Desafio: Loucura

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zuogmi
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Re: Desafio: Loucura

Postby zuogmi » 13 Apr 2009 14:44

pco69 wrote:
Pedro Farinha wrote:parece-me mais

narcisismo = zuogmi

E porque não

narcisismo = loucura ?




e porque não loucura = buéda fixe pá?

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Arsénio Mata
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Re: Desafio: Loucura

Postby Arsénio Mata » 02 Oct 2009 02:19

Pelo que vejo já ninguém "posta" aqui nada há algum tempo, mas eu tive que o fazer visto que a loucura é um dos meus temas predilectos.
Preparem-se, portanto, para lerem a primeira (de muitas, espero eu) contribuições de Arsénio Mata (reparem que falo de mim mesmo na 3ª pessoa, algo que apenas os grandes indivíduos podem fazer) neste fórum.
Ficam aqui também aqui algumas das muitas criticas ao meu trabalho:

"Um fora de série. Um visionário dos tempos modernos." - Jornal da Escola

"Mas que bela composição!" - Teste de Português do 7º ano escolar ( 109 em 120 pontos possíveis)

"Parabéns Arsénio! Já escreves muito bem as vogais"- Professora da 1ª Classe

"Este jovem escritor consegue congregar todas as qualidades de Hemingway, Saramago, Dostoeivsky, Orwell e Kafka, entre outros. Mais do que uma promessa, uma certeza." - Arsénio Mata

(a terceira critica não tem nenhum suporte escrito, foi apenas algo que a professora me disse...)


Segue-se o conto
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Re: Desafio: Loucura

Postby Arsénio Mata » 02 Oct 2009 02:21

<!--sizeo:6-->[size=175]<!--/sizeo-->O Ritual<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->





Ela passeava pela rua, todos os dias, à mesma hora. Todos os dias, à mesma hora, eu passeava pelo quarto até chegar à janela. Era um ritual a ser cumprido. Não se pode dizer que ela fosse excepcionalmente bela. Aliás, não se pode dizer que ela fosse minimamente bela. Mas havia algo que me fazia todos os dias, sem excepção, percorrer os 5 metros e 33 centímetros que distanciam a cama daquele quarto até à janela do mesmo.

Todos os dias, às 10:54 da manhã ela passava pela rua, e eu, invariavelmente, observa-a, maravilhado, como uma criança olha para os seus pais. Ela não era perfeita, e isso era perfeito para mim. Apesar disto, havia uma distância enorme entre nós. Era como se ela não tivesse conhecimento da minha existência (e tinha). Ou como se eu não pudesse sair de onde estava (e não podia).

À noite o mundo dos sonhos era o mundo dela. Imaginava-lhe nomes. Imaginava-a com o anel, que um dia estivera no dedo da minha mãe, posto. Mas não aqui. Não onde estou. Aqui nada disso é possível. À noite imaginava coisas que nem me ouso a descrever agora. Na altura contava aos meus amigos. Até ELES diziam que eu estava louco.

De dia para dia vê-la passar já não era suficiente. Tornavam-se sufocantes todos os minutos em que não eram 10:54. Todos os caminhos que não envolvessem ir até a janela eram inúteis, todos os passos dados impensados. As frases e palavras eram levianamente balbuciadas, ininteligíveis.

Até que um dia aconteceu. Às 10.54 ela não passou pela rua. Nem às 10.55. Nem às 11.00.

Fiquei o dia todo à espera com um sabor amargo na boca e um pensamento ainda mais amargo (se é que era possível) na cabeça : “Ela hoje já não vem Ela hoje já não vem Ela hoje já não vem.”. Rapidamente estas cinco palavras tornaram-se num tantra que me foi perfurando o cérebro o resto da noite. O sabor amargo deu lugar a uma azia que quase me DEVOROU o estômago. Sentia-me a enlouquecer. Uma loucura sem precedentes. Isto não podia acabar assim.

Durante duas semanas vivi dia e noite colado aquela janela. Não dormia. Não dormia. Não dormi. Ela não ia voltar e o culpado era eu. Se eu alguma vez tivesse feito o esforço para lhe falar (mas não podia, todos me diziam que não podia) talvez ela ainda aqui estivesse e eu pudesse olhar para ela. Só mais uma vez. Eu só a queria ter DENTRO de mim. Para sempre.

