Funeral

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Sharky
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Re: Funeral

Postby Sharky » 26 Jun 2009 23:00

-Fausto, vem tomar a medicação antes de dormir.

isso pensas tu...hoje não posso tomar, senão adormeço até ás tantas e perco o Bus, nahhh, não pode ser sua bruxa, vou meter o comprimido ao canto da boca, sem ela topar, hihihihi...

-Dorme bem e até amanhã.

-Até amanhã enfermeira.


vai-te embora bruxa, detesto quando vens aqui toda boazinha como quem não quer a coisa...ai como te odeio.



Fausto, para que estás tu a fazer a mala?

-Tenho que ir de viagem, vou ter com o meu papá.

Mas ele não vem amanhã, com as bolachas de aveia?

-Não, Miguel, o meu papá partiu há dois dias, não sei para onde, mas vou atrás dele.

Vais-me deixar sozinho, aqui, durante quanto tempo?

-Miguel, pára de fazer perguntas, estou a fazer a mala e preciso de ver se me falta alguma coisa.

ora deixa cá ver, bilhete do bus, moedas, lápis, borracha, papel, yoyo, a foto à porta de casa com o papá e a fada, acho que chega, não convém ir carregado porque se tiver que correr posso muito bem ficar cansado e ser apanhado, isso mesmo, já chega, agora vou descansar um pouco...

-Miguel, vai ter com a fada e diz-lhe que amanhã vou procurar o papá, está bem?

Sim, Fausto, eu digo-lhe, descansa.







já são 6h43, tenho que ir sem que ninguém dê por mim, raios, a Manuela já chegou...

-Fausto, já estás de pé a esta hora???


calma, calma, inventa uma desculpa depressa, depressa...


Deve ter sido da água que bebi ontem, estava muito calor Manuela, olha, é verdade, não lhe cheguei a perguntar, porque estava tão bonita ontem?

-Ontem, hum, eu e o meu marido fizemos 13 anos de casados, hum, e levou-me a jantar fora.

Há ok, mas 13 dá azar não dá?...Manuela, visto que agora perdi o sono, podia-me fazer uma sandes, estou cheeeeeeeeeeeeeeeeeio de fome, sim ,sim?

-Está bem Fausto, não fiques aqui no corredor e vai para o quarto, já levo a tua sandes.

Obrigado Manuela.


agora vou buscar a mala e...oh, já me ia embora sem a bola de ténis, pronto, agora vou de fininho até à porta, assim, agora deixo a porta encostada ao trinco, assim, e, olha, já estou cá fora, hehe,

Adeus cisne, adeus orquídeas.

agora vou correr o mais que puder até à paragem do Bus, sim, bem depressa.



está ali a paragem...quem é aquela rapariga que está sentada?
??
se calhar também está à espera do bus, deixa cá ver, mas ela é...é...

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Sofiushka
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Re: Funeral

Postby Sofiushka » 29 Jun 2009 20:01

- Oh minha querida, o que é preciso agora é paciência! E você é tão novinha, isto da viuvice é cá para nós velhas, você vai ver como não tarda nada tem aí um moço novo para lhe fazer companhia! O senhor seu marido, com todo o respeito, já era bastante mais velho que a menina, não era? Eu sempre me deu a impressão que sim, e com todo o respeito, que sabe Deus que eu não falo mal dos mortos, eu sempre me pareceu que ele não era muito bem humorado e o que a menina com a sua idade precisa é de estar bem disposta, que para a casmurrice e maus fígados temos tempo quando somos velhas, por isso a menina tenha paciência, tenha paciência. Olhe, já dizia o meu falecido Augusto, que Deus Nosso Senhor o tenha em Seu descanso, que não vale a pena apoquentarmo-nos com os mortos, que esses já têm o seu Juízo, temos é que nos preocupar com os que ficam, e que nesse caso somos nós, não é verdade? Mas olhe, a menina esteja descansada e tenha paciência e olhe que se quiser, se precisar de alguma coisa é só ir lá bater à minha porta que eu ajudo-a no que puder, se quiser eu cozinho, que eu cá faço umas pataniscas que o Senhor Alberto está sempre a dizer que "são daqui" e a menina Isabelinha está sempre a perguntar-me quando é que faço umas para vender lá no café, e eu faço-lhas com muito gosto e faço também um arrozinho de feijão frade que fica um primor. Tenha paciência menina, vai ver que se vai dar bem. Olhe, se me dá licença, vou ali dar uma palavrinha ao Senhor Padre, sim, menina? Já sabe qe se precisar de alguma coisa, que vá lá a casa limpar, tenho todo o gosto. Dê cá um beijinho, menina. Tenha paciência, Deus Nosso Senhor a abençoe.

