Desafio: Loucura

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Anansi1976
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Re: Desafio: Loucura

Postby Anansi1976 » 26 Jan 2010 12:56

Arsénio Mata wrote:
Anansi1976 wrote:
A intenção é deixar tudo em suspenso e deixar o leitor imaginar o resto.

A imaginação é usada quando se lê e quando fica um espaço em branco.

Como na música o silêncio e a pausa também são música, estão escritos na partitura. É aquele momento mais curo ou longo que nos deixa em suspenso para depois dar lugar à explosão de palmas ou assobios.

Sim, eu percebo isso, mas achei que este texto deixava demasiado em aberto. Tirando isso gostei bastante. ;)



Obrigado :blush:
Aquele que não tem memória arranja uma de papel
Gabriel Garcia Marquez

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Marisa
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Re: Desafio: Loucura

Postby Marisa » 26 Mar 2010 11:42

Sento-me no banco sem saber porquê.
Olho o mar em frente, vejo as ondas que desenham as rochas, e as gaivotas que nelas poisam à espera de um novo salpico de água salgada, água viajada, água com vida, sonhos, esperanças e morte. E as gaivotas bebem, ficam ali e bebem, como se cada gota que nelas entra, lhes trouxesse tudo aquilo que não tiveram.
Olho para o banco onde estou sentada e ele está velho. Tem a madeira sem cor e o ferro laranja de ferrugem. Faltam-lhe lascas que alguém levou. Tem letras recortadas, fragmentos de palavras que alguém quis que fossem eternas, mas já não são, não se vêm, foram perdidas.
Olho em frente e vejo o prédio onde morei um dia, é cinzento e não tem vida. Agora já não mora lá ninguém, morava eu mas não o quis. Naquela varanda com os cantos partidos e o chão rachado pelo peso contínuo da idade, fui feliz, ri e sonhei, sentada olhando as estrelas que brilhavam longe de mim. Naquele chão fui louca.
Olho em frente e vejo o jardim onde me fizeste juras de amor, mas não te preocupes, eu sabia que não as ias cumprir, por isso estou hoje neste banco. O jardim está velho, como eu e tu, as árvores estão despidas, feias e quando olho para elas, sinto-me assim, despida e feia. Vejo a minha alma, translúcida, fraca e lenta a esvoaçar por cima das árvores que um dia me deram sombra.
Chamaste-me louca, mas louco és tu que não vês. Louco és tu que teimas em colocar borboletas coloridas nas árvores despidas, brilho num banco velho, flores numa varanda partida e gaivotas felizes numas rochas gastas.
Agora não precisas mais de me mentir, não precisas de me chamar louca, agora, estou neste banco e posso ver o mundo sem que ninguém me veja a mim, posso sentar-me num banco ocupado que ninguém dará por mim.
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe." Oscar Wilde

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Marisa
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Re: Desafio: Loucura

