Está alguém na minha sala de estar - V. II

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Samwise
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Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Samwise » 28 Dec 2008 13:16

Este desafio é um desenvolvimento lógico do primeiro, com uma pequena alteração: a "pessoa" que está na sala é a morte.

Aposto que toda a gente que entrou no desafio anterior considerou, a certa altura, esta hipótese para a feitura do seu conto.... e que ninguém enveredou por esse caminho por ser uma escapatória óbvia de mais - um lugar comum. Pois bem, ao colocar a morte como um dado conhecido à partida, já não há maneira de tornar tal revelação num clímax a dar à história. Há que inventar outra forma de abordar o assunto e de o tornar interessante.

Eu podia dar aqui umas ideias, mas já sei que os vossos desenvolvimentos vão ser muito melhores que as minhas hipóteses. :mrgreen4nw:

Pensei nisto porque estava com intenção de escrever mais uma abordagem ao desafio anterior e queria tentar um texto que metesse a morte, desse por onde desse, mas de forma a que não fosse esse o plot-twist final. E depois pensei: porque não colocar outras carolas a pensar também no assunto?

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Pedro Farinha » 01 Jan 2009 18:28

Meti a chave à porta sabendo bem quem me esperava sentada na sala de estar, quem sabe recostada naquele sofá de canto onde tu costumavas-te sentar com os pés a baloiçar ao ritmo de qualquer canção que entoavas entre dentes. Tu eras capaz de ficar horas assim, olhos presos no écran a trautear uma musiquinha qualquer enquanto eu despachava casos judiciais atafulhando a mesa de papéis e apontamentos.

Éramos só dois na nossa vida e não sentíamos falta de ninguém. Nos primeiros tempos ainda me afligia pensar o que seria daquela menina sem mãe e com um pai, tantas vezes ausente, encafuado em salas de tribunal onde presidia enquanto juiz. De pressa me apercebi que nós dois superávamos facilmente as dificuldades ainda que a logística fosse mais complicada, mas nada que a Joana não resolvesse e até não ficasse satisfeita com as horas extras frequentes que lhe pagava para tomar conta de ti.

Sempre que um caso mais complicado me afligia, que o povo e a comunicação social exigiam sangue, olhava para ti e percebia no teu olhar inocente que tudo deve ser aplicado com peso, justiça e medida. Davas-me o meu equilíbrio interior que não foras tu tinha partido na mesma noite em que a tua mãe resolvera zarpar para outras aragens. Boa viagem.

Foi então que aconteceu. A tua confiança excessiva no mundo e a tua bondade natural levaram-te a aproximar-te perto de mais do senhor que te queria fazer uma pergunta e que puxou, num repelão, para o carro. Eu não estava a mais de dez metros de distância ainda que me culpe. Se estivesse a cinco metros teria chegado a tempo, a dez não. Vi a matrícula e liguei para a polícia que se pôs no teu encalço rapidamente. A tempo de conservar a tua pureza mas não a tua vida. Em desespero, sentindo-se acurralado, ele atirou-te do carro em andamento e fugiu só eu sei para onde.

Sou juiz e sempre apliquei as leis como manda o código. Mas sobre o teu caixão mínimo que desceu à terra jurei aplicar a lei de Talião. Foi mais fácil do que tinha pensado, descobri-lo, mata-lo e até mesmo agora voltar a casa. Sei que para quem escolhe esta lei não há volta a dar, quando Talião é invocado por cada perda causada, pena igual terá de ser paga. É por isso que não hesito, não tenho medo, meto a chave à porta e entro suavemente num espaço a que já chamei lar. Ela aguarda-me na sala, a Morte. Há-de me abraçar, envolver-me nos seus braços e levar-me daqui. Para junto de ti, espero.

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby azert » 01 Jan 2009 20:53

Bem a propósito de uma discussão recente cá no fórum - a da pena de morte, pois claro.
Como sou chata e exigente relativamente ao que escreves, gostaria de ter visto a dor do pai um nadinha mais sublinhada. Mas, e daí, talvez fosse puxar demasiado ao sentimento... :rolleyes:
De qualquer das formas, acho que obedeceste bem à premissa de não tornar a Morte o objecto central da narrativa.