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Re: Funeral

Postby azert » 06 Jul 2009 14:11

Olhem para a viúva... que cara de alívio! E a ex, que expressão de fastio! Este homem pode ter tido muitas mulheres em vida, mas nenhuma é fiel à sua memória na morte. Eu posso só ter tido uma mulher em toda a minha vida, uma mulher em 40 anos, mas ao menos sei que gostava mesmo de mim. A ela nunca lhe incomodaram as minhas roupas pretas, o vago mas constante cheiro a formol, a expressão grave do rosto, fruto de muitos anos de ofício. Lembro-me dos arrepios de excitação que lhe percorriam a espinha naquela noite que passamos na cave da funerária, misto de prazer e medo, com um cliente recente na marquesa, os corpos suando o forro de veludo vermelho do caixão de madeira de mogno... Foi nesse mesmo caixão que a enterrei...
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croquete
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Re: Funeral

Postby croquete » 09 Jul 2009 18:41

( O texto abaixo contem termos que podem ofender leitores mais sensíveis))

Aquela matraca velha que não se cala está a irritar-me.


Quê?!
Então o defunto vem de roupão ?

E aquelas mulheres ali todas de preto e óculos escuros, ? Mamas pequenas. Rabo grande, enorme mesmo. Porque devem ser para aí umas três e são iguaizinhas. Ora agora muito amigas, ora agora muito a olhar para o lado com ar de gente que está habituada a ajoelhar-se para rezar.
Um homem com três viuvas?

O Padre, este fica a olhar para elas todas como quem as quer ver confessadas.
É bom tipo aquele Padre. Há quem diga que também é bom chefe de família.

E aquela matraca velha que não se cala.

Há um puto que vai e vem e parece que ninguém lhe liga. Já deve ter dado duas voltas ao cemitério. Tenho de o ter debaixo de olho. Ainda me fica com a bucha.

O Artista também veio, é um gajo pequeno e muito sério mas muito bom homem, uns óculos que fazem lembrar as garrafas de espumante, deve ser um pintor ou coisa assim porque parece estar sempre a tirar uma fotografia com os olhos, aparece em muita cerimónia por aqui. Fica sempre no seu canto a observar, tem uma presença que parece dar um ar mais solene à cerimónia.
Um dia por curiosidade perguntei-lhe o que fazia, que aparecia por aqui demasiadas vezes, que aquilo não era normal. Vai daí, não é que me entregou uma nota de 50 euros? Pois grande amigo, já não está cá quem falou, que sempre dá para pagar o fiado na tasca do tio António e dá também para adormecer entre as tetas da minha Gina Colombiana que com essa, já se sabe, é a pagar adiantado.

A Funerária fez bom negócio. Há dois tipos de famílias, as que se deixam enganar, e as que não olham a despesas. Muitas coroas, caixão de carvalho francês com entalhes dourados, o serviço completo.


Hoje fico-me por aqui quieto no meu canto que ali o Artista até deve aparecer mais vezes, e para sacar algum tem que ser aos poucos, se for tudo de uma vez ainda vai pintar para outra freguesia. Sim porque o meu trabalho é enterrar carne e desenterrar ossos mas eu não sou estúpido.

Mas eu juro pela minha Santa, que se aquela matraca não se cala, ainda leva com a pá pelos costados.

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Re: Funeral

Postby Ripley » 10 Jul 2009 16:00

Irra, está abafado.
Estou mortinha por tirar esta roupa escura que se cola ao corpo e me faz suar ainda mais. O pior de tudo é que só tenho uma camisa preta, esta, de manga comprida.
Estou a destilar.

Passo a mão pela cara. Se calhar alguém que olhe vai pensar que estou muito compungida. Ha, ha. Bela piada. É mesmo do calor, os dedos parecem trazer sarro agarrado, raisparta o corrector que se mistura com o suor. O coveiro olha para as mulheres com ar de quem tira medidas. Porco. Deve fazer o mesmo em todos os funerais. Será que já alguém lhe foi às trombas?

