Citações

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Arsénio Mata
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Postby Arsénio Mata » 05 Oct 2009 04:04

Apesar de ser um membro ainda muito recente deste fórum, gostava de deixar aqui um desafio. Desde que me lembro que certas frases me marcam. Mais do que poemas, letras de músicas, textos, são pequenas frases que andam sempre a passear pela minha cabeça. Muitos dos meus textos/poemas já começaram a partir de uma frase (tenha ela sido ouvida ou imaginada).
Penso que todos têm uma citação favorita, muitos até a usam como assinatura. O meu desafio consiste em pegarem numa citação que vos agrade (seja verdadeira ou ficcional), e criarem uma personagem que diga essa exacta citação a certa altura do texto.
Se calhar é um bocadinho estúpido, mas têm que dar um desconto...Olhem para as horas a que escrevi isto... :whistling:
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
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Re: Citações

Postby Pedro Farinha » 06 Oct 2009 19:09

Não, a ideia é muito interessante, mais difícil é concretizar mas prometo que vou tentar.

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Arsénio Mata
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Re: Citações

Postby Arsénio Mata » 06 Oct 2009 21:53

Pedro Farinha wrote:Não, a ideia é muito interessante, mais difícil é concretizar mas prometo que vou tentar.

Pois, também estou a ter alguma dificuldade a escrever sem que soe muito forçado...
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Re: Citações

Postby Arsénio Mata » 30 Dec 2009 21:05

<!--coloro:#FF0000--><!--/coloro-->Peço desculpa aos senhores Admins pela demora na postagem do texto. :rolleyes: Não foi fácil.
Pus a citação a negrito apenas para a reconhecerem, se bem que penso que toda a gente a conhece.<!--colorc-->
<!--/colorc-->




<!--sizeo:5-->[size=150]<!--/sizeo-->Infecta-me<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->





Olhei para a sua cara, que descansava num sono tão profundo que eu nem podia imaginar. Afinal, havia já uma semana que eu não dormia, devido a toda aquela situação. Adjectivar uma cara como a dela de bela seria o mesmo que chamar quente ao sol ou escura à noite. Todas as palavras do mundo seriam incapazes de transmitir uma pequena porção da harmonia angelical, e, antagonicamente, diabólica que o seu rosto possui-a. A sua beleza de tão pura era maléfica. Vi os seus cabelos dourados enquanto fechava os olhos e senti aquele cheiro a jasmim e rosas. Mesmo fechados, os seus olhos brilhavam de intensidade, e de intenção. Mesmo fechados, era possível ver o azul a brilhar, por trás das pálpebras. Até as pálpebras eram as mais belas que eu tinha visto. Os lábios, carnudos e vermelhos, poderiam ter sido a última tentação de Cristo. Ver aquela boca e não a puder beijar retirava-me, literalmente, todo o ar dos pulmões.

(daqui a pouco, tem calma...)

É de noite, agora, enquanto eu, secretamente, a observo. É, e será sempre noite para nós. Seguro-lhe ternamente no pescoço e sacudo um pedaço de terra que teima em não desaparecer. O pescoço que eu, ainda há uma semana, também ternamente beijei. Conheço cada linha, cada poro daquele pescoço. Sei como descer dele, beijando-o, acariciando-o, até aos seus seios. Agarro neles, firmes e beijo-os com toda a minha imensa saudade. Beijo-os tão sofregamente que me falta o ar.

(daqui a pouco, tem calma...)

Já é quase de dia, ouvem-se os galos a cantar. Eles advinham o que se passa, penso eu. Todos eles cantam por uma última vez. E eu, por uma última vez, vejo aquela barriga, lisa e simétrica. Vejo as linhas que descem, desde os abdominais até à púbis. Observo-lhe as ancas, coxas, pernas, tornozelos, pés. E sufoco.

(daqui a pouco, tem calma...)

Ela é tão bela. Tão pura. Tão branca. E sufoco.

(daqui a pouco, tem calma...)

Os primeiros raios de sol já raiam. Já brilham na pá que trouxe para cavar a terra. Já brilham nos pregos retorcidos, pousados no chão. O sol já brilha no seu corpo, tão belo. Tão puro. Tão branco. E sufoco.

(daqui a pouco, tem calma...)

Observo a palidez do seu corpo, nu. O sol queima a roupa que lhe vestiram. Também estas roupas, agora velhas e enrugadas, já foram amadas. O sol seca as gotas de orvalho, que durante a noite haviam humedecido a terra. O sol seca as minhas lágrimas, que durante a semana haviam humedecido o meu rosto. O sol já brilha no seu rosto. Tão puro, tão belo, tão pálido. E eu sufoco.

