P... que os pariu

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Sharky
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Re: P... que os pariu

Postby Sharky » 23 Mar 2013 12:56

Samwise wrote:, se o homem que fugiu de Portugal após o mandato como PM aceitar regressar como comentador político


É normal esses tipos voltarem como comentadores políticos, já não era o primeiro...mas algo me diz que a velha elite está a juntar-se, o cheiro do poder :mrgreen:

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Re: P... que os pariu

Postby Samwise » 28 Mar 2013 00:00

A entrevista foi uma bomba de fragmentação bem medida para três pessoas em concreto: Cavaco Silva (apontado pelo nome), Pedro Passos Coelho, e António José Seguro. Os dois primeiros como responsáveis activos pela vinda da Troika, e o terceiro como a pessoa que não o defendeu perante os todos ataques ao longo destes dois anos.

É tão mau o estado em que estamos quanto a personalidades políticas no activo que o Sócrates consegue em pouco mais de hora e meia demonstrar uma vitalidade e uma argumentação que há muito não se observava por cá. Estava preparado o suficiente para fazer virar o bico aos pregos todos que os jornalistas lhe apontaram.

Posso não gostar nadinha do homem, mas em termos de argumentação dá um baile aos que temos neste momento.
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Re: P... que os pariu

Postby Bugman » 28 Mar 2013 01:52

Sharky wrote:
Samwise wrote:, se o homem que fugiu de Portugal após o mandato como PM aceitar regressar como comentador político


É normal esses tipos voltarem como comentadores políticos, já não era o primeiro...mas algo me diz que a velha elite está a juntar-se, o cheiro do poder :mrgreen:


Quanto ao fugir de Portugal, chamo a atenção para o artigo do Daniel de Oliveira hoje nos blogs do Expresso, em que diz e me parece verdade: entre Durão, Guterres e Cavaco, foi o único que se apresentou a eleições depois de a coisa estar negra para o seu lado, arcando ele com as responsabilidades da derrota do partido. Eu já dizia, no estertor do seu mandato, "depois de mim virá quem de mim bom fará" e Passos Coelho sem grande esforço tem-no conseguido...
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Re: P... que os pariu

Postby Samwise » 28 Mar 2013 13:24

Bugman wrote:
Sharky wrote:Quanto ao fugir de Portugal, chamo a atenção para o artigo do Daniel de Oliveira hoje nos blogs do Expresso, em que diz e me parece verdade: entre Durão, Guterres e Cavaco, foi o único que se apresentou a eleições depois de a coisa estar negra para o seu lado, arcando ele com as responsabilidades da derrota do partido. Eu já dizia, no estertor do seu mandato, "depois de mim virá quem de mim bom fará" e Passos Coelho sem grande esforço tem-no conseguido...


Não deixando isto de ser verdade, ligo essa atitude mais a uma questão de aproveitamento político próprio do que a um "dar o peito às balas" e assumir a derrota pessoalmente. Mas são especulações minhas.

De entre todas as opiniões que li acerca da entrevista, e que como é natural variam radicalmente nas observações que fazem, esta é a que parece mais próxima de uma boa análise àquilo que realmente se passou: http://expresso.sapo.pt/a-dupla-passos- ... ca=f796780

Parece-me ao mesmo tempo inacreditável e uma hipótese bem real que uma ideia de confronto eleitorista neste momento entre o Coelho e o Sócrates desse a vitória ao segundo. :ph34r:

Parece-me ainda que uma antiga e até agora inalterável verdade no mundo da política continua pedra-e-cal: o que é verdade hoje já não é amanhã daí a uns minutos. Ele diz que não pretende assumir nenhum cargo político. Agora. Vamos ver o que sucede quando o panorama político se alterar...
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Re: P... que os pariu

Postby Bugman » 04 Apr 2013 15:05

Coisas que não deixam de ser verdade (sem que se relacionem com o que eu penso ou deixo de pensar sobre a criatura Sócrates): a 30 de Setembro de 2010, quando são apresentados os dados do Eurostat relativos ao crescimento (ou falta dele...) e à evolução da dívida, dos países aflitos só Portugal se encontra no verde (penso que com uma evolução de +0,3 ou nesta casa), todos os outros apresentam negativos. Só após o PSD, com o seu recente líder PPC, aceitar negociar um Orçamento cheio de condições que, sensivelmente um mês antes, haviam dito que recusariam (lá voltamos à máxima que disseste) é que os juros de dívida começaram a escalar por aí acima. Em parte, isto não se desliga dos rios de dinheiro que entretanto estavam a ser canalizados para o banco do PSD, vulgo BPN. Nos três meses que se seguem, entre negociatas menos claras, seguem-se pelo menos 2 orçamentos a rectificar esse Orçamento. Sempre com conselhos "ajuizados" do Sr. Silva (o qual considera que discutir o seu enriquecimento com o BPN configura 'baixa política') que na tomada de posse incita o povo a levantar-se contra o governo (é caso para dizer quem o viu e quem o vê).

