Vida de um parafuso

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Khanti
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Re: Vida de um parafuso

Postby Khanti » 26 Feb 2009 17:33

Tenho receio que digam em voz alta o que penso
Que me confrontem com o que eu sei
Que a vergonha se torne raiva,
E a esperança desespero.

Tenho o corpo submerso,
O reflexo foi alterado,
a minha percepção é medonha.
Não sou convencional
Sou triste, deformado, sinto-me mal.

Levanto a cabeça para me contrariar,
Serei mais forte do que a realidade?
Sou o que sou, não o posso mudar.
Eu sem "eu", só o posso desejar.

Pedro Farinha
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Re: Vida de um parafuso

Postby Pedro Farinha » 26 Feb 2009 21:31

Sim senhor croquete, gostei do surrealismo de ter acordado num parafuso. Se a família fosse de pregos e ele fosse o parafuso feio ainda era melhor.

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azert
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Re: Vida de um parafuso

Postby azert » 26 Feb 2009 23:44

croquete, ao ler o teu texto veio-me à lembrança o "Metamorfose" do Kafka.
Está uma ideia com piada mas talvez pudesses ter desenvolvido um pouco mais (isto dito por quem escreve sempre "a despachar", não deixa de ter a sua piada :rolleyes: ).
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croquete
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Re: Vida de um parafuso

Postby croquete » 27 Feb 2009 10:04

Obrigado pelos comentários.
Não passa de uma paródia ao CSI e ao Kafka.
:smile:

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Re: Vida de um parafuso

Postby Ripley » 27 Feb 2009 11:28

croquete ... entre os óculos escuros do Horácio (faltou aquele jeito de colocar as mãos na cintura com ar dramático antes das falas) e o carinho do irmão, que afinal só o atirou da janela, comecei por franzir as sobrancelhas sem perceber o que tinha o Anacleto a ver com parafusos - e acabei a rir imenso.
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---§§§---
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Re: Vida de um parafuso

Postby croquete » 27 Feb 2009 12:48

Ripley wrote:croquete ... entre os óculos escuros do Horácio (faltou aquele jeito de colocar as mãos na cintura com ar dramático antes das falas) e o carinho do irmão, que afinal só o atirou da janela, comecei por franzir as sobrancelhas sem perceber o que tinha o Anacleto a ver com parafusos - e acabei a rir imenso.


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Re: Vida de um parafuso

Postby Samwise » 27 Feb 2009 14:02

Hmmm... este poema daria um daqueles debates altamente intelectuais, povoados de opiniões surrealistas não comprováveis, provavelmente tendo por base o peso das convenções sociais sobre a auto-aceitação do indivíduo, se, se, não soubéssemos de antemão sobre o que é que trata. :mrgreen4nw:

Gostei de ler.

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Re: Vida de um parafuso

Postby Gaminha » 16 Dec 2009 17:24

<!--coloro:#C0C0C0--><!--/coloro-->No meu caso, serão pregos em vez de parafusos.<!--colorc--><!--/colorc-->

Os choros são abafados e sufocados. O sol torra o chão vermelho de terra, por onde pés descalços se arrastam. Cansados e sem alma sobem lentamente num cortejo fúnebre.

Numa mão suada e rude vários pregos seguem para o momento alto da sua existência. Pelas frinchas dos dedos apenas vêem vermelho. Chão vermelho de terra árida, capas vermelhas e limpas sobre os ombros de homens grandes, sangue vermelho a cair em grossas pingas.

Vários murmúrios se ouvem em redor. Lamentos, medos e incertezas. Pouco à frente homens semi-nus chegam ao cimo do monte.
O momento chegou. O momento pelo qual todo o prego anseia. Aos primeiros segundos da sua vida, em que começa a tomar forma por entre as chamas que aquecem o ferro, o prego entende a sua função. Deseja ardentemente reencontrar-se com o martelo que o ajudou nascer e que o verá a morrer.

