Invisível - Paul Auster

Annabel_Lee
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Invisível - Paul Auster

Postby Annabel_Lee » 17 Nov 2009 23:43

Deixo aqui uma coisa que escrevi no meu blog há uns tempos.

Sinopse: Sinuosamente construído em quatro partes entrecruzadas, o décimo quinto romance de Paul Auster começa em Nova Iorque, na Primavera de 1967, quando o jovem aspirante a poeta Adam Walker conhece Rudolf e Margot, um enigmático casal francês. O perverso triângulo amoroso que rapidamente se forma, conduz a um chocante e inesperado acto de violência cujas consequências serão irreversíveis.

Três narradores contam uma história que se desloca no tempo, de 1967 a 2007, e no espaço, à medida que viaja entre Nova Iorque, Paris e uma ilha remota nas Caraíbas. Invisível está imbuído de fúria, de sexualidade desenfreada e de uma busca implacável por justiça. É uma viagem através das fronteiras sombrias entre verdade e memória, criação e identidade.
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Opinião:
O novo livro do escritor norte-americano tem sido aclamado pela crítica (ou pelo marketing) como um dos melhores ou o melhor de sempre escrito pelo autor. Para quem se familiarizou, no entanto, com a sua escrita no registo policial, este livro pode soar mais emotivo e intimista. E será que o autor tem tanto talento para este registo? Pois, na minha perspectiva, não tanto. Primeiro porque não consegue distanciar-se de nenhuma personagem que cria, todas as personagens são ele próprio ou fracções de si próprio e quando não são ele próprio são uma idealização daquilo que ele próprio gostaria de ser. Confuso?! Talvez mas é essa a sensação mais transversal do livro. Como o autor envereda por caminhos intimistas onde é necessário compreender os meandros do pensamento de cada personagem acaba por retirar às personagens um carácter mais naturalista, pois todas pensam como Paul Auster e agem como Paul Auster e é um universo que pertence unicamente ao escritor. Era bom que toda a gente no mundo fosse assim tão intelectual... É curiosa a relação de Gwen com Adam a marcar um claro ponto de fashionable sex nos best-sellers de ultimamente: o sexo incestuoso. Mas quando Paul Auster cai para um temperamento mais romântico, cai para um temperamento bem mais sexual do que o previsto, suponho. Um bocado de sexo, um bocado de diletantismo intelectual e voila! As suas descrições das personagens e do espaço que lembram Fitzgerald ou Hemingway continuam a registar o que de melhores influências tem o autor, mas os espaços em aberto na história, as questões que residem no ar, quem é ou não culpado e quem sai impune numa reflexão dostoiévskiana são sem dúvida os melhores aspectos do livro. A narrativa ou as questões ligadas à meta-narrativa também dão um toque original, dá para construir uma manta de retalhos mental. A ideia em termos de 'arquitectura' da narração é engraçada embora, na realidade, o autor podia ter-se esforçado mais para conseguir o efeito desejado. Para quem não leu o livro é difícil de compreender mas basicamente há um segundo autor dentro do livro que é ele próprio uma personagem que acaba por juntar vários segmentos do livro do primeiro escritor e no final de uma terceira autora para construir a narrativa. De um capítulo para o outro o primeiro autor quis contar a sua história mudando a pessoa da narração. A primeira na primeira pessoa, a segunda na segunda, a terceira na terceira. Acontece que fazer isto ou ter deixado a narração sempre na primeira pessoa era exactamente a mesma coisa porque não há um esforço para que a mudança de pessoa também distancie a narração da personagem, é sempre um narrador omnisciente e quando temos uma descrição na terceira pessoa que faz perguntas retóricas de dilemas como se tivesse dentro do pensamento da personagem, torna-se um mero jogo de formalismo que não acrescenta muito ao livro. A parte final com os registos no diário de Cécile são para mim um dos momentos mais interessantes do livro acabando com uma reflexão brutal sobre o colonialismo. Enfim, um livro que entretém e vale a pena ler mas deixa saudade de estilos mais antigos como em A Triologia de Nova Iorque.
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Re: Invisível

Postby Tzimbi » 18 Nov 2009 00:33

annabel_lee wrote:Primeiro porque não consegue distanciar-se de nenhuma personagem que cria, todas as personagens são ele próprio ou fracções de si próprio e quando não são ele próprio são uma idealização daquilo que ele próprio gostaria de ser. Confuso?!


Nada confuso! Aliás, muito bem visto!
Para quem acompanha a obra do autor desde a Trilogia de Nova Iorque, é notório que nestes últimos livros ele tem perdido o fôlego (falta-me ler o Homem na Escuridão e Invísivel). Além disso, a tendência de se projectar nas suas personagens ad nauseam até cansa o seu leitor mais fiel... :blush: Acho que o pior exemplo é mesmo o intragável Viagens no Scriptorium, onde ele recupera personagens de outros livros dele.
Ai que saudades do Auster do Mr. Vertigo ou do Leviathan. :sad:

(pronto, agora está o Thanatos a esfregar as mãos de contentamento...eu a dizer mal do Auster! O fim do mundo aproxima-se!)

S.

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Re: Invisível

Postby Thanatos » 18 Nov 2009 11:13

/me esfrega as mãos de contentamento... :devil2:


Finalmente o Auster vai começando a ser visto por aquilo que foi, a flash in the pan.

E, claro, é sempre um prazer partilhar das opiniões da Lee (que por acaso esta eu já conhecia).
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Invisível

Postby Annabel_Lee » 22 Nov 2009 00:02

Thanatos wrote:E, claro, é sempre um prazer partilhar das opiniões da Lee (que por acaso esta eu já conhecia).


Muito obrigada pela simpatia. :smile:
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Re: Invisível

Postby Anibunny » 22 Nov 2009 13:56

Comecei a ler ontem e já vou a meio - achei até agora algumas vezes a mudança de narrador confusas no inicio mas logo me habituei. A cena do incesto foi a que li mais rápido (chamem-me tarada ou wtv mas aprecio bastante livros com incesto) e até detesto descrições de sexo mas não resisti a achar piada a algumas coisas (quando o Adam refere as diferenças que encontrou na irmã - uma pessoa inteligente e muito educada e que na hora do "bem-bom" conseguia tornar-se "wild" e dizer as coisas mais indecentes (e ele por sinal não se importava até gostava). Mas ainda estou na parte IV e ainda muita coisa irá acontecer :smile:

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Re: Invisível

Postby azert » 25 Nov 2009 11:25

Não achei, de modo algum, "Invisível" o melhor romance de Auster; nem sequer um dos melhores. Tendo lido quase todos os livros dele, considero até este um dos piores, apenas ultrapassado (negativamente) pelo infame "Scriptorium".

Reencontramos a história dentro da história (matrioshka style), presentes noutras obras de Auster (estou a lembrar-me da Trilogia, por ex.), mas de um modo muito menos magistral do que em livros-marco dele - como a Trilogia.

Contudo, o facto de, na minha opinião (e de outros), ter vindo a escrever pior, não tira nem um pouco de valor aos livros que ficaram para trás - como é o caso de Trilogia, Música do acaso, Leviathan, Timbuktu e até mesmo Mr. Vertigo.
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Re: Invisível

Postby Annabel_Lee » 25 Nov 2009 12:46

azert wrote:Contudo, o facto de, na minha opinião (e de outros), ter vindo a escrever pior, não tira nem um pouco de valor aos livros que ficaram para trás - como é o caso de Trilogia, Música do acaso, Leviathan, Timbuktu e até mesmo Mr. Vertigo.


Sim, concordo!
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