Desafio de escrita: "Lotaria"

Aberto a todos, quer para colocação de propostas, quer para participação nas mesmas. Atenção: ler regulamento antes de participar.
User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby azert » 18 Oct 2008 18:50

<!--coloro:#808080--><!--/coloro-->(Depois de umas poucas de tentativas de escrever um texto, sem grande sucesso, parece que é desta.)
<!--colorc-->
<!--/colorc-->
Chegou um dia em que Sebastião decidiu alargar os limites de sua casa até quase o infinito. Passou a ter cama dura e a não ter onde pendurar fosse o que fosse, por falta de paredes. As despesas de iluminação e aquecimento passaram a ficar por conta do universo, as de alimentação, da generosidade alheia.
Por ter aumentado exponencialmente o número de vizinhos, sentia-se à vontade para abordar qualquer um deles, como fez comigo no dia em que fui à Clínica confirmar o recheio do ventre. Era Agosto e tocou-me com o dedo nas costas, assegurando-me que não devia temer o seu aspecto andrajoso. Pedia uma moeda. Em troca, amealhava versos.
Durante anos, Sebastião não forneceu aos correios um endereço onde pudessem entregar-lhe a correspondência, vivia à solta por aí. Certa noite, passava em frente a um quiosque quando reparou num papel no chão. Precisado de suporte para versejar, recolheu-o, como era seu costume. Ao examiná-lo para averiguar se se prestava à sua necessidade, percebeu que se tratava de um bilhete da lotaria instantânea. Alguém sequioso de informação devia tê-lo deixado cair de entre molhos de revistas ou jornais. Sentiu curiosidade em ver até onde o destino, que o tinha feito deparar com a lotaria, estava disposto a ir. Raspou o bilhete com a unha grossa e suja e descobriu que o destino estava disposto a ir até ao fim. Guardou a raspadinha no bolso e, nessa noite, os seus pensamentos rodaram em torno dos caminhos que escolhemos para andar e aqueles por onde a mão caprichosa do acaso nos quer levar.
No dia seguinte, os passos de Sebastião sabiam onde deveriam levá-lo. Foi ao quiosque entregar a lotaria e reclamar o prémio. Para recebê-lo, pôs, contudo, uma condição: queria-o em notas pequenas.
Já de posse da sua modesta fortuna, Sebastião sentou-se na paragem de autocarro onde era frequente encontrá-lo e sacou de um toco de lápis. Trabalhou com afinco durante todo o dia e ainda parte do seguinte. Chegada a hora de ponta, começou a distribuir a sua poesia pelos transeuntes, feliz por ter inesperadamente tantas notas onde escrever.

P.S. Foi verdade que existiu um Sebastião em Braga que me tocou naquela altura e daquela forma no ombro e que, sem casa por opção, enriquecia com cada verso. Esta é a minha moeda.
Image Image

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Pedro Farinha » 18 Oct 2008 22:17

Muito bonita a história. :thumbsup:

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby azert » 19 Oct 2008 18:13

Obrigada, Pedro. :smile:
Image Image

Mad_1_wolf
Panfleto
Posts: 11
Joined: 05 Feb 2009 17:35
Location: Bragança / Porto
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Mad_1_wolf » 07 Feb 2009 19:59

Muito bom mesmo :thumbsup:

Gostei do final, inocente e honesto.

Estou agora a cozinhar o meu conto :laugh:

Vamos ver se hoje sai :rolleyes:

User avatar
pco69
Cópia & Cola
Posts: 5488
Joined: 29 Apr 2005 23:13
Location: Fernão Ferro
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby pco69 » 23 May 2009 10:44

Sempre que tinha que escolher um novo, desatinava.
Era sempre uma lotaria.
Foi com o marido, que já vira melhores dias, a uma loja da especialidade.
Olhava para as prateleiras, onde em exibição, havia aparelhos estranhos e de formas estranhas, uns comridos, outros grossos, mas que ela nunca conseguiria adivinhar para que serviriam.
Ouvia a vendedora a demonstrar as várias capacidades dos aparelhos.
Uns serviam umas necessidades, outros serviam para outras.
O marido, que estava já na curva descendente, só lhe dizia para escolher o maior.
A vendedora, com ar malandro, dizia-lhe para levar o mais caro, porque satisfazia-lhe todas as necessidades.
Ela, hesitava!
Já tivera dois, e ficara surpresa por lhe darem tanta satisfação. Mas com o uso intensivo acabaram por se queimar.
Acabou por ignorar os conselhos deles os dois e escolheu o que vibrava mais.