Ah, há por aí uma ou outra gralha, tal como:
<!--sizeo:1-->[size=50]<!--/sizeo--><!--sizeo:2-->[size=85]<!--/sizeo-->"<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->costumavas-te sentar" (costumavas sentar-te)
"De pressa" (Depressa)
"e que puxou" (e que te puxou)
"Há-de me abraçar" (Há-de abraçar-me)

Ok, isto é ser demasiado chata, até mesmo para mim! :mrgreen4nw: <!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Samwise » 02 Jan 2009 11:29

Gostei muito do texto do Pedro (com gralhas ou sem elas. Mas fizeste bem em escarrapacha-las, Azert).

Já tenho as ideias para escrever o meu de uma ponta à outra, mas as letras parecem não querer sair da caneta...

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby azert » 02 Jan 2009 12:48

Ela lembrava-se de como há muitos anos atrás o seu corpo se tinha transformado para constituir alimento para o ser que se formava dentro de si. Mais tarde, o ser havia recolhido leite do seu peito e ganhado peso e tamanho graças ao líquido do qual o seu corpo era fonte.
Também agora, após ter recebido a visita da morte, se oferecia como alimento aos seres que se serviam do seu corpo para crescer e engordar. Era novamente mãe.

(Foi o que se arranjou. :rolleyes: ) :mrgreen4nw:
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Thanatos » 02 Jan 2009 12:51

azert wrote:Ela lembrava-se de como há muitos anos atrás o seu corpo se tinha transformado para constituir alimento para o ser que se formava dentro de si. Mais tarde, o ser havia recolhido leite do seu peito e ganhado peso e tamanho graças ao líquido do qual o seu corpo era fonte.
Também agora, após ter recebido a visita da morte, se oferecia como alimento aos seres que se serviam do seu corpo para crescer e engordar. Era novamente mãe.

(Foi o que se arranjou. :rolleyes: ) :mrgreen4nw:


Vais de mal a pior rapariga. :lol2: Lembras-me a E.C. Comics nos seus tempos áureos.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby azert » 02 Jan 2009 13:02

Thanatos wrote:Vais de mal a pior rapariga. :lol2:


Sempre foi esse o sentido da minha evolução!
:rolleyes: :mrgreen4nw: :mrgreen4nw:
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Samwise » 07 Jan 2009 13:45

Fato e gravata pretos sobre uma camisa branca, de linho, muito clara. Sapatos pretos lustrosos. O cabelo rigorosamente arranjado, de risca ao lado, com as finas linhas do pente ainda visíveis a separar as madeixas grisalhas. Um gentelman da velha guarda, como já poucos se vêem.
Era esta a figura que me esperava quando entrei na sala.
Levantou-se e cumprimentou-me com um aceno de cabeça, olhando-me nos olhos, dignamente. O meu aspecto de jovem na flor da idade não teve qualquer efeito sobre os sulcos profundos, os sinais de austeridade, que lhe percorriam o rosto, e que se deviam ter formado ao longo de muitos e muitos anos. Pareceu ter ficado pensativo, recolhido em memórias interiores, quando notou o filho que eu carregava na barriga, mas nem isso foi suficiente para o fazer recuar um passo. As suas feições denunciaram, por momentos, sinais de incompreensão.
Apoiei a mão sobre o ombro dele, reconfortando-o, como que a dizer, está tudo bem. Um gesto de que não estava à espera de minha parte, dadas as circunstâncias. Comoveu-se, mas resistiu ao choro. Um último acto de bravura por parte de um velho combatente.
Saímos.
No quarto, o seu corpo continuava pendurado na corda que pendia da trave.


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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby azert » 07 Jan 2009 15:24

A morte na flor da idade e com um filho na "abriga" ( :devil: )? Dessa não estava à espera! :mrgreen4nw:

Acho interessante a ideia de os mortos, no momento de maior solidão e abandono, possam estar na barriga da morte (supondo que foi esse o sentido que pretendeste), anulando ou pervertendo, no fundo, a própria ideia de morte.

Gostei muito de "<!--sizeo:1-->[size=50]<!--/sizeo-->Um último acto de bravura por parte de um velho combatente".<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Samwise » 07 Jan 2009 16:23

azert wrote:A morte na flor da idade e com um filho na "abriga" ( :devil: )? Dessa não estava à espera! :mrgreen4nw:

Acho interessante a ideia de os mortos, no momento de maior solidão e abandono, possam estar na barriga da morte (supondo que foi esse o sentido que pretendeste), anulando ou pervertendo, no fundo, a própria ideia de morte.


