Palavra

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Pedro Farinha
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Re: Palavra

Postby Pedro Farinha » 18 May 2009 07:37

Ele era um homem que gostava de saborear as palavras. Perdia-se pelas mais suculentas, pelos substantivos adjectivados em contraditório. Pelo toque subtil de uma palavra estrangeira em toda uma frase portuguesa. Por uma ou outra palavra picante. Mas ao meter anticonstitucionalmente à boca engasgou-se. Hoje são as larvas que devoram as palavras de que é feito o seu corpo.


Próxima palavra: Inverosímil

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Re: Palavra

Postby Ripley » 19 May 2009 15:02

Franziu o sobrolho - afigurava-se-lhe inverosímil o que ela dizia. Os livros serviam apenas para transmitir informação! Que história era aquela de viajar sem sair do sítio?
Um dia experimentou pegar num volume que ela lhe recomendara. Receoso, abriu a capa dura e empoeirada, abordou as palavras que conhecia tecidas em frases que nunca lera. Antes que desse por isso tinha sido transportado até ao deserto e sentia uma tempestade de areia agredindo-lhe a face.

---§§§---

Próxima palavra: Passageiro
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Palavra

Postby Samwise » 19 May 2009 15:46

Ripley wrote:Próxima palavra: Passageiro


Pousou o livro sobre o tampo da mesa e chorou. Durante cerca de seis meses viajara como um passageiro invisível pelos sentimentos de Ted, James e Alice. Essas pessoas, fechadas agora entre a capa e a contracapa do livro, permaneceriam consigo por apenas mais uns dias - e cada vez mais distantes na sua indomável memória - até que um novo conjunto de intimidades o puxasse para uma outra aventura.

Próxima palavra: clepsidra.

Sam
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Re: Palavra

Postby azert » 19 May 2009 16:19

Permitam-me uma interrupção, o desafio segue dentro de momentos.

Gostei do rumo iniciado pelo Pedro (encontraste uma hábil direcção para a impossível "anticonstitucionalmente") e muito bem diversificado pela Ripley e pelo Sam.
BTW, Sam, e tu que não trouxesses à baila a "Clepsidra". Vais fazer-me ir ao dicionário pela segunda vez! :rolleyes:
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Re: Palavra

Postby Samwise » 19 May 2009 16:31

azert wrote:BTW, Sam, e tu que não trouxesses à baila a "Clepsidra". Vais fazer-me ir ao dicionário pela segunda vez! :rolleyes:


Para quem vê a palavra pela primeira vez, faz lembrar assim um instrumento utilizado para roubar coisas... :biggrin:

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Re: Palavra

Postby croquete » 19 May 2009 16:34

De joelhos prometeu que nunca mais.
E nunca mais é quando o tempo já não conta, quando a jura é maior que a clepsidra. É rasgar com todos os compromissos e gritar bem alto que há uma nova maneira de ser, de viver, de sentir…
Mas da fraqueza da sua condição percebeu que era humano.
Demasiado efémero para perceber tudo o que é definitivo.

Proponho a palavra "tabu"

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Re: Palavra

Postby azert » 19 May 2009 16:54

croquete wrote:E nunca mais é quando o tempo já não conta (...)
......................................
Proponho a palavra "tabu"


Gostei!
........................................

Doze anos. Nos últimos tempos, os pêlos tinham invadido zonas do corpo de onde tinham estado quase ausentes e os que já existiam, tornaram-se maiores, mais grossos e em maior número. No banho, assistia com admiração, ao povoar da zona púbica; uma coroa pilosa para o sexo que se transformava e começava a fazer-se ouvir, não de forma difusa, como até aí, mas de forma premente e, numa ocasião, de forma bastante embaraçosa.

Sempre tinha conversado com os amigos sobre tudo, mas nunca lhes perguntou se também o seu sexo se revelava um tirano em potência, sobretudo na presença de raparigas ou durante os sonhos nocturnos. Esse assunto era ainda um tabu.


Proponho "Incontinência"
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Re: Palavra

Postby zé.chove » 19 May 2009 17:34

-- Incontinência de afectos, incontinência de afectos...
-- Oh avó! Mijaste-te outra vez!
-- Sim meu querido! Não me faças rir!

proponho a palavra azulejo.