Assim como assim, estava a ficar cada vez mais surda e dessa forma sempre atendia quando os filhos ligassem...
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Pedro Farinha » 23 May 2009 12:29

Muito giro pco69, levaste-me ao engano até ao fim :thumbsup:

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby azert » 23 May 2009 13:58

:mrgreen4nw: He he
Image Image

User avatar
Titantropo
Livro de Bolso
Posts: 229
Joined: 26 Dec 2008 12:17
Location: Vale da Pedra
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Titantropo » 23 May 2009 15:04

Estava-se mesmo a ver que ia sair exactamente o oposto do que ele queria fazer pensar. :smile:

User avatar
pco69
Cópia & Cola
Posts: 5488
Joined: 29 Apr 2005 23:13
Location: Fernão Ferro
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby pco69 » 25 May 2009 21:05

vejo-te
estas aí,
na cama
nua
à espera....
observo-te da porta
lentamente, olhas para mim
sorris
eu olho para o teu lado
ela está lá
nua como tu
ela também sorri
um sorriso um pouco envergonhado
fico sem saber como reagir
eu sei que fui eu quem te incentivou
mas agora não sei bem o que fazer
tu levantas-te da cama e aproximas-te
colocas a mão entre as minhas pernas
acaricias lentamente
e de repente não tenho mais dúvidas
- Quero as duas daqui para fora! - Digo em voz baixa
Baixas a cabeça, viras-te e ambas começam a vestir-se
Saiem as duas um pouco cabisbaixas
Vou até à sala, onde o Rodrigo me espera
Nu.
Com uma cerveja na mão e a sua virilidade em pé
À minha espera
O amor é uma lotaria, onde às vezes nos sai a sorte grande....
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

User avatar
pco69
Cópia & Cola
Posts: 5488
Joined: 29 Apr 2005 23:13
Location: Fernão Ferro
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby pco69 » 03 Sep 2009 14:45

Há muito tempo que não me divertia tanto. Foi uma coisa engraçada, que a Julia tenha passado por minha casa o fim de tanto tempo sem nos falarmos. Isso tirou-me da modorra em que vegetei nestes, reconheço agora, cinco anos.

Mas ainda bem que assim foi. Depois do divorcio, a minha vida tinha-se tornado um bocado vazia. Sem o Tó lá por casa, eu fiquei uns tempos sem saber o que fazer. E devo reconhecer, que também fiquei com alguma falta de sexo. Quer dizer...ele tambem já não produzia muito, mas ainda dava para ir descarregando algumas tensões acumuladas.

Mas voltemos à Julia. Aquela rapariga era um demónio. Já nos nossos tempos de faculdade ela conseguia sempre retirar-me da casa dos meus pais e levar-me para aquelas cenas....como dizer? Menos edificantes?

Mas pronto. Assumindo a verdade perante mim mesma, eu gostava! Quer dizer. Dizia sempre que não! Não queria! Não gostava de ir para a cama com desconhecidos! Mas isso era só da boca para fora. E ela sabia. Se não sabia, não ligava! E lá me arrastava. E embora de má cara, lá no intimo eu exultava. E eles sabiam. Assim que entravamos naquele bar, eles sabiam perfeitamente ao que vinhamos. Tanto ela como eu deveriamos estar a emitir feromonas de sexo, como cadelas em cio.

Mas voltemos à Julia. Fiquei admirada de a ver ao fim daqueles anos todos que estivemos sem nos falar. Bem vistas as coisas, foram os anos que eu estive casada com o Tó. Ela não veio ao nosso casamento e nunca nos visitou. Aliás, creio que desde o dia em que disse que me ia casar com ele e ela saiu do café com um ar desesperado, que nunca mais nos falámos. Pensei que estivesse desesperada por deixar de ter companhia para aquelas orgias que ela gostava tanto! Bom....eu tambem!