O sentido é deixado em aberto, sendo essa uma das interpretações possíveis. Resisti à tentação de expor uma explicação para justificar facto. E o "facto", neste caso, era tentar jogar com a surpresa do leitor. Estaria ele, presumivelmente, à espera que a morte estivesse personificada pelo homem, não pela rapariga.
A ideia de a mostrar com barriga de grávida é de grande desconcerto, em todo o caso, porque a geração de vida é a exacta antítese do conceito de morte...

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Samwise » 07 Jan 2009 16:25

azert wrote:A morte na flor da idade e com um filho na "abriga" ( :devil: )? Dessa não estava à espera! :mrgreen4nw:


LOL, por isso é que não deu nada no corrector. Tenho de tirar do hábito a ideia de fazer textos à pressa e de os despachar à três pancadas no corrector do Word...

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Pedro Farinha » 07 Jan 2009 22:13

O texto está muito interessante. Curiosamente para mim, na primeira leitura, a morte era mesmo o morto e a grávida era quem ia morrer. A morte esperava-a e quase que hesitou ao vê-la grávida.

Como disse o Thanatos no outro dia citando sabe-se lá quem - por cada livro que se escreve, há vários livros que se lêem.

Já agora a barriga abriga o feto, o lapsus linguae não é assim tão despropositado.

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Aignes » 07 Jan 2009 23:05

Samwise wrote:
azert wrote:A morte na flor da idade e com um filho na "abriga" ( :devil: )? Dessa não estava à espera! :mrgreen4nw:

Acho interessante a ideia de os mortos, no momento de maior solidão e abandono, possam estar na barriga da morte (supondo que foi esse o sentido que pretendeste), anulando ou pervertendo, no fundo, a própria ideia de morte.


O sentido é deixado em aberto, sendo essa uma das interpretações possíveis. Resisti à tentação de expor uma explicação para justificar facto. E o "facto", neste caso, era tentar jogar com a surpresa do leitor. Estaria ele, presumivelmente, à espera que a morte estivesse personificada pelo homem, não pela rapariga.
A ideia de a mostrar com barriga de grávida é de grande desconcerto, em todo o caso, porque a geração de vida é a exacta antítese do conceito de morte...

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Vejo já duas hipóteses para a grávida. Pode simbolizar o nascimento do falecido para uma nova vida, como se quando morremos fôssemos um feto em relação à próxima reencarnação, ou nem precisa de ser uma reencarnação, mas simplesmente um outro tipo de vida, uma vida após a morte. Outra ideia seria que a morte estaria mesmo grávida, que haveria uma espécie de seres vivos dedicada a acabar com a vida dos humanos e que ela estava simplesmente grávida de mais um indivíduo dessa espécie. Mas esta coloca o problema: quem seria a morte da morte? O texto está giro, eu é que comecei a ler os comentários primeiros e então já sabia que a grávida era a morte.

Também tenho uma ideia para este desafio, a ver se ainda hoje a passo para o computador.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby azert » 07 Jan 2009 23:36

Para mim, a morte está grávida de um nado-morto, o homem que "nasce" para a morte.
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Samwise » 08 Jan 2009 00:10

Acho curioso (e estimulante) que se esteja a discutir uma especificidade de um texto meu para a qual eu não tenho resposta nem tinha uma ideia definida quando a escrevi.

A hipótese que gosto mais é a da considerar a gravidez como um simbologia do "nascer para uma nova vida". Sendo que a morte [acontecimento], nesse caso, funciona apenas como uma passagem entre o nosso mundo e um outro, onde a alma vai encontrar algo de novo - algo para o qual vai ter de aprender as regras do início, como acontece com um bebé. A morte [personagem] funciona como uma representação do guiador de almas, alguém que conforta e orienta quem morre num determinado momento que é intermédio entre o nosso mundo e o outro.

Já agora, ficam a saber - este texto não era o que eu tinha em mente em primeiro lugar para colocar aqui. Esse outro texto, que deve ir aí numas 2000 palavras neste momento, está num impasse. Gosto das ideias, mas detesto a implementação artística, por assim dizer. Está má de mais. Vai ficar em espera até que eu consiga fazer algum sentido com aquilo, revisão, após revisão. Ahhhh, e nesse outro texto está uma explicação bem explícita para aquilo que nos aguarda do outro lado... :mrgreen4nw:

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