Proposta para conto - "O Cacifo"

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Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Samwise » 11 Jun 2007 10:26

Ideia: desenvolver uma história em volta de um cacifo fechado numa estação de caminhos de ferro.

Há um cidadão vulgar que vai todos os dias de comboio para o trabalho; há um homem misterioso que um dia é visto pelo cidadão vulgar a mexer num determinado cacifo; há uma onda de obsessão que toma conta do cidadão vulgar - o que estará dentro do cacifo?, como poderei eu aceder ao seu conteúdo?

O conteúdo do cacifo deverá (obrigatóriamente) ser revelado no final da história.

Modalidade: Livre
Sem limite de palavras.

Eu cá ja tenho algumas ideias para fazer a minha história - mas achei sipático deixar aqui a sugestão para quem quiser "participar com alternativas" - tinha piada haver vários contos em torno desta ideia.

Enjoy the writing!

Sam
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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Thanatos » 11 Jun 2007 13:47

Curiosa sincronicidade. Também em Song of Kali, que recentemente reli e cuja opinião anda algures aqui pelo fórum, existe um cacifo com lugar de importância na história.

Não percebi é se a ideia é postar aqui ou no nosso próprio "cantinho".
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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby anavicenteferreira » 11 Jun 2007 14:39

A primeira coisa que me veio à cabeça foi o mundo dentro de um cacifo dos MIB 2
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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Samwise » 11 Jun 2007 15:06

Thanatos wrote:Curiosa sincronicidade. Também em Song of Kali, que recentemente reli e cuja opinião anda algures aqui pelo fórum, existe um cacifo com lugar de importância na história.

Não li... yet. Foi mesmo sincronismo de ideias. Um dia destes acordei, and there it was, the ideia, like a bright light shining over my thoughts - mayhap I have "the touch"... :rolleyes: (já vou na página 620 - almost done with the tower!)

Não percebi é se a ideia é postar aqui ou no nosso próprio "cantinho".

Onde quiseres...


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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Samwise » 11 Jun 2007 15:27

Ahhhh... também não vi o MIB II - e já é o segundo comentário que ouço a mencionar esse filme.

Ainda bem que a a ideia que tenho para o conto não passa por colocar o universo dentro do cacifo... :smile:

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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Thanatos » 11 Jun 2007 22:49

Samwise wrote:Não li... yet. Foi mesmo sincronismo de ideias. Um dia destes acordei, and there it was, the ideia, like a bright light shining over my thoughts - mayhap I have "the touch"... :rolleyes: (já vou na página 620 - almost done with the tower!)
Sam



É o que todos dizem! :devil2:

Ahhh vais finalmente visitar the Crimson King... anda muito na moda esse tema dos King Crimson, até no Filhos do Homem (filme, obviamente) se ouve o tema.

Opá vou escrever uma cena tipo snippet e meter aqui, então, mais que não seja para não se dizer que não faço nenhum e só melgo. :mrgreen4nw:
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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Thanatos » 11 Jun 2007 23:55

Nunca em lado algum a expressão “bonito como uma estação de caminho-de-ferro” se ouviria. De todas as obras arquitectónicas do Homem as estações de caminho-de-ferro conseguiam reunir num único lugar tudo o que de mais abominável poderia haver num edifício, tirando talvez os aeroportos, mas isso é outra conversa.

Cavernosas, ruidosas, cobertas de caca de pombo, sacos plásticos, beatas e outro lixo cuja sedimentação tornava já difícil reconhecer a proveniência, as estações de caminho-de-ferro eram um mal necessário na vida de Artur Coelho, vendedor de profissão com o grande handicap de ter a carta de condução cassada por ano e meio em virtude dumas avarias que tinha feito na IP5. Mas a necessidade de viajar de comboio não fazia com que a ideia de permanecer nas estações se lhe tornasse mais simpática. Antes pelo contrário. Começava a ter cada vez mais asco aos lugares e sempre que podia chegava mesmo em cima da hora de partida para não ter de prolongar a estadia mais do que o absolutamente necessário.

