encontro com uma personagem

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Sofiushka
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Re: encontro com uma personagem

Postby Sofiushka » 19 Apr 2009 00:17

Apeteceu-me tentar... perdoem o tamanho, entusiasmei-me! :blush:




Do relógio da sala soaram as 16 horas, o que significava que já estava atrasada. De um salto, vesti o casaco e peguei na maleta, e desci as escadas o mais depressa que podia, enquanto tentava ler no papel a morada que a minha supervisora tinha anotado.
Por sorte, consegui imediatamente um táxi, e em pouco tempo chegava a Picadilly.

O meu novo paciente morava sozinho, segundo me informaram, portanto esperei pacientemente que me abrisse a porta do apartamento. Quando a porta se abriu, saudou-me um homenzinho curioso, rechonchudo e quase calvo, com um bigode bem aparado que mostrava que, apesar da cadeira de rodas, da idade e da doença, havia ali ainda um resquício de vaidade.

- Ah, bienvenu, mademoiselle! Entrez, entrez. – disse quando me apresentei, afastando-se.

O apartamento era espaçoso o suficiente para manobrar a cadeira de rodas, mas não era grande. A decoração era simples e notavelmente masculina, com móveis sóbrios e ligeiramente antiquados e as paredes nuas à excepção de um ou outro quadro de bom gosto.

Fui fazendo conversa enquanto preparava um emplastro. Já sofria de gota há muito tempo, contava-me ele, e nestes dias de frio era sempre pior.

- Mais esse medicamento insopportable revolta-me o estômago, arruína-me as refeições! Jamais, digo-lhe, jamais o volto a tomar!

- Posso injectar-lhe colquicina, se preferir… - e o pobre homem empalideceu.

- Non, pas necessaire. Guarde lá a sua agulha, e dê-me a maldita beberragem.

E foi assim que estabelecemos uma rotina. Todas as terças, às quatro horas, descia até Picadilly e passava a próxima meia hora a untar-lhe o joelho e os pés, deixava-lhe gotas suficientes para ir tomando durante a semana, fazíamos um bocadinho de sala e saía para o meu próximo regular, a senhora reumática que vivia com a filha em Mayfair.

Comecei a ganhar-lhe um certo afecto. Tinha uma mente muito aguçada, e lia os jornais todos os dias, pelo que acabávamos quase sempre por discutir amenamente um qualquer assunto que estivesse na ordem do dia. Contava-me histórias engraçadas da sua juventude e às vezes mencionava uma ou outra senhora, que embora se tivesse mantido sempre solteiro, aparentemente tinha sido um modesto galã no seu tempo.

Creio que ao fim de algum tempo já nos poderíamos considerar amigos. A senhora reumática dispensou os meus serviços e comecei a passar mais tempo em casa dele, sem cobrar, só pela companhia. Raramente era visitado e eu também não gozava de grande vida social para além do gato anafado que me esperava em casa, pelo que éramos um conforto um para o outro.

Havia dias em que lhe preparava banhos de sais para os pés, outros em que lhe aparava e encerava o bigode, e entretanto íamos trocando impressões sobre livros, peças, música e notícias, até ao dia em que reparei numa fotografia amarelada em cima do aparador, na qual o meu novo amigo, de fato e chapéu de coco, sorria ao lado de um camelo, com uma pirâmide ao fundo.

- Oh, o Nilo, mademoiselle! De todas as viagens que fiz, creio que essa foi a minha predilecta! – e foi narrando a história dessa viagem, um cruzeiro na companhia de personagens ilustres e extraordinariamente ricas.

Era muito viajado, ao que parecia, e assim, todas as semanas, partilhava comigo memórias dos lugares onde tinha estado, das pessoas com quem se tinha cruzado e principalmente das peripécias que tinha vivido. Para mim, simples enfermeira londrina, ele era um portal para um outro tempo, mais sofisticado, mais exótico e muito mais interessante.

Numa terça-feira de verão, demorou mais do que o costume a abrir-me a porta depois de ter tocado à campainha. Pensando que não tivesse ouvido, preparei-me para bater com força na madeira escura, mas a porta deslizou para trás logo ao primeiro impacto.

