Vida de um parafuso

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azert
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Vida de um parafuso

Postby azert » 24 Jan 2009 19:19

Proponho um texto a partir da foto "Life of an unnoticed screw", do fotógrafo russo Bogdan Zwir. http://zwir.ru/gallery/other/2005_23.htm

[img]http://i410.photobucket.com/albums/pp184/maria_pgrs/BBdE/lifeofanunnoticedscrew2005BogdanZwi.jpg[/img]
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Pedro Farinha
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Re: Vida de um parafuso

Postby Pedro Farinha » 27 Jan 2009 00:54

Preso.

Cada história não é mais do que uma sucessão de acasos que se somam e fazem com que dado percurso seja apenas aquele e mais nenhum. Como a minha história. A forma como vim aqui parar.

Se há coisa de que não me podem acusar é de ter mania das grandezas. Bem antes pelo contrário, sempre fui apenas mais um entre os demais que aprumados ou estiraçados pelo chão aguardavam com o bocejo diário que as horas se passassem num langor monótono porém feliz.

Nunca tive grandes aspirações e ainda que ansiasse pelo dia em que me furtariam à companhia dos meus colegas oferecendo-me, enfim, uma posição, a verdade é que sempre pensei que esse dia demoraria a chegar e não seria pela figura esbelta, vestida de vermelho que se aproximou numa cálida tarde de verão.

Não posso dizer que não tenha olhado para ela. Quem não olharia. O estranho foi que também ela olhou para mim e, quase que mecanicamente, como que impelido por qualquer força magnética pus-me de pé e segui-a qual cordeirinho para um matadouro.

Os meus sonhos resumiam-se a pouco. Ser um suporte útil à sociedade. Confiarem em mim. Saberem que nunca deixaria cair o que depositassem a meu cargo. Mas, perdido de amores, de desejos e olhando com volúpia para a forma como ela rodava em torno de si mesma só me apercebi da armadilha já era tarde demais. Enterrado até ao pescoço em território de ninguém, sem mais qualquer utilidade que ser motivo de escárnio, eis-me aqui com todo o tempo do mundo para pensar. Para tentar perceber: como é que aquela chave de fendas me deu a volta à cabeça com tanta facilidade e porque me escolheu entre mais de cem parafusos iguais.

A fome revolta-me o estômago, é que nem uma bucha me deram.

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Re: Vida de um parafuso

Postby azert » 27 Jan 2009 01:30

:notworthy: :notworthy: Muito bom! :notworthy: :notworthy:
Gostei do início, intrigante e verdadeiro (a vida é, de facto, uma sucessão de acasos). Gostei das aspirações do parafuso. Gostei de como lhe deram a volta à cabeça. E gostei do final - sem uma bucha. :biggrin:
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Re: Vida de um parafuso

Postby azert » 28 Jan 2009 01:46

Era um dia quente do princípio de agosto. No terraço, expunha-me ao sol e à brisa salgada vinda do mar, ali onde desagua o Tejo. Sentia-me bem naquela cadeira de lona, onde sempre estava.
O barbeiro Manuel Marques esperava a sua vez, enquanto o calista Hilário preparava as ferramentas do ofício. Era dia de higiene pessoal lá no Forte. Quando trabalhava o calista, a cadeira de lona rangia estoicamente, mas chegada a vez do barbeiro, sentia-se a preguiça distribuida por toda a cadeira. Era assim.
Naquele dia, António estava distraído, com assuntos sem dúvida importantes. Atirou-se pesadamente para a cadeira de lona e esta, não resistindo ao ímpeto, cedeu. O corpo de António embateu nas lages do terraço. Ouviu-se uma pancada quando a cabeça mediu durezas com a pedra. Inútil querela, já se sabe, nada vence o granito. Barbeiro, calista e demais presentes acorreram a ajudar António, que recuperou a pose digna, tão rápida e convincentemente quanto lho permitiram as dores no corpo. Recusou terminantemente ver um médico, julgando a sua saúde, tal como o seu poder, acima de qualquer revés. Levaram-no para dentro e a cadeira lá ficou esparramada no chão.
Eu estava livre. Talvez tenha ajudado à minha libertação a folga que me haviam dado durante a noite. Fora um vulto negro armado de uma chave de fendas. Chegara-se à cadeira e escolhera-me a mim para ser aliviado da pressão. Por isso no dia seguinte, isentado dos habituais deveres de fixação, fiz cair a cadeira e António sentado nela.
Sim, fui eu. António nunca mais foi o mesmo e, pouco a pouco, outras cadeiras foram caindo, deitando por terra governantes. O último foi Marcelo, obrigado a deixar a sua por homens armados, num dia de abril.
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Pedro Farinha
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Re: Vida de um parafuso

Postby Pedro Farinha » 28 Jan 2009 09:09

Muito bom mesmo. A forma como aos poucos nos percebemos quem afinal era o António e a história contada do ponto de vista de um parafuso.

Gostei particularmente desta sequência:


Ouviu-se uma pancada quando a cabeça mediu durezas com a pedra. Inútil querela, já se sabe, nada vence o granito.

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Re: Vida de um parafuso

Postby Samwise » 28 Jan 2009 13:34

Dois textos bem esgalhados, sim senhores, daqueles que dá prazer ler.

Ambos têm várias passagens que sobressaem esteticamente, mas vou fazer referência a uma frase do Pedro que me puxou para memórias que não têm nada a ver com o assunto:

Se há coisa de que não me podem acusar é de ter mania das grandezas. Bem antes pelo contrário, sempre fui apenas mais um entre os demais que aprumados ou estiraçados pelo chão aguardavam com o bocejo diário que as horas se passassem num langor monótono porém feliz.


Segunda Guerra Mundial, vésperas da invasão das forças aliadas a território francês (a.k.a "D-Day"):

«As early as 1940, the BBC (Radio London) transmitted a daily series of coded messages to allow the Allies based in England to communicate with the Resistance in France, to ask them to plot various sabotages and, most importantly, to prepare for the upcoming landing in Normandy. A few days before D-Day, the commanding officers of the Resistance heard hundreds of messages, but only a few of them were really significant. When said twice, the first line of the poem by Verlaine, Chanson d'Automne, "Les sanglots longs des violons de l'automne" meant that the "day" was imminent, and when the second line "blesse mon coeur d'une langueur monotone" was also repeated, the Resistance knew that the invasion would take place within the next 48 hours. Messages such as: "Il fait chaud à Suez" (It's hot in Suez), "Les dés sont sur le tapis" (The dice are on the mat), "Le chapeau de Napoléon est dans l'arène" (Napoleon's hat is in the arena), "John aime Marie" (John loves Marie), "La Guerre de Troie n'aura pas lieu" (The Trojan War will not take place) or "La Flèche ne passera pas" (the Arrow will not get through), all told the members of the Resistance it was time to go about their respective missions, which included destroying water towers or entire communication networks, or dynamiting selected roadways. »

(http://www.francemonthly.com/n/0501/index.php)

:tongue:

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Re: Vida de um parafuso

Postby Pedro Farinha » 28 Jan 2009 13:48

Por acaso também conhecia essa Grandola Vila Morena do desembarque na normandia mas acredita que nem dei por isso ao escrever o texto.

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Re: Vida de um parafuso

Postby Samwise » 28 Jan 2009 13:56

Pedro Farinha wrote:Por acaso também conhecia essa Grandola Vila Morena do desembarque na normandia mas acredita que nem dei por isso ao escrever o texto.


Sim, certo. Não te estava a acusar de plágio. :wink:

É engraçado como é que estas associações me surgem na cabeça. Devo ter uma telefonista dedicada a fazer ligações de cablagem entre assuntos. :biggrin:

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Re: Vida de um parafuso

Postby Mad_1_wolf » 07 Feb 2009 15:29

Nada de especial :tongue: , mas espero que gostem :wink:

Vivo numa vivencia monótona, dormente, simples, estagnada, sem sobressaltos ou sustos, mesmo quase morta, para alguns.

Mas não era suposto eu ser assim, não era suposto eu seguir ordens, não era suposto fazer as mesmas coisas dia após dia, no mesmo escritório, com as mesmas pessoas.

Eu deveria ter sido grande, realizado grandes coisas, ser o martelo que molda o mundo.

E já fui.

Desde sempre soube o que queria ser: salvador do mundo, o “Herói sem máscara”, aquele em que todos se pudessem identificar e seguir.

Esforcei-me, estudei para isso. Todos me admiravam. Falavam para mim com sinceros sorrisos de cumplicidade, davam-me encorajadoras pancadinhas nas costas.

E eu aceitava essa realidade. A realidade de ser grande, de ser o maior, de chegar ao topo.

Porém era jovem e crédulo. Não me apercebi do mundo que se construía à minha volta, da vida que me ia sendo imposta lentamente.

Ao dar por mim, estava sufocado. Trabalhava como louco dia e noite, noite e dia. As responsabilidades multiplicavam-se diariamente, sem que as pudesse sequer ler a todas.

Apercebi-me, então, que não conseguiria satisfazer todos os desejos pedidos, jamais conseguiria salvar toda a gente.

E então fugi.

Cobardemente, fugi.

Não olhei para trás, jamais olhei para trás.

Não tinha estofo nem capacidade para servir a sociedade, não como herói, mas como um cidadão normal, com responsabilidades reduzidas.

Gosto de ser igual a tantos outros, de trabalhar oito horas por dia, do conforto de saber que volto todas as noites para casa, sem pressas desenfreadas.

Se ficaram surpreendidos por eu me ter ido embora nunca soube, nunca quis saber.

Consta que o que me substituiu faz um melhor trabalho do que eu alguma vez fiz.

Ainda bem, não quer voltar.

Não, não quero voltar a tomar decisões, não quero voltar a pensar.

Quero paz, quero ser invisível.

Quero ser um prego entre tantos na sociedade.

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Re: Vida de um parafuso

Postby Pedro Farinha » 07 Feb 2009 16:21

Gostei Syrinca. E às vezes penso exactamente como o personagem do teu texto... depois dou uma gargalhada e passa-me.

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Re: Vida de um parafuso

Postby Mad_1_wolf » 07 Feb 2009 16:26

Obrigada :happy:
Penso que já todos tivemos um momento na vida em que queríamos simplesmente desistir e seguir os outros.
Por um lado é apelativo, mas por outro... que é a vida sem emoções? :tongue:

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Re: Vida de um parafuso

Postby azert » 08 Feb 2009 00:10

Gostei imenso da última frase!! :thumbup: (E do resto também)
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Re: Vida de um parafuso

Postby Ripley » 09 Feb 2009 02:03

Os meus dias são escuros.
A luz acende-se de vez em quando mas nem sempre consigo ver.
Sabem, é nessas alturas que me sinto melhor. Quando saboreio o cheiro dela.

Um entre milhares numa linha de produção, fui separado e enfiado numa caixa plástica com dezenas de outros. Foi da sua mão o primeiro calor que senti. Dedos macios separando-me dos meus iguais, elegendo-me o seu preferido ... sem me mexer ouvi a sua voz pela primeira vez "É este". Delicadamente deu-me a volta à cabeça várias vezes até ficar completamente preso a uma curva cor de bronze. E sabem? Não poderia ficar em melhor sítio.

Vejo-a pela manhã, todos os dias. Ainda ensonada, prende o cabelo ao alto com um elástico num carrapito que faz a sua cabeça parecer algo estranho. Um ananás, talvez. Traz uma caneca de chá na mão, vai bebendo enquanto prepara a roupa.
Começa a despir-se para o banho e é nessa altura que deixo de ver. Ouço a água a correr e a porta deslizante do chuveiro. Ela canta, sabiam? Canções de amor, vocalizos de ópera, o que quer que seja que lhe passe pela cabeça.

Adoro ouvi-la. Quando não a ouço sei que está triste.

Mas há dias em que consigo vê-la por inteiro. A tatuagem num ombro fora da toalha turca, os dedos dos pés tão redondinhos que ela diz parecerem batatas anãs, as pernas musculosas de anos a pedalar e dar pontapés numa bola. Vejo-a mirar-se no espelho enquanto se penteia e prepara para sair. Depois tudo fica escuro e silencioso. Ela parte.

Gostaria de vê-la assim mais vezes, mas não posso. No mesmo dia em que a vejo nua sei que um novo padrão, uma nova cor virão tapar-me a visão mais tarde. Porque na maior parte dos dias o que me impede de a ver é exactamente o que me traz o seu cheiro, perfume e pele embrenhados na flanela do pijama pendurado a centímetros de mim durante todo o dia.

É como se ela estivesse sempre ali ...
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Vida de um parafuso

Postby azert » 09 Feb 2009 18:02

A prova de que um simples parafuso tem muito que se lhe diga! :mrgreen4nw:
Bom texto, Lt.! :thumbsup:
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Re: Vida de um parafuso

Postby croquete » 26 Feb 2009 17:09

Ali estava um crime que nada tinha de especial.

Coisa simples, de principiante. Dá vontade de entregar este caso aos meus ajudantes estereotipados. Pensou Horácio, enquanto lhe descaía a cabeça para a frente devido ao peso dos óculos escuros.

A amálgama de metal que se lhe afigurava, misturada com os carris do caminho-de-ferro fazia lembrar cinema, série B, filmado num ferro velho, na vez de um blockbuster plastificado mas de qualidade.

A carteira com os documentos nada sofrera, o que ali se via, tinha sido Anacleto Pimpão solteiro, 40 anos, contabilista de um banco privado a viver com os pais.

Tudo era por demais evidente, a marretada que lhe dera o pai partira-lhe a parte debaixo do que fora o seu corpo. É obvio que tinha dado de caras com ele enquanto tentava explicar à sua mãe e à sua irmã os problemas existenciais que enfrentava, enquanto elas lhe desfaziam à vez a sua cabeça com uma chave-inglesa e uma panela de pressão.

O irmão, a primeira pessoa que encontrou naquele dia, tratou-o relativamente bem. Quando viu Anacleto pela manhã, atirou-o pela janela do quinto andar onde moravam.

Tinha fugido para ali enquanto os vizinhos o perseguiam, triste por o considerarem aberrante. Tivera a secreta esperança de que tivesse alguma utilidade nos caminhos-de-ferro, entre travessas e carris.

Saíra-lhe fraca a esperança, não tinha agora qualquer utilidade.

Tudo isto porque, pensou Horácio:

Um dia Anacleto Pimpão acordou transformado num parafuso.


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