Mas ontem à noite percebi finalmente a razão do seu desespero. Quem diria, entre tanta lotaria de homens na sua vida, que ela estava apaixonada por mim?

Há muito tempo que não me divertia tanto!
Desatei-me a rir quando ela declarou o seu amor por mim!
Continuei a rir, mesmo quando ela saiu, novamente desesperada, de minha casa....

Creio que esta noite vou sair.
Será que aquele bar especial ainda estará aberto?
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Samwise » 03 Sep 2009 14:53

:lol2: Está com piada.

Não sei é que é que faz neste desafio. :tongue:

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Pedro Farinha » 04 Sep 2009 09:11

Samwise wrote::lol2: Está com piada.

Não sei é que é que faz neste desafio. :tongue:

Sam


Esta parte talvez te responda:

Quem diria, entre tanta lotaria de homens na sua vida, que ela estava apaixonada por mim?



Quanto ao texto, à boa maneira do pco, está bem apanhado.

User avatar
Arsénio Mata
Livro Raro
Posts: 1773
Joined: 01 Oct 2009 20:41
Location: Portimão
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Arsénio Mata » 25 Jan 2010 03:07

Euromilhões



Quando eu morri, eu ainda era muito novo, percebes? Não sei bem que idade tinha, mas ainda era muito novo. Eu sei isto porque os grandes me diziam: não digas isso. É feio. Eu sei isto porque eles me diziam: ainda não tens idade para perceber.

Quando eu morri já ia à escola. Eu lembro-me, eu era gozado pelos outros meninos, oh, eles gozavam tanto comigo. Eles diziam: olha tu és pobre e tens piolhos. Eles diziam: olha a tua roupa é tão grande. Eles diziam: olha tu cheiras mal e és sujo. Alguns meninos batiam-me também, só porque lhes apetecia. Olha, quando eu morri eu ainda não percebia porque que eles faziam isto e ainda não percebo. Mas havia uma menina que era mais simpática, mais amiga. Eu gostava muito dela, porque ela me dava coisas. Às vezes dava-me bolos. Outras dava-me gomas daquelas com muito açúcar, que deixam a boca a saber mal, sabes? Uma vez até me deu um pião que já não usava. Foi o único brinquedo que eu tive antes de morrer. Na altura eu nem sabia o que era morrer.

Nós eramos muito pobres, eu e os meus pais e os meus irmãos. Sabes, eu tinha seis irmãos, e só um é que já trabalhava. Era o mais velho, o Romeu, ele tinha 15, acho eu. Nós viviamos num sitio onde as pessoas todas também eram muito pobres, e as casas eram todas muito velhas. Não podíamos brincar à porta de casa. A mãe dizia: não saias de casa Luciano, espera pela mãe. A mãe dizia: cuidado com os senhores que estão naquela porta, eles são maus.
Eu gostava muito da mãe, ela era muito boa para nós. Ela tinha muita paciência. Ela dizia sempre: estes rapazes um dia ainda me vão matar. Mas dizia isto a rir-se e nós riamos também. Ela dizia: portem-se bem na escola. E ela já sabia que nós não íamos portar. O Romeu ele já não ia à escola, só trabalhava. Ele dava algum dinheiro a mãe e o resto dava aos senhores maus que estavam na porta daquele prédio. Eles davam-lhe uma coisa castanha. Quando a mãe encontrava essa coisa castanha no quarto do Romeu havia sempre gritos em casa. A mãe dizia: outra vez metido na merda romeu? E chorava a seguir. Chorava muito. O pai só gritava: seu drogado de merda, sai já da minha casa, põe-te daqui para fora. E o Romeu gritava: e tu seu bêbado, e a tua cerveja? E depois saia de casa e batia com a porta. E na semana a seguir voltava, com cervejas e um frango. Ou uma garrafa de vinho e umas costeletas. Eles gritavam sempre palavras que eu não sabia o que queriam dizer como: merda bêbado drogado puta cabrão. Quando eu perguntava a professora na escola o que estas palavras queriam dizer ela dizia: isso não se diz Luciano.