Porra para tanta hipocrisia.
A única pessoa que parece de facto estar abalada com isto é um rapazola que deambula com ar um bocado atarantado. Há qualquer coisa de estranho nele. De vez em quando murmura, vira-se e começa a andar noutra direcção. Era capaz de jurar que há pouco deu um soco numa árvore. Depois ficou largos minutos parado a olhar para a mão, parecia uma estátua. Lembra-me alguém. Será sobrinho do falecido? Filho do irmão mais velho, o que abalou para o estrangeiro e levou um tiro da mulher quando o apanhou com a empregada? Que cambada, todos mulherengos, só o meu Eduardo era diferente. Amava-o. Parte de mim morreu com ele. Parece um cliché, eu sei, mas é isso que sinto. E nem chegámos a ter uma criança, convencidos de que haveria muito tempo para isso. De quem será filho este rapaz?

Aii, a velha cusca não se cala mesmo, deve estar a gravar todos os pormenores naquela cabecita para depois ir contar em todas as capelinhas lá do bairro, o supermercado, a leitaria, a retrosaria, o café da esquina, nem a lavandaria escapa. Cheira-me que o único sítio onde ela não irá difundir a sua reportagem é a lojinha dos chineses que abriu há um ano ou dois.

Doem-me os pés. Olho em volta e vejo novamente o desconhecido. Aquele homem ... quase jurava que esteve no funeral do Eduardo. Afasto-me um pouco e sento-me num banco à sombra de um cipreste. Passo por ele e olho-o disfarçadamente por trás dos óculos escuros.

Eu já vi aquela cara, juro que já vi! Mas onde ??
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---§§§---
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Re: Funeral

Postby Samwise » 11 Jul 2009 12:43

O padre termina a missa e reúne o grupo lá fora, para acompanhar o caixão até à cova, à "última morada", como gosta de referir. Deixo-me ficar mais uns instantes na capela. Prefiro ser o último. Prefiro ser eu a observar.

Memórias e mais memórias. Um manancial ininterrupto de rostos que se misturam uns nos outros, que se misturam com acontecimentos.

O coveiro continua sem me reconhecer. Lembra-se apenas das vezes que já passei por este cemitério e da nota que lhe enfiei no bolso há uns meses atrás. O trabalho de reconstrução facial no meu rosto foi exímio.

Guiné, 1969, o batalhão de elite dos comandos. Trinta e seis jovens com manias de invencibilidade. Dois anos de treino árduo garantiram-nos um lugar reservado na frente de combate, algumas centenas de metros adiante da linha de avanço das tropas regulares. Missões de alto risco, em que apenas nos eram dados os objectivos - os meios ficavam por nossa conta. Em seis meses ficámos conhecidos como o batalhão fantasma. Invisíveis aos olhos do inimigo, mortíferos, e com pouca paciência para aturar as convenções internacionais de guerra. Em seis meses perdemos sete operacionais e matámos para cima de um milhar de soldados inimigos, alguns deles individualidades de alta patente.

Depois veio a carta. A eficiência demonstrada em combate originou um processo de recrutamento para uma unidade especial. Ainda mais especial. Fui um dos escolhidos. A minha folha de serviço indicava 98% no quadrado de avaliação. Caso aceitasse, a minha família receberia de imediato uma carta com informações da minha morte. Nunca mais poderia contactar com ela. Sabia que aquilo significava que, de uma maneira ou de outra, não sobreviveria à guerra. Quanto ao trabalho em si, muito pouco a saber: seria mais duro que a vida de comando, executaria missões específicas em territórios controlados e seguros pelo inimigo, sem contar com apoio de ninguém. A unidade era secreta, como se de uma célula terrorista de tratasse. Um último parágrafo informava laconicamente que seria sujeito a testes psicológicos antes de ser integrado.

"Testes psicológicos"... Depois de dois anos de treino nos comandos, nada nos assustava. Preparavam-nos para morrer à mais pequena ordem do sargento. Daríamos a vida por um colega sem pestanejar, de forma reflexa. É para isso que nos treinam, que nos transformam em máquinas, que nos retiram e moldam a vontade.

Mal imaginava como passaria os três meses seguintes, em que consistiam os "testes psicológicos". Durante esses três meses, sobre a mesa do meu cárcere, uma declaração de renúncia e um revólver carregado com uma bala. Apenas uma bala.

O grupo começa a afastar-se. Ajoelho-me e falo com Ele. Reconforta-me o diálogo, a Sua voz. Depois, levanto-me e saio para a rua. A claridade ofusca-me por breves instantes. Um jovem rapaz aguarda-me à entrada. Parece nervoso. Também ele parece desejar algum afastamento do cortejo. Ajeito o chapéu sobre a cabeça e começo a caminhada.