No entanto a estação do Rossio, em Lisboa, era a excepção ao seu estilo toca-e-foge. E tudo porque durante o tempo que aguardava os comboios reparara numa estranha figura que dia após dia se dirigia a um cacifo, o abria, inspeccionava e tornava a fechar sem meter nada nem retirar nada. A primeira vez que vira tal acção parecera-lhe um mero absurdo mas quando no dia seguinte tornara a presenciar o mesmo acto uma pontinha de curiosidade nasceu dentro dele.

Ao fim duma semana de observações já constatara que o homem aparecia sempre à mesma hora, cinco da tarde, vestido com uma gabardina creme suja que lhe cobria o corpo quase até aos pés, deixando apenas entrever umas calças de sarja castanhas e uns sapatos gastos. O homem aparentava andar na casa dos cinquenta, ralo de cabelo, farto de barba, olhos encovados e irrequietos. Artur tomou a decisão de o seguir na sexta-feira. Terminara os contactos com os clientes há duas horas atrás, tinha um fim-de-semana aborrecido pela frente e apetecia-lhe um bocadinho de aventura.

Pelas cinco lá apareceu o sujeito dirigindo-se ao cacifo, e executando o ritual habitual, abrir, olhar, fechar e afastar-se tal como chegara. Artur estugou o passo colocando-se mesmo atrás do homem já na escada rolante para o piso inferior. A hora de ponta começava a apertar e foi com alguma dificuldade que conseguiu não perder o homem de vista. O sujeito enfiou na direcção do Martim Moniz andando a um passo acelerado. Artur que carregava a maleta com os catálogos viu-se aflito para o acompanhar e mesmo apesar dos seus esforços denodados acabou por o perder quando se viu obrigado a parar numa passadeira. O sinal mudara para os veículos uma fracção de segundo após o misterioso homem ter chegado ao outro lado da avenida. Artur tentou não o perder de vista mas a mole contínua de autocarros, camiões e automóveis impossibilitou-o de perceber para onde se dirigira o homem. Aborrecido com a perda inútil de tempo voltou para trás. Mas o cacifo não lhe saía da cabeça…

Jantou nas Janelas Verdes e regressou à estação já pelas onze da noite. Aproximou-se dos cacifos. Ocupavam uma boa parte da parede sul do átrio da estação. Eram pequenos, apenas o suficiente para guardar uma valise de dimensões médias. Artur aproximou-se do cacifo que era o alvo das atenções diárias do misterioso homem. Fungou. Nada a não ser o habitual mau cheiro da caca de pombo e dejectos vários. Passou a mão pelos contornos da porta, tentando encontrar algum sinal que lhe desvendasse qual o conteúdo. Acabou por ficar com os dedos sujos do pó. Enojado foi às casas de banho da estação lavar-se e depois tomou uma bica no café mesmo quando este se preparava para fechar. Os empregados, cansados, arrumavam as cadeiras e mesas num canto, desejosos de largar o serviço. Artur não se demorou. Tinha tido uma ideia!

Saiu dali e foi directamente ao gabinete do chefe de estação. A porta estava aberta e dentro do gabinete estava um homem vestido à civil. Artur perguntou pelo chefe. Saíra à questão de meia hora respondeu-lhe o outro. Ele era o substituto para o turno da noite. E que desejava ele? Artur usou então de toda a sua manha e artimanha para convencer o substituto de que perdera a combinação de código do cacifo e precisava desesperadamente do que estava lá dentro para uma importante reunião no dia seguinte no Porto. O substituto olhou-o de alto a baixo e novamente de baixo a alto e pareceu ponderar o pedido. Por fim respondeu que lamentava mas não podia fazer nada. Os cacifos eram explorados por uma empresa externa e teria de contactar os escritórios deles. O contacto devia estar nas instruções de manuseamento coladas nas portas. Artur agradeceu a atenção e retirou-se. Não tinha tido muita esperança mas não custara nada tentar. Voltou para junto do cacifo. Pelo canto do olho notou que o substituto viera à porta do gabinete e observava-o. Artur fingiu assentar o contacto da empresa exploradora dos cacifos, depois voltou-se e com ar resignado saiu da estação. O chefe substituto falava ao telemóvel.

