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Nela
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Postby Nela » 30 Sep 2008 17:13

Cerca de 4 segundos bastaram para que o corpo atingido pelo choque embatesse no chão. Fiquei a olhar estupefacto; hoje sei que fiquei assim: estupefacto. Na altura os meus 7 anos não chegavam para por em palavras aquela ausência total de emoções, também sacudido pela imprevisibilidade do sucedido. Um tremor incontrolável, uma emergência muda. Com os membros inanimados, permaneço, suspenso, agarrado ao tempo, agarrado a nada.

A portada de madeira de carvalho da janela virada a sul bate, rebate, torna a bater. Uma pancada seca para me acordar, para me resgatar daquela agonia que de mim se alimenta lentamente. Não sei quanto tempo ali fiquei, parado, à espera. A portada continua incansável numa incessante labuta.

Hoje quando fecho os olhos vejo-me, como se espreitasse por essa mesma janela, por entre as cortinas brancas de renda, também empurradas freneticamente pelo vento: eu, de sete anos, cabelo impecavelmente cortado, olhar parado, sem expressão, braços caídos, as minhas pernas magras hirtas, joelhos sujos das brincadeiras com os piões, calções castanhos já gastos, com bolsos semi-rebentados onde guardava os berlindes, os piões e as guitas, e às vezes as rãs de rio que resgatava à água.

De repente a minha camisa de lã grossa transforma-se num fino pano de linho, gelo, tremo, mas não tenho frio. Alguém me chama mas não ouço, não respondo, não faz sentido, nada daquilo faz sentido.

Correm os outros para o corpo jacente. A minha mãe acerca-se também dele e depois de mim. Mãos como tenazes agarram-me os braços, agitam-me, abanam-me: "Que se passou? Por Deus, que se passou?!"

Nessa noite choveu.

Deitado na cama de ferro, coberto pelos lençóis brancos de linho bordados pela minha avó, através das frechas nas grossas portadas fechadas, ouvi chover. Lá em baixo a luz não se apagou, como que em vigília. Sei que sussurravam mas não tive coragem de me levantar, entreabrir a porta alta de madeira pintada e tentar escutar. Nem tão pouco me deitei no chão, ouvido colado ao soalho já gasto por debaixo do tapete cor de barro. Fiquei deitado, enrolado sobre mim.

Lembro-me de ter ficado com o coração acelerado, a querer saltar-me do peito quando passos que reconheci como sendo do meu avô se aproximaram. Vi a sua sombra por entre a abertura da porta que junto ao chão devia ter um bom par de centímetros. O murmúrio continua ao de longe. Enrolei-me ainda mais sobre mim, desejei, rezei com todas as minhas forças para que ele não entrasse no quarto: não aguentava mais perguntas, mais olhares. Ouço o trinco render-se a um leve empurrão, um feixe de luz amarela penetra no quarto. Sustenho a respiração. Instantes depois a porta volta a fechar-se, silenciosamente, abafada pelo bater da chuva nas vidraças. Respiro. Hoje não me seriam feitas mais perguntas, por hoje estou a salvo dos olhares.

Fiquei ainda mais algum tempo acordado. Embalei-me até adormecer, ao som do vento que agora suplantava o fustigar da chuva. Cães ladram lá fora até que alguém os manda calar. Não obedecem. Ouço ganir, fecho os olhos com uma força cada vez maior e abandono-me ao cansaço, no meio de uma prece.

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Pedro Farinha
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Postby Pedro Farinha » 01 Oct 2008 09:54

Uma mancha de sombra passou pela janela envidraçada e fez-me voltar a cabeça. O silêncio que se fez assustou-me muito mais que a gritaria e a algazarra que ter dois filhos gémeos impregnara nos meus ouvidos.

Foi quando abri a porta da cozinha para o alpendre que a realidade atingiu-me nos olhos sob a forma de uma mancha vermelho-escura que se alastrava debaixo da cabeça do meu menino. O som da portada a bater com o vento fez-me virar a cabeça para cima e vi o outro, estático, atrás da janela.