Sam
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Re: Funeral

Postby Sharky » 16 Jul 2009 22:18

Fada??? És tu???

Fada?

-Hummmm...

Que fazes aqui? Vais viajar comigo até ao papá?

-Deixa-me rapaz...

Penso em ti todos dias, tenho tantas saudades tuas, fada.

Vens comigo, Fada?

-Mas qual fada qual quê, desaparece daqui e deixa-me dormir...

Lembro-me tão bem, daquele dia que fomos juntos, para a ilha dos brinquedos avariados, lembras, lembras??? Foi tão bom.

Estou-me a lembrar daquele dia na ilha.

-Sim, sim...

Aquele boneco que montámos, com peças suplentes, e que viajou conosco o dia todo, hehe, só lhe faltava o olho direito, era o pirata desajeitado, hehe, até ao dia em que a bruxa maldita mo tirou das mãos, odeio aquela bruxa, um dia hei-de me vingar, ai que ódio que tenho dela.

-Por acaso não tens nada que se coma, aí na tua mochila?

Tenho sim Fada, mas podemos comer pelo caminho, no Bus.

-No Bus?

Sim, Fada, preciso que vás comigo, para encontrármos o papá.

-Rapaz, eu não tenho dinheiro, como vês, a rua é o meu lar, o que trago comigo é tudo o que tenho.

Não faz mal, então, tu és a Fada e vou cuidar de ti, olha, vem aí o Bus, levanta-te, depressa.

-Para onde vamos, há comida e onde possa dormir?

Sim, claro, o papá cuida de nós, não te preocupes.

-Está bem, rapaz, como te chamas?

Ora, até parece que não sabes, é Fausto, dohhh...

-Está bem, Fausto Dohhh, espero que tenhas comidinha aí para mim, estou esfomeado...

Yupi, a Fada vem comigo, que bom, vamo-nos divertir bastante.



Senhor, é um bilhete igual a este, por favor.

-Lámento, mais esse bilhetchi já naum é válido naum.


engraçado...tem a voz igual á das novelas, pois, é brasileiro, dohhh



FAAAAAAAAUUUUUUUUUUSTOOOOOOOOOOOOOO, VOLTAAAAAA AQUIIIIIIIIIIIÍ


oh não, é a bruxa, está à minha procura, temos que despachar


Então são dois bilhetes, por favor, depressa sim

-Ora saum, 17€ por favó

Aqui tem 20€, fique com o troco ok, agora vamos.

-Opá, váleu hein :wink:



Ora deixa cá ver, leite com chocolate, pão de ontem, umas bolachas, maçãs, vou mas é comer

Toma, Fada, um pacote de leite com chocolate e um pão, é de ontem, não te importas pois não?

-Já comi coisas piores...
-Diz-me, vamos ter com o teu papá, onde?

Quando chegar, perguntamos por ele, e logo nos dizem onde o encontrar, não te preocupes, agora come.






Acorda, Fada, já chegámos, vamos, depressa

-Hum, como, já?

Anda, vamos apanhar aquele táxi, junto ao cisne, vês?

-Cisne? Onde?

Deixa para lá, anda

Sempre divertida, finge que não vê o cisne, hehe



Bom dia, Sr. Táxista, podia-nos levar para esta morada, é do meu papá.

-Bom dia, esta morada é do seu papá? Voçê é filho do...

Sou sim, temos que ir ter com ele sabe, ele está á nossa espera, é urgente

-Pois...hum...mas ele já não mora aqui, ele...

Partiu, eu sei, por isso é que temos que ir para lá rápidamente, para ver se ele me deixou alguma pista, para onde foi

-Eu sei para onde ele foi, mas és filho dele?

Sou sim, sou o Fausto

-Fausto...há sim, recordo-me de ti, eras piqueno, quando a tua mãe...

Sim, sim, deixe-se lá de histórias, leve-nos lá, depressa por favor

-Credo, Homem, voçê cheira mal que se farta, parece que saíu do bairro das latas, chiça...

-Ao menos não vivo fechado dentro de uma, hahahahaha

-Ainda por cima é engraçadinho...



-Já chegámos, sabes, o teu pai e eu, éramos amigos de infância, seria incapaz de te pedir dinheiro...