Quando se dirigia para a praça de táxis alguém lhe tocou no ombro. Voltou-se e sentiu o coração cair-lhe aos pés. Era o homem-mistério! Procuras o quê? Perguntou-lhe lançando-lhe um bafo misto de vinho e halitose à cara. Artur retrocedeu dois passos, involuntariamente, e perdeu o equilíbrio no lancil do passeio. Desequilibrado sentiu-se pender para trás, os braços esvoaçando inutilmente, a maleta dos catálogos lançada livremente ao ar e rodopiando. E nesse momento o homem-mistério deu-lhe um toque no peito obrigando-o definitivamente a cair sobre a estrada. Ainda ouviu os gritos dos transeuntes antes de se apagar.

Estava no gabinete do chefe de estação. Os poucos minutos que lá estivera tinham sido suficientes para reconhecer de imediato o lugar. Era uma daquelas habilidades que se adquiriam na sua profissão. A cabeça latejava-lhe horrivelmente. Sentia-se preso de movimentos e não tardou a perceber porquê. Estava manietado a uma cadeira. Uma voz fora do seu ângulo de visão disse: parece que já voltou a si. Três figuras surgiram vindas de trás dele. Uma era o homem-mistério, outra era o chefe de estação substituto e a terceira um polícia fardado. Foi o polícia que tornou a falar: Então o amigo já se sente melhor? Capaz de nos explicar qual o seu interesse ali no cacifo deste senhor? E apontou com o indicador o homem-mistério. Artur balbuciou meia dúzia de desculpas e acabou por contar a obsessão que formara nas últimas semanas desde que reparara nas bizarras acções do homem. Não era propriamente um cobarde mas sabia reconhecer quando estava em desvantagem e não via porque razão não havia de contar a verdade toda. Afinal de contas não fizera nada de mal. E se calhar mais razões teria o homem do cacifo de temer a polícia do que ele. Quando terminou de relatar os actos das últimas horas sentiu-se aliviado como se tivesse tirado uma pedra de cima do peito.

O polícia e os outros dois afastaram-se dele e conversaram animadamente em surdina por uns momentos, lançando repetidos olhares na direcção dele. Por fim o polícia voltou para perto dele e inclinando-se com as mãos sobre os joelhos olhou-o de frente e com um sorriso escarninho informou-o: queres então ver o que está no cacifo? Muito bem! Que não se diga que a curiosidade não matou o gato.
A gare estava deserta. Entregue aos pombos, ao vento e ao lixo. Apenas eles quatro ali estavam e Artur sentiu-se um anão perante a estranha geometria absurdamente gigantesca da estação. Os sons dos passos ecoavam contra as estruturas metálicas acordando sons metálicos que ressoavam lúgubres na noite. Era como se caminhasse em direcção ao cadafalso… o corredor da morte. Artur sentiu o sangue gelar-se nas veias. Apetecia-lhe fugir, gritar, qualquer coisa que o tirasse daquele pesadelo provocado por uma idiotice momentânea. Mas tudo o que sentia era os joelhos feitos em borracha.

O cacifo estava diante deles. Com um movimento rápido o homem da gabardina marcou o código e ouviu-se o estalido indicador da abertura do trinco. Rodou a maçaneta e abriu a porta. Apesar de toda a situação confrangedora Artur não conseguiu dissimular a curiosidade e olhou avidamente para o interior do cacifo. O negrume sorveu-lhe a alma e em seu lugar deixou uma casca vazia que tombou sem ânimo no chão sujo da estação. O Ceifeiro das Almas porque esse era afinal o cargo do homem da gabardina, deixou aos outros dois a tarefa de se desfazerem do corpo. A ele já bem lhe bastava carregar as almas dos recém-mortos por Lisboa inteira para as depositar diariamente ali sem ter ainda de se preocupar com a parte material.

