Desafio: Loucura

Aberto a todos, quer para colocação de propostas, quer para participação nas mesmas. Atenção: ler regulamento antes de participar.
Pedro Farinha
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Desafio: Loucura

Postby Pedro Farinha » 04 Nov 2008 11:52

Para não deixar morrer esta boa ideia do Sam, e esperando que aumente a participação neste tipo de desafios (sim porque por exemplo nos contos houve mais gente que apareceu e mostrou os seus dotes), deixo aqui um novo desafio - Loucura.

O tema central será a loucura sendo certo que a loucura pode dar para muitos lados (a mim deu-me para participar neste fórum). Como é certo que de médico e louco todos temos um pouco, espero que cada um venha aqui a mostrar a "sua" loucura

:pubbbde:

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Re: Desafio: Loucura

Postby Thanatos » 04 Nov 2008 12:07

Como sou muita preguiçoso fui repescar um velho texto daqueles que andam escondidos... e aqui também vai passar despercebido, portanto maior mal não virá ao mundo. Usei vernáculo e algumas situações podem ofender certos espíritos mas como o desafio é mesmo loucura (se bem que esta seja mesmo uma obsessão, a irmã mais nova dela) certamente não fica a destoar.

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Diz-me, dói muito quando eu faço isto?

Ele amava-a. Sim. Amava-a para além de toda a compreensão. Amava-a tanto que até doía pensar que ela o pudesse rejeitar. Ou olhar para outro homem. Ele queria-a só para ele. Queria ouvir a voz dela todas as manhãs, saber que ela sonhara com ele, que queria saber dele. Queria que ela lhe falasse dos planos futuros. Da casa que iam ter e dos filhos que iam educar. Assim seria perfeito. Um mundo perfeito. Sem lugar para dor ou traições ou enganos ou pequenas mentiras. Era por isso que ele seguia agora atrás dela, mantendo uma distância respeitável, tentando passar o mais inconspícuo possível. Em breve iria falar-lhe do seu amor. Aquele amor enorme que preenchia todo o vácuo da existência informe dele. Mas isso seria mais logo. Agora tinha de a seguir. Conhecê-la um pouco melhor. Não convinha dar-se já a conhecer. Anteriormente tentara essa abordagem e nunca fora bem sucedido. Por breves momentos pensou nas outras... também as tinha amado. Mas tinha sido diferente. Que género de amor se pode ter por quem não nos retribui? Era melhor não pensar nisso. O que lá ia, lá ia. Concentrou-se no amor da sua vida. Que ia mesmo ali à sua frente, descendo a rua Augusta, olhando as montras aqui e acolá. Era tão linda. O seu amor era tão lindo.

Eleanora tinha frio e fome e estava assustada. No escuro da cave não via nada. Nem uma frincha de luz passava pela base da porta no alto das escadas. E o tornozelo inchara. Torcera-o quando fora atirada escadas abaixo e agora latejava surdamente no escuro. Mal se conseguia suster de pé. A voz estava rouca, rasgada de tanto gritar. Mas sabia que era inútil gritar. Tivera um vislumbre de para onde fora levada. Era um local remoto. Pelo menos não vira sinais de outras habitações. Apenas um casarão perdido no meio de um ermo. E suspeitava que a cave estava insonorizada. Às apalpadelas no escuro tentara conhecer a geografia da prisão. Batera com as canelas em vários objectos e pelo menos um deles era um balde. Já o usara para fazer as necessidades e cuidadosamente colocara-o a uma esquina onde facilmente, tacteando a parede, poderia voltar. Pelo menos não seria reduzida à vergonha de ter de urinar no chão.