-Fausto, que fazemos à porta de um cemitério, o teu pai é coveiro, hahaha


mas que fazemos nós no cemitério, esta não é a morada certa, que raios...

Que fazemos no cemitério, porque nos trouxe até aqui???

-Não sabias??? Hum...meu Deus...o teu pai faleceu, esta é a sua nova morada, que Deus o tenha em paz...

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Re: Funeral

Postby Sofiushka » 22 Jul 2009 19:24

"Valha-me Nossa Senhora, este calor não me faz nada bem aos ossos, eu bem sabia que não devia ter trazido este casaco, mas é o único preto que tenho e uma pessoa tem que se apresentar como deve der ser para um funeral, eu até nem ligo muito a essas coisas, não sou como aquelas que sempre que morre alguém na rua metem logo o lenço preto na moleira e correm para o cemitério, eu não, graças a Deus, eu vim para prestar os meus respeitos à menina e não quero ter nada a ver com aquelas hipócritas, que se calhar nunca viram em vida o homenzinho oleoso da casa amarela e agora vêm praqui tentar tirar nabos da púcara. E por falar em nabos, também me quer parecer que aquele homem de preto, olha olha e olha também só pode ter propósitos menos honestos, porque ainda há bocado o vi a falar com a viúva. De certeza que agora lhe quer arrastar a asa, e não me admira nada, que ela pode ser uma lambisgóia, mas ainda é jeitosa e seca que nem um varapau. Faz bem ela em andar para a frente, mas assim aqui, ainda o falecido não arrefeceu na campa, é uma pouca vergonha. Hei-de perguntar à Isabelinha se isto é agora moda das gentes novas. Também anda ali aquele rapaz novo não sei a fazer o quê, anda de um lado para o outro e de vez em quando olha para a gente de uma maneira esquisita, eu não sei quem é e está a fazer-me comichão, até porque uma vez a minha comadre Mariazinha da mercearia me contou que tinha ouvido umas histórias do filho do homenzinho oleoso, mas eu disse-lhe que não podia ser, pois se o homem vivia na casa amarela em frente à minha e eu não sabia de nada e nem a sobrinha da Dona Carminda sabia de alguma coisa, e ela até é mulher a dias na casa da ex-mulher, mas lá que o rapaz tem idade, tem, e até tem algumas parecenças, assim de repente. O que eu gostava de saber era a que horas é que vai passar o raio do trólei, que eu ainda quero apanhar o programa da Júlia."

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Re: Funeral

Postby croquete » 27 Jul 2009 14:51

Toca um pequeno sino enquanto o caixão desce para o sítio que lhe prometi.
Há memórias que preferia estivessem mortas. Em especial a memória dos que gostava que estivessem vivos.
Dizem que a memória é forma de continuar a vida mas para mim apenas lhes prolonga a morte e aumenta o sofrimento.
E é dessa dor que me engasga que vejo nos olhos de quem por aqui fica. E se vemos nos outros o nosso fim, por vezes também desejamos que o fim seja nosso e não dos outros.
E também há gente que finge que sofre e que se esquece da angústia que provoca o fingimento.
Tal como o cemitério. Cada um tem os seus muros e a sua forma de lhes escapar. Sorte a minha que tenho uma pá e trabalho de braços para fazer, por enquanto não há nada para lembrar.
O caixão desaparece facilmente entre a terra e lágrimas mais ou menos forçadas. As de quem é deixado com a sua própria morte.
Um telemóvel que toca, um cão que ladra ao longe e o inevitável toque de sino fazem parte do presente. Tal como o raspar acidental de uma pedra no caixão.
O passado esse. Espera-me mais logo, ao adormecer, depois de uma bebida ou de uma mulher qualquer.

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Re: Funeral

Postby Ripley » 28 Jul 2009 16:24

Tanta gente e tudo tão calado.
Miram-se mutuamente de soslaio, tirando o raio da velha cusca que parece perfurar toda a gente com aqueles olhos escuros que parecem berlindes.
O coveiro desce lentamente o caixão. Já não estou ali a fazer nada - afasto-me lentamente.

Duas áleas mais à frente, a campa do Eduardo.
O meu homem, a minha vida. Nunca mais quis ninguém desde que ele se foi.
Velhas cuscas como aquela bem faziam apostas a ver quem seria o ciclista da viúva mulata, a do 22. Com o tempo lá se calaram, se calhar imaginando que eu andaria a satisfazer as fomes por outras paragens. Mas o facto é que nunca mais tive vontade, mesmo. O Eduardo preenchia-me por inteiro e o facto de não termos tido filhos tornou-nos ainda mais unidos e integrados um no outro.
Nenhum homem alguma vez poderia tomar o seu lugar, quer no meu coração, quer na minha cama.