Com um suspiro saiu da estação em direcção ao Hospital de Santa Maria. Hoje havia por lá bastante trabalho. Se ao menos tivesse um ajudante… talvez o Outro lhe reencarnasse aquele sujeito curioso que quase os apanhara a todos. Sabia bem ter companhia ao longo da eternidade.
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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Samwise » 12 Jun 2007 09:32

Thanatos wrote:Ahhh vais finalmente visitar the Crimson King...


Been there... :happy:

Neste momento estou muito irritado com o sai King - toda a segunda metade do livro é... "uma casca vazia", uma avalanche de desilusões umas atrás das outras - as soluções encontradas são frágeis, frágeis... e aquela história toda do... hmmm Stephen King! ARGHHHH! Já enjoava! Que pena... que pena... safam-se os quatro primeiros da série, que já não é mau!

Opá vou escrever uma cena tipo snippet e meter aqui, então, mais que não seja para não se dizer que não faço nenhum e só melgo. :mrgreen4nw:


O teu conto é tudo o que imaginava de bom para um desafio destes... está bem escrito, prende a atenção do leitor ao segredo, e ao final é mesmo um espectáculo! :clap:

(estou também contente porque não toca em nada daquilo que imaginei para a minha história :smile: )

Vou demorar a escrevê-la!!! Ontem tentei começar e fiquei meia-hora a olhar para o vazio da página! :ranting:

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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Thanatos » 12 Jun 2007 13:24

Samwise wrote:Neste momento estou muito irritado com o sai King - toda a segunda metade do livro é... "uma casca vazia", uma avalanche de desilusões umas atrás das outras - as soluções encontradas são frágeis, frágeis... e aquela história toda do... hmmm Stephen King! ARGHHHH! Já enjoava! Que pena... que pena... safam-se os quatro primeiros da série, que já não é mau!


Exactly my thoughts on the whole series. Parece que quis despachar aquilo e ficou às 3 pancadas... ou talvez as nossas expectativas tenham colocado a fasquia demasiado alto. Who knows... De qualquer maneira o King não perdeu o "toque". Cell embora possa à primeira vista parecer uma obra menor cria ressonâncias que permanecem connosco muito para além da leitura. E tenho ali na pilha Lisey's Story que promete muito mais.

Samwise wrote:O teu conto é tudo o que imaginava de bom para um desafio destes... está bem escrito, prende a atenção do leitor ao segredo, e ao final é mesmo um espectáculo! :clap:

(estou também contente porque não toca em nada daquilo que imaginei para a minha história :smile: )


Opá podia ter ficado muito melhor. Foi um daqueles stream of consciousness... e ainda por cima com Propaganda (a banda alemã da ZTT Records, não a outra) aos berros o que não é dos ambientes mais propícios à escrita. Só que a preguiça de mudar de CD era grande demais. :smile:

E é bom que que não tenha tocado em nada daquilo que imaginaste senão ver-me-ia obrigado a atiçar-te a matilha de advogados que mantenho dentro do canil exactamente para estas situações. :laugh:

Boa escrita! :wink:
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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Samwise » 13 Sep 2007 20:58

O Cacifo

1ª Fotografia
A primeira fotografia do lote é um relógio de parede. É o grande relógio da estação de comboios de Centersville. É o relógio que está colocado na ampla galeria central, de onde partem inúmeras linhas, muitos metros acima do solo. É o relógio redondo que anuncia as horas fazendo soar ding-dongs melancólicos, como se fosse um sino na torre de uma capela, e que está ornamentado em redor com enfeites de negro ferro a fazer de ramos e folhas de árvore. Na fotografia, a hora marca sete e quarenta e três. Dez minutos atrás. Embora o relógio não apresente uma data, o Sr. Miller sabe, por fonte segura - a suspeita -, que a data é hoje. E porque está nesse preciso momento na estação, o Sr. Miller olha alternadamente para a fotografia e para a imagem verdadeira do relógio. Para o conseguir, o Sr. Miller apenas tem de fazer a cabeça rodar noventa graus para a esquerda e trinta para cima, e depois fazê-la percorrer o caminho inverso. Uma, duas, três vezes. É o que basta para se certificar que não está a ver mal as coisas. O Sr. Miller tem nas mãos uma fotografia tirada há mais ou menos dez minutos.