A verdade é que esse 30 de Setembro marca o início do fim do Governo (minoritário) Sócrates, que diga-se de passagem, face à paisagem europeia até estava a segurar o barco. Convém destacar que Sócrates sozinho não conduziu o país à situação em que se encontra, e o início da austeridade em PT (se bem que para esses diabos dos funcionários públicos que desde 2008 não tinham aumentos nem actualizações e parece que eram/são os culpados de todos os males, isso fosse apenas mais um dia na repartição).
É ao mesmo tempo demasiado elogioso e demasiado insultuoso considerar Sócrates o único culpado da situação do país. Ignorar o papel do Sr. Silva primeiro enquanto PM durante 10 anos, depois pela sua inacção enquanto PR, é desvalorizá-lo em demasia e insultuoso para quem hoje sofre. Quem visse o memorando original (que este governo fez questão de simplesmente ignorar) percebia que algumas das reformas que lá constavam só pecavam por tardias. Ah! E esse mesmo texto do FMI, comparado com o programa de Governo, parecia o Manifesto Comunista!

Claro que sabemos que quando um tipo destes diz que "não quer" algo, tem um fundo de verdade tão grande como o Pinto da Costa dizer que o FCp não está interessado no jogador X (o qual se vem a descobrir já tem contrato assinado), mas acho incrível que ainda haja quem o demonize acima de tudo e desculpe a acção deste governo com o que o Zé fez. A sério...
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Re: P... que os pariu

Postby Bugman » 04 Apr 2013 19:05

Soube agora do Relvas. Quero ver o coro dos indignados sobre a carreira de Propaganda-Médica do Sócrates nos próximos tempos. E quero ver o que diz a malta do constitucional amanhã. Por via das dúvidas a administração do BES já retirou o pouco que tinham em Portugal e amanhã fecho eu as minhas contas em PT, just in case!
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Re: P... que os pariu

Postby pco69 » 05 Apr 2013 07:50

Bugman wrote:Soube agora do Relvas. Quero ver o coro dos indignados sobre a carreira de Propaganda-Médica do Sócrates nos próximos tempos. E quero ver o que diz a malta do constitucional amanhã. Por via das dúvidas a administração do BES já retirou o pouco que tinham em Portugal e amanhã fecho eu as minhas contas em PT, just in case!

Se vierem às minhas contas, têm que colocar lá dinheiro :rotfl:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: P... que os pariu

Postby urukai » 05 Apr 2013 14:36

Eu por acaso retirei tudo o que tinha no Chipre e pus em Portugal.

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Re: P... que os pariu

Postby pco69 » 11 Apr 2013 11:53

http://www.publico.pt/economia/noticia/ ... al-1590861

É preciso uma cara de pau do caraças para o Ferreira do Amaral dizer "Parcerias público-privadas “foram um desastre” ...
:rolleyes: :rolleyes: :rolleyes: :rolleyes: :rolleyes: :rolleyes: :rolleyes: :rolleyes:

Foi ele quem negociou a primeira PPP (pelo lado do estado) que deu o exemplo.
Riscos para o estado e lucros para o privado.
:whistle: :whistle: :whistle: :whistle: :whistle: :whistle: :whistle: :whistle:

viewtopic.php?f=118&t=12693&p=126749&hilit=lusoponte#p126749

viewtopic.php?f=158&t=12976&p=126473&hilit=lusoponte#p126473

viewtopic.php?f=118&t=6928&p=49098&hilit=lusoponte#p49098

Parcerias público-privadas “foram um desastre”, diz Ferreira do Amaral
Por Lusa
10/04/2013 - 23:00

Presidente do conselho de administração da Lusoponte disse que era difícil criticar as PPP quando populações e autarcas se mostravam satisfeitos com projectos que eram impossíveis com investimento directo do Estado.