Gabriel sentia-se confuso. As coisas não tinham corrido bem. As coisas não tinham corrido nada, mas mesmo nada, bem. Que complicação. O seu anjo, a luz da sua vida. O Sol que o alumiava. Não fora como ele tinha previsto. Primeiro ela dissera-lhe que as coisas não se resolviam dessa forma. Depois quando ele insistiu começou a ser irónica e até agressiva. E por fim rira-se dele. Ali mesmo à frente de todos aqueles estranhos, na cantina da faculdade. Rira-se na cara dele. Ele que fizera tanto por ela, que se privara de tanto, que lhe oferecera o coração numa bandeja. Gabriel ficou destroçado. Foi como se o mundo desabasse, finalmente, sob os ombros de Atlas. Ficara prostrado de infelicidade. Ó, como doía sentir o coração daquela maneira. Ele apenas quisera ser feliz. E viver feliz com ela. Será que ela não percebia isso? Como podia ela ser tão insensível? O seu anjo desaparecera. Esfumara-se. Já não tinha mais anjo. Gabriel novamente ficava sozinho. Inspirou o ar matinal. De tão frio que estava quase lhe queimou os pulmões. Para lá das colinas o Sol despontava lançando sobre a manhã gélida os raios dourados. Em breve a terra aqueceria. Talvez o seu coração pudesse então encontrar calor suficiente para sarar. Gabriel deu meia volta enfiou-se no carro. A viagem de volta à cidade ainda era longa.

Eleanora ouviu, antes mesmo de ficar cega pela luminosidade, a porta a ser aberta. Recortada no rectângulo forte de luz estava a silhueta do captor. Estava tão fraca e com tantas dores que nem teve alento para lhe perguntar nada. A silhueta desceu as escadas até meio onde se dobrou pousando num degrau um prato. Depois, e ainda sem uma palavra, subiu e trancou novamente a porta. Eleanora a custo arrastou-se, puxou-se e coxeou até à base das escadas. O tornozelo estava como se várias adagas estivessem cravadas. Inchara imenso e estava quente. Mais quente do que o resto do corpo que já de si estava febril. Perdera o rasto às horas que passara ali dentro. Horas? Talvez dias até. Na escuridão congeminara planos para escapar. Nenhum deles minimamente prático. Interrogava-se se alguém já dera pela sua falta. Provavelmente não. A Cláudia fora de fim-de-semana prolongado portanto do lado da colega de quarto só poderia esperar alguma coisa lá para Segunda-feira. E ela combinara tudo com o Horácio e telefonara à família a inventar uma desculpa de testes para preparar e estudos para fazer. Teria sido tudo tão bonito. Mas à última da hora o Horácio desmarcara e afinal o tal fim-de-semana transformara-se num imenso tédio. Até à altura em que fora à Baixa passear um pouco...

Era curiosa a forma como o amor cedia lugar ao ódio. Era tão fina a linha divisória. Num instante apenas, um olhar apenas, uma palavra apenas e tudo ruía. O amor que lhe sentia, os planos que arquitectara. As vidas em conjunto. Tudo se transmutava numa coisa informe, suja, nojenta, asquerosa. E agora? Quem era o dono? Quem estava por cima? Olhou para a mesa da cozinha. Tinha disposto os instrumentos em filas certeiras. Gostava das coisas assim. Arrumadas, certinhas e limpinhas. E aquela porca lá em baixo. A viver no meio dos excrementos. Aquela porca ia saber que ele não aturava porcas. Ia saber o que ele fazia às porcas. Pegou nas tiras de cabedal, na bola de golfe, na tesoura de podar e nas lâminas de bisturi. Estava na hora de fazer alguma coisa. Estava mais que na hora.

Abriu a porta da cave. Desta vez acendeu a luz interior.

Gabriel chegou ao campus por volta das 10 horas. A viagem aclarara-lhe as ideias. Tinha delineado o plano de acção e até já fizera uma chamada para pôr as coisas em movimento. O tal Horácio ia ver que havia certas coisas em que não se tocava. Principalmente não se tocava no anjo. No anjo dele. No fundo ainda tinha uma ligeira esperança de que tudo não tivesse passado dum mal-entendido. Largou o carro mesmo em frente da residência. Estavam todos a irem para as aulas. Mas talvez a Cláudia estivesse ainda no quarto. Ela só tinha aulas de laboratório da parte da tarde. Galgou as escadas do átrio até ao primeiro piso, correu corredor fora e bateu na porta do quarto. E bateu outra vez. Ninguém. Do quarto ao lado sairam duas raparigas a rirem que lhe lançaram um olhar de soslaio. Uma delas conheceu-o e cumprimentou-o com um aceno e um sorriso. Gabriel não retribuiu. Tinha outras coisas na cabeça. Bateu novamente mas era escusado. Afastou-se cabisbaixo pelo corredor e mesmo na esquina para as escadas deu de caras com o Horácio. O tipo ou não o conheceu ou fez de conta, ou nem reparou nele. Gabriel ficou a vê-lo seguir pelo corredor e ir bater à mesma porta. Estranho! Não sabia ele que ela não estava ali? Não era suposto terem tido um fim-de-semana todo romântico? A confusão que se tinha desvanecido na viagem instalou-se novamente, como um gato que se enrosca no lugar favorito do parapeito da janela. Era uma sensação que começava a ser até demasiado familiar. Mas então? Se ela não estivera com o tipo com quem estivera? Para onde fora ela? Será que havia ali mais alguma coisa de que ele nem sequer suspeitara? Saiu da residência. O telemóvel vibrou. Era o outro. Que lhe diria agora? Mas que grande embrulhada esta. Atendeu.