2ª Fotografia
É ele próprio. A segunda fotografia do lote é o Sr. Miller sentado na esplanada da estação, numa cadeira de plástico, há mais ou menos dez minutos. A perspectiva é de cima, de lado – de um ângulo impossível de apanhar por quem quer que fosse. Atónito, o Sr. Miller observa-se a si próprio naquela imagem estática. Um homenzito banal de calva revelada, gabardina cinzenta amolecida em redor do corpo, e perna traçada, a direita sobre a esquerda. O jornal, agarrado por ambas as mãos, está aberto em toda a sua extensão, e tem as pontas ligeiramente dobradas, caídas para trás, como que esperando um safanão para se endireitarem, para permitirem a muda de página. Em cima da mesa está um chapéu pousado e uma chávena de café acabada de esvaziar. Ainda fumega, uma almofada de espuma creme lá no fundo, a colher de lado, no pires, a fazer companhia a uma saqueta de açúcar rasgada e amarfanhada.

3ª Fotografia
Ao fundo, junto a uma das paredes da galeria, um extenso painel de cacifos de chapa metálica sobrepostos em duas linhas, aí uns sessenta ou setenta por cada linha, pelas contas do Sr. Miller. Um vulto misterioso – o vulto misterioso que captou a atenção do Sr. Miller há precisamente seis minutos, mal acabou de dobrar o jornal e se levantou para sair – está parado, de costas para objectiva, em frente a um desses cacifos, um dos de cima, e a porta está aberta. O que é que chamou nesse momento a minha atenção, pergunta-se o Sr. Miller, e responde-se logo a seguir que não sabe. Talvez a largura bestial de ombros daquele estranho, como se por baixo das roupas ocultasse qualquer coisa (uma mochila?, umas asas?), talvez o colarinho puxado para cima, como nos filmes de detectives dos anos 40, e que lhe tapavam a nuca a ponto de fazer parecer que não tinha pescoço. Talvez o que estava a colocar dentro do cacifo.

4ª Fotografia
O estranho fecha o cacifo. Tem a mão sobre as rodas dentadas de combinação numérica do cadeado.

5ª Fotografia
O estranho olha para a direita.

6ª Fotografia
O estranho olha para a esquerda.

7ª Fotografia
O estranho afasta-se para a porta de saída da estação.

8ª Fotografia
A porta da estação, vista de dentro. É alta. Faz dois homens de altura. É composta por quatro espaços de abertura, todos iguais. Em cada um deles passam duas pessoas ao mesmo tempo sem terem de se desfazer em obséquios para decidir que é o primeiro. O estranho já não está à vista. Algumas pessoas entram, outras saem. Lá fora o sol ofusca tudo.

9ª Fotografia
O Sr. Miller de costas, de pé, o chapéu numa mão, o jornal dobrado na outra. A gabardina esvoaça com o vento provocado pelas deslocações dos comboios, pese embora a distância, que ainda é grande, até às linhas. O Sr. Miller olha para os cacifos que estão à sua frente, a uns cinquenta metros, desfocados pela objectiva da máquina.

10ª Fotografia
A perspectiva é a mesma da fotografia número nove. O Sr. Miller está mais distante da objectiva. Mais perto dos cacifos. Caminha até lá. Já percorreu meia distância. Caminha em direcção ao cacifo largado pelo estranho uns minutos antes. A gabardina levanta-se nas pontas, como que abraçando uma bolsa de ar.

11ª Fotografia
O Sr. Miller visto de lado, como numa ilustração egípcia, parado, a contemplar com atenção qualquer coisa. Mesmo à sua frente está a linha de cacifos.

12ª Fotografia
Um close-up-shot. Três rodas dentadas, dispostas em paralelo, com algarismo gravados nas covas dos dentes. Em cada uma, os algarismos de zero a nove dão a volta à roda. Apenas três algarismos podem ser visto em cada roda; os restantes estão ocultos por trás da chapa do cacifo. É a combinação de segredo que permite abrir o cacifo. A sequência apresentada é seis-seis-seis.