Postby Marisa » 26 Mar 2010 11:43

Oiço a porta a fechar e o mundo fica silencioso, o vento pára, o ruído pára e sou só eu, eu e o meu carro.
Não quero ouvir o que dizes, cala-te, agora sou só eu.
Carrego na embraiagem com toda a força que tenho, o pedal encosta e meto a mudança em ponto morto. - Como tu, morta. - Já te disse, cala-te, agora não te quero ouvir.
Rodo a chave, ávida por ouvir o motor a trabalhar, ávida por ter controlo de uma coisa, o meu carro.
Ligo as luzes e não meto cinto, hoje não vou precisar.
Está na hora mas tu voltas a falar, ligo o rádio e meto o som no máximo. Não ouço a música, só me oiço a mim e ao meu carro.
Respiro fundo, sinto o meu coração bater, a mudança salta para a primeira, acelero lentamente, como se me estivesse a preparar. Tiro o pé bruscamente da embraiagem e sinto o meu corpo embater no banco. Agarro o volante com mais força, sinto os nós dos dedos ficarem rijos, a mão adapta-se à pele gasta do volante, enquanto que a outra mão procura a manete das mudanças e agarra-se a ela, dedos crispados, nervosos, preparados.
Bato com força na embraiagem, não quero saber, passo para uma segunda. Não quero saber de gentilezas. Carrego no acelerador, com força, o carro queixa-se, também não quero saber.
-Também nunca quiseste saber de nada. - Cala-te, agora não te quero ouvir, não mais.
Embraiagem, terceira, acelerador.
Embraiagem, quarta, acelerador.
Seis mil rotações.
Embraiagem, quinta, acelerador.
Quando entro na curva, o carro quer fugir, não deixo, acelero mais. -Devias deixar de acelerar tanto, dizes. - Deixa-me, não quero saber.
Olho para a frente e só vejo rectas.
Olho para a frente e só vejo água, lágrimas que me correm pela face. Não tinha reparado que estava a chorar. Mas estou e a culpa é tua.
Embraiagem, quarta, acelerador.
Embraiagem, quinta, acelerador.
O carro já não me consegue acompanhar, já não aguenta mais.
Não faz mal, já quase que não vejo a estrada.
Desligo o rádio, abro a janela até baixo. Sinto o vento bater-me na cara, com força, dói.
-Porque fazes isto? Pára o carro.
- Não te vou ouvir, já te disse. Acabou.
Faço mais pressão no acelerador, mesmo sabendo que não vai adiantar.
Fecho a mão com força e rodo o volante para a esquerda, rodo bruscamente como se fosse um brinquedo do parque de diversões. O carro vira, obedece-me como sempre fez. Vejo os separadores aproximarem-se. Uma parede de betão que me espera. Olho em frente, não vou desviar, espero, está quase. O carro bate, esqueceu a gentileza, bate com força, esmaga-se contra a parede, eu olho e vejo o vidro, vejo-o a aproximar-se e preparo-me. O meu corpo já foi impulsionado e eu já passei pelo vidro. Não sinto nada. Vejo a estrada e depois já não vejo mais nada.
Chega, eu disse-te, já não te ia mais ouvir. Chega. Não quero vozes a gritar comigo na minha própria cabeça. Quero silêncio. Chega. Eu avisei-te.
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe." Oscar Wilde

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Sharky
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Re: Desafio: Loucura

Postby Sharky » 19 Oct 2011 21:29

Silêncio, ponto morto.

Debaixo de água fecho os olhos e visito-me no passado, triste e só com problemas de estado psíquico, vejo coisas que ninguém vê. Levo uma chapada e calo-me bem sentado à mesa.
O jardim parece recheado de paus em pé com diversões diversas. O tipo de óculos que sou eu, investe nas caricas por onde já passaram mãos imensas de tudo e de nada, padrões abstractos.
No singular ou no plural, diz-me; Achas que o translúcido do meu ser reflecte o que aparento?; a resposta é uma simbólica sinfonia do que poderia ser se não fosses tu.
Excitado com o chá, dou um arroto. Escusado lembrar que levei outra lambada por falta de respeito à minha disposição dançarina, própria do meu interior. A voz falou depois em tom de me tranquilizar a vontade de rebeldia. Na parte que me toca, não tenho outras maneiras senão apontar o fenómeno erecto na posição de pianista.
Queimo o jornal de forma a obter um pouco de calor, partilhas o espaço mas atiras-me uma asneira aos ouvidos, rosas brancas não se aplicam ao local nem circunstância, o lodo que te abunda o chão é mais que muito.

Venho à superfície e respiro.

Só vejo aquilo a que chamam, Escumalha. Aos dois e três de uma vez, aproveitam-se do porquinho fraco como podem à velocidade da luz. A dor já não me compromete pois aprendi a cuidar de mim entre as frias paredes, confesso que quem não distingue o bem do mal, é o mais puritano de todos aqueles que abundam pelos corredores e quartos que me envolvem. Mas quem se ri sou eu, o famoso- Bus Driver- com sotaque americano como só eles me sabem chamar, os verdadeiros puritanos cá do sítio com as suas vestes brancas e cacete na mão. Uns quaisquer dentes de leite com gengivas opacas em busca do bem estar na área bocal do espaço pretendido, de modo refrescante, pois claro.
Mais umas substâncias medicamentosas me são entregues com um copito de água a acompanhar, que nem um copo de extracção de esperma à disposição da menina de bata com penteado à Cleópatra, velha e sem sal.
Eu sou um daqueles que está muito abaixo da média do cidadão comum, faltam-me os gulosos conguitos da sabedoria já devorados à nascença. Eu chamo-lhe, modo " rotativo " da coisa, qual nem me lembro do nome de tão pouca questão que faço, ou esforço mental inexistente.
O sucesso é meu e o percurso só piora, a idade avança nesta pequena peça de relógio que é o mundo, espaço claustrofóbico com raízes fixas na mente universal.


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