Está alguém na minha sala de estar - V. II

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Bugman
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby Bugman » 18 Jan 2011 16:44

Era o seu fim de tarde. Uma janela, que não abre, virada a poente e todo aquele mar vermelho que lhe entra pela sala dentro.

Era, como dizia, o seu fim de tarde havia muitos anos. Ali ficava, sentado a olhar o sol, um livro na mesa de café, uma música a tocar e o sol a por-se. Sempre vira ali uma qualquer espécie de beleza poética, mas a falta de poesia não lhe trazia mensagens.

Eram tardes que tardavam a passar, e sentia-se aconchegado nessa infinidade.

Eram finais de tarde em que a solidão era esquecida, em que os filhos entravam pela sala com os netos, em que as amantes, as apaixonadas e toda a gente que conheceu ali estavam. Nunca percebera bem, mas desde o funeral que era assim. Os filhos nunca mais voltaram. Sempre foram filhos da mãe, o pai era um filho da puta.

Eis o sol que se pôs. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha.

O sentimento de companhia, que se havia deixado ficar, maravilhado com o mar de sangue que se retirou, esqueceu-se do que fazia ali.
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby croquete » 14 Feb 2011 11:03

Meia vida ou meia hora no trânsito. Os Carlos e os Rodolfos cruzam destinos até à porta de casa.
Cinco minutos no quarto. Uma telenovela qualquer fala para o corpo da mulher que se recusa a acordar.
Dez minutos e os miúdos. De costas voltadas, sem motivo.
Na cozinha, um jantar frio, mastiga-se, não sei por quanto tempo.
Dois minutos para a pia, outros tantos para o espelho, onde está a cara do meu pai.
Na sala o sofá promete descanso. Um aperto no peito, uma gadanha ferrugenta transformada em cachecol, sussurra um lugar-comum:
-Chegou a tua hora.

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zé.chove
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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby zé.chove » 25 Feb 2011 01:22

Gostei dos vários textos.

Aqui vai o meu.


Sala dos brinquedos na longinqua manhã
de madeira onde escorregam os raios de sol
nas latas, nas vidraças, nos piões e no carrossel
venezianas que despedem o pó dos anos
trespassai a minha infância de luz e sombras rectas
e que as andorinhas de Verão pintem negro
o meu céu de criança
de gatas no soalho da sala de brincar
o olhar vago pousando em tanto tempo
e os sons do campo através da janela
oh vizinhança oh vizinhança
Oh poço de roda em que brinquei
Oh doces figueiras aromas de menino
oh paredes brancas e telhados em brasa
nunca mais depois de voz tive férias
e aguarda-me agora uns passos à frente
o alcandorado branco entre os vultos dos ciprestes
dos Prazeres meu cemitério
Oh descanso eterno que eternidades nos levas a alcançar
vinde aqui mais pró de perto
avivai nossa vontade de chegar

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Re: Está alguém na minha sala de estar - V. II

Postby darkluneangel » 07 Dec 2011 17:27

Para mim este é um desafio bastante aliciante, já que tenho uma fobia, de que não me consigo livrar, relativamente a este mesmo assunto... Parabéns a todos os que escreveram as suas histórias, deliciei-me com todas elas. ^_^

Aviso já que a qualidade da minha escrita poderá estar aquém do que aqui já foi colocado, mas todas as críticas são bem-vindas. :)


Passei noites acordada no meu quarto à espera que não viesses. E no entanto escrevia-te cartas, com o medo a escorrer-me pela cara. Penso em ti todos os dias, tento esquecer-te todas as noites, e todavia tudo o que consigo pedir é: mata-me duas vezes ou torna-me imortal.
Da primeira vez bate à porta dos meus sonhos e leva-me sem eu dar por nada. Serei para sempre a minha maior fantasia. Na derradeira despedida, deixa-me olhar para ti. Olho com olho, palavra por palavra. Consente-me em sentir cada arrepio enquanto te infiltras em mim. Rever cada derrota, congratular-me a cada conquista. Gritar a cada parte de mim que se esvai.
Eram 5 horas da manhã e o sol estava quase a nascer quando o destino decidiu conhecer-me. A aurora anunciava-se como uma vitória, tinha vencido a morte mais uma vez. Ou era o que eu pensava. Dirigi-me à sala de estar para poder assistir o céu negro a esvair-se em cores douradas e esbatidas. E ver surgir o lilás timidamente. E, sem me aperceber, ver a tela tornar-se laranja e depois salmão. Com aquele tom azul claro que me faz suspirar. Queria ver as nuvens como labaredas de fogo, e passar do inferno ao paraíso. Observar o fogo a esfumar-se em rosa e ter aquela sensação de pertença e de admiração... indescritível. Naquele instante sobrevoou-me o pensamento de que morreria feliz após ver um nascer do sol.
Encontrei-te na minha sala de estar com um pedaço de livro na mão e a boca cheia das palavras que eu não queria ouvir. Estavas a matar-me por dentro, arruinando a minha imortalidade. Deixei-te sozinha nessa tua tarefa insaciável e fui para o meu quarto escrever. Haverias de conhecer cada linha minha, cada ponto e interjeição. E eu tornaria as minhas emoções numa série de zeros e uns que alguém pudesse entender. Talvez os mortos também lessem.
Imagino agora as gaivotas a entrecortarem o céu, anuciando um novo dia que já não me pertence. Imagino ainda as luzes que iluminam as estradas a apagarem-se praticamente ao mesmo tempo, assim como todos os órgãos do meu corpo. Quando ela me vem buscar, ainda o sol se encontrava escondido, eu sorria. O milagre tinha já vindo ao meu encontro, sussurrando-me que as melhores coisas da vida moram nos corações mais invisíveis.

Nícia Cruz, 07/12/11
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