Ex-governante classificou como "baixa política" as críticas por ter assumido o cargo Daniel Rocha

Parcerias Público-Privadas

O presidente do conselho de administração da Lusoponte, Joaquim Ferreira do Amaral, considerou que as parcerias público-privadas (PPP) “foram um desastre”, ao darem a ideia falsa de que “tudo era possível, porque não faltava dinheiro”.

As declarações foram feitas nesta quarta-feira, na comissão parlamentar de inquérito às PPP. “O maior problema é que, no auge das PPP, era difícil falar mal das PPP. Deus me livre de falar contra as PPP”, afirmou, lembrando a satisfação das populações e dos autarcas com o avanço de projectos que eram impossíveis com investimento directo do Estado.

Já em Janeiro, quando foi ouvido na comissão de inquérito na condição de ex-ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral se havia afirmado “um crítico muito grande” das PPP, defendendo uma “iniciativa legislativa para impedir este tipo de saída”. O antigo governante referiu então que, quando saiu do Governo, em 1995, não havia nenhuma PPP, considerando que este modelo de negócio é “uma tentação irresistível” e “mau para o Estado”. Na altura, afirmou também que não considerava a Lusoponte uma parceria público-privada.

Ferreira do Amaral disse ainda na comissão parlamentar desta quarta-feira, após ter sido questionado pelo deputado do PSD Duarte Marques, que criticá-lo por ter aceitado o convite para integrar a concessionária das duas pontes sobre o Tejo, 12 anos após ter saído do Governo, é “baixa política”. Ferreira do Amaral contou aos deputados que, após ter saído do Governo em 1995, recebeu um convite que não aceitou, justamente por ter decorrido pouco tempo depois de ter deixado funções políticas.

O actual presidente do conselho de administração da Lusoponte disse que “há um conflito grave entre a Lusoponte e o Estado” relacionado com o pagamento de impostos, adiantando que terá que haver recurso ao tribunal arbitral, processo que acredita ser “resolvido ainda neste ano”. A questão tem a ver com a diferente interpretação – da empresa e do Estado – relativa ao imposto de derrama.

Ainda assim, Ferreira do Amaral considerou que a relação entre o Estado e a empresa concessionária das pontes sobre o Tejo “tem corrido bem”, acrescentando que “tem sido sempre possível chegar a consenso objectivo”.

A comissão parlamentar de inquérito às PPP está na recta final, com a última audição prevista para a primeira semana de Maio, mais de um ano após a sua constituição.

Ao longo de quase um ano, passaram pela comissão meia centena de governantes, ex-governantes, presidentes das concessionárias, juízes e técnicos, que explicaram as opções tomadas nas parcerias rodoviárias e ferroviárias, cujas conclusões serão debatidas na Assembleia da República.

Na quinta-feira é a vez de António Mexia esclarecer os deputados sobre as decisões tomadas enquanto antigo responsável pelas Obras Públicas. Já na sexta-feira, está confirmada a audição do presidente da Estradas de Portugal, António Ramalho, com temas na agenda como as subconcessões, a Lusoponte, o túnel do Marão e as concessões Litoral Centro e Douro Litoral.
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Re: P... que os pariu

Postby croquete » 15 Apr 2013 23:50

Cada um tem a sua prespectiva da situaçao. Com a quantidade de falencias ja ha quem gaste mais em gasoleo do que nos produtos que querem por aqui comprar.

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Re: P... que os pariu

Postby pco69 » 05 Jul 2013 10:41

Maria Luís Albuquerque reafirma que não sabia dos 'swap'

http://expresso.sapo.pt/maria-luisa-alb ... ap=f817404


Quatro contratos swap assinados por Maria Luís Albuquerque na Refer tinham perdas potenciais


http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Art ... 84806.html

Fiquei na dúvida de qual bonequinho é que punha aqui, mas decidi-me pelo burro :deadhorse: :whistle:
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Re: P... que os pariu

Postby MAGG » 01 Aug 2013 22:33

:ph34r:

Resolução da Assembleia da República n.º 91/2013

Recomenda a criação de condições para que os portugueses
com uma formação académica ou profissional especializada
não tenham de emigrar e para que aqueles que abandonaram
Portugal possam regressar.