(daqui a pouco, tem calma...)

É de manhã já, o sol é forte. O sol brilha no seu cabelo, seco e sujo de terra. Um escaravelho assusta-se com tanta luz, e foge, deslizando pela carne do seu corpo. Já meio comido. Uma larva assusta-se com tanta luz, e desliza pela carne do seu corpo, tentando fugir. O cheiro de mil lixeiras apodrecidas infecta-me as narinas. E eu sufoco.

(daqui a pouco, tem calma...)

A luz do dia abre-me os olhos e mostra-me os dela, já corroídos. Mostra-me a carne do seu corpo, pútrida ao fim de apenas uma semana. O som de mil gritos viola-me os ouvidos. E eu sufoco.

(daqui a pouco, tem calma...)

A luz do dia abre-me os olhos e mostra-me os dela, agora abertos. O azul deu lugar a um preto absoluto, como se em lugar de olhos, existissem apenas dois buracos negros. Duas órbitas. Vazias. Negras. A sua boca parece também mexer-se, ao ver-me. Aproximo a minha cabeça da dela, e agarro-lhe pelo pescoço, ternamente. Aproximo a sua boca dos meus ouvidos. A saliva dela, quente e seca, cola-se aos meus ouvidos e infecta-me. E eu sufoco. A sua língua percorre as minhas orelhas, como já havia feito tantas vezes. Como se ela estivesse viva. E eu sufoco. Da garganta um murmúrio. E eu sufoco. A sua voz um murmúrio. E eu sufoco.

(o meu nome é...)
O seu nome é...
E eu sufoco.
(o meu nome agora é...)
O seu nome agora é...
E eu sufoco.sufoco.sufoco.sufoco.
O cheiro de mil lixeiras de jasmim em mim.
O cheiro apodrecido do seu belo cabelo.
O cheiro a rosas de um último abraço.
Sufocosufocosufocosufocosufoco
(o meu nome é legião.)
(e eu já não sufoco.)
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Re: Citações

Postby Samwise » 30 Dec 2009 21:21

Portanto, a tua citação de partida foi "O meu nome é legião" (título de um livro de ALA e trecho da Bíblia).

Gostei do texto, mas achei que se repete em demasia em várias frases e em vários momentos. São mais repetições do que aquilo que o resto do texto lhes permite de espaço para respira/recuperar.

O livro do Simmons deixou-te algumas marcas, estou a ver. :mrgreen4nw: Em imagens, lembro-me dos pesadelos arrepiantes do protagonista e das personagens que habitavam nesses ambientes...
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Re: Citações

Postby Arsénio Mata » 30 Dec 2009 22:13

Por acaso escrevi isto antes de ler o livro. Andei foi a melhorá-lo. Mas percebo a associação.
A repetição é propositada, dado o facto de ser o reviver de um momento. mas também percebo o que dizes. Obrigado pelo comentário. :smile:
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Re: Citações

Postby João Arctico » 09 Jan 2010 00:43

“Mim, Jane. Tu, Tarzan”. Quer dizer, eu não sou Jane pois sou muito homem. Mas podia ser. Hoje em dia a medicina já consegue tudo. Quase Tudo. Menos a cura para o cancro. Menos “n” curas. Mas “prontos”. Mas já mudam o sexo. Daí eu poder ser Jane. Se eu quisesse. Se me apetecesse. Se tivesse vocação. Se tivesse dinheiro… “At first, I was afraid, I was petrified. Kept thinkin' I could never live without you by my side. But then I spent so many nights thinkin' how you did me wrong. And I grew strong. And I learned how to get along”. Podem dizer que eu só digo baboseiras. Pois podem. Mas eu não ligo. Os cães ladram mas a caravana passa. Porque como eu só eu. Porque “eu sou a lenda”. E tu passaste à história. Ah, pois! Gajas são o que não faltam por aí. Até te podias chamar Jane. Ou Maria Antonieta. Também não tens cabeça. Juízo. Tino. Só serradura. E um corpinho bom. Muito bom, por sinal. Ui. Podias ser a coisinha “sexy”, como a outra. E eu até pagava oitocentos euros só para te ver nua. Isso… se nunca te tivesse visto. Nua, pois claro. Porque tu até és especial. E eu também. Eu e o meu amigo. O meu apêndice entre pernas. Aquele meu apêndice é especial e é único e marca a diferença. Sim, para elas, ele é o “Special One”. E para mim… para mim “ it's a symbol of my individuality, and my belief in personal freedom”. E está tudo dito!
Por agora…
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo


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