Pelo menos a puta não conseguia guinchar! Uma bola de golfe pela boca adentro e uma tira de cabedal bem apertada à volta da cabeça tinham as suas propriedades. O silêncio era apenas entrecortado pelos ocasionais ruídos guturais da vaca. Sem grandes cerimónias deu-lhe um bofetão na cara. O anel abriu-lhe um lanho no rosto. Pelo menos já se via algum sangue. As coisas só poderiam melhorar daqui para a frente.

Rasgou-lhe o top e arrancou-lhe as calças. Atirou os trapos para um canto. Mais tarde usá-los-ia para limpar a merda que estava ali pelo chão. Ou talvez a obrigasse a limpá-la com a boca. Ia pensar nisso. A gaja era uma puta tão convencida! Nem sequer usava sutiã. E usava daqueles fios dentais todos sexy. Ele ia-lhe mostrar o que era sexy. Com a tesoura cortou o fio dental e lentamente percorreu com a lâmina a coxa pela parte interior. Não carregou muito. Para já não queria mais sangue. Com a mão livre tocou-lhe no sexo. A puta estava húmida!

Sorriu. Isto ia ser interessante.

Pousou a tesoura e desapertou o cinto das calças. Ia-lhe mostrar o que era sexy. Olá se ia. Esta também ia aprender que não se rouba assim o coração impunemente. Há consequências a pagar. Castigos. A menina foi má e vai ter de pagar com o corpinho. Enfiou-se devagarinho dentro dela. Os olhos arregalados olhavam-no cegamente. As lágrimas misturavam-se no sangue. Não demorou muito a vir-se.

O gajo devia ser um parvo de primeira apanha. Putos de merda dos universitários. Não sabiam o que queriam. Merda para ele. Primeiro tinha encomendado o serviço. Agora já recuara. Putos betos. Demasiado dinheiro dos papás era o que era. A merda era que ele já falara com o Risinhos e já prometera nota da preta. Muito pilim. E agora? Cabrão do puto ia tossir o pilim nem que... olha nem que a vaca tussa. Por sorte ligara-lhe mesmo já no Monte da Caparica. Era um pulinho até ao sítio onde o gajo morava. Cabrão do caralho. Não se desmarca assim uma cena a um homem. Foda-se um gajo tem de manter a palavra. A palavra nestas coisas vale mais que um contrato daqueles todos pipis e assinados e autenticados. Betinho do caralho já ia ver se desmarcava ou não. Com o mano não fazia ele farinha. E não é que o cabrão ia ali à frente dele? Olha que porra de sorte. Quer dizer sorte a dele, azar do outro. Acelerou o carro até embater na traseira do outro. O cabrão travou. Ele travou. Sairam os dois do carro quase ao mesmo tempo. O outro ao vê-lo arregalou os olhos. Via-se que não estava à espera de o ver ali. E ainda ia arregalar mais os olhos quando visse o bastão de baseball que ele tinha atrás do assento. Cabrão de merda havia de tossir o pilim ou então tossia-o para a conta do hospital. Com o bastão na mão e sem sequer dizer uma palavra começou pelo farolim da esquerda do carro do beto.

Olhou para a puta. Mas que grande maçada. Não aguentou. As putas de merda nunca aguentam nada. Sabem bem dar cabo dum gajo e sabem ser tesas. Mas quando se chega a vias de facto é uma tristeza. Esta era mais uma vaca que não ia mugir mais. Calmamente tirou-lhe a mordaça. E a bola de golfe. Sempre se aproveitavam. Beijou-a na boca enfiando a língua. Sentiu-lhe os dentes. Tinha bons dentes a vaca. Pena que não se atrevera a deixá-la fazer uma mamada. Não se pode ter tudo. Mas sempre podia fodê-la mais um bocadinho. Agora pelo menos não resistia. E ainda estava húmida.