- Monsieur? – chamei, enquanto entrava devagarinho pelo corredor.

O que encontrei na salinha deitou-me o coração aos pés. O meu querido amigo, aprumado como se fosse sair, baloiçava da trave do tecto, com os lábios roxos e os olhos revirados. Tomei-lhe o pulso com muito pouca esperança, e confirmei a terrível verdade – estava morto. Entorpecida, dirigi-me ao escritório e peguei no telefone.

- Operadora, ligue-me à Yard, por favor.

O corpo foi baixado por três polícias, enquanto um inspector sisudo, de gabardina, inspeccionava a sala.

- Bom, menina, cá para mim trata-se de um simples caso de suicídio. Conhece algum parente que possa ser contactado?

- Não, senhor. O senhor Boulle era do Québec e vivia sozinho há muitos anos, tanto quanto sei.

Da cozinha saiu um homem baixo, de bigode farto e lustroso, fato claro, apoiado levemente numa bengala e com o frasco das gotas na mão.

- Japp, mon ami, não tiremos conclusões precipitadas. Monsieur Boulle sofria de gota há muito tempo, mademoiselle?

Surpreendida pela entrada, respondi que sim.

- Francamente, não sei o que isso possa ter a ver…

- Vamos esperar pelo relatório do médico legista, será mais prudente – com um sorriso amistoso e modos calmos, o homem do bigode cortara a palavra ao inspector – Com esta idade e as dores da gota, crê que monsieur Boulle teria tido forças para subir ao banco e suicidar-se? Non, trata-se certainement de homicídio.

Aquela palavra horrível, dita naquele tom de voz seco e firme, finalmente arrancou-me do meu estupor e comecei a chorar. Desabei sobre uma cadeira, com a cara nas mãos, e lamentei profundamente a minha perda.

Apiedado de mim, o homem do bigode pegou-me gentilmente na mão e ofereceu-me o seu lenço.

- Hercule Poirot ao seu serviço, mademoiselle. Era enfermeira ao domicílio do infeliz monsieur Boulle, n’est-ce pas? – acenei lentamente - Leve o seu tempo a recuperar o fôlego, mademoiselle. Quando se sentir melhor, gostaria de fazer-lhe algumas perguntas.

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Re: encontro com uma personagem

Postby Pedro Farinha » 19 Apr 2009 00:57

Muito bom Sofiuska, curioso que mal comecei a ler pensei no Poirot, mas primeiro pensei que a enfermeira cuidava de um Poirot envelhecido...

:thumbsup:

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Re: encontro com uma personagem

Postby Sharky » 19 Apr 2009 01:04

Gostei do teu entusiasmo, está muito fixe, fizeste-me lembrar do cruzeiro que fiz pelo Nilo durante 4 dias, apesar da pobreza que vi, o Egipto é muito bonito, mesmo quando está sob 45/50º em que o alcatrão chega a derreter em certas zonas :blink:

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Re: encontro com uma personagem

Postby Thanatos » 19 Apr 2009 09:49

Sofiushka está muito bom! Foi a primeira vez que lemos aqui alguma coisa ficcional tua. Não nos queres dar a conhecer mais textos da tua gaveta? :wink:
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Re: encontro com uma personagem

Postby Aignes » 19 Apr 2009 11:04

Pedro Farinha wrote:Muito bom Sofiuska, curioso que mal comecei a ler pensei no Poirot, mas primeiro pensei que a enfermeira cuidava de um Poirot envelhecido...

:thumbsup:


Same here.

O Poirot é realmente um bom personagem para se conhecer.
«The force that through the green fuse drives the flower
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Re: encontro com uma personagem

Postby azert » 19 Apr 2009 13:42

Também caí no mesmo engano que o Pedro. :mrgreen4nw:

Entráste muitíssimo bem no espírito da época e do ambiente das personagens. Muito fluido, o texto. Dá vontade de ler mais. :unsure:
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Re: encontro com uma personagem

Postby Sofiushka » 19 Apr 2009 14:27

Ainda bem que gostaram. A ideia era precisamente levar ao engano, e foi por isso que me alonguei prali, a tentar descrever um Poirot-não-Poirot.

Concordo que o Poirot seria um óptima personagem para conhecer. O literário é um bocadinho mais rabugento, mas o interpretado pelo David Suchet é tão adorável que me consegue arrancar uma paixoneta. Não daquelas "Oh, leva-me no teu cavalo em direcção ao pôr do sol", mas sim das "Oh, conta-me uma história, avô!", enquanto lhe dava beijinhos na careca :tongue:

O que me falhou no post, com a pressa de deixar aquilo postado antes que a internet me falhasse, era dizer que finalmente tinha lido o tópico de ponta a ponta (lentinha, eu sei) e que achei imensa piada aos encontros que magicaram. Gostei particularmente do da Lapin Blanc, mas sou suspeita, porque tenho a fraqueza das histórias de época; o do pco fez-me ir às lágrimas, principalmente porque me lembrou este anúncio.

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Re: encontro com uma personagem

Postby pco69 » 19 Apr 2009 21:27

Sofiushka wrote:(...)
o do pco fez-me ir às lágrimas, principalmente porque me lembrou este anúncio.

A ideia era ser uma piada..
Espero que as lagrimas fossem de rir? :dry:
Relativamente ao teu texto, está excelente, e também caí na esparrela de considerar o primeiro francês/belga como sendo o Poirot... :mrgreen4nw:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

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Re: encontro com uma personagem

Postby Sofiushka » 19 Apr 2009 22:57

pco69 wrote:Espero que as lagrimas fossem de rir? :dry:


Claro que sim! :mrgreen4nw:

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Re: encontro com uma personagem

Postby Sharky » 21 Apr 2009 14:37

White Rabbit wrote:O meu encontro já está manuscrito, mas só amanhã é que o meto para aqui. Este vai ser especialmente dedicado ao Mr. T, aka Potato-face, aka Thanatos... :devil2:



Elá, isto promete :thumbup:

PS. pco69, estou-me a roer estou, deixa-os pousar :devil:

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Re: encontro com uma personagem

Postby Thanatos » 21 Apr 2009 18:39

White Rabbit wrote:O meu encontro já está manuscrito, mas só amanhã é que o meto para aqui. Este vai ser especialmente dedicado ao Mr. T, aka Potato-face, aka Thanatos... :devil2:



:huh: glup!

Olha que eu sei dar resposta! :sleep:

Oba, oba, duelo de escrita! The pen is mightier than the sword and all that stuff... :clap:
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Re: encontro com uma personagem

Postby Sofiushka » 22 Apr 2009 19:43

Caramba, White Rabbit, muito impressionante! Isso é que é dominar o nadsat! :blink:

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Re: encontro com uma personagem

Postby azert » 22 Apr 2009 19:48

:see_stars: Gee, Rabbit! :blink:

EDIT: Como nunca li o livro em questão, obviamente, não reconheci a personagem E, apesar de o meu nadescente não ser muito fluente :mrgreen4nw: , consigo apreciar a fluência dos diálogos e tirar o sentido de alguns dos termos pelo contexto.. Confesso-me desajeitada para construir diálogos (talvez por eu ser um sujeito mais pensante do que falante - contrariamente às parências :rolleyes: ).
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Re: encontro com uma personagem

Postby Pedro Farinha » 22 Apr 2009 21:45

Por acaso não gostei WR. Eu que gosto de quase tudo o que escreves, o ritmo que impões às palavras, ou mesmo quando não o fazes como no teu outro encontro... desta feita achei que tirando a piada da linguagem utilizada o resto é um quase nada.

Acho que tens de ter um terceiro encontro... :thumbsup:

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Re: encontro com uma personagem

Postby pco69 » 23 Apr 2009 08:16

White Rabbit wrote:(...)
E eu a pensar que os debóchecos iam achar graça à crítica ao acordo ortográfico... :unsure:

Eu fiquei a pensar que era uma critica à "carneiragem".... :rolleyes:
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