Os pregos são pousados no chão poeirento, enquanto as mãos vão trabalhar as cordas. Pulsos e pés são presos à dura e áspera madeira. Ouvem-se gritos de dor, enquanto os martelos caem sobre outros pregos no cimo do mesmo monte.

Uma das mãos agarra o martelo, a outra pega no primeiro prego.
O prego sente a superfície quente de uma mão por baixo da sua ponta. Com um zumbir do ar o martelo cai-lhe em cima com força, obrigando-o a entranhar-se por entre pele, músculos e osso. Vários lamentos se ouvem por entre os que assistem. Vários pregos são usados naquele homem. A cruz de madeira é levantada, os pregos sustentam o homem preso à madeira, enquanto o céu escurece e as nuvens tapam o sol.

"Pai perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem."

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Re: Vida de um parafuso

Postby Marisa » 25 Mar 2010 13:29

Toda a minha vida estive aqui e toda a minha vida fui feliz.

Somos vários, diferentes, em forma e em tamanho, mas só nos temos a nós. Somos tagarelas e bem-dispostos. E somos amigos, poderei dizer. Vivemos numa caixa, é de cartão e já está velha, mas é nossa e nós somos dela.

O nosso dia é simples, ouvimos as conversas dos homens, nas suas vozes austeras e autoritárias, falando de trabalho, sempre de trabalho. Não sei como conseguem conversar sempre sobre o mesmo, e zangados, estão sempre zangados.

Por vezes, os homens abrem a nossa caixa e atiram mais uns quantos para cima de nós, e lá temos que repetir as apresentações vezes e vezes sem conta. Preferíamos que a caixa não enchesse mais, que nos deixassem com aqueles que já conhecíamos, com aqueles com que já conseguíamos lidar, mas eles trazem sempre mais, e nós acabamos por nos habituar.

Numa tarde como todas as outras, com baixa luz e ar empoeirado, a caixa abriu e um de nós foi levado. Pegaram nele, sem ver, sem escolher, qualquer um servia. Vi umas mãos enormes e sujas mesmo ao meu lado e sustive a respiração, paralisei e fechei os olhos até me doer, só os voltei a abrir quando senti a tampa ser colocada de volta na caixa, a luz extinguiu-se e ninguém falou, ninguém respirou. Isto nunca tinha acontecido, eles colocam-nos aqui, mas nunca nos tiram. Nenhum de nós conseguia falar e dormimos sem trocar palavra. Todos nós, juntos, imóveis e assustados, tentado adormecer e esquecer o que se tinha passado. Se não pensássemos nisso, poderia ser que nunca tivesse acontecido.

No dia seguinte, talvez pelo silêncio anterior, todos começaram a falar subitamente, atropelavam-se na tentativa de falar primeiro. Queriam sair, queriam ir ver o mundo e cumprir o seu propósito, queriam ser úteis. Queriam sair daquela caixa de cartão, comida pelo tempo que os abrigava desde sempre. Eu não. Eu sempre fui um dos mais pequenos, sempre tive medo, sempre intimidado, agora que já os conhecia não me queria ir embora e recomeçar! Não, eu queria ficar ali entre eles, mas eles queriam sair. Ainda discutiam como haviam de o conseguir, quando a caixa se abriu e a luz entrou.
Vi as mesmas mãos gordas e sujas entrarem na caixa e apalparem. Vi quando elas se aproximaram, senti quando elas me agarraram e rodaram nos dedos para verificar se tinha a espessura certa, e eu tinha. Levaram-me assim, preso nos dedos ásperos, um objecto sem valor, como se não tivesse vida, mas eu tinha e ainda conseguia ouvir os meus amigos a gritarem por mim, estavam assustados, já não queriam sair, queriam-me de volta. As mãos continuaram a agarrar-me fortemente como se soubessem que eu queria escapar. Percebi que cheguei ao meu destino quando me colocaram num buraco, num sítio alto, onde eu consegui ver muitas coisas, vi uma mesa, vi mais homens, vi uma porta e vi um mundo lá fora e de seguida vi as mãos aproximarem-se com uma chave, encaixaram-na em mim e rodaram, uma e outra vez, senti o meu corpo forçar a madeira, uma e outra vez, doía, e quando por fim terminaram, eu estava enterrado num buraco. Não vejo nada, não oiço nada, não sinto nada. Estou aqui sozinho, num buraco.
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Re: Vida de um parafuso