Gabriel nem queria acreditar que as coisas tivessem ficado daquela maneira. Mas que pesadelo! Acabara por pagar ao rufia só para ele não lhe partir mais o carro, ou os joelhos, como ele parecera dar a entender que faria se ele não pagasse o serviço que não chegara a ser feito. Mas que raio de ideia tivera de se vingar no Horácio. Se tivesse ficado quieto. Os ciúmes são do caraças. Se o seu anjinho o visse agora ali, especado no meio da estrada com os farolins partidos e o pára-choques metido dentro. E tudo porque tivera um ataque de ciúmes. Malditos ciúmes. Tinha de ser mais racional. Saber conter-se. Acabara, acabara. A vida segue. Mas por mais que tentasse racionalizar que Eleanora não o amava. Nunca o amara. Ele interpretara os sinais todos de forma errada. As noites juntos a verem velhos filmes na Cinemateca. As idas à praia. Os desabafos. Ela dissera-lhe que ele confundira amizade com amor. Ela nada sentia por ele. Nem poderia sentir. Via-o como um irmão mais velho. Um amigo. Nada mais que isso. Como doía ele lembrar-se da cara dela quando ele insistira. Tinha ficado agressiva. As lindas faces dela, distorcidas pela ira. Ira que ele provocara, era bem verdade. Mas tudo porque ela se recusava a ver que tinham sido feitos um para o outro. Era inegável. Até os amigos deles diziam isso. Que eles faziam um belo casalinho. Todos viam isso. Todos, menos ela. E no fim daquele dia em que ela saíra da cantina ele tinha ficado para trás, roendo os ciúmes. Sim, porque ela deixara bem claro que o coração dela pertencia ao Horácio. Nem tivera tempo de lhe dizer que pertencia o coração dela e de mais umas outras duas pelo menos. O Horácio. O garanhão da faculdade. Seria ela tão cega que não via que era apenas mais um número no telemóvel dele? Agora restava-lhe tentar perceber o que se passara no fim-de-semana. Se ela não tinha estado com o Horácio com quem estivera? E mais importante. Onde estava agora?

Quando acabasse aquilo tinha de enfiar uma cerveja fresca pelas goelas abaixo. O tempo não estava muito quente mas cavar era trabalho pesado e já estava naquilo há um bom par de horas. A continuar assim teria de arranjar uma mini-retro-escavadora. Algum dia ainda dava cabo das costas a cavar daquela maneira. Pensou na cerveja fresquinha dentro do frigorífico. Mas agora era má altura para parar. Não convinha nada que aparecesse por ali algum curioso porque mesmo dentro do saco preto eram inegáveis as formas humanas da puta. Paciência. Mais um esforço para alargar o buraco. Já não faltava muito. Pensou novamente na cerveja e redobrou os esforços. Esta era a parte chata. Tanto amor e acabava sempre em trabalhos. Que raio de vida aquela!

Com o tempo Gabriel esqueceu Eleanora. De tanto indagar por ela junto de Cláudia acabou por se aproximar desta. E a pouco e pouco foi descobrindo que Cláudia, à sua maneira, era também um anjo. Um anjo lindo e meigo. Muito mais meigo do que Eleanora alguma vez tinha sido para com ele. Com o tempo todas as feridas saram.

Ele amava-a. Sim! Amava-a para além de toda a compreensão. Amava-a tanto que até doía pensar que ela o pudesse rejeitar. Ou olhar para outro homem.

Ele queria-a só para ele.
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Re: Desafio: Loucura

Postby Samwise » 04 Nov 2008 12:10

Vou ver se cozinho qualquer coisa para participar neste.

Esta área de desafios está condenada andar meio aos bochechos, muito por culpa da cláusula mandatória de participação. Mas prefiro que se mantenha com poucos desafios e poucas participações do que com muitos desafios e nenhuma participação.

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Re: Desafio: Loucura

Postby azert » 04 Nov 2008 15:50

Estou a ler o livro adequado para este desafio: "Conhecimento do inferno", do grande ALA. :mrgreen4nw: Não resisto a mencionar a rapariga que falava com os anjos:

«A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques, empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo
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Re: Desafio: Loucura

Postby azert » 04 Nov 2008 16:01

Thanatos, longe de vir mal ao mundo, considero que até vem algum bem. :mrgreen4nw:
Muito bem construido, este texto. Gostei da forma como o querer se torna tão absoluto que deriva em posse, neste caso, até às últimas consequências.
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Pedro Farinha
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Re: Desafio: Loucura

Postby Pedro Farinha » 04 Nov 2008 21:44

Também gostei muito, as histórias entrecruzadas e ao mesmo tempo a narrativa circular. Um pouco cinematográfico diria, ou pelo menos sugere muitas imagens e sequências de imagens.

Que venham mais loucuras

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Re: Desafio: Loucura

Postby azert » 04 Nov 2008 23:20

Por falar em cinema, o texto do Thanatos fez-me lembrar um filme que vi já há alguns anos, aí dos anos 60 - 70, sobre um homem que se apaixonava por raparigas que raptava (e provavelmente, matava, já não me lembro). Não me recordo do nome. :unsure:
E há também o "Ata-me", do Almodovar, com o ainda não internacional Banderas e a Victoria Abril (muito bom, por sinal). Mas este seguia outra linha.
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Re: Desafio: Loucura

Postby Aignes » 04 Nov 2008 23:53

Era invisível nas aulas, os nomes de todos chamados para tudo, ler, ir ao quadro, secar as mãos com o giz de fraca qualidade, as mãos brancas, gretadas. Responder a perguntas, preencher espaços com tempos verbais, dar resultados de equações impossíveis, explicar um ponto de vista. Os nomes de todos chamados para tudo, mãos no ar e a mão dele, tímida, suada, ligeiramente encarquilhada pela vergonha, espetada no ar a medo, não era vista. Era ignorada, o seu nome esquecido. Os professores não recordavam a sua face na altura de dar notas, não olhavam para ele enquanto expunham a matéria, não o olhavam nos olhos para se certificarem de que percebia, esqueciam-se de que ainda não tinha apresentado o trabalho. Na rua ninguém o via. Avançava pelo passeio e as pedras da calçada não faziam barulho sob os seus ténis sujos, a chuva não parava no seu corpo, atravessava-o, batendo com força no chão, não o molhava, não a sentia. As pessoas não cruzavam os olhos com ele, não lhe agradeciam amabilidades, fechavam-lhe as portas quando ia a passar. Nos transportes ninguém lhe pedia o bilhete ou o passe, empurravam-no nas filas como se ele não estivesse lá, as portas do metro não se abriam para ele passar, ele passava porque sim, porque era nada e não ocupava espaço. Nos cafés, lojas, centros comerciais, ninguém ouvia a sua voz. Gritava por cima do balcão, batia com os punhos no vidro embaciado pela respiração da sua boca ofegante, a cabeça encostada em desespero ao gume do limite do balcão. Em casa saía cedo e entrava tarde. Ninguém o olhava, ou perguntava sobre o seu dia, ou onde tinha estado, ou porque é que não mudava de t-shirt há 5 dias. Ninguém entrava no seu quarto, onde uma fina camada de pó cobria os livros lidos há mais tempo e os CDs empilhados de jogos antigos e onde um monte de meias sujas coloria o quarto atrás da porta.
Andava contando os passos, concentrado na cadência da sua própria vida, a mão direita firmemente agarrada à mochila dependurada de um ombro, como quem quer agarrar a vontade de viver, a mão esquerda abrindo e fechando-se, lentamente. As escadas pareceram tremer-lhe, agarrou-se ao corrimão. Uma mulher de saltos altos passou por ele, empurrando-o como se não existisse. Fora das escadas, avançava por um patamar vertiginoso, tudo lhe parecia cair, as pedras de mármore rosado do chão eram íngremes, ele escorregava, tropeçou. De palmas contra o chão frio, deixou de ver. Não sentia qualquer vazio, nem nenhum vórtice a puxá-lo para profundezas inomináveis. Era um viver porque sim, que lhe colava as mãos ao chão, as mãos que ele não via, não sentia. Atrás de si nada o construía, à sua frente nada o esperava. No presente ninguém o sabia. Cego, caminhou pelo chão que andava todos os dias, colocou-se no local de todos os dias. Os minutos a passarem eram traços vermelhos desfocados que não reconhecia. Os rostos à sua volta riam, falavam, liam, mas não o olhavam. A voz monocórdica e computorizada do anúncio de mais uma certeza na sua vida. Viu a carruagem aproximar-se, vermelha e rápida, vermelha e rápida, como todos os dias, todos os dias. Viu as pessoas, uma multidão como um ser único, a chegar-se à frente. Foi empurrado por alguém que queria estar mais à frente que ele. Olhou o seu futuro a avançar. Eram segundos, eram uma certeza que se movia, esta, não era estática, não era igual às outras, era convulsa. Era vermelha e convulsa. As linhas eram de madeira e ferro, madeira e ferro. As linhas são de madeira e ferro e esta verdade é vermelha e convulsa, faz-me vomitar. Um passo, dois passos, larga a mochila que lhe raspa as mãos, vive na cadência daqueles passos sem vida. Mais um passo, as linhas são de madeira e ferro e de vermelho convulso. Finalmente, gritam a sua ausência.


----------
Escrito directamente aqui, por isso não há grande qualidade. Mas soube bem escrever um bocadinho a partir de uma palavra. Uma loucura diferente, se calhar, uma loucura mais para o depressivo, mas pronto.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Desafio: Loucura

Postby pco69 » 05 Nov 2008 09:57

Thanatos wrote:(...)
Mas por mais que tentasse racionalizar que Eleanora não o amava. Nunca o amara. Ele interpretara os sinais todos de forma errada. As noites juntos a verem velhos filmes na Cinemateca. As idas à praia. Os desabafos. Ela dissera-lhe que ele confundira amizade com amor. Ela nada sentia por ele. Nem poderia sentir. Via-o como um irmão mais velho. Um amigo. Nada mais que isso. Como doía ele lembrar-se da cara dela quando ele insistira. Tinha ficado agressiva. As lindas faces dela, distorcidas pela ira. Ira que ele provocara, era bem verdade. Mas tudo porque ela se recusava a ver que tinham sido feitos um para o outro. Era inegável. Até os amigos deles diziam isso. Que eles faziam um belo casalinho. Todos viam isso. Todos, menos ela.
(...)


Essa história de "...gosto de ti como um irmão...como um amigo...." e a gente só lhes quer é saltar em cima....
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Desafio: Loucura

Postby Samwise » 05 Nov 2008 11:35

Aignes, andaste a ler o "Neverwhere" :biggrin: . (isto faz-me lembrar que escrevi um conto semelhante ao teu, no que toca à "invisibilidade" do protagonista - http://www.bbde.org/index.php?showtopic=3984).

Faço uma sugestão para o título, retirada de um filme que andou aí há pouco tempo no cinema: "I'm not there."

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Re: Desafio: Loucura

Postby Thanatos » 05 Nov 2008 11:42

Aignes, está muito bom, mais ainda tendo em conta a imediatez da escrita. Venham mais!

pco69: Vês como tu até me entendes. :wink:
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Desafio: Loucura

Postby Pedro Farinha » 05 Nov 2008 15:13

:notworthy: Aignes :notworthy:

Apesar de ter lançado o desafio perdi a vontade de escrever a "loucura" que tinha pensado escrever.

Deixo aqui outra:

____________________________________________________________________________________________________________

Primeiro foi a memória que me começou a atraiçoar, os nomes escondidos debaixo da língua. A vaga sensação de que havia algo importante que tinha que fazer e não o conseguir concretizar. A troca de nomes. Não só a mais vulgar, de um filho pelo outro ou da mulher pela amante, esta última com mais implicações desagradáveis que a primeira, mas ainda a troca de nomes de pessoas reais pelas personagens do livro que me acompanhava nas leituras assíduas feitas em hora de ponta entre encontrões e apertos bafientos em qualquer comboio dos subúrbios.

Os livros sempre me transportaram para uma outra dimensão. Foi com eles que percorri mundo e conheci pessoas. Mas agora é cada vez mais penoso distinguir entre esse mundo e o outro, o que corre ordeiramente, alternando, entre as quatro paredes do cubículo onde trabalho e as quatro paredes da casa onde me encerro sob os gritos selváticos dos meus filhos e o som das telenovelas da minha mulher.

Dei por mim a acordar a meio da noite e a sonhar que estava sob o fogo cerrado de um inimigo, a sentir o cheiro a capim e a napalm e a levantar-me repentinamente em busca da arma, rastejando pela carpete carmim, do quarto, baixando a cabeça e assustando-me com o reflexo no espelho do roupeiro que reflecte um homem prematuramente envelhecido e de olhos alucinados.
De cada vez que termino um livro é como se morresse. Não consigo largar as personagens, a mulher que amei no livro, o amigo a quem confiei os meus segredos ou o cão solidário que sem perguntas ou exigências sempre me acompanhou para todo o lado pousando o focinho meigo nos meus joelhos sempre que necessito de afecto.

Passei a escrever a continuação de todos os livros que nunca quis terminar, a ressuscitar mortos ou paixões mortas, a reescrever a história. A reescrever a minha história. Não. Não posso largar ninguém. Nem a mulher triste que me largou em Barcelona nos anos 30, nem o homem sábio que me acompanhou nas escaladas do Evereste. A minha mulher queixa-se e zás, escrevo uma nova mulher. Invento nas palavras que escrevo um outro destino do mundo. Preencho no modelo 414-B não os campos que enfileirados aguardam as palavras concisas de um manga de alpaca mas antes aventuras de dragões e lobisomens deixando o meu chefe de ar entristecido e os meus colegas a murmurar ladainhas nas minhas costas. Zás, invento novos colegas. Nesta vida que é só minha e que escrevo todos os dias já não tenho emprego, criei a minha própria sorte como o Corto Maltese fez riscando com uma navalha afiada a linha da sorte na palma da mão com a dimensão dos seus sonhos.

Já não sei como me chamo. Em que século vivo. Dou por mim espantado com um telemóvel na mão a vibrar desesperadamente sem eu saber que aparelho é aquele, quem o inventou ou se estou num romance premonitório de Júlio Verne e estão-me a mostrar as maravilhas do ano 3000.

Cansado regresso a casa dos meus pais e descubro que a antiga vivenda virada para a baía de Cascais virou condomínio de luxo e que os meus pais já morreram. Não. A minha mãe não pode ter morrido. Saco do caderno e escrevo a minha mãe, os seus olhos doces e compreensivos a olharem para mim e a sorrirem muito enquanto desfaço com um sabre de luz a campa onde ela está encerrada. O meu pai pousa-me a mão no ombro compreensivo.

Já não sei onde moro. A minha mulher queixa-se. A minha amante queixa-se. Descobrem as duas este seu inimigo comum e fazem as pazes numa cerimónia de má língua molhada em chá de tília.

Fecho os olhos. Abro os olhos. Viajo no tempo e no espaço ao sabor dos ventos e dos livros e cansado, exausto, regresso por fim a casa e meto baixa literária.

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Re: Desafio: Loucura

Postby azert » 05 Nov 2008 15:40

Muito bom, mesmo, Aignes, mesmo muito (nunca é de mais sublinhar :mrgreen4nw: ).
Toda a descrição da invisibilidade/irrealidade está boa, mas gostei muito especialmente do fim, onde a escrita acelera, se precipita para o fim. :notworthy:
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azert
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Re: Desafio: Loucura

Postby azert » 05 Nov 2008 15:49

Pedro, outro caso de flagrante qualidade. :mrgreen4nw:
A loucura que descreveste, a da leitura "participada", é algo que me acontece frequentemente. :blush: Estou ali, no meio das personagens e dos acontecimentos e detesto fechar a capa sobre eles e quando o faço, não consigo passar de rajada para outro cenário. :rolleyes:
Claro que a tua personagem não se limita a viajar pela escrita dos outros e cria ela própria os seus destinos, as suas paisagens. Mas mesmo isso não é estranho a quem escreve. Sempre achei que a escria tinha o seu quê de acto criador divino.
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chinaski
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Re: Desafio: Loucura

Postby chinaski » 05 Nov 2008 16:12

A minha contribuição. Francis Bacon. Fui abençoado ao ter visto a maior exposição de sempre deste admirável artista.

[img]http://www.siue.edu/~ejoy/1944tri3.jpg[/img]


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