

Claro que não foi um toque de magia mas também não nos podemos esquecer que o ano de 1973 e de 74 até ao 25 de Abril foram dos anos mais difíceis do ponto de vista económico para Portugal (o que também terá sido razão para a revolução e para a sua aceitação tão geral pelo povo português - incluindo uns agora que são nostálgicos do passado).

O período entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro foi um período extremamente rico da nossa história se bem que tenham ocorrido abusos e negligências várias. Pessoalmente a minha visão é de criança mas tive a felicidade de já ter conversado com muita gente que viveu intensamente essa fase e tenho alguma noção de como as coisas correram.

No entanto o desenvolvimento do país, a normalização da vida democrática, a entrada em Portugal de produtos que não havia cá só ocorreu em força na década de 80. Não nos podemos esquecer que as máximas do antigo regime era o pobrezinhos mas honrados e o orgulhosamente sós. Aquilo que todos nós nos lembramos de acontecer após a queda do muro de Berlim e o aparecimento de produtos de fora é similar ao que aconteceu aqui em Portugal. A Coca-Cola só chegou cá depois de Abril. O primeiro Mc Donals foi inaugurado em 1991. Roupa de marca apareceu no inicio da década de 80 também. Eram as Lois, os Lacostes, etc.

A parte mais positiva, para além de nos ter levado onde estamos hoje... foi uma experiência de democracia participativa, em que as Comissões de moradores arranjavam os seus próprios bairros e organizavam sessões de alfabetização gratuita ou onde a gestão das empresas em que os donos fugiram foi assumida pelos trabalhadores. Acho que quem viveu essa época deixou uma grande marca e daí termos tido grandes políticos. Os actuais, já foram formados pelo cinzentismo das jotas e iniciaram a sua "carreira" a concorrerem para as associações de estudantes nas secundárias sem nunca terem conhecido o mundo real. Por isso vivem do aparelho para o aparelho e tudo o que conhecem são as as mesquinhices das intrigas palacianas e dos lobbys dos bastidores.


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