13ª Fotografia
A mão do Sr. Miller por sobre as rodas dentadas.

14ª Fotografia
O relógio da estação. As horas: dois minutos atrás.

15ª Fotografia
O cacifo aberto. Lá dentro, no meio da mais completa escuridão, apenas um envelope branco fechado, a abarrotar do conteúdo. No destinatário, escrito à mão numa letra coloquial, diz: Sr. Miller.

16ª Fotografia
O Sr. Miller, visto de trás, olha para esquerda.

17ª Fotografia
O Sr. Miller olha para direita.

18ª Fotografia
O Sr. Miller abre o envelope. O jornal e o chapéu estão pousados dentro do cacifo.

19ª Fotografia
Cada vez mais espantado, o Sr. Miller volta a encontrar a sua própria figura, desta feita vista de cima, a olhar para a primeira fotografia do lote retirado de dentro do envelope. Nessa fotografia dentro da fotografia consegue-se notar o relógio da estação. Marca sete e quarenta e três.

19ª Fotografia e meio
A fotografia mostra o tempo actual. É o Sr. Miller a olhar para uma fotografia do Sr. Miller a olhar para uma fotografia do Sr. Miller a olhar para uma fotografia do Sr. Miller, até já não se distinguirem os pormenores, de tão pequenos que aparecem.
O Sr. Miller sente a vertiginosa boca do infinito aberta à sua frente.

20ª Fotografia
Numa diferença de registo totalmente diferente em relação às imagens anteriores, esta fotografia mostra uma folha de papel com o número cinco desenhado.

21ª Fotografia
Quatro

22ª Fotografia
Três

23ª Fotografia
Dois

24ª Fotografia
Um

25ª Fotografia
A perspectiva é de dentro do cacifo. Virado de frente para a objectiva, o Sr. Miller passa uma fotografia para trás do lote. A sua boca está aberta, nos seus olhos um esgar próximo do terror extremo ganha expressão, como se um homem contemplando a morte. Atrás dele, o estranho levanta um machado com as duas mãos.


----

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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Venom » 13 Sep 2007 22:12

Naisse, verí naisse. :biggrin: Apesar de já ter lido o texto do Thanatos há algum tempo, gostei. Originais, como eu gosto deles :tongue:
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Samwise » 13 Sep 2007 22:45

Isto de terminar contos à pressa às vezes dá raia. :wink:
Acrescentada a fotografia 19 e 1/2, que era uma das premissas iniciais nas minhas ideias... sorry lá, esqueci-me de a incluir à primeira.

Venom,

Não era este o conto a que me referia (o tal cheio de gore) no outro lado. Esse ainda está em fase de amadurecimento ideológico...

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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Venom » 13 Sep 2007 23:16

Ah sim, mas achei por bem comentar :tongue:.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby SunShine » 05 Dec 2007 00:10

Gostei bastante dos dois contos...em particular do conto do Thanatos. Aquela primeira descrição das estações de comboios está espectacular :mrgreen4nw:
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Re: Proposta para conto - "O Cacifo"

Postby Thanatos » 05 Dec 2007 13:45

SunShine, obriga-me a honestidade a dizer que a primeira frase da vinheta é uma homage muito disfarçada ao primeiro parágrafo dum romance de Douglas Adams. Aliás a referência final aos aeroportos e outras histórias não está lá por acaso.

Este foi daqueles contos que eu gosto de escrever proque não tenho grandes preocupações. Sento-me ao teclado começo a debicar e sai isto. Dou uma limadela aqui e outra acolá e ao fim de meia hora está obra feita. Como sou um gajo impaciente dão-me satisfações imediatas estas ejaculações precoces. Por outro lado não gosto de escrever com tema dado pelo que foi meio em jeito de desafio que respondi ao repto do Samwise. Mas basta ler com olhos de ler para ver que o Samwise fez obra muito mais asseada e reflectida que a minha. Mas ele também quer ser escritor e eu não passo dum amador na acepção latina da palavra. :wink:

De qualquer forma obrigado pela parte que me toca. :thumbsup:
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