Foram as duas semanas mais penosas da minha vida, e eu já tinha passado por momentos bem difíceis (como daquela vez... mas não, não vou falar sobre isso) mas não perdi a esperança. E como já devem ter percebido, fiz bem em não a perder. Ao fim de duas semanas, ela reapareceu, mais SABOROSA do que nunca. Foi provavelmente, o momento da mais absurda felicidade que vivi. Já tinha tomado uma decisão. Se a voltasse a ver, iria ao seu encontro. E fiz-lo. Apesar de todas as evidências e do meu passado. Não tomei os comprimidos nesse dia. Fugi do manicómio.

Agora, envolto no sangue dela, enquanto lhe mastigo os ovários, sei que fiz o mais correcto. Ela está DENTRO de mim. Para sempre.

Dizem que eu sou maluco. Ahahahahahahahahahahahahaha...
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Re: Desafio: Loucura

Postby Pedro Farinha » 02 Oct 2009 02:35

Gostei Arsénio, mas não tem muito que ver com loucura. Pelo menos a mim parece-me normal gostar tanto de alguém que me apetece comê-la para que ela fique dentro de mim para sempre. outras vezes o que me apetece é o contrário, comê-la e eu ficar dentro dela para sempre.

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Re: Desafio: Loucura

Postby Arsénio Mata » 02 Oct 2009 02:54

Pedro Farinha wrote:Gostei Arsénio, mas não tem muito que ver com loucura. Pelo menos a mim parece-me normal gostar tanto de alguém que me apetece comê-la para que ela fique dentro de mim para sempre. outras vezes o que me apetece é o contrário, comê-la e eu ficar dentro dela para sempre.


Sim, sim, isso é normalíssimo. Aliás, eu próprio já o fiz umas quantas vezes. :blerk:
A loucura está toda na obsessão.
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Re: Desafio: Loucura

Postby Bugman » 03 Oct 2009 13:01

Sanatório (<- link para o texto original; espero não estar a cometer uma ilegalidade ao re-publicar!)

Erguia-se escuro e sombrio no meio da floresta de pinheiros. Alguém ousara, bem para lá do portão principal, plantar uma palmeira na rotunda de entrada. Confesso que naquela tarde chuvosa o ânimo e os sonhos que levava na bagagem me impediam de notar em algo diferente, sentir o ambiente daquele local, a atmosfera nociva... A princípio tudo é tão belo, as árvores, os pássaros pela manhã, os relvados infindáveis, até a chuva incessante e o prateado firmamento tinham um ar rústico e agradável! Para lá chegar passávamos por um portão de ferro forjado e entrávamos numa imensa alameda de ciprestes. Imensos duzentos metros de via alcatroada ladeada de árvores verdes e viçosas, plantados bem no meio de um extenso relvado que ao fundo era encimado pelo enorme casarão, bem ao estilo senhorial, com os seus quatro andares e com um longo pavilhão central a unir as duas alas laterais.

Nunca, ao sentir os primeiros pingos de chuva a baterem-me na face, pensei que desejaria ardentemente sair dali rapidamente, abandonar aquele palacete.

À porta: ninguém para me receber, só um estranho aviso pintado por cima da porta: "Bem vindo a casa!" Mais tarde, tarde demais, percebi o porquê da afirmação, percebi porque chegava a casa: estava sozinho!Quer dizer, haviam o jardineiro, a cozinheira, as enfermeiras e a mulher da limpeza, mas... todos surdos e mudos, como se receassem ouvir-me ou falarem comigo. Levou muito tempo a aperceber-me da realidade, essa dura e árdua realidade e também do facto de estarmos todos dependentes de nós próprios.

Sinto que na realidade o tempo aqui não se mexe, está parado, é impossível andar para a frente. Vejo os dias passarem por mim, mas não guardo memória de quantos passaram. Percorro os corredores e vejo as celas que ninguém abandonará, nem que ninguém nunca abandonou. A Lua todas as noites é a mesma, pois quando a Lua não está cheia cobre-nos um manto rosa todas as noites. A cada dia sinto a loucura apoderar-se de mim, qua para aqui vim tratar de doentes imaginários, a loucura dos outros... Sinto-me a viajar para esse mundo e tento fugir-lhe. Começo a caminhar mas ao fim de alguns passos na alameda dos cipreste apodera-se de mim uma tontura e acordo invariavelmente no meu quarto. O tempo, esse ser imutável, habituou-me a tratar a alameda da entrada por a Alameda do Cemitério, pois é esse o ar que as árvores transmitem, o de um deprimente e longo cemitério, essas árvores que os antigos serem uma forma de comunicar com os mortos!