A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5
do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo
que:
1 — Seja fomentada a criação de estruturas para acompanhar
a transição dos recém -licenciados para o mundo do
trabalho e para avaliar a respetiva situação.
2 — Sejam analisadas as condições de empregabilidade
nas diversas áreas de especialização académica e profissional,
particularmente naquelas onde existem maiores
dificuldades.
3 — Sejam implementados programas ou incentivos
para fomentar o regresso ao seu país dos portugueses qualificados,
para que o seu potencial não seja desperdiçado.
4 — Os parceiros sociais sejam envolvidos na discussão
para se encontrarem as soluções mais adequadas aos
objetivos descritos nos números anteriores.
Aprovada em 31 de maio de 2013.
A Presidente da Assembleia da República, Maria da
Assunção A. Esteves.

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Re: P... que os pariu

Postby Samwise » 01 Oct 2013 10:22

Transcrevo abaixo uma reportagem do Público sobre o limiar da pobreza em Portugal. No rescaldo das autárquicas, penso que ficará bem aqui neste tópico, que sempre vai tendo alguma visibilidade de quando em quando (e estou a pensar de não valerá a pena duplicar o texto num tópico dedicado)

Esta é realidade que mais me custa sentir sabendo que existe - existe mesmo ao meu lado, na cidade em que vivo, a poucos bairros do meu. Repugna-me e enoja-me a alta roda política que não olha, não vê, não quer saber, não se preocupa e não se dedica a resolver este flagelo. Devia ser uma prioridade a par da educação e da saúde (e essas, ainda serão prioridades nos dias de hoje?).

Cada político que ocupa um lugar de (destaque?) poder e responsabilidade devia assumir com dever pessoal tratar desta situação - impedir que possam passar-se vergonhas como esta. Mas não. É ao contrário: cada vez o fundo da pirâmide se alarga mais. E desce mais.

http://www.publico.pt/temas/jornal/sos- ... e-27140130
Paulo Moura (texto) e Paulo Pimenta (fotografia)

Com as novas regras do RSI e da habitação social, os pobres estão ainda mais pobres. Nalgumas zonas, como certos bairros da freguesia de Campanhã, no Porto, a miséria é atroz. Os direitos humanos essenciais são violados, os apoios do Estado são uma fraude, a reinserção social uma ficção. Ser pobre é viver num mundo à parte, de onde nunca se consegue sairCom as novas regras do RSI e da habitação social, os pobres estão ainda mais pobres. Nalgumas zonas, como certos bairros da freguesia de Campanhã, no Porto, a miséria é atroz. Os direitos humanos essenciais são violados. Os apoios do Estado são uma fraude, a reinserção social uma ficção. Ser pobre é viver num mundo à parte, de onde nunca se consegue sair

Primeiro plano de Regina. Quando foram despejados, esqueceram-se de comunicar a "mudança de residência" à Segurança Social. A carta chegou à casa antiga e foi devolvida. Por isso Regina, 25 anos, e Bruno, 28, não chegaram a saber da convocatória para comparecerem nos serviços de atendimento do Rendimento Social de Inserção (RSI). Como penalização por não terem comparecido, o RSI foi-lhes cortado por dois anos.

A renda da casa onde vivem agora, na Rua da Formiga, é de 230 euros por mês. Como estão ambos desempregados e não têm qualquer rendimento, não pagam há quatro meses. A dívida já vai em 920 euros. Nova ordem de despejo está a chegar. Ao mesmo tempo, é preciso saldar a dívida da casa antiga (120 euros por mês). Regina e Bruno têm três filhos. Os 100 euros por mês de abono de família servem para pagar a água e a electricidade. Não sobra nada para a renda, alimentação, vestuário, transportes, médicos.

Regina e Bruno estão habituados a fazer opções duras. Há dois anos, um dos filhos adoeceu gravemente, teve de ser operado ao intestino. Foi nessa altura que, para comprar os medicamentos, deixaram de pagar renda e foram despejados.

Outro filho, ao fazer seis anos, teve de ingressar na escola do Centro Juvenil de Campanhã e pagar refeições. Os pais não conseguiram pagar as mensalidades, a dívida cresceu até aos 250 euros e a criança está proibida de se matricular neste ano lectivo. No ano passado, já tinha sido impedida de entrar no refeitório.