Partiste, meu amor. Deixaste-me para trás.
Odiei-te durante algum tempo por me teres feito isso. Foi injusto. Depois a dor acalmou mas não a tristeza.
Sinto muito a tua falta, Eduardo. Muito.
Talvez não demore muito para nos reunirmos, sabes? O meu médico detectou qualquer coisinha nas ecografias anuais. Se for o que penso, vou-lhe pedir que não trate, que deixe assim. Que me dê só o tempo de dar destino às nossas coisitas e mais nada. Quero ir depressa ter contigo.

Ao pé da outra campa, que confusão é aquela? Lá está aquele rapaz esquisito!

Mas o que é que ele está a fazer ?????

E aquele homem, o desconhecido - porque raio olha para mim? Deixa-me, não me olhes, talvez em breve venhas ao meu funeral também, quem sabe?

Um beijo neste crisântemo branco, para ti, Eduardo. Deixo-to aqui sobre a lápide.

Agora vou ver que se passa afinal ali atrás.
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Re: Funeral

Postby Samwise » 03 Aug 2009 22:56

Os mesmos dois montes de terra ao lado esquerdo da cova, a mesma forma de enterrar a pá com auxílio da bota, a mesma careta nos lábios, a contorcerem-se num esgar de enjoo por cada gesto de lançamento para cima do caixão...

Memórias do passado, à medida que os presentes se começam a afastar aos poucos.

O coveiro, os mesmos movimentos que na guerra, enquanto enterrava as vítimas da nossa unidade. Já nesse tempo cuspia para o lado quando terminava.

Três meses dentro da cela, sem claridade, sem ver vivalma. Fazia exercício no escuro, para manter o corpo em ordem. Depois, a primeira provação a sério: um homem branco sentado numa cadeira, com as mãos atadas atrás das costas e a boca amordaçada. Os olhos muito brancos, carregados de medo - aterrorizado.

Mata-o. E fica a saber que é um inocente, não tem nada a ver com esta guerra. Mata-o.

Surgem os primeiros conflitos interiores... na unidade, os danos colaterais eram uma consequência indirecta das nossas acções. Nunca usávamos inocentes para atingir objectivos.

Mata-o com as tuas mãos!

Garroteio-o com uma chave de braços. Demora dois minutos a ficar imóvel.

Mais uma semana de cela, sem ver vivalma. Acaricio a pistola no escuro. Penso diversas vezes em esvaziar a câmara em mim.

Uma luz acende-se no tecto e durante alguns minutos fico cego. Ouço as trancas da porta a rangerem, o metal enferrujado a raspar ao longo dos eixos.

Uma mulher branca, despida, é empurrada para dentro da cela.

Sabes o que tens de fazer. Aproveita.

Sei o que tenho de fazer. O meu corpo reage instintivamente ao desejo sexual. A minha mente repugna-se. Sei que a mulher nunca sairá viva dali, independentemente daquilo que lhe faça.

Encolhida a um canto, chora, treme. Olha-me a pedir clemência. Choro também. Pela janela na porta, dois pares de olhos observam.

Uso a arma para lhe terminar com o sofrimento. Sei onde tenho de disparar para a morte ser rápida.

Enquanto o corpo ainda está quente, satisfaço o meu desejo. Quando termina, vomito a minha última refeição e arrasto-me para o lado. Adormeço com a cabeça a latejar. Loucura… loucura…

Passo uma semana sem comer, sem vontade de comer. Bebo água abundantemente.

Ao fim desse tempo, o derradeiro teste. Uma criança é enfiada na cela.

Eis a tua próxima refeição.

Abraço a criança e afago-lhe o cabelo. Está em estado de choque, não reage. Tem o rosto marcado de sujidade e desbotado pelas lágrimas. Penso na minha família, lá longe, no continente, na minha irmã pequena, que andará à volta da mesma idade que aquela criança.

Quebro-lhe o pescoço num gesto rápido. Sacio a minha fome na sua carne crua e penso numa saída para o inferno.

Sirvo-me de um dos ossos da criança para cortar a jugular, talvez imaginando que a minha morte será aceite por quem quer que seja que esteja à frente daquela loucura toda.