Postby Samwise » 25 Mar 2010 19:36

Donde se depreende: os olhos de um parafuso estão localizados por baixo, junto ao corpo da espiral... :D

Gostei, está engraçado e termina com uma frase inquietante - a eternidade pela frente, mas sem os sentido de visão, audição, etc. (é quase como ser enterrado vivo dentro de um caixão, mas sem a parte da asfixia. :mrgreen: ).

Há uma diferença nos tempos narrativos entre o início do texto, o desenvolvimento, e o seu fim. Se ele [o parafuso] está a relatar a sua experiência passada, o texto não devia começar no presente:

Começa assim: «Toda a minha vida estive aqui e toda a minha vida fui feliz. Somos vários, diferente...»
Termina assim: «Não vejo nada, não oiço nada, não sinto nada. Estou aqui sozinho, num buraco. »

Para as partes estarem em concordância, o texto teria de começar, por exemplo, assim: Toda a minha vida estive naquela caixa e toda a minha vida fui feliz dentro dela.

Pelo meio tem também alguns "desajustes": «Por vezes, os homens abrem a nossa caixa e atiram mais uns quantos para cima de nós,» e «Numa tarde como todas as outras, com baixa luz e ar empoeirado, a caixa abriu e um de nós foi levado»
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Re: Vida de um parafuso

Postby Marisa » 25 Mar 2010 20:22

Obrigada pela crítica construtiva :)

Os tempos verbais sempre me aterrorizaram. Tenho plena consciência de tudo o que referiste, mas parece que ao adequar os tempos verbais, eles deixam de servir o meu texto...Acho que não me estou a explicar muito bem :) Eles servem exactamente o seu propósito, assim, como estão :)
Mas tens razão, tenho de começar a respeitar essas "pequeninas" regras :whistle:
Também em textos maiores tenho tendência a misturar e alterar, sem ordem alguma, o ponto de vista da história. Estou sempre a saltar de um lado para o outro, tempo verbal, ponto de vista...

Pode ser que se participar em muitos, muitos desafios a coisa vá melhorando :)

Já os olhos, não me preocupei muito em pensar onde eles estariam :D Tinha de os ter e pronto!
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Re: Vida de um parafuso

Postby Samwise » 25 Mar 2010 20:42

Eu percebi porque é que os colocaste [aos tempos verbais] dessa forma (pelo menos acho que percebi): para não revelares logo que o final do texto tem um twist (não é bem um twist, mas acho que a palavra assenta bem neste contexto de parafusos.. :D ). Se começasses a narração a partir de um ponto futuro, o leitor ficaria à espera de encontrar um ponto de cisão temporal mais cedo ou mais tarde, assim como uma razão específica pela alteração dos acontecimentos.
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Re: Vida de um parafuso

Postby Marisa » 25 Mar 2010 22:15

Acho que este parafuso teve mais twists que aqueles que queria ;)

Sim, penso que, ainda que inconscientemente, foi essa a razão.

Costumo utilizar o presente, mesmo quando relato experiências passadas, e depois misturo tudo <_< Acho o presente mais fácil para relatar sensações de uma forma convicente. Vou ter de arranjar outra forma.
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Re: Vida de um parafuso

Postby Arsénio Mata » 26 Mar 2010 01:34

Gostei bastante do texto Marisa. Tem metáforas muito boas e gosto da maneira como usas as palavras. :tu:
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A knife to the eye of modern day times
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The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

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Re: Vida de um parafuso

Postby Marisa » 26 Mar 2010 10:43

Arsénio Mata wrote:Gostei bastante do texto Marisa. Tem metáforas muito boas e gosto da maneira como usas as palavras. :tu:


Obrigada ^_^
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