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Re: Palavra

Postby grayfox » 19 May 2009 18:00

A hierarquia social foi o que mais me estranhou inicialmente. Havia um qualquer sistema que determinava a importância das pessoas, independente de idade, sexo ou cor! Debaixo do calor do deserto, quanto mais alto o estrato social menos roupa a pessoa vestia e mais rápido estava autorizada a caminhar. Aqui e acolá via-se pessoas completamente despidas, algumas já idosas e outras ainda crianças, facilmente identificadas não só pela ausência de roupa como por serem os únicos que podiam correr. Para estes estava ainda destinada uma via própria, em azulejo azul e branco. Movida pela curiosidade, pisei-a uma vez, sem ninguém ver, e verifiquei que mesmo sobre o sol da tarde estava fria. As pessoas do mais baixo estrato, os gushis, são visíveis apenas como um monte de lençóis ambulante sendo impossível distinguir uns dos outros. Isto facilitou a minha inclusão no seio daquela sociedade pois completamente tapada era impossível distinguirem-me como alguém de fora. Aprendi fascinada que existia também um sistema de cumprimentos, sempre que cruzadas duas pessoas, a de menor importância fazia uma continência que consistia em erguer as duas mãos no ar e fazer uma espécie de dança do ventre, os gushis tinham de o fazer com especial esforço para se conseguir perceber a continência entre todo o amontoado de roupa. Desacostumada a estas andanças, nos primeiros tempos bastava um percurso de 20 metros para chegar ao destino completamente suada e dorida, inicialmente só saia em extrema necessidade. Duas pessoas do mesmo estrato podiam ou não cumprimentar-se (penso que apenas o faziam se fossem conhecidos), colocando cada um o braço direito no ombro esquerdo do outro. Por último, a pessoa de maior importância podia continuar o seu caminho, deixando para trás a pessoa que lhe fazia continência, num acto de algum reconhecimento podia parar e ficar a olhar a continência, ou num acto raríssimo de reconhecimento e honra para a pessoa de menor grau, podia responder á sua continência com uma incontinência, que eu descreveria muito simplesmente como uma voltinha sobre si mesmo e um pontapé no cu da outra pessoa, que seguidamente tinha que repetir a continência, mas desta vez sob o olhar admirado dos outros. Essa pessoa passava, até voltar a entrar, a estar numa hierarquia á parte, momentaneamente acima dos seus iguais, mas abaixo de todos os seus superiores.

sugiro "ouvistes" :smile:

para quem não percebeu, criei este texto para a palavra incontinência, mas como o ze chove acabou por responder antes de mim, fiz uma pequena adaptação
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Re: Palavra

Postby Pedro Farinha » 19 May 2009 19:24

grayfoxpt wrote:para quem não percebeu, criei este texto para a palavra incontinência, mas como o ze chove acabou por responder antes de mim, fiz uma pequena adaptação


seja, uma incontinência de azulejos, mas deixa-me dizer-te Gray que gostei verdadeiramente deste teu texto.

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Re: Palavra

Postby Samwise » 19 May 2009 19:48

Pedro Farinha wrote:
grayfoxpt wrote:para quem não percebeu, criei este texto para a palavra incontinência, mas como o ze chove acabou por responder antes de mim, fiz uma pequena adaptação


seja, uma incontinência de azulejos, mas deixa-me dizer-te Gray que gostei verdadeiramente deste teu texto.




Eu também apreciei - mesmo apesar daquele "cú"... :biggrin:

Gray, tens de escrever mais coisas. A sério.

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Re: Palavra

Postby grayfox » 19 May 2009 19:56

Pedro Farinha wrote:seja, uma incontinência de azulejos, mas deixa-me dizer-te Gray que gostei verdadeiramente deste teu texto.



Samwise wrote:Eu também apreciei - mesmo apesar daquele "cú"... :biggrin:

Gray, tens de escrever mais coisas. A sério.

Sam


Obrigado aos dois, vindo de duas pessoas que considero terem bons gostos em termos literários, até é um orgulho!
Ou será o efeito leonidas ainda a dar frutos?
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Re: Palavra

Postby Pedro Farinha » 19 May 2009 20:24

Não, eu pelo menos sou corrupto mas sou ligeiramente mais caro :whistling:

Já que o Sam referiu, se em vez de cu pusesses rabo ficava bem melhor :mrgreen4nw:

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Re: Palavra

Postby Sharky » 19 May 2009 22:03

Ouvistes, palavras de decadência
Ouvistes, sinais de pobreza
Ouvistes, vozes de descontentamento
Ouvistes, velhos corações
Ouvistes, melodias secas

A minha voz escondida, não ouvistes tu


Aferir :thumbsup:

Pedro Farinha
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Re: Palavra

Postby Pedro Farinha » 19 May 2009 22:07

Muito bem sharky, gostei :thumbsup:


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