Não tenho sorte. Acordo dois dias depois numa cama imunda, noutra cela do complexo. A única coisa que me dizem é que envergonhei o meu país, que sou um traidor, um fraco. A seguir apontam-me uma pistola à cara e disparam.

Escuridão.

O rapaz observa ao longe, atrás de uma árvore. Também ele parece não conseguir conter as lágrimas. Já não sobra ninguém junto à campa. Sou o único que ainda reza pela alma do morto. O coveiro olha para mim ao longe, com a pá ao ombro. Abana a cabeça e afasta-se. Aproximo-me do rapaz e estendo-lhe a mão. Vem. Não precisas de ter medo.

Quando tornei a acordar, tinham passado quatro anos. A minha visão desfocada não conseguia distinguir as faces do estranho que me segurava na mão, que se sentava a meu lado no quarto do hospital. Não temas, disse-me. Eu sou a luz, eu sou a escuridão. Sentia o conforto, o calor que o seu toque me transmitia, mesmo que não sentisse mais nada no corpo paralisado. Vi então um mundo que não era este. Um mundo a que um dia pertenceria. Um dia distante, ainda.

O rapaz estende-me a mão e pergunta-me se conhecia o pai dele.

Digo que sim.

Ele sorri e pede-me para lhe contar.




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Re: Funeral

Postby Sharky » 04 Aug 2009 00:51

meu querido papá...está morto...
...eu amo-te papá, para sempre...
...nunca te esquecerei...


-Hei, Fada

-Sim, Fausto Dohh

-Vem comigo até ali, áquele espaço verde

-Está bem, vamos lá, preciso de apanhar ar, já todos olham para mim, Fausto Dohh.



-Estava aqui a lembrar-me que...hum...ai...doi-me a cabeça...ai que dores...haaaaaaaa...haaaaaaa...huff...huff...rrrrrrrrr...DEIIIIIIXA-ME...

-Que tens tu Fausto??? Estás bem???

-Hum? O quê? Quem és tu, velho?

-Sou a Fada, Fausto Dohh

-Tu, Fada? Eu, Dohh? Que queres tu palhaço idiota que trasanda a lixo? Hein?

-Mas eu...

-Mas tu nada, desaparece daqui, vá, depressa, dúvido que o meu papá te conheça, velho imundo, vá pira-te...espera, toma lá uns trocos e vai á tua vida, miserável...



este velho, fez-me lembrar o outro que usava uma lupa, para matar formigas, era bem mais engraçado que este trapo roto, iack, ca porcalhão
tenho vontade de andar no carrocel mágico, aquele das luzes, com aquela música das abelhas, e eu agarrado às orelhas do Tiráfono, com o seu pescoço comprido, para cima e para baixo, como os seios da minha ama, rosados, em bico...aproveitou-se de mim, safada, mas foi bom, eu gostei, e o papá também...hahahahaha

é tão bom estar solto, sem niguém por perto a vigiar-me, livre com um cisne, sim, como um cisne, posso fazer o que quiser, apertar o pescoço a alguém, como fiz à minha mãe, ou bater com um pau, no velho do lado, aquele vizinho bébado, pobre desgraçado, ficou de cadeira de rodas, nunca mais bebeu, hehe...

começar tudo de novo, agora sem pais...hum, talvez encontre alguém que me compreenda, que me queria como eu realmente sou...

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Titantropo
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Re: Funeral

Postby Titantropo » 10 Aug 2009 15:46

Tanto para fazer e tão pco tempo! Faltam poucos dias e tudo em de estar pronto até lá. O tempo é relativo, mas não pára nunca. Neste momento, faz-me falta e brevemente já não o fará. Depois, será que toda a gente vai ter paciência para aguardar o tempo necessário? Se não o tiverem, azar o deles. Sei que o meu Fausto, o meu rico menino esperará uma eternidade. Meu rico menino, tão especial que ele é! E ninguém percebe isso! Ninguém, apenas eu. Mas depois perceberão! Perceberão e arrepender-se-ão. Mas aí já será tarde. Tempo. Novamente o tempo. Ele é a chave!

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Re: Funeral

Postby Aignes » 18 Aug 2009 04:10

Mais uns centímetros… mais uns centímetros… e foi-se… houve um silêncio que não pude evitar, no fim. Um silêncio que não vi percorrer mais nenhuma das pessoas que se alinhavam à volta da cova, tão poucos éramos que estávamos todos em primeira fila. Houve um silêncio porque era um homem, o homem, que me tirou do fundo de mim mesma, onde me encontrava há demasiados anos. O rancor pareceu-me insignificante no meio desse silêncio, sem voz. Senti-me fraca, no meio da amargura.

