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Re: Palavra

Posted: 06 Dec 2009 17:31
by Arsénio Mata
Deitados na cama, ambos estavam arrependidos de uma vida inteira. Aquela cama, onde, durante mais de 50 anos partilharam almofadas e lençois era o símbolo máximo do comodismo.
As almofadas cheiravam a desgosto e os lençois a indiferença. Num último abraço, num último sopro, ambos perceberam que nunca se haviam amado. A cama nunca fora uma só.

Próxima palavra: Necessidade

Re: Palavra

Posted: 14 Dec 2011 23:50
by Sharky
- Porque olhas assim para mim?
- És calado...mas os teus olhos dizem tanto.
- Posso silenciá-los se quiseres.
- Como assim...silenciá-los?
- Tornar tudo mais claro se o mundo me permitir e - reparo que o seu tom de pele estava agora a mudar - o tempo que já não demora a chegar.
- Mundo? Tempo? Pára...estás a deixar-me baralhada. - enfeitiçada, chego-lhe um lenço de papel aos lábios. - Estou com frio...muito frio.
- Lembraste da viagem que gostaríamos de fazer, querida?
- Sim...que tem?
- Gostava de a fazer agora, contigo, juntos...
- Seria bom...mas, diz-me...porque haverias de querer silenciar o teu olhar?
- Para puder dizer-te por palavras o que sinto por ti - os seus olhos agora fechados e a dificuldade em respirar, tiravam-me o pouco de tudo que ainda tinha.
- Sim...e que queres tu dizer-me, querido...hum?
- Que vou sentir a tua falta, o teu aconchego, o teu calor nestas noites frias, o teu toque, o teu beijo, a tua voz, e...
- E...que...mais... - o seu último fôlego, uma última pergunta da qual não teve oportunidade de ouvir uma resposta, o acidente de viação fora demasiado grave para lhe dar uma oportunidade de recuperação tirando-lhe assim a vida.

- E de dizer...que te amo...



Próxima palavra:
Diário

Re: Palavra

Posted: 20 Jun 2012 22:12
by hummingbird
Sharky wrote:Próxima palavra:
Diário



Tudo ali fazia-a lembrar-se dele. O carro que ele tinha escolhido depois de tantos meses de procura, as manhãs passadas no jardim a cortar a relva, o degrau da entrada da casa que ele tinha arranjado. Ao entrar, as recordações eram quase insuportáveis. Ali foi onde ele tropeçou daquela vez. Acolá está a poltrona onde ele assistia aos jogos de futebol. Aqui foi onde ele partiu aquela jarra. Aquele foi o sofá onde tantas vezes fizeram amor. As memórias vinham em catadupa, cada uma mais vívida e real que a anterior, zombando e torturando-a aos poucos. Diária, contínua e implacavelmente.



Próxima palavra:
nota

Re: Palavra

Posted: 11 Jul 2012 12:56
by Sharky
Eram precisamente 6h00 da manhã na América e o despertador toca no quarto, a música começa. A sala apresentava-se cheia e agora iluminada, murmúrios aflitos por toda a sua extensão.
Ele acorda e estica o braço, puxa do charuto e do zippo e acende o chupa-chupa olhando para o tecto, apreciando o poster da cheerleader, uma loira semi-nua com um par de mamas que deixa qualquer um " ko ". Manhole, um ex-combatente das forças especiais americanas com muitos cabelos brancos, pele seca, e 1,80m de músculos estava agora a tomar o pequeno almoço, um wiskey acompanhado de outro whiskey, um duplo.
Pegava agora nas suas FN Herstal MINIMI, uma para cada mão, um último bafo no charuto especial, um charuto com uma nota de 500€ enrolada à sua volta.

- Fuck the euro.

Avançou para a sala e começou a disparar para a fechadura, e eles, famintos, derrubaram a porta e Manhole começou a disparar para os corpos mórbidos, abundantes de um cheiro nauseabundo, era o cheiro dos europeus...


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Espaço