Os meus dois filhos imóveis. Os dois brancos de alabastro e um grito mudo estridente a formar-se na minha garganta qual grito de Munch. O meu olhar aturdido a olhar para um e para outro sem saber o que fazer. As minhas pernas a decidirem por mim e a precipitarem-me pelas escadas acima. Encontrei-o imóvel. Em choque. Em vão o sacudi e quis saber o que acontecera. Mudo.
Apertei-o com força e por fim abracei-o. Lágrimas grossas encharcaram-lhe a camisa desfraldada que oscilava com o vento em sintonia com os cortinados de renda que bordara afincadamente durante a gravidez dupla que me atirara para a cadeira de vime e ao meu marido para os braços da outra.

Mais tarde, nesse mesmo dia, e na ausência de outro homem na casa foi o meu pai que tomou as rédeas à família perdida no marasmo da incredibilidade do ocorrido. Foi ele que pediu à D. Alice para fazer um chá para todos e contactou as autoridades. Por fim foi ele que arrancou aos meus braços o meu filho, órfão de irmão, e me trouxe para o quarto onde me afundei em choro convulsivo.

Foi, ainda, o meu pai que falou com o meu marido que acabou por regressar a casa e que recebi com passividade que passou a caracterizar os meus dias até hoje.

No espelho nunca mais vi um sorriso no meu rosto. A chuva forte que caiu nessa noite não foi a suficiente para lavar a mágoa que se instalara no meu peito.

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azert
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Postby azert » 01 Oct 2008 18:46

O Simões, lá do stand, andava a pisar-me os calos. Que tinha que ser mais agressivo, que tínhamos de atingir os objectivos do mês, que tinha de cuidar mais da aparência... À merda o simões mais os seus quadros de vendas! Se ele tivesse que viver com dois putos a chagar-lhe o juízo, mais um velho que põe defeitos em tudo o que faço e a quem é preciso repetir tudo duas ou três vezes, e uma mulher que se queixa da "relação", eu queria ver qual seria o aspecto dele e quanta pachorra é que ele teria para aturar os clientes que nos massacram com perguntas, para sairem, invariavelmente, com o comentário "vou pensar".

Não sei como é que ainda não dei um tiro nos cornos. Qualquer dia, saio para comprar cigarros e não volto. Viro as costas a esta porra toda e vou para um canto qualquer viver sossegado, sem me preocupar com as prestações da casa ou o leasing do carro. Arranjo uma gaja estúpida, que não se preocupe com a "relação" e que não se afaste de mim na cama. De preferência, sem celulite.

Como se não me bastassem as minhas preocupações, sempre que chegava a casa, lá tinha de aturar as queixas da Adozinda sobre os gémeos, ansiosa para me pôr a par das suas últimas crueldades.

Mas naquele dia foi demais. Mal abri a porta de casa, parecia que tinha entrado numa morgue. O silêncio e a penumbra reinavam em casa. Procurei na sala, mas não vi ninguém, e na cozinha, não havia panelas ao lume, como era costume àquela hora. Subi as escadas e fui dar com a minha mulher sentada na beira da cama, torcendo um lenço nas mãos, e o velho por trás dela, calado, mais macambúzio do que o habitual, com a mão sobre o ombro dela. Mas o que é que se tinha passado, porque é que estavam os dois com cara de enterro, perguntei, sem verdadeiramente ter vontade de ouvir a resposta. A Adozinda não levantou os olhos do lenço. foi o pai dela que que me agarrou no braço e me levou escadas abaixo, até ao alpendre.

Sobre um lençol vermelho escuro, pastoso, um dos gémeos jazia imóvel. Olhei para o velho, a pedir-lhe uma explicação, mas ele já se tinha ido sentar no degrau, com a cabeça entre as mãos. Onde estava o outro, perguntei, sem obter resposta. Subi ao quarto dos gémeos e, na cama, o outro olhando-me com a mesma fixidez e a mesma imobilidade do irmão, só que sem sangue. Saí do quarto, fechando devagar a porta atrás de mim, e fui à sala encher generosamente o copo de brandy. Merda! MERDA!
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urukai
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Postby urukai » 01 Oct 2008 20:12