O meu pai, ele bebia muito vinho e muita cerveja. Ele ficava estranho quando bebia muito estas coisas. Ele bebia tanto todos os dias porque não tinha emprego. Outra palavra que eu não conhecia. Mas eu acho, quer dizer, deve ser uma palavra má porque o meu pai chorava sempre quando dizia: eu não tenho emprego. E eu via a minha mãe com os olhos molhados e dizer: não faz mal homem a gente safa-se. E o meu pai bebia mais. Ele dizia: um dia ainda hei-de ser rico.
Nós eramos sete irmãos, já te disse. Eu nasci num dia 5. O Romeu, ele nasceu a 26. O Alexandre nasceu a 31. O Afonso nasceu a 8. O Roberto nasceu a 14. O Carlos nasceu a 23. O José nasceu a 2. O meu pai dizia muitas vezes: oh, vocês são a minha sorte. Ele dizia isto quando nós estávamos tristes porque era natal e não havia prendas. Ele dizia isto quando tínhamos fome. Ele dizia: oh, vocês são a minha sorte. Ele preenchia, sempre às quintas, um papel e dizia: leva ali ao senhor Jacinto este papel. E dava-me o papel e uma moeda. O senhor Jacinto era o dono da papelaria lá do bairro. Eu dizia: porquê eu papá? Ele respondia sempre: porque tu és a minha estrelinha. E riamos. Eu gostava muito do papá. Mas eu sabia. Não era por eu ser a sua estrelinha. Era porque uma vez, na papelaria, eu perguntei se pudia ser eu a pagar ao senhor jacinto. O papá respondeu: paga lá campeão. E depois, dois dias depois o papá foi ao senhor jacinto e ele deu-lhe uma nota. Depois fomos à mercearia do senhor João e o pai pode comprar vinho da garrafa em vez do de pacote. O pai só fazia isto quando havia mais comida. A partir desse dia fui sempre eu que fui ao senhor Jacinto dar o papel e a moeda.

Antes de eu morrer, eu vi uma vez o Romeu a brincar no quarto. Eu pensei: os meninos grandes não brincam. Mas ele estava a brincar. Ele tinha: uma colher, metade de um limão, um isqueiro. Eu pensei: olha o Romeu está a brincar as meninas. Ele tinha a coisa castanha também. Eu fiz pouco barulho. Oh, eu era pequenino mas agora eu percebia porque é que a mãe e o pai ficavam zangados sempre que encontravam a coisa castanha. O Romeu brincava às meninas. Os pais não queriam um menino tão grande a brincar às meninas. Eu vi tudo o que o Romeu fez: ele pegou na colher e aqueceu lá a coisa castanha. Depois espremeu o limão para dentro da colher. Depois ele pegou numa pica. Eu ainda não tinha visto a pica, mas ele tinha lá. Eu nunca tinha visto a mãe com uma pica na cozinha, mas às vezes eu ia ao médico e ele dava-me picas. Depois o Romeu pôs a pica na colher e a pica encheu-se. Depois o Romeu tinha lá um elástico muito grande, e pôs à volta do braço. Depois o Romeu deu a pica a ele mesmo. E ele ficou muito feliz. Ele parecia muito feliz.

Lembras-te da menina que eu te falei? Ela foi a minha única amiga antes de eu morrer. Ela deu-me um pião, que eu gostei e brinquei muito. Eu gostava muito dela e queria também dar-lhe uma prenda. Eu fui ter com ela e disse: olha sei uma brincadeira muita fixe. Ela riu-se para mim e disse: qual é? Eu disse: oh, é surpresa. E ela disse: vá lá diz lá. E eu disse: tens notas? precisamos de notas. Eu já sabia que os senhores maus só queriam notas. Eu segui o Romeu uma vez e vi ele a pedir e a chorar com moedas e eles não lhe deram a coisa castanha. Ele deram um pontapé ao Romeu e disseram: vai-te embora drogado de merda.
Mas sabes o que eu pensei? Eu pensei: se for a menina a dar a nota não sou eu que lhe estou a dar nada. Então eu perguntei-lhe: queres trocar uma moeda por uma nota? Ela sorriu e disse: sim. Eu disse: então sexta-feira vamos brincar. Eu tirei de casa uma colher. Eu roubei um limão da mercearia do senhor João. E na quinta-feira eu não dei nem a moeda nem o papel ao senhor Jacinto.
Na sexta-feira fui ter com a menina e ela tinha a nota. Fugimos da escola e fomos a minha rua. Eu fui ter com os homens maus e perguntei: dão-me a coisa castanha? Eu mostrei a nota. Eles olharam e riram-se. Eles olharam e disseram: olha lá o romeu já manda o irmãozinho mais novo comprar-lhe a droga. Eles disseram: pega lá caralho. Eu agarrei naquilo e eu e a menina fugimos. Fomos para detrás dumas árvores. Eu ensinei-lhe a brincar. Ela parecia muito entusiasmada. Eu tinha roubado um isqueiro lá em casa e comecei a queimar a colher. A coisa castanha borbulhava na colher. Eu tinha roubado a pica do meu irmão. Eu sabia que quando ele soubesses ia haver problemas, mas agora não fazia mal. Eu queria mesmo que a menina visse como aquilo era divertido. Eu cortei o limão e peguei na pica. Carreguei na parte de cima e vi a coisa castanha toda a subir para lá para dentro. Depois eu pedi o braço a menina. Ela disse: tenho medo de picas. Eu disse: ah, mas esta é das boas vais ver o meu irmão gostou tanto. Ela sorriu e estendeu o braço. Eu dei-lhe a pica e ela não ficou muito feliz como o meu irmão, ela estava a ficar vermelha e com os olhos muito abertos. Oh, ela começou a tremer e a cuspir-se da boca e eu pensei: oh, esqueci-me do elástico. Mas eu também pensei: oh, eu fiz asneira. E fugi dali e não contei a ninguém.
À noite eu estava com tanto medo, porque eu não sabia o que tinha acontecido à menina, mas tinha medo de contar a alguém, ou que descobrissem que eu fiz mal a ela. Eu só queria que ela gostasse tanto da brincadeira como o Romeu. Na televisão uma senhora dizia os números.

26

e o pai disse: olha um já está.

2

olha outro, anda ver maria

31

três, já temos três números

14
quatro números! já estamos ricos maria, ricos!

23

os cinco, acertei nos cinco!

8

uma estrela, já só falta uma estrela!

5

é a tua miguel, é a tua estrela. onde está o papel?

Eu vi o pai, e não sabia o que dizer e disse que não sabia, menti e o pai berrou e berrou mais e mais e eu estava a chorar e ele partia coisas em casa e a minha mãe também chorava e os meus irmãos gritavam e diziam larga-o e ele estava mesmo a magoar-me e eu olhei para os olhos do meu pai e vi tudo vermelho e nessa altura eu vi o que era estar bêbado. Mas já não vi mais nada.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Samwise » 25 Jan 2010 12:33

Gostei da abordagem, Arsénio, está muito fixe. Até da linguagem menos elaborada que colocaste propositadamente na boca do menino.

Apesar de ser miserabilista e trágico na sua essência, não sei porquê mas dei por mim a rir... :blink:
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
Arsénio Mata
Livro Raro
Posts: 1773
Joined: 01 Oct 2009 20:41
Location: Portimão
Contact:

Re: Desafio de escrita: "Lotaria"

Postby Arsénio Mata » 25 Jan 2010 18:13

Samwise wrote:Gostei da abordagem, Arsénio, está muito fixe. Até da linguagem menos elaborada que colocaste propositadamente na boca do menino.

Apesar de ser miserabilista e trágico na sua essência, não sei porquê mas dei por mim a rir... :blink:

Obrigado. :)
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/


Return to “Desafios BBdE”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 30 guests

cron