Funeral

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Aignes
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Funeral

Postby Aignes » 08 Jun 2009 00:39

O telefonema veio há 3 dias. No início, o desprezo. Queria lá saber se aquele cabrão estava morto ou não. No meio de todas as guerrinhas, picuinhices, intriguices, mariquices e merdices, o que mais queria era vê-lo morto. Só me lembrava das coisas estúpidas. Ficou-me com o meu cadeirão do quarto por implicância. Ele nunca gostou daquilo, nunca gostou do estampado em flores nem da madeira escura e de cada vez que queria implicar era só entrar no quarto e ver o cadeirão. Pois bem, ficou com ele. No início, na confusão da mudança. Depois, eu não queria voltar lá. No final, ele não mo queria vir trazer.

Hoje, como única mudança no visual, levei um lenço por cima do decote. O traço de lápis preto nos olhos. Chamei um táxi para a igreja. Por que raio é que passei os últimos três dias sem conseguir pensar noutra coisa?

Não estava muita gente na igreja, que surpresa. Conseguia avistar algumas pessoas da família dele, alguns amigos. Era o que mais me apetecia agora, aturar aquela gente. Encostei-me à pesada porta de madeira a fumar um cigarro. Menos uns minutos de tortura.
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azert
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Re: Funeral

Postby azert » 08 Jun 2009 03:11

Não sei porque me queixo. Os pesados custam mais a carregar, é um facto, mas foi graças aos pesos que consegui uns bícepes de fazer inveja. É que com a minha profissão, todos os atractivos que conseguir reunir, nunca são de mais no momento de responder à fatídica pergunta "E tu que fazes?". Um tipo que manuseia cadáveres, que lhes despe o derradeiro traje em vida e lhes veste o uniforme para a eternidade, que os limpa, os maquilha, os penteia e até os perfuma, não está propriamente no topo da lista dos desejos femininos.

Este aqui saiu-me bem. Consegui encontrar o tom certo da base, ficou com um ar natural. Achei curioso que a mulher tivesse feito questão em vestir-lhe o robe de chambre, como lhe chamou, sem nada por baixo, e calçá-lo com os chinelos de pele. Não há dúvida, se em vida encontramos as mais estranhas personagens, na morte não havia porquê ser diferente.
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croquete
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Re: Funeral

Postby croquete » 10 Jun 2009 22:03

O telemóvel acordou-me. Um toque irritante e repetitivo. A voz do outro lado, meio fanhosa meio agressiva, falou de trabalho. Devo ter dito alguma asneira porque a voz pareceu mais irritada. Carregada de insinuações e ameaças, o tom da voz num crescendo esganiçado . Que ficava sem a casa, que me despedia...Desliguei.

É sempre assim, se pensam que não nos levam a bem, querem logo levar-nos a mal.

Deve ser da ressaca, ainda não me apresentei...Olá, o meu nome é Jordão mas toda a gente me chama tragédias, o tragédias faz pequenos trabalhos no cemitério, naquela terra fedorenta e mais viva do que eu. A metro e meio de fundo parece que nos engole, que nos reclama, que lhe fomos prometidos.

A casa onde vivo não passa de uma barraca encostada ao muro do cemitério. A cozinha confunde-se com o quarto e o quarto com a retrete. Dois postigos e uma porta minuscula com as aduelas a apodrecer.Foi-me dada, e dada é forma de dizer, em jeito de favor por um daqueles políticos, o presidente da junta, à procura de votos .

O panfleto até tinha piada: “A Freguesia dá trabalho e casa a ex-presidiário” e uma foto aqui do je todo pimpão. Por falar nisso preciso de uma dentadura nova. E é a minha vida abrir buracos para os mortos, mas Casa?? Casa não é uma barraca com o telhado a cair onde a coisa mais bonita é a Ana Malhoa na Playboy colada à parede no lugar onde estava anteriormente a figura da Virgem.

Preciso de um copo, acho que ainda não me apresentei, Tragédias, funcionário público. Ao vosso dispor.

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Re: Funeral

Postby Bubbles » 11 Jun 2009 20:34

Lavar a cara, secá-la com cuidado. Base, sombra, risco negro e batom vermelho. O ritual de todos os dias mais uma vez repetido. Não, hoje não. Uma mulher que vai enterrar o marido não pode simplesmente fazer o mesmo de todos os dias.

Lavar a cara, secá-la com cuidado. Sem base, para mostrar as olheiras. Sem pintura, para realçar a tristeza dos olhos. Sem batom, para esconder o belo sorriso. O cabelo louro apanhado austeramente e o vestido negro, simples, a esconder-lhe as curvas.

Leonor olhou para o espelho e sorriu. Sim, ninguém iria desconfiar que lhe apetecia realmente vestir o vestidinho vermelho, os saltos altos e dançar sobre a campa daquele desgraçado. Sacana que lhe tinha sufocado os sonhos e extirpado a liberdade. Depois do funeral seria uma mulher livre, finalmente.

Sim, ninguém iria desconfiar…
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Pedro Farinha
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Re: Funeral

Postby Pedro Farinha » 14 Jun 2009 20:40

De todas as cerimónias religiosas que realizo, o funeral é sem dúvida a minha preferida. Pois é na dor que os fiéis se voltam mais para Deus. Podem passar a vida a viver fora da moral cristã, mas quando a morte se aproxima, a própria ou a de um familiar, ei-los retornados ao rebanho e a tentarem aproximar-se do caminho de Jesus.

É para os ajudar nesse retorno que os oiço em confissão. E como gosto de os ouvir, a contarem os pecados cometidos, os do corpo e os da mente. Como gosto de cruzar as suas histórias e perceber, ouvindo uns e outros, que a comunidade é pequena, o que se passa em cada casa ou na pensão Albertina logo ali à entrada da vila.

O homem que morreu por exemplo. Mais pecador que santo, mas mesmo assim mártir face às mulheres que encontrou pela vida que o transformaram num joguete e acabou por morrer rejeitado por todas elas, julgando-se ele como pecador e não como a verdadeira vítima que foi. Mas agora não há tempo para estas histórias, tenho de ir compor o meu rosto fúnebre e preparar as palavras finais. Louvado seja o Senhor e que a sua inspiração desça sobre mim.

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Samwise
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Re: Funeral

Postby Samwise » 15 Jun 2009 13:39

Escondidos atrás de lentes escurecidas, de véus, de uma grossa camada de maquilhagem, são olhares que evitam contactos e perscrutam uma triste indefinição interior, uma dor que se constrói entre a pureza da recordação inevitável, espontânea, e o desejo contraditório de a afastar, de evitar que faça sangrar em demasia. Nesse dia que representa o último grande esforço para recordar.

Cada rosto é uma peça a acrescentar num puzzle gigantesco que nunca serei capaz de terminar. Num puzzle que aumenta em mim a cada dia que passa.

Dirijo-me à viúva e apresento-me como colega de escola do defunto, de há muitos anos, no Entroncamento. Mecanicamente, ela faz que sim com a cabeça, recebe as minhas mãos entre as dela, entre o lenço molhado e o terço, e com um aperto agradece o meu gesto, a minha presença no local, o tempo que decidi não despender comigo e oferecer em memória daquele amigo. Não se lembra de me ter visto. Digo-lhe que não me conhece, que nunca me viu, que provavelmente nunca ouviu falar de mim, José Antunes. Depois digo-lhe que reparei por mero acaso no anúncio do dia anterior, na necrologia do jornal, e que me fez comoção saber daquele morto.

Não lhe conto o resto. Não lhe digo dos três anúncios que sublinhei e que li e reli por várias vezes até me decidir por aquele em específico. Não lhe conto sobre a minha rotina diária de presença em funerais. Não lhe explico o processo do meu acto de redenção, de como retiro desta rotina a única hipótese de alívio, de como me apodero da dor alheia para poder chorar sobre o meu próprio sofrimento. Não lhe explico o que faço na vida e a quem faço.

Mas há qualquer coisa na presença desta mulher que se me afigura como não natural. Ao longo do tempo, a experiência traz destas coisas - são lágrimas forçadas, pressinto-o. Em redor, reparo que o centro das atenções somos nós. Sussurram para saber quem é o estranho que cumprimenta a viúva. Respondo gestualmente, com reverência, a alguns olhares mais persistentes e afasto-me para o fundo da igreja, para o acolhimento das sombras.


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Re: Funeral

Postby Ripley » 15 Jun 2009 14:50

Não sei o que raio estou a fazer aqui.
Quer dizer ... saber, sei. Sei porque vim. Não sei é se deveria cá estar.
Que se lixe. Vim por obrigação, não porque gostasse desta besta. Mas, na verdade, por muito besta que tenha sido foi o único membro da família que esteve presente quando o Eduardo faleceu. O mínimo a fazer era retribuir.

Não se falavam há doze anos mas quando soube do acidente foi ter ao hospital. Esqueceu as merdices da guerrinha de família para lá estar. O único, mesmo que doze anos antes nos tenha fechado a porta na cara como os outros por termos casado. Cambada de racistas dum cabrão.

Quem terá inventado a tradição estúpida de não falar mal dos mortos? Ah se eu tivesse coragem para a quebrar! A mulher dele, aquela loura insonsa, será que sabia com quem estava casada? Será que tinha noção de que este gajo em pleno funeral do próprio irmão me andou a galar? A viúva? Só lhe faltava babar-se, o porco. Fazer-se de muito triste pela perda do meu Eduardo e a aproveitar para me deitar a mão ao rabo quando me deu um abraço no cemitério. Mereceu bem a pisadela que levou. E merecia que outro tipo qualquer fizesse lhe o mesmo hoje.

Hmm, e na volta ... quem é aquele gajo a falar com a viúva? Olhos de carneiro mal morto - detesto gente que não olha a direito. E ela parece dar-lhe trela. Está-se mesmo a ver. Boa era a primeira mulher, decente. A única com quem mantive algum contacto, que teve coragem de ir contra o racismo besta da mãe deles para me escrever de vez em quando. Vê-se mesmo, era boa demais para o raio desta família, por isso é que não fez parte dela durante muito tempo.

Nem de propósito, ali está ela a fumar à porta. Vou até lá que o cheiro das flores já me enjoa.
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---§§§---
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Re: Funeral

Postby Sharky » 15 Jun 2009 20:09

Estava no jardim do lar, para meninos especiais...

sim especiais, era assim que nos tratavam, já o meu papá o dizia, que eu, o Fausto, não era uma aberração, não era um estranho, era diferente, pois que Deus, tinha-me dado um dom que fazia de mim um menino especial...sim, foi isso que ele me disse.

Hã, estava a cuidar de umas orquídeas silvestres, lindas, como o cisne que passou por mim agora mesmo...aparece a auxiliar e diz-me que tenho uma visita...

a Manuela hoje está toda bonita, e tem um perfume novo, bem como o penteado, se calhar vai jantar com o marido, já sei,vou oferecer-lhe uma orquídea daquelas bem bonitas, sim, vou mesmo.

Ofereci a flor à minha auxiliar favorita, ela corou e tentou abraçar-me...

estúpida, não sabe que não gosto que me toquem, detesto que me toquem, odeio que me toquem, tenho raiva a quem me toca.

Não sei porque Manuela tinha uma lágrima no olho, perguntei mas não me respondeu, cheguei à sala, de costas, estava um homem, virou-se e a cara dele não me era estranha, não de agora, mas já o tinha visto algures...

de onde vi este homem, de onde, onde, onde, onde?
A minha cabeça dava voltas, quase via estrelas do meu baloiço, adoro baloiçar, é tão bom, faz-me lembrar a Joaninha, a rapariga de quem eu gosto, ela partiu o ano passado, sim partiu, partiu para o o outro lado.

Manuela, estou cansado, disse eu, mas ela deixou-me a sós com aquele homem, disse-me que era amigo do papá, eu estava calmo a olhar para o tecto...

se eu tocar naquele ponto com a ponta do dedo e afastar o candeeiro mais para ali, será que alguém nota a diferença? hihihihi.

Foi quando ele me disse que o meu pai tinha partido, há duas noites atrás, e que já não o podia ver mais...

partiu?
Partiu? Para onde? Amanhã era dia de ele me visitar, já não vem? E agora? Quem me trás as bolachas de aveia se o papá não vem, amanhã não, não, não posso passar sem as bolachas amanhã, é dia de visitas.

Gritei pela Manuela e ela veio a correr, disse-lhe para me tirar dali rapidamente, e assim foi, entretanto o homem da cara que não me era estranha, viu-me ir embora, eu disse adeus.
Agora, eu tinha que arranjar uma maneira de encontrar o papá...

já sei, vou encontrar o bilhete para o Bus, aquele que o papá me deu, para quando eu me sentisse sozinho e quisesse ir ter com ele, vou encontrá-lo, tenho algum dinheiro na caixinha das moedas, isso mesmo, leva duas noites de avanço, mas eu sou rápido, se me sentir perdido pergunto à fada, sim a fada, ela conhece tudo, sabe tudo, até o dia em que faço anos, por isso não preciso de me lembrar, pois ela recorda-me.
Tenho que ser discreto, aquelas bruxas da noite não podem descobrir que vou partir amanhã de manhã bem cedo, não podem não, o papá precisa de mim, pois precisa, eu amo o papá, faço tudo por ele.


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Re: Funeral

Postby Sofiushka » 15 Jun 2009 21:14

Ainda antes de anteontem precisava de ir às análises deixar lá o frasquinho que o Doutor César me mandou encher, abençoado seja o homem, que tem sempre tempo para me atender a mim e aos meu achaques, não é como o ingrato do meu filho que me diz sempre que é tudo da minha cabeça e a cínica da minha nora que abana a cabeça e diz que sim, que sim, e que eu devia era ter mais cuidado com as correntes de ar e passar menos tempo à janela enquanto me cobre os ombros com o xaile, mas eu sei que ela só vai lá a casa para espreitar a caixa das jóias a ver se não despachei nada para as minhas sobrinhas antes de me finar e deixar-lhe tudo à disposição para rapinar, eles não sabem é nada, só Deus sabe como sofro dos meus pobres nervos e só o Doutor César me compreende, e de vez em quando manda-me fazer análises como aquela que fui levar antes de anteontem à clínica.
Apanhei o trólei e encontrei a Dona Carminda lá sentada, dá-se ares de grande senhora mas pelos vistos anda nos transportes como nós todos, e o único lugar livre era ao lado dela, de maneiras que me sentei. Contou-me ela que há dias tinha estado com a afilhada, que era mulher-a-dias na casa da ex-mulher do homenzinho oleoso que mora na casa amarela do outro lado da minha rua, e que lhe contou que se tinha passado lá um grande escândalo. Não percebi nada, primeiro porque ela falava em papéis no banco e enchia tudo com palavras que eu não fazia ideia do que é que ela estava a falar, e segundo, porque também suspeito que ela não fizesse ideia do que estava a dizer, que ela engasgava-se de vez em quando, e terceiro, porque a afilhada dela é uma alcoviteira e não é muito de fiar, que eu bem sei que ela exagera nas histórias que conta. Mas ao que parece havia polícias a revirar as gavetas todas e ainda levaram a pobre rapariga à esquadra para lhe fazerem perguntas. Não sei é como acabou a história, porque a Dona Carminda teve que sair na paragem do mercado e ainda bem, porque com este calor aquela água de colónia velha faz-me subir os gómitos ao nariz.
Não liguei nenhum à historieta, e até a contei à Mariazinha da mercearia, que também concordou comigo que aquilo era masé uma grande treta. A Luísa, que tinha lá ido comprar queijo, achou que se calhar a Dona Carminda tinha visto tudo num filme, mas a Dona Augusta, que é muito comadre da Dona Carminda, defendeu logo a amiga e disse que se ela tinha dito era porque era verdade.
O que é certo é que logo nessa noite o homenzinho oleoso da casa amarela parece que morreu. Eram três da manhã e eu estava a estender a roupa, que agora faz calor e não consigo dormir, mas é bom para secar os lençóis, e eu ouvi uma chinfrineira e fui logo abrir a persiana da sala para ver, e era polícia e a ambulância, e o homem muito quieto na maca e a mulher também muito sossegada, e eu pensei que não se tinha passado nada de especial, se calhar ele tinha escorregado e batido com a cabeça. Mas no dia a seguir fui ao café registar o euromilhões e a Isabelinha, que é tão boa moça, perguntou-me logo se eu sabia novidades do morto. Que morto, perguntei-lhe eu, e ela disse, Ora, o que mora à sua frente, não me diga que não soube, e eu disse, Ai então foi isso!, e eu lembrei-me da conversa da Dona Carminda e contei à Isabelinha, e ela ficou muito admirada e chamou o pai e contou-lhe e o Senhor Alberto então disse-me que eu devia contar à polícia e foi por isso que eu vim falar consigo, mas não posso demorar muito porque daqui a nada é o funeral e eu tenho que ir prestar os pêsames à viúva, que pode ser uma lambisgóia, mas todos os Natais me oferece um prato de rabanadas com mel.

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Re: Funeral

Postby Aignes » 19 Jun 2009 13:05

A última vez que estive numa igreja foi para o baptizado de um puto qualquer, filho de uma qualquer pessoa conhecida. Só me lembro do miúdo a berrar a plenos pulmões cada vez que o padre se aproximava dele. Pelo menos desta vez o interessado não vai berrar de certeza.

Engraçado como a morte dele, embora me fosse indiferente, deixava-me alguma marca. Melhor, era como se me tivessem raspado do fundo de mim mesma uma parte que fazia um bocadinho de mim, uma parte que já estava enterrada há muito tempo, mas ainda assim, minha. As memórias não eram todas más, e o que me irritava mais era precisamente não conseguir afastar a ilusão de que mesmo através de toda a raiva, ressentimento e desprezo, era uma parte importante de mim que estavam a levar.

O tempo estava com aquela claridade esquisita, nublado, mas com um sol irritante invisível a ferir-me os olhos. Quando remexia a mala à procura dos óculos de sol, aproximou-se uma figura. Estava mais magra do que eu me lembrava, mas era agradável ver ali outra pessoa que tivesse passado pelo que passei com aquela gente. Pior, até. Para aquela família, se há coisa pior do que pessoas de trabalho duvidoso, são pessoas de aspecto duvidoso. Trocámos as palavras da praxe, «que pena, isto», «impensável», «acontece a todos», até que um olhar escapou e percebemos ambas que nenhuma de nós tinha o mínimo interesse em estar ali.

Descontraí. Sorri entre duas baforadas de fumo. «Lembras-te daquele último jantar antes do meu divórcio?» Claro que se lembrava. Rimos ambas um pouco mais alto do que devia ser apropriado à ocasião. Ofereci um cigarro que recusou.

Ouvimos um distúrbio dentro da igreja e virámo-nos para ver o que seria. As pessoas sentavam-se, a viúva era levada por alguém para um dos bancos. Entrámos.

O padre dirigia-se ao púlpito.
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Re: Funeral

Postby azert » 19 Jun 2009 13:45

Não se pode dizer que este homem tivesse muitos amigos. A igreja estava quase às moscas. Tanto trabalho e tanto empenho a preparar o morto, dando mostra do meu talento e cuidado no tratamento da passagem dos defuntos para o além, para nada; os cartões da minha funerária voltaram todos da mesa à entrada da igreja, ninguém quis pegar num.

É sempre assim - quem está vivo, que é quem está apto a morrer, pensa que a morte vem longe. Vejam este homem, por exemplo: quando fui a casa dele tirar-lhe as medidas, estava nu, com marcas de ter sido amarrado à cama, e os lencóis testemunhavam a recente actividade. Aposto que nem teve tempo de aperceber-se que morria e no entanto...
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Re: Funeral

Postby croquete » 22 Jun 2009 12:20

Terminei a cova e tinha a garganta seca.

Deixei as ferramentas por trás do Alberto Ferreira. Andei mais um pouco, virei pela Natália de Jesus até chegar a uma árvore grande, um Cipreste, mesmo ao lado do José Sócrates, no meio do cemitério.

Aqui o defunto com o mesmo nome do primeiro-ministro é quem me guarda a bucha. Uma sepultura baixa com uma lápide em tom rosado, cheia de recantos, de um deles tirei uma garrafa de "maduro", tinha muita sede.

Sentei-me à sombra do Cipreste e tirei pão e torresmos que é sempre bom para acompanhar a bebida.

Este cemitério costuma ser muito sossegado. Digo, costuma, porque uma destas noites da minha casa, que fica junto ao muro, ouvi uns gritos e gemidos. Ainda vim ver o que era mas não dei com ninguém.

Pelo tom e pelo timbre da algazarra calculei que fosse algum casal a entreter-se e o que é certo é que há mulheres que não são capazes de ficar caladas.

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Re: Funeral

Postby Ripley » 22 Jun 2009 14:11

O interior da igreja está escuro. Não como convite à reflexão. Acontece que o céu está nublado e os poucos vitrais têm tons carregados que não ajudam nada. Uma série de velas tenta colmatar a falta de claridade mas o que consegue, principalmente, é tornar o ar pesado. O que vale é não estar lá, de facto, muita gente senão tornar-se-ia irrespirável.

Entrei na capela com a ex, tão pouco querida daquela pseudo-família como eu. Apercebi-me de algum sentimento contraditório no seu semblante, como se tivesse lá ido apenas para ter a certeza da morte daquele ... hesito em chamar-lhe homem, a sério. Fez mais mal do que bem a muita gente. E aquela ideia de o enterrar em robe e chinelas, de quem teria sido? Da viúva? Essa revela um ar contrariado, como se tivesse acabado de ouvir alguma notícia desagradável, mordendo o lábio com o sobrolho franzido. Não mostra sinais de ter chorado a sério, quem chora a valer fica com os olhos inchados e avermelhados. Os dela não o estão.

Olho em volta, observando os presentes. O homem da funerária tem um ar solene e quase impassível. Em que estará a pensar? O padre, no púlpito, abre a Bíblia e procura alguma passagem específica com rosto compenetrado. Não imagino sobre que irá falar. Do filho pródigo? Era uma boa anedota.

Continuo a vaguear os olhos pela nave, não reconhecendo quase ninguém. Chega uma mulher já de certa idade que me faz sorrir. A vizinha da frente, a mesma que na noite do tal jantar só faltou pendurar-se da janela para ouvir melhor a discussão. Nunca vi uma pessoa tão cusca na minha vida! Dou um toque com o cotovelo e um sinal com a cabeça à minha vizinha, a ex, que se vira para a ver. Lembrando-se da autêntica novela que aquela mulher criou à volta da discussão do jantar, disfarça o riso com um ataque de tosse. Ou se calhar não é disfarce. Já naquela altura fumava bastante e a tal mulherzinha fazia disso assunto de conversa no café do Sr. Alberto.

Por fim os meus olhos cruzam-se com o sujeito que há pouco falava com a viúva. Seria amigo do morto? Colega? Tem um ar que não consigo decifrar, mas algo familiar ao mesmo tempo. Correndo o risco de parecer mal educada continuo a observá-lo atentamente, fixamente, quase sem me aperceber que ele faz o mesmo.
Conheço aquela cara. Não sei de onde, mas juro que o conheço.

Uma cotovelada faz-me desviar o olhar. O padre olha em volta, aparentemente preparando-se para falar.
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Re: Funeral

Postby Pedro Farinha » 25 Jun 2009 22:57

Irmãos, estamos aqui reunidos para prestar a última homenagem a este nosso irmão, aos olhos de Deus, que partiu de junto de nós para se ir encontrar como o nosso criador.


As minhas palavras ecoavam vazias nos olhos secos das poucas pessoas que enchiam a igreja. Não se sentia a dor que tantas vezes acompanha um funeral e que tão útil é na hora da recolha de fundos para as obras no telhado da casa paroquial.

Duas mulheres vigiavam-se friamente. O filho do falecido balançava-se de um pé para o outro enquanto cantava uma cantilena em surdina. Apenas o desconhecido, um tal de José qualquer coisa, parecia sentir pesar pela memória do falecido.

Os meus olhos fixaram-se nas mulheres que esgrimiam furiosamente, com os olhos, desprezo e maledicência. Oh, meu Deus, como eu gostava de as ouvir em confissão.

Vendo que ninguém ligava à minha homilia, acelerei rapidamente para do pó vieste e ao pó retornarás e fiz sinal para que levantassem o morto e o levassem para o cemitério que ficava nas traseiras. O sol recebeu-nos com um clarão forte e os óculos escuros encobriram-me os olhares. Solenemente fiz sinal ao coveiro para que parasse e vieri-me para o pequeno séquito que me acompanhava: alguém quer dizer algumas palavras ?

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Re: Funeral

Postby Samwise » 26 Jun 2009 11:57

Pobre morto a quem ninguém quer prestar a última homenagem.

Oito mil, quatrocentos e oitenta e três, a contar com este. Sei o número à unidade. Foi em 76 que começou. Que recomeçou, será uma expressão mais adequada. Foi desde que Ele apareceu sentado a meu lado, naquele quarto de hospital. Foi quando regressei subitamente à vida e alguém me segurava a mão.

Levo trinta e dois anos de funerais, com uma média presencial a rondar os cinco por semana. Procuro em jornais os casos mais representativos - aprendi, ao longo dos anos, a interpretar significados ocultos nos anúncios necrológicos -, e não faço caso das distâncias: desloco-me a todo o país. Cruzo-me vezes sem conta com os mesmos representantes de Deus, sacerdotes que são uma espécie de minoria étnica em vias de extinção. Deve haver um padre para presidir a um funeral por cada dez mil habitantes. Por vezes meto conversa com eles. Apesar de tudo, não me reconhecem. Suponho que também devam ter o seu quinhão de rostos apócrifos por absorver - a multidão dos vivos que velam os mortos é algo que não desaparece da memória, antes entranha-se cada vez mais fundo, de um modo que chega a ser perturbador. A multidão sem rosto. Mesmo assim, em termos de experiência de ocasião, levo-lhes alguma vantagem. A quantos funerais assiste um Padre ao longo da sua vida doutrinal? Mil? Dois mil? Cinco mil, nos casos mais agudos? Por quantas vezes repete ele os mesmos textos, as mesmas palavras de serenidade, as mesmas expressões solenes? Quanto tempo demorará, como um médico, a tornar-se insensível à dor dos que o rodeiam?

Do canto onde me encontro observo em silêncio a fauna circundante. Também nela me habituei a recolher e a interpretar sinais reveladores. Há um padrão representativo que pode ser traçado neste universo muito característico, a nível geral, a nível particular. Vejo a viúva que me cumprimentou e que chora mais por alívio do que por tristeza. Vejo um grupo reunido junto da entrada que certamente discute sobre probabilidades e percentagens de uma herança por revelar. Vejo as beatas de negro a ocuparem as duas primeiras filas desta minúscula capela de cemitério. Prostradas, ajoelhadas, partilham palavras de despedida e entoam rezas à alma do falecido. Choram por hábito. Vejo os familiares e distingo-os dos que eram amigos e conhecidos. Vejo no rosto de algumas mulheres algo mais do que uma simples relação de amizade - olhos luzidios e orgulhosos que perscrutam talvez uma lembrança carnal. Lá fora, na gravilha do terreno, as crianças brincam a um ritmo um pouco mais lento do que o costume, um pouco menos rebelde. Também elas se sentem limitadas pela tensão sufocante que determina o comportamento do grupo. Também elas se sentem invadidas, violadas, restringidas pela memória do morto no caixão.

O padre acaba a missa quinze minutos antes do previsto. A homilia foi curta e seca - quase ríspida. Ninguém parece interessado em acrescentar o que quer que seja.

Pobre morto.

Sinto-me observado por diversas pessoas. As suas expressões revelam alguma irritação, a acrescentar à natural curiosidade.

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -


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