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Mentira

Posted: 15 May 2009 15:28
by azert
Arados, tinham sido os seus pés, sulcando trilhos naquele monte e no vale onde desaguava. Na ausência dela, preparara os caminhos para que, quando chegassem os seus passos, florissem espigas, para que, ao voltar a casa, levedasse o pão.De margaridas vestia a mesa da cozinha, alimentando-as a água da torneira vertida num copo; com sopa e verduras acariciava o estômago dela e, à noite, adormecia saciado do seu cheiro.

Pensava ele que eram felizes, que o contentamento que sentia se estendia a ela. Nunca reparou no olhar ausente que trazia no rosto, nos braços laços com que o rodeava na cama, nas verduras deixadas na borda do prato. E por isso, quando a viu pisar os caminhos que ele semeara, acompanhada de pés estranhos, não compreendeu a leveza no andar dela, o brilho dos cabelos que ao pé dele nunca soltava, as mãos que afinal gostavam de agarrar-se a outras.

Passaram-se meses, mas Gonçalo ainda procura, nas nervuras dos troncos das árvores, na espessura da lama dos charcos, nos ramos de onde se ausentaram as folhas, a razão para os passeios daquela que amava terem trocado de companhia. «Havia aquela expressão, claro - "Mais vale só do que mal acompanhado". Sim», pensou Gonçalo, «se ela não era capaz de apreciar os meus cozinhados, se os seus cabelos não encontravam espaço, junto de mim, para soltar-se, mais vale ter-se afastado. Eu... Eu estou bem assim. Ocupo os dois lados da cama, uso as almofadas sobrepostas, não tenho de mudar de canal nem de emissora para agradar-lhe; não tenho que fazer nenhum esforço para mantê-la ao meu lado, para sentir o odor familiar da sua pele ao acordar, para rechear da sua voz os meus ouvidos. Estou bem, assim, neste silêncio, nesta cama fria, nesta mesa posta em números ímpares...»


<!--coloro:#808080--><!--/coloro-->Porque me sinto seca de palavras, ainda que com vontade de escrever, fui novamente às velharias ressuscitar um texto que fala do que queria escrever.<!--colorc--><!--/colorc-->

Re: Mentira

Posted: 15 May 2009 15:37
by Ripley
Mentiras que se constroem sobre silêncios até que um dos lados, num grito angustiado, abra as asas e voe na direcção do horizonte. Ficam os castelos de cartas desmoronados, pacientemente reconstruídos sobre mais mentiras e mais silêncios ...

Re: Mentira

Posted: 15 May 2009 17:11
by Pedro Farinha
Oldie ou não, a verdade é que está muito bem escrito. A última frase é de antologia:

Estou bem, assim, neste silêncio, nesta cama fria, nesta mesa posta em números ímpares...»