Estou mudo. Não posso falar. Estou preso.
A tradição imobiliza-me os movimentos, as crenças teceram uma teia ao meu redor que me esgota a liberdade e, impotente, vejo-me arrastado pelo vento. A mais pequena brisa tem sobre mim um poder inimaginável e vira-me, revira-me, desfigura-me a parte de dentro do meu antigo ser.
Quero gritar! Não consigo.
Quero atormentar florestas e calcorrear grutas desoladas. Quero invadir sonhos e reproduzir-me na escuridão, negra, profunda, envolvente.
Em vez disso tenho chuva, tenho o vazio do céu e um ângulo reduzido para este mundo que não me interessa. Este alpendre que não é meu e onde não posso agir.
Mas hoje foi diferente. Hoje um vulto rápido, fulgurante e gravítico despenhou-se à minha frente. A nortada deu-me a plateia de tão brutal espectáculo e a minha memória, que agora é eterna, reteve tudo. Cada pormenor, cada segundo, cada acção e cada culpado.
Depois foi um rodopio. Até o meu vento me pareceu um ridículo e lento carrossel comparado com a montanha-russa que foram as últimas horas desta despedaçada família. Sai mãe, sai avô, cai mãe e entra avô. Depois não vi que veio uma aragem do sul e lá fui eu olhar para as árvores. Também elas tristes. Depois um novo desnorteio e entra o pai. A seguir silêncio. E eu aqui, impotente mas sábio.
Pois vi tudo e tudo sei. Sei o que aconteceu e quero gritá-lo ao mundo. Quero assustá-lo ao mundo. Quero atormentá-lo ao mundo. Preciso de aterrorizá-lo ao mundo.
Mas estou mudo. Não consigo falar. Estou preso neste gerigonça giratória que de espanta tem tão pouco e de cadeia tem tudo.
Enfim, sopra o vento, um vislumbre do ondular ensanguentado do lençol que já foi branco e dou mais uma volta no meu tormento.

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Postby Nela » 03 Oct 2008 10:29

Ontem, eram 5 da tarde quando Luísa me entrou esbaforida pela casa adentro, muda como de costume mas a chorar. Cruzes rapariga que é que se passa? Acalma-te lá e desembucha! E ela puxava-me, primeiro com uma mão depois com as duas. Pára! Estás a dar-me cabo do casaco! Ai criatura!

Arrastou-me para fora, a Luísa. Pobre rapariga, nunca a tinha visto assim. Luísa, chamavam-lhe de 'muda'. Deixou de falar quando viu o pai morrer afogado em lama debaixo da roda da carroça velha que conduzia prá feira todos os fins-de-semana. No meio do campo alagado a quilómetros de distância deve ter gritado por ajuda mas ninguém a ouviu. Pobrezinha. Dizem que ficou sozinha com o pai durante 3 dias sem que aparecesse viv'alma, a velar o corpo. Coitadinha, vê a mãe morrer a tentar dar vida a um nado-morto e depois o pai. Há mesmo gente que nasce para sofrer. Não fosse o meu falecido e não sei que lhe acontecia sozinha no mundo.

Arrastou-me prá casa do sr. António, a Luísa. Dona Alice! Dona Alice! Acuda! Aconteceu uma desgraça! Levou-me pró alpendre e meu Deus, tanto sangue! Deus nosso Senhor nos guarde! Adozinda, que é que aconteceu minha filha? E Adozinda chorava junto ao filho. E eu chorava e choravamos todos, todos menos o outro gémeo que não se mexia. Levem a criança daqui! Luísa leva o outro gémeo daqui! Leva-o rapariga!

Enquanto o sr. António chamava a guarda e ia à procura de um lençol, Adozinda ficava de joelhos. Eu chorava. Levanta-te minha filha, o menino está perdido! Taparam o corpo com um lençol e o sr. António pediu-me para fazer um chá e levou-a para o quarto. Quando saíram fui espreitar. Como é que sabia qual deles era? Que interessa isso? Morrera-lhe um filho! Parecia dormir, pobrezinho! Tão pálido! Tão novinho e já… Deus nosso Senhor o proteja.

Chegou o marido e depois a guarda. Marido… mais dono, aquele estupor! Anda na fornicação com a secretária do stand e há uns tempos dei com ele com a mão metida pela saia da minha Luísa, corri-o à paulada! Dias depois conta-me o sr. João da merceeiria que o malandro despeitado andava a dizer coisas da minha menina. Bem dizia a Deusinha, Deus tenha a sua alma em descanso, quando ele ia lá a casa: é má rês! É ruim! Desgraça chama desgraça e aquele não traz boa coisa a esta casa! E a minha Adozinda vai na conversa… Coitada da Deusinha, paz à sua alma, ai se ela estivesse viva a ver isto tudo!

Ficámos na sala mais os dois guardas da GNR. Diziam que não podiam fazer nada e que o médico só vinha amanhã, e que até lá não podiam mexer no corpo. Como é que podiam deixar a criança ali? Não têm coração? Queria ver se fosse vosso filho! Se os cães já tiveram de ser presos para não andarem por lá… o cheiro a sangue vai deixá-los possuídos! Façam alguma coisa que é para isso que a gente paga!

Os guardas faziam perguntas a torto e a direito. O que vale é que a Luísa se tinha escondido nas traseiras lá de casa e escapado ao interrogatório. Adozinda ainda chorosa desce com o filho pela mão e os guardas continuaram com as perguntas. O pequeno respondia com a cabeça que não às perguntas e encolhia os ombros, não tinha expressão tal não era o choque, coitadinho. Parem com isso! Não vêm o que estão a fazer à criança? Anda filho, anda prá cama! Graças a Deus consegui sair dali.

Hoje de manhã na praça, as bisbilhoteiras das vizinhas já andavam nos mexericos. Dona Alice conte lá à gente o que se passou! Umas diziam que tinha sido o irmão com uma pedra, outras com uma pistola do avô… uma velha lembra-se de dizer que a alma do irmão que morreu vai penar até conseguir levar o outro com ele! Parece que está parva a mulher! Oh senhora, tenha juízo e meta-se na sua vida!
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Pedro Farinha
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Postby Pedro Farinha » 03 Oct 2008 22:23

Maldita a hora em que me vim enfiar neste fim de mundo. Neste vão de escada do país. Neste quarto alugado com vista para a praça da vila enfeitada com dois plátanos e o café central onde os homens exibem as suas barrigas de cerveja na esplanada enquanto jogam dominó.

A culpa foi toda do Rui, já se sabe. Quando o Rui me deixou fiquei furiosa e decidi que estava farta de tudo. Da vida na cidade. Das idas ao Comercial e das noites passadas à porta das discotecas, pernas mal cobertas ao frio enquanto sorria para os porteiros para me deixarem entrar. Foi então que resolvi vir para aqui, para longe do Rui. E como o Sr. Simões era amigo do meu pai e me ofereceu um lugar de secretária aceitei.

Eu que nunca fora mais do que uma caixa de supermercado pareceu-me que isto de ser secretária era uma coisa fina. Imaginei-me com uma das minhas mini-saias de cortar a respiração, a cruzar a perna e a exibir os collants enquanto os clientes aguardavam num sofá estofado que o Sr. Simões os pudesse receber.
Nos meus sonhos o escritório seria elegante. Carpetes fofas que amortecessem o andar, plantas viçosas e quadros na parede. Mas saiu-me uma espelunca. Três por dois metros quadrados de contraplacado com calendários de raparigas com mamas maiores que as da minha prima Joana que já no preparatório impressionava os rapazes com as duas enormes protuberâncias que Deus lhe deu.

Por isso, foi mais para quebrar a monotonia que outra coisa que não recusei os avanços do António. Gajo bruto que fode como se fosse uma moto serra. Liga. Desliga. E só tem uma posição de funcionamento.

Nunca me preocupei que fosse casado. O problema era dele, eu sou solteira. Mas agora que o filho lhe morreu tenho tanta pena da D. Adozinda que morro de remorsos por lhe ter juntado à infelicidade um enorme par de cornos.

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Postby azert » 04 Oct 2008 00:44

O gato, lá, lá lá, sim, sim, foi o gato, lá lá lá, foi o gato que comeu, ai, ai ai, que comeu a minha língua!

Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer...
Um trevo! Quantas folhas tens? Uma, duas, três, quatro! É o meu dia de sorte! Vou a correr mostrá-lo aos gémeos.

Na escola, todos têm medo dos gémeos, menos eu. Eles entendem-me, mesmo sem falar.

Micas, compra-me uns sapatos, que estes já estão gastos, de tanto bailar, pa-ra-pa-pa-pa-pa-pa...

Já estou a vê-los! Estão lá em cima, no quarto, pendurados à janela. Não!! Luis, não!!! Tenho de correr mais depressa! Mais depressa, vá!

Rui!! Ruuuui!! RUUUUUUUUUIIIIII!
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urukai
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Postby urukai » 06 Oct 2008 12:12

<!--sizeo:2-->[size=85]<!--/sizeo--><!--fonto:Arial--><span style="font-family:Arial"><!--/fonto-->Huhnnnn, gemeu.

<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->Maldita angina. Maldita filha da puta de angina.

Os dedos trémulos abriram a caixinha rectangular que a mulher lhe dera há uns anos, quando o colesterol prometeu nunca mais deixá-lo, até que a morte os separasse. Desde essa altura que muitos outros remédios vieram habitar a pequena caixa. Naquele momento, precisava de um dos novos.

Tirou um pequeno comprimido branco. Um verdadeiro elixir da velhice, pois era através dele que continuava a viver, velho e gasto. Colocou-o debaixo da língua e comprimiu-a contra o chão da boca. Colocou as mãos sobre o lavatório e esperou.

A dor foi diminuindo e o coração acalmou-se. O crescente bem estar físico, obrigou-o a concentrar-se no que acontecera.

Maldita vida. Maldita filha da puta de vida.

O neto estava morto, lá fora. Ao vento e ao frio. E ele aqui, refugiado na casa de banho a blasfemar contra as paredes. A família precisava dele. A filha precisava dele. O outro neto precisava dele. Mas ele precisava de alguém. Sozinho, doente, cansado e fraco não conseguia nada. No entanto, ele era o homem da casa. Não havia mais ninguém a não ser ele. O imprestável que a filha escolhera nem para cão da casa servira. Não fora o respeito aos filhos que ele gerara e já o tinha desfeito em pancada, isto, se o seu maldito coração aguentasse.

Passou a cara por água. Aquilo seria o mais perto que teria de lágrimas. Há muito que tudo o que tinha dentro dele secara. Ficara apenas o sal que lhe gretava a face e pintava o cabelo de branco.

Ao longe ouviu o espanta-espíritos a rodar e a tilintar. Um lamento sofrido a relembrar-lhe a tragédia. Como se uma coisa daquelas precisasse de ser lembrada. Compôs o casaco e limpou a cara. Fechou a torneira. Escutou. Já não ouvia a filha a chorar mas sabia que a perdera, a ela e ao Rui, o seu neto. Um filho supera sempre a morte de uma mãe, mas uma mãe nunca superará a morte de um filho.

Abriu a porta da casa de banho e caminhou firme. As suas pernas os alicerces, o seu peito quatro paredes e a sua cabeça o telhado. Era preciso proteger a sua família. E ele tudo faria para a proteger. Nem que morresse a fazê-lo.

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Postby Nela » 07 Oct 2008 10:28

Ouço vozes lá em baixo. Nunca vozes em surdina me pareceram tão alto, tão longe, tão perto. O António chegou, senti-o entrar no quarto mas nem me virei para olhá-lo. O meu pai seguiu-o para fora. Certamente culpa-me de tudo... farto como andava dos meus lamentos ainda diz que... meu Deus que fiz eu para merecer tal castigo? O meu menino... o meu menino... e o outro.

Nesse momento deito instintivamente a mão ao livro de arte que tantas vezes me fez companhia enquanto o António não chegava e os gémeos me davam algum descanso. À falta de palavras para transmitir o que sinto sempre me concentrei nos quadros... falar para quê se ninguém ouve e mesmo que ouçam, quem escuta, quem atenta às palavras que digo? Ninguém repara em mim, ninguém me olha, sou invisível... o meu pai fechou-se na sua solidão depois da morte sofrida da minha mãe, os gémeos não me dão um minuto de descanso, não consigo arranjar trabalho e as vizinhas passam o tempo a comentar as idas e vindas do meu marido da casa da outra.

O meu marido. A outra. A outra chama-se Ana. Anita assim a chamam no stand. Anita para aqui, Anita para ali, sempre prestável na sua mini-saia mínima que mais parece um cinto! Tem ares de quem se acha importante mas não passa de uma galdéria. É isso que dizem por aí; quanto a mim sei-o, já o vi, já o cheirei. Sei-o porque por mais de uma vez fiquei à espera que saísse do seu quarto entre beijos e apalpões, sei-o porque o meu marido já nem disfarça o seu cheiro nas mãos, na boca, no cabelo. Sinto-o quando se chega ao pé de mim, quando entra na cama e impregna os lençóis com o perfume acre que usa há anos… vinho e Anita, em proporções diferentes mas sempre desafiantes. Afasto-me, esquivo-me ao toque, ao cheiro, à repulsa que sobre mim se abate. Refugio-me junto dos gémeos ou no sofá mais o meu livro.

Mas hoje é diferente. Hoje ele não traz esse cheiro, ou simplesmente o cheiro a morte é mais forte e faz-me esquecer tudo o resto. Hoje quero que me toque, que me abrace e não importa o cheiro que tem. Hoje não fugirei, não o rejeitarei. Se não me tocar perde-me para sempre e eu perco-me em mim. Que será do meu filho, do filho que me resta, daquele que sobreviveu ao irmão que não deixei nascer e ao que o acompanhou desde sempre? Que será do meu pai? Desta casa?

Oh mãe, depois do grito, a ansiedade e o desespero. Adivinhavas tu quando me ofereceste este livro e me disseste que na arte encontraria a minha vida? Adivinhava Munch quando os pintou? Olho o tríptico pela centésima, quem sabe milésima vez… Ansiedade-Grito-Desespero; fecho os olhos e choro. Vou secar as lágrimas, sei que as vou secar e cair no marasmo dos dias iguais às noites, das noites longas e frias no sofá a fugir às investidas ao António e à afronta do cheiro de outra mulher na minha cama.

As vozes continuam lá em baixo: o meu pai, a D. Alice, o António, a GNR. Falam do Rui e do Luís, da minha relação com o meu marido, da amante, do meu pai, da minha mãe, dos cães, do sangue… tanto sangue. Querem falar comigo e com o Luís. Vou ao quarto dos meus filhos e sem uma palavra tomo o que me restou pela mão. Por um momento não sei dizer se é o Rui ou o Luís ou se as suas caras se fundem agora na minha mente. A partir de agora este tem de valer por dois… Qual será o pior castigo: a morte ou a sua vida?
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Pedro Farinha
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Postby Pedro Farinha » 08 Oct 2008 09:09

O cansaço acumula-se nos meus ombros e cola-se-me à pele. A casa já acalmou e estou aqui sentado nos degraus do alpendre a fumar um cigarro enquanto os cães cirandam á minha volta e olham desconfiados para a mancha rosa marcada no chão que a lixívia não logrou lavar.

A Adozinda fechou-se no quarto após, estranhamente, não ter repudiado o meu abraço sentido. O vento quedou-se, imóvel, respeitando o luto que envolve a casa. Um silêncio respeitoso paira no ar e eu não sei o que faça. Se suba e me meta na cama se vá ter com a Anita que me viu sair esbaforido ou se espete uma bala nos cornos.

Subo a escada e vou espreitar o quarto dos meus filhos. Os dois mortos. Um na morgue do hospital e o outro morto em vida, apático, mudo e quieto. Vejo agora que tens os olhos abertos e que os lábios formam palavras inaudíveis.

Aproximo a orelha e a respiração dele sopra-me ao ouvido - eu não queria... eu não queria

Deito-me junto dele e a casa fecha-se sobre nós com o manto negro da noite insone.

A outra cama vazia grita a plenos pulmões.

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Postby azert » 08 Oct 2008 15:57

Que estranha esta inércia depois de ter sobrevoado o mundo em voo rasante. Quisera ter ficado em perpétuo movimento, sendo sempre o lugar para onde ia aquele que logo a seguir já deixara.
Em vez disso, este balouçar monótono, querendo embalar recordações, apagar o que me resta daquilo que fui.
Atenho-me àquele último instante em que levámos a cabo o supremo plano. Queríamos ser eternos, fazer ecoar um grito fulgurante todo feito de cadente movimento. Pretendíamos que fosse por fim inteligível a nossa voz de protesto, mal compreendida por todos. Mas a outra metade de mim não veio. Ficou presa, como eu, mas à vida.
Como aguentarás agora, incompleto, Luís, as dolências da mãe, a decrepitude do avô, a ausência culpada do pai?
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Postby urukai » 11 Oct 2008 19:39

Nunca fora mulher de parar para pensar nas coisas.
Ou melhor pensava em tudo, e muito, mas as mãos, as pernas, os sentidos esses tinham de estar ocupados com algum afazer quotidiano.
Tinha sido assim a vida toda. Esta última tragédia não ia mudar o que quer que fosse.
A água tépida infiltrava-se-lhe na epiderme e os dedos engelhavam-se. Combinavam não só com a parte de trás das velhas mãos, como também com os pés de galinha que se acumulavam no espaço entre as patilhas brancas e os olhos. Estaria a condizer se fosse a um baile de reformados. Sentia-se velha e gasta como a panela que esfregava.
No entanto, só havia um velório triste e negro onde as rugas dos velhos contrastariam com a pele jovem e translúcida do morto.
Olhou para trás, Luísa estava sentada à mesa. Imóvel e muda. A rapariga talvez nunca mais recuperasse do que acontecera.
Parou por momentos de esfregar e a tristeza abordou-a imediatamente. A filha perturbada, a morte do marido, uma vida de trabalho. Tudo lhe pesava nas lágrimas que queria soltar.
Retomou a esfrega. Mais uns riscos na panela que perdera a cor há tanto tempo que possivelmente nem ela saberia de de que cor tinha sido.
O reiniciar do trabalho devolveu-lhe o autocontrolo. Pôs-se a pensar no que devia de levar vestido ao velório e esqueceu o resto.

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Postby Nela » 14 Oct 2008 09:23

Esta noite não veio ter comigo. Fui lá a casa como colega de trabalho a prestar solidariedade e o sogro despachou-me:
- Não achas que já fizeste mal suficiente a esta casa? Sonsa, sai, vai-te embora! Gente da tua laia devia estar é num bordel! Põe-te na rua! Já!

Só faltou correr-me ao pontapé, o cabrão do velho! Chegou mesmo a ameaçar-me, punho em riste. Velho caquéctico! Deve pensar que o genrozinho é algum menino inocente e eu a puta descarada que o desencaminhou!

Saí desenfreada e dei de caras com a vizinha lá do lado. Essa não era das piores, acho mesmo que compreendia a minha necessidade pelo calor de um homem, ainda que esse homem fosse o António:
- Rapariga que estás aqui a fazer? Olha que não é a altura... aquela mulher acabou de perder o filho, andares a ver-lhe do homem é demais para ela. Vai lá para casa antes que haja outra tragédia.

Nem lhe respondi. Pego num cigarro. Que merda, tenho um fio puxado na saia! Foda-se, que merda de dia!
Fui para casa e pus-me à janela à espera. Podia ser que ainda viesse cá. Vi-o abraçar a mulher e invejei-a. Ele nunca me abraçou assim. O que é que aquele gajo quer comigo? Será que alguma vez a vai deixar? Agora é que ela o agarrou mesmo. Terá sido uma jogada? Não, não pode ser. Ela é demasiado burra p'ra isso.
A GNR saiu de lá pelas 11 horas. Será que ele passa por cá? Tenho o coração a querer-me saltar do peito. Como é que aquele idiota me deixa assim?

António apareceu:
- Olha lá ó minha cabra tinhas alguma coisa que ir bater-me à porta? – os olhos vermelhos da raiva e do whisky – Sua estúpida não sabes o que aconteceu? Foda-se, tanta merda de gaja no mundo e tinha logo de dar de caras com esta!
- Seu merdas! Mas quem é que tu pensas que és para me tratares assim? Lá por te abrir as pernas não sou mais puta que a tua mulher!
- Cala-te! Tu cala-te! – berrava, os olhos esbugalhados.
Nisto o cabrão puxa a mão atrás e ferra-a na minha cara. Deito a mão à cara, sangue escorre-me do nariz. Como é que ele teve a lata para me fazer aquilo? Berro-lhe eu:
- Vai-te embora, sai, corre para a tua mulherzinha! Não te quero mais ver à frente! Pobres crianças para terem um pai como tu! Se calhar está melhor morto mesmo! Filho da puta, sai!

Espantado com a minha reacção, o António fica feito parvo a olhar para mim. Depois vira as costas e sai.
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Pedro Farinha
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Postby Pedro Farinha » 16 Oct 2008 10:22

Para a frente... para trás... para a frente... para trás... para a frente... para trás

Não mãe, não me digas para parar, deixa-me estar aqui a balouçar na ponta da cadeira com os joelhos bem chegados ao peito. Para a frente... para trás... não te quero ouvir mãe, eu não digo nada ... para a frente... para trás, tira-me a mão do ombro ou eu berro... para a frente... sim a Luísa viu... para trás... sim a Luísa não diz nada.

Cala-te não te quero ouvir. Não quero ouvir nada. la la la não estou a ouvir-te la la la pim pam pum cada bola mata um... a Luísa olhou a Luísa viu, o gémeo foi p'ra puta que o pariu. Anani ananão quem o empurrou foi o irmão.

Para a frente... para trás... para a frente... para trás

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azert
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Postby azert » 17 Oct 2008 00:06

Deus, Maria Deus! Nunca precisei de saber o céu habitado, porque te tinha comigo na terra. Mas agora... António ergueu a cabeça contra o peso dos anos e entrou primeiro no quarto da filha. Dormia. Ou pelo menos, queria fazer crer que sim. Passou-lhe a mão levemente pelos cabelos, gesto esquecido nos fundos da memória, de quando a mulher ainda era viva e a filha ainda não tinha sangrado de entre as pernas.

O tempo complica tudo. Mas também sara, minha filha, também sara. Tens aqui o meu peito, contra o qual podes desfiar lamentos, tens aqui os meus braços, ainda com força para te abraçarem.

A seguir, António entrou no quarto dos gémeos, agora com uma cama em excesso. Ele sabia das escapadelas do genro, a filha sabia, a vizinhança sabia, porque não haveriam de saber também os netos? A António não lhe tinham passado desapercebidas as tardes inteiras fechados nos quartos, a insolência com que respondiam ao pai e o desprezo com que tratavam a mãe. Para eles, todos os problemas tinham solução fácil, não compreendiam que os mais velhos se deixassem enredar neles indefinidamente.

Devia ter falado convosco. Não, devia ter-vos escutado. Mas é tarde. É sempre tarde.

Incapaz de tocar no neto ainda vivo, fechou a porta do quarto e desceu até à sala, onde o genro estava novamente, procurando refúgio no fundo de um copo. Os dois homens olham-se demoradamente, um consciente de que o outro tinha acabado de escorraçar a amante; este, esperançado em que ainda houvesse remédio, em que o sogro não lhe cuspisse na cara, já que a filha dele não lhe tinha recusado o abraço.
O mais velho, contra o hábito e conselho do médico, serve-se de uma bebida. Quer com essa cumplicidade líquida mostrar que está disposto a tentar remendar as coisas, tanto quanto fôr ainda possível; que está disposto a esquecer que nem ele nem a sua Deus tinham nunca gostado daquele genro, que se tinham sempre oposto ao casamento e que esperaram a todo o momento vêr as acções dele confirmarem as suas hostilidades. Acabar-se-iam os comentários entre dentes, acabar-se-iam os amuos.

Já é altura. Amanhã...
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