Neste momento, o medo de Regina e Bruno é que, devido às várias mudanças de casa e à falta de dinheiro para os bens essenciais, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) lhes venha retirar os filhos.
Regina e Bruno: três filhos, muitas dívidas acumuladas, sem direito a RSI por dois anos

Regina Oliveira da Silva já teve um emprego como promotora. Quando engravidou, despediram-na. Trabalhou à hora, nas limpezas. Foi dispensada. Bruno Miguel Sousa teve um part-time numa pizzaria. Deixou de comparecer quando sofreu um acidente num pé. Anda agora de muletas e precisa de tratamentos regulares no hospital, mas não tem dinheiro para os transportes. Vai de autocarro sem pagar bilhete. As multas acumulam-se e em breve transformar-se-ão em processos judiciais, sem atenuantes, porque Bruno tem antecedentes.

Regina é uma boa influência. Desde que estão juntos, ele mantém-se afastado da criminalidade. E está determinado a assim continuar, embora o apelo seja quase irresistível. Muitos amigos que roubam ou traficam drogas conduzem carros de luxo. Seria fácil, mas Bruno, corpo tatuado e olhar desafiador, resiste. "Essa vida não me interessa mais", diz, fixando Regina. Nos filmes, seria uma história de amor. Nicolas Cage e Laura Dern num motel de Cape Fear (Wild at Heart).

José António Pinto, 48 anos, o assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã, tenta ajudar. Pediu uma casa camarária para a família, telefonou ao senhorio do actual apartamento, e face à recusa da Segurança Social em perdoar o castigo do RSI, solicitou à junta de freguesia um subsídio de 150 euros mensais para auxílio nas despesas. Até agora, nada. Regina, Bruno e os filhos ainda não passam fome porque a mãe de Regina, que é cozinheira num restaurante, traz-lhes sempre que pode as sobras da cozinha.

Regina e Bruno preenchem todos os requisitos para beneficiar de apoios sociais - estão desempregados, não auferem rendimentos, têm filhos a cargo, não conseguem pagar renda, têm dívidas. A sua situação é de emergência absoluta, no entanto não estão a ter apoio nenhum. Porquê?

Durante dois anos, receberam RSI. Mas, desde que o Governo publicou o decreto 133/2012, as regras mudaram. Os beneficiários têm agora de renovar o seu pedido para o RSI todos os anos, voltando a fazer prova da sua situação. Os que já usufruíam antes de Junho de 2012 recebem em casa uma convocatória, para uma reunião. Os mais recentes não são convocados, mas têm de comparecer, para fazer a renovação. Grande parte das pessoas em situação de necessidade não tem informação suficiente sobre as leis e falta à reunião. Por esse facto é penalizada em dois anos sem receber nada. E nenhuma justificação serve para revogar a decisão.

Além destes casos, em muitos outros, o rendimento é cortado sem que o beneficiário perceba porquê. Os técnicos de acompanhamento da Segurança Social têm dois meses para elaborar um plano de inserção, antes de o processo caducar. Mas há muitos processos e poucos técnicos, estes nem sempre conseguem cumprir os prazos. Quando isso acontece, o sistema informático cancela o apoio automaticamente. De repente, o carteiro que costuma trazer o cheque a determinada família diz que não tem nada para ela. As pessoas tentam saber o motivo, mas ninguém explica. Alguns carteiros já têm medo de ir aos bairros, prevendo a reacção dos moradores.

Por estas razões, ou por erros dos utentes a preencher os documentos (muitos, difíceis de obter e caros), ou dos próprios serviços (o que não é raro), mais de 20 mil pessoas deixaram este ano de receber o rendimento de inserção. Desde 2010, foram quase 135 mil a perder o direito a este apoio. E os que ainda o recebem, cerca de 270 mil, são obrigados a descontar tudo o que ganham em biscates ou outros rendimentos. O próprio montante máximo baixou para 178,15 euros.

O Estado quer reduzir drasticamente o dinheiro gasto nos apoios sociais e consegue-o com uma alteração de regras que afecta os mais fracos e vulneráveis.

Casa nova: só para quem vive numa ruína

Na Rua da Aldeia, estão todos à porta porque não há que fazer. É uma "ilha", um desses pátios interiores com casas pobres e casas de banho comuns, que ainda abundam no Porto. Francisco José vive com a família numa dessas casas. Paga 160 euros de renda. A sua pensão de reforma por invalidez é de 260 euros.

"Se não é a minha mãe a ajudar-me, passamos fome", diz José. Mas a mulher, Sara, admite que a maior parte do que comem vem do infantário do filho, de quatro anos. A propina do infantário é o único apoio que tiveram, há que aproveitar.