Vejo a loucura ao meu lado e a liberdade lá ao fundo e penso: porque fujo de uma que não me larga e não alcanço nunca aquela que procuro?! Penso e vem-me sempre à memória que não há aqui portas trancadas nem janelas com grades, não há nada que me possa marcar a mente, no entanto não fujo! NÃO FUJO!...

Adormeço mais uma noite e sonho com a minha dura e insana realidade, aprisionado nesta jaula de tijolo e verde, clamando e urrando de raiva com o lento passar dos dias!

O tempo ensinou-me a ter medo do que mora para lá dos longíquos muros! Percebo, agora, porque nunca se foram todos embora, percebo porque são mudos os que não têm palavras que exprimam a dor da alma e o terror que emana da alma do casarão, percebo porque são surdos os que temem ouvir algo que os leve a insurgirem-se contra a alma escura que todos os dias se ergue com a carruagem de Hélios. É o medo! Medo do ar que respiramos, medo de respirar a liberdade, medo do ar que me sussurra coisa aos ouvidos enquanto o vento assobia nas copas... Oiço vozes! Vozes por todo o lado! Ao ouvir essas vozes tenho a certeza confirmada que passei completamente para o outro lado: estou insano!

Hoje oiço-as a gritarem-me! Gritam à demesurada, uivam à lua cheia, bradam em triunfo que têm a minha cabeça nas suas mãos e que passarão agora à fase da violência.

Violência... Violência... Violência! Como a contrariar? Correndo? Então eu corro! Parando? Então eu paro! Usando as cordas? As cordas! Vou buscar as cordas é isso mesmo! Vou a correr, cordas nas mãos em direcção ao portão. A tontura afastou-se de mim e não a sinto desta feita, sinto isso sim o suor a escorrer-me pelas faces, os olhos a abrirem-se em terror, a língua a pender-me da boca. Chegado ao portão olho através dele e sinto-me a tremer... Não! Não são tremores, são autênticas convulsões aquilo que tenho, convulsões de medo. Oiço de novo as vozes na minha cabeça! Estão inquietas, amotinam-se dentro da minha cabeça, já penduram os mortos nos galhos mais altos...

-Deixem-no pendurado na árvore, "faz-lhe" bem! Não vêem como está a melhorara da sua loucura?
-Doutor, isto estava no bolso dele. Parece um bilhete...
-Que diz?
-"Sanatório: deixa-me em paz!"
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Normalcy was a majority concept, the standard of many and not the standard of just one man. Robert Neville
O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
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Re: Desafio: Loucura

Postby Gaminha » 17 Dec 2009 13:05

<!--coloro:#C0C0C0--><!--/coloro-->Muito menos louco que os anteriores... um tipo de loucura muito diferente.
<!--colorc-->
<!--/colorc-->


Segurava-me pela mão enquanto caminhava sobre a grossa parede do castelo.
- Não há perigo Zé, não caio.
- Podes sentir uma tontura ou assim.

Os olhos do Zé mostravam um medo que não confessava a ninguém. Não confiava em mim.

Sentia a brisa leve que me trazia o cheiro do mar. As gaivotas voavam em círculos sobre nós; lá em baixo, crianças jogavam à bola e soltavam pequenos gritos de felicidade. O sol estava tímido naquele dia e não nos deixava gozar o fim das férias. Zé tinha-me trazido para a casa de praia dos pais para me esconder deles. Eu sabia, ele sabia e eles também. O Zé podia esconder-me onde quisesse, nada os impediria de me encontrar. Quando chegasse a hora...

Olhava para as biqueiras brancas das sabrinas que avançavam sobre as pedras da muralhas. A mão fria firmemente segura entre as grandes mãos do Zé. E os olhos dele presos em mim.

- Que foi Zé? Que temes?
- Nada amor, nada.

Nervosamente baixara os olhos para o chão.
- Conta-me. Tu podes falar sobre tudo comigo.
Parara sobre a muralha e virava-me para ele, sentindo o vento a crescer e a fazer esvoaçar-me o cabelo.
- Estava aqui a ver como parece uma imagem de um filme. O teu cabelo tão lindo a voar, os teus olhos parecem mais verdes. Estes dias aqui fizeram-te bem, não foi?

Sorri e recomecei a minha marcha. Ele não percebia nada, não percebia a importância que este bebé dentro de mim teria. Não percebia que isto era tudo mais importante que eu, que ele, que nos.
O vento aumentava e as poucas pessoas que passeavam na praia tinham desaparecido. O tempo tinha mudado repentinamente, as gaivotas piavam de forma pavorosa e as ondas do mar aumentavam em cada bater nas rochas. Olhei para o céu carregado de nuvens e um crescente roxo foi-se apoderando das nuvens.
- Desce daí, Ana. Está a ficar muito vento.

Ele não via o que eu via, ele não sabia, não percebia. Tonto. Tolo. Eu e o bebé estávamos prontos, ele não. Sentia o bebé dentro de mim, dentro deste enorme ovo onde ele crescia.
- Tens razão Zé, está muito vento. Mas faz-me bem estar aqui, deixa-me abrir os braços e saborear o vento.
- Ana desce por favor.
- Eu estou bem, este lugar faz-me bem. Sente o bebé a mexer-se.

Tontamente, o Zé largou-me a mão e colocou as dele sobre a minha barriga.
Feliz, sorriu e não viu o que iria acontecer.

Levantei os braços e voei.

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Re: Desafio: Loucura

Postby Samwise » 17 Dec 2009 13:36

Gaminha wrote:Muito menos louco que os anteriores... um tipo de loucura muito diferente.


Dizes tu! :see_stars:

Embora tenha um fim previsível quase desde o começo, é um texto que causa alguns arrepios...

Está bem (d)escrito, Gaminha - com uma cadência serena e agradável.
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Re: Desafio: Loucura

Postby Gaminha » 17 Dec 2009 13:44

Samwise wrote:Dizes tu! :see_stars:

Embora tenha um fim previsível quase desde o começo, é um texto que causa alguns arrepios...

Está bem (d)escrito, Gaminha - com uma cadência serena e agradável.


Obrigada Sam! :blush:

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Re: Desafio: Loucura

Postby Arsénio Mata » 18 Dec 2009 21:07

Gaminha wrote:<!--coloro:#C0C0C0--><!--/coloro-->Muito menos louco que os anteriores... um tipo de loucura muito diferente.
<!--colorc-->
<!--/colorc-->

Para mim a loucura mais assustadora é a que é mais passível de ser real. Gostei muito deste texto.
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Re: Desafio: Loucura

Postby Gaminha » 18 Dec 2009 23:03

Arsénio Mata wrote:Para mim a loucura mais assustadora é a que é mais passível de ser real. Gostei muito deste texto.


Obrigada. :friends:

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Re: Desafio: Loucura

Postby Anansi1976 » 25 Jan 2010 00:34

Fui repescar este ao arquivo e é um dos que sempre gostei.

Ponho a cabeça no cepo à espera das vossas machadas.


Calcou a gravilha com prazer. A dimensão das pedrinhas produzia um som estimulante. Como Amélie sentia prazer a mergulhar a mão nos sacos de cereais, ele comprazia-se com a fricção dos minerais. Coisa pouca.


Passou para o outro lado da linha e com o cérebro aos solavancos tentou juntar as letras desenhadas nos vasos da estação. Via mas não compreendia, como se tivesse perdido a capacidade de ler. Tinha chegado à boleia; num inglês básico respondera à pergunta do condutor

- To a train station, i'll get along.

Tinha saudades, muitas, e desejava estar com ela. Não sabia muito bem para onde ia mas se chegara até ali, nalguma altura ia encontrar. Sem mapa, só podia confiar na intuição ou numa informação dada por alguém. Como era muito desconfiado e tendencialmente do contra, não acatava os conselhos que lhe davam. Não sabia muito bem porque raio se dava ao trabalho de perguntar; seria uma manobra rebuscada de manipular o seu livre arbítrio. Não era muito de tomar decisões espontâneas, assim eram tomadas à força pela opinião dos outros.

A estação estava deserta, o que não era de espantar, perdida no meio da serra, pouca gente devia usufruir da sua existência. Ao fundo, no vale, via uma série de casas que pela vegetação envolvente e pelos buracos escuros das janelas, indicavam que já há muito estariam abandonadas. À esquerda carris perfuravam uma elevação e as vagonetas explicavam tudo.

Mas que raio de ideia, a do homem, de o deixar ali ao abandono.

Ouviu um trote, um cavalo ou algo parecido aproximava-se. Virá acompanhado?! O mais certo é que fosse um dos cavalos selvagens que vira quando o seu transporte cruzara os estradões da montanha. A solidão estava a saber bem e não queria que aparecesse alguém para estragar o momento, mas, simultaneamente, queria tirar as suas dúvidas. Primeiro surgiu uma cabeça com cabelo bem tratado e barba impecavelmente penteada; um corpo coberto por farrapos de cor impossível de discernir do uso exaustivo; por fim o cavalo branco, brilhante a combinar com a cabeça do homem.

Que figura mais estranha.

Quando as coisas são fora do comum não sabemos muito bem como reagir. O efeito surpresa ataca o estereótipo e depois de breve escaramuça moral, a confusão fica entranhada. Quando cavalo e cavaleiro se aproximaram, notou que o ginete tinha as mãos tingidas de vermelho. Recuou em sobressalto e vendo uma lata de tinta e um pincel vermelho atados ao alforge tranquilizou-se.

Não dava jeito nenhum encontrar um assassino no meio do nada.

Fez um gesto para entabular conversa mas o homem, como se ele não existisse, passou-lhe ao lado e, poucos metros adiante, desmontou. Do alforge retirou luvas brancas de borracha, colocou-as, pegou na lata e com o pincel começou a pintar os carris. Com cuidado, para a sua sombra não denunciar a sua posição, aproximou-se e observou o que o homem estava a fazer. Pintava uma espécie de serrilhado, como se o carril se tornasse num gigantesco serrote que cortaria a serra em todo o comprimento. Encolheu os ombros desistindo de perceber o que aquele estranho personagem estava para ali a maquinar.

Afastou-se e sentou-se à espera do combóio. Tirou o caderno e começou a escrever.

O eco de um apito estridente cruzou os ouvidos. Era o seu transporte a uivar.
Ao fundo uma máquina Branca deslocava-se a alta velocidade. Como estava longe ainda devia demorar uns bons três minutos a chegar.

O Pintor interrompeu a tarefa; pegou na lata e no pincel e recolocou-os no alforge; tirou as luvas grotescamente imaculadas, e com as suas mãos vermelhas-sangue – ainda não conseguia entender porquê – agarrou nas rédeas e montou. Pela primeira vez olhou para ele e com um sorriso, que parecia ter algo de mefistofélico, afastou-se a galope.
Na direcçaõ oposta aproximava-se o comboio sem diminuiçao de velocidade. Não me digas que vou ficar em terra. Quando atingiu a zona pintada, o início do serrote, descarrilou fazendo com que as pessoas que não se viam gritassem em pânico.
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Re: Desafio: Loucura

Postby Arsénio Mata » 25 Jan 2010 02:16

Gostei do texto Anansi. Só acho que fica alguma coisa por explicar... Talvez uma continuação?...
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Re: Desafio: Loucura

Postby Anansi1976 » 25 Jan 2010 13:23

Arsénio Mata wrote:Gostei do texto Anansi. Só acho que fica alguma coisa por explicar... Talvez uma continuação?...



A intenção é deixar tudo em suspenso e deixar o leitor imaginar o resto.

A imaginação é usada quando se lê e quando fica um espaço em branco.

Como na música o silêncio e a pausa também são música, estão escritos na partitura. É aquele momento mais curo ou longo que nos deixa em suspenso para depois dar lugar à explosão de palmas ou assobios.
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Re: Desafio: Loucura

Postby Arsénio Mata » 25 Jan 2010 18:04

Anansi1976 wrote:
A intenção é deixar tudo em suspenso e deixar o leitor imaginar o resto.

A imaginação é usada quando se lê e quando fica um espaço em branco.

Como na música o silêncio e a pausa também são música, estão escritos na partitura. É aquele momento mais curo ou longo que nos deixa em suspenso para depois dar lugar à explosão de palmas ou assobios.

Sim, eu percebo isso, mas achei que este texto deixava demasiado em aberto. Tirando isso gostei bastante. ;)
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