Passos lentos para fora do círculo, a solidão de quem partilha uma morte. Passei pela campa do Eduardo, e ela era uma cabeça baixa, uma dor por uma morte ocorrida há tanto tempo, uma dor mais sentida por ela do que esta dor, a dor de hoje, seria sentida por qualquer uma das pessoas ali presentes, ou mesmo todas estas dores aqui somadas. A velhota, finalmente silenciosa (há algo na descida de um corpo à terra que tira o pio à coscuvilheira mais faladora), afastou-se em passo célere, acabara, afinal. Os despojos, enquanto o coveiro preenchia o buraco de terra, eram mínimos, nada mais havia para ver, havia que aproveitar enquanto a notícia era fresca para ir contar a todos. A viúva, a viúva actual (não, eu não era a viúva deste funeral), entrava já num carro escuro e era levada para longe. Apercebi-me de que nem sequer tinha chegado a dizer-lhe algumas palavras, que falta de consideração. O homem da funerária, uma presença que estranhei, afastava-se agora, também. Desde quando é que as pessoas da funerária assistem aos enterros até ao fim? O padre seguia o seu caminho, sozinho, frio, os passos secos no chão de pedra do caminho entre as lápides. Um sermão frio, umas palavras secas. Suponho que o público não fosse o mais receptivo.

Olhei uma vez mais para o trabalho do coveiro, o suor que lhe pingava a camisola, as mãos num aperto forte da pá, tentaria fugir da própria morte? Então vi-os, duas caras familiares. Uma, que não via há anos. Uma, que me fez lembrar dias antigos e felizes, dias antigos e terríveis. A minha presença na casa do homem, deste homem que não é mais e jaz na terra, pontuada por visitas curtas e perturbadoras do rapaz. Fausto. O rapaz era agora quase adulto, incrivelmente parecido ao pai, os olhos desfocados, o corpo numa posição estranha, não defeituosa ou esquisita, apenas… estranha. A última vez que o vira…a última vez que o vira… recebi um convite para me manter calada e um aviso. Um aviso que me fez sair daquela casa para sempre, e eram lágrimas e sangue que senti nas minhas mãos enquanto me arrastei para fora da porta, o sangue fictício daquele rapaz nas minhas mãos. Poderia ter evitado alguma coisa, quando soube? Neguei a verdade que os meus olhos viam, recusei o que não queria ver, era-me…era-me impossível. Aqui, sobre a campa fresca do pai dele, não me aproximei do Fausto, temi o que os seus olhos me podiam dizer, tanto a indiferença como o reconhecimento ser-me-iam insuportáveis, e as suas mãos de criança aparecer-me-iam novamente, cravadas nos meus braços, gritos ignorados no tempo.

A segunda face…não conseguia localizá-la no espaço ou no tempo. Era um nome que está debaixo da língua, uma daquelas pessoas que quando vemos fora do seu local habitual, sabemos que as conhecemos de algum lado, não sabemos é posicioná-las, até irmos no dia seguinte à pastelaria e reconhecermos a empregada de mesa. Duvido que fosse empregado de algum sítio, no entanto. Os seus olhos eram opacos, quase sem brilho, mas a posição do corpo, a forma da boca, até a maneira como (não) se mexia, pareciam indicar um sofrimento palpável…quem seria este homem que sofria pelo meu ex-marido e que parecia ter captado a atenção de Fausto de forma imperturbável?

Virei as costas e caminhei devagar em direcção aos portões de ferro altos que separavam o mundo dos mortos do dos vivos. Envolvi-me com os meus próprios braços e desejei estar em casa, ontem, antes de ter visto todas estas pessoas e de ter testemunhado uma partida tão infinitamente triste, não por ter lágrimas copiosas, crianças aos berros ou mães desesperadas, antes por ser tão despojada de calor ou carinho. Carinho… lembrei-me que ele nunca me dissera quem era a mãe de Fausto, de onde tinha vindo, como e quem é que o tinha… parei a meio caminho. Virei-me de novo para o local onde o coveiro lançava a última terra para a cova. Cruzei o olhar com o estranho. O sofrimento dentro do vácuo. A certeza. Oh, Deus… caí de joelhos.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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