Há 17 anos, José levou uma facada numa rixa, e nunca mais pôde trabalhar. Entrou com os amigos numa casa em obras, quando chegou o segurança, com uma faca. "Bjiu, bjiu, bjiu", assobia José, imitando o som da faca a rasgar-lhe o tórax, o abdómen, as costas. As enormes cicatrizes não o deixam mentir. "Levaram-me para o hospital, tive logo ali dois ataques cardíacos." Alguns órgãos foram extraídos, outros danificados, transformando José no fantasma do homem que um dia trabalhou a carregar mercadorias em camiões.

Hoje, aos 30 anos, é uma figura descarnada e pálida, sem forças. A mulher, Sara, de 21 anos, também não consegue emprego. Foi a entrevistas, mas nunca a aceitam por causa, acha ela, do seu aspecto: faltam-lhe dois dentes incisivos do maxilar superior.

Para receber o RSI, teve de submeter-se ao plano de reinserção traçado pela assistente social, que incluía, como sempre, a frequência de um curso. Durante dois anos e meio, Sara foi obrigada a ouvir, todos os dias, aulas de Práticas Administrativas. "Perdia o subsídio se abandonasse o curso. Tinha de estar ali sentada."

Não aprendeu nada, não percebeu nada do que foi dito, perdeu a oportunidade de encontrar algum biscate. "Ainda tinha de pagar o passe. E, no fim, nem me mandaram o diploma." O curso não podia estar mais distante da sua realidade. Foi totalmente inútil. Dois anos e meio de humilhação.

20000 pessoas deixaram este ano de receber o rendimento de inserção. Desde 2010, foram quase 135 mil a perder o direito a este apoio

O que seria útil, pensa Sara, era arranjar os dentes. Mas não tem dinheiro para isso, nem a ajuda de ninguém. Mais urgente ainda era comprar uns óculos para o filho. Segundo o médico, a falta de visão estava a originar complicações cognitivas.

José António Pinto, o assistente social, tentou resolver isto por todas as formas. Não conseguindo apoio de nenhuma instituição, recorreu a uma rubrica de solidariedade do Jornal de Notícias, Todo o Homem É Meu Irmão. Ao publicitar o caso, conseguiu o donativo de um oculista do Porto.

Mas a criança também sofre de bronquite, e a casa da "ilha" tem só um quarto e as paredes podres, humidade por todo o lado. José António Pinto pediu à câmara uma habitação para a família. Um técnico veio vistoriar e deu parecer positivo: a casa não tem condições mínimas.

Na data marcada, Francisco José Martinho dos Santos e Sara Raquel da Costa Lopes compareceram na empresa municipal encarregada do apoio à habitação, a Domus Social, para levantar a chave. Mas houve um engano. Uma troca de moradas, uma pequena confusão, e a casa não estava disponível. Por causa disso perderam a vez e não se sabe quando terão o apartamento.

"Eu chorei lá dentro." Grande plano de José, com aquele ar patético e rechaçado de Steve Buscemi num filme dos irmãos Coen. "Apetecia-me..."

"Íamos buscar a nossa chavinha, estávamos tão felizes", diz Sara, a chorar, com a mão à frente da boca como Brigitte Bardot costumava fazer quando sorria.

As novas regras da empresa municipal para oferecer habitação social seguem os mesmos princípios do RSI: poupar dinheiro à custa dos mais pobres. Alguns bairros foram demolidos, não há construção social, cada vez há menos casas para atribuir e mais famílias a precisar. A primeira ideia da câmara foi suspender os pedidos. Depois reconsiderou, porque a Constituição garante o direito à habitação. Optou-se então por criar dificuldades cada vez maiores. A documentação exigida é burocrática e cara (só um atestado de invalidez custa cerca de 50 euros)e, uma vez feito o pedido, é necessário renová-lo de seis em seis meses, com nova exigência de documentos. Se isto não for feito, o utente incorre numa penalização de cinco anos sem poder pedir casa.

Para além disto, os critérios mudaram. Não importa que se seja pobre ou doente, ou a viver na rua.

Só há um bom motivo para se pedir uma casa social: viver num barraco em perigo iminente de ruína. Para isto ser provado, o candidato tem de solicitar uma vistoria, que demora em média seis meses a ser realizada. Se o inspector considerar que as paredes e o tecto estão em risco de cair, então há uma hipótese. Mas mesmo nesses casos tem vigorado uma nova prática: o inspector manda construir reforços em ferro, para segurar as estruturas. Se já nem uma viga de aço as consegue aguentar, então sim, há a possibilidade de uma casa nova. Mas atenção: só quando se trata de uma família. Pessoas sozinhas vão para um lar.

Melhorar o buraco

"Para um lar, eu? Não! Lar, não! Eu tenho duas mãos!" Grande plano de Álvaro, furioso, na sua casa da "ilha" de Campanhã. Como vive sozinho, nunca terá direito a uma casa camarária, explica-lhe o assistente social. O melhor é ficar ali e tentar melhorar aquele buraco. "Sr. Álvaro, tem de tratar de si próprio. Esta casa precisa de uma limpeza. E o senhor onde toma banho? Este cheiro..."

"É muito activo, não é?", admite Álvaro.

"É realmente muito activo."

Álvaro vive num único compartimento, sem janelas. As paredes estão imundas, ulceradas pelo bolor, e não há mais mobília para além de um colchão negro, cheio de manchas, podre, sobre um tapete velho. A um canto, um monte de roupa suja.

Álvaro usa um pólo azul, calças rotas e um boné que diz "Avançar Portugal". Já recebeu RSI. Para isso teve de fazer um curso designado, diz ele, "de auto-estima", para tratar de idosos. Não aprendeu nada e não vê como pode vir a dar utilidade às lições. "Quando acabei o curso, fiquei na miséria", diz ele.

No dia em que foi chamado para renovar o subsídio, tinha bebido em demasia. Não apareceu e nem percebeu por que razão o cheque não chegou mais. Agora não tem nada.

Álvaro Manuel Martins Lopes, 57 anos, vive num casebre miserável, sem cozinha nem casa de banho. Usa a latrina que existe num cubículo no outro extremo da "ilha", mas não tem onde tomar banho nem lavar a cara. Precisa de uma casa de banho, um arranjo no barraco e alguma comida.

"Esta casinha, arranjadinha... hã?", diz o assistente social.

"Não há nada como uma casinha de banho", diz Álvaro.

Com a ajuda de José António Pinto, escreveu, em Junho, uma carta pedindo apoio à Segurança Social. Nem lhe responderam. Nunca mandaram ninguém verificar as suas condições de vida.

Álvaro já trabalhou, na construção civil, mas foi despedido há anos. Já foi casado, já dormiu numa cama, "mas partiu-se". E teve uma paixão.

Conheceu uma prostituta de estrada, doente de sida, desenvolveu uma amizade e, a certa altura, trouxe Lúcia para casa. Os vizinhos da "ilha" não gostaram, queriam expulsar os dois. Álvaro protestava: "Na minha casa, mando eu!" De Niro e Jodie Foster num tugúrio de Nova Iorque, sozinhos contra o mundo.

Foi necessário, a José António Pinto, todo um trabalho de mentalização. "O sr. Álvaro apaixonou-se", explicou ele. "Tem direito a viver com uma mulher na sua casa, são um casal como qualquer outro."

Mas para aplacar a fúria dos moradores escandalizados, teve de pedir a Lúcia que não levasse para ali homens. Podia prostituir-se na estrada, mas ali seria uma dona de casa exemplar. Ela cumpriu e acabou por ser aceite. Viveu oito anos com Álvaro.

Há um ano, morreu. Com o desgosto, Álvaro deixou-se degradar. Descurou a higiene, começou a beber mais. Percebe-se o sofrimento imenso no seu olhar endurecido, impregnado de uma revolta que interpela e questiona. E também que a sua forma de desagravo tenha sido um esquecer-se de si próprio, uma alheada serenidade.
Álvaro Lopes passa as manhãs a pastar um rebanho junto ao Rio Tinto. Em troca, o dono das ovelhas dá-lhe almoço

Nesta nova fase da vida, Álvaro arranjou um emprego, que o mantém ocupado, embora sem salário: é pastor. Todas as manhãs leva um rebanho de 60 cabras e ovelhas a pastar num descampado ali perto, junto ao Rio Tinto, em S. Pedro de Campanhã. Como pagamento, o dono do gado dá-lhe almoço, a ele e ao outro pastor, o Tó Zé, de 34 anos, que vive por ali, numa vacaria abandonada.

Tó Zé trabalhou como "trolha de segunda" até ter tido um acidente que lhe fracturou as pernas e várias costelas. Nunca mais ganhou dinheiro. Como é jovem e tem necessidades, o patrão dá-lhe, ao domingo, 25 euros para se ir divertir.

José António Pinto observa os dois amigos, de botas rotas e cajados, num campo de erva no centro do Porto. Pergunta a Tó Zé: "Porque não recebes RSI?"

"Já me falaram disso, mas não sei como se faz."

"Eu ajudo-te. Vamos meter os papéis. Não gostavas de receber 180 euros por mês?

"Então, era bem bom."

Como não apreciava futebol, os amigos começaram a chamar-lhe Chalana. Esta é a explicação que José António Pinto, técnico assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã, dá para a sua própria alcunha.

Chalana é famoso em todo o mundo pobre de Campanhã. Tem um posto de atendimento no bairro do Lagarteiro e uma fila de gente à sua espera todos os dias à porta da junta. Empenha-se pessoalmente na resolução de cada caso, quase sempre contra as regras e as instituições. Empresta dinheiro do seu bolso, transporta os utentes no seu Peugeot 205 com 227 mil quilómetros percorridos como "bombeiro" dos pobres, criou uma banda com os detidos nas prisões, chamada Música à Frente das Grades.

Na sua secretária, tem o diário pessoal onde escreve coisas como "hoje salvei uma menina", um dossier para cada pessoa em necessidade, fotografias delas na parede e a frase de Sartre: "Detesto vítimas que têm respeito pelos seus carrascos."

Chalana é um homem que nasceu para nos lembrar que somos homens. Para ele, todos os métodos são válidos para ajudar um pobre. Algumas estratégias são pouco convencionais.

O rapaz que segura a família

No caso da família Lencastre, Chalana foi até às últimas instâncias. "Se esta família for despejada, demito-me. Não estarei a fazer nada nas minhas funções."

Maria da Conceição Pereira Fernandes Lencastre, 48 anos, e Alberto Manuel da Conceição Lencastre, 44, vivem no bairro do Lagarteiro, têm cinco filhos, dois dos quais deficientes profundos, estão desempregados, cheios de dívidas, na iminência de sofrer uma ordem de despejo e de ver a família desmantelada, dispersa por instituições.

Conceição nasceu na Ribeira, Alberto em Baguim do Monte. Casaram há 23 anos, foram viver para o bairro S. João de Deus. Quando este foi demolido, deram-lhes a escolher entre o Aleixo, Aldoar e Lagarteiro. A casa neste último apresentava melhores condições de acesso para o filho mais velho, Bruno, de 22 anos, cuja paralisia cerebral o mantém preso a uma cadeira de rodas. Mas receavam pela sorte de outra filha, que tem Trissomia 21 e poderia sofrer abusos na rua.

Alberto chegou a trabalhar como lavador de vidros e ajudante de trolha, e Conceição como vendedora de gelados, mas nenhum dos elementos do casal teve alguma vez um emprego estável. É notória e medicamente confirmada a sua incapacidade para assumir responsabilidades, para gerir recursos ou tomar decisões. Deixaram de pagar a renda à empresa municipal, acumulando 3800 euros de dívida. Devem também dinheiro na mercearia, deixaram de pagar as contas da água e electricidade, que foram cortadas.

270 mil pessoas recebem o RSI: são obrigados a descontar tudo o que ganham em biscates ou outros rendimentos

Conceição deixa-se facilmente enganar pelos comerciantes do bairro, Alberto é alcoólico e autor confirmado de violência doméstica sobre a mulher. Há meses, em consequência de queixas de vizinhos e da escola, uma equipa da Segurança Social, acompanhada pela polícia, chegou a casa dos Lencastre às 8 horas da manhã para lhe tirar os filhos mais novos, alegando carências alimentares, de higiene e de cuidados básicos. As duas raparigas, de 14 e 17 anos, e o rapaz, de 16, foram levados para instituições separadas. Não foi dito à família para onde iam e quando os poderiam visitar.

Bruno foi também indicado para uma instituição, mas recusou-se. Grande plano de Bruno. "Eles traziam um papel dizendo que sou deficiente mental, mas eu não sou. Sou deficiente motor apenas." Na confusão e no drama daquela manhã, Bruno, para surpresa de todos, pôs-se a argumentar com os técnicos e os polícias.

"Digam-me: quando é que vou ver as minhas irmãs?", perguntou ele, com o olhar imperturbável de Dustin Hoffman, em Rain Man, na previsão de que, com os seus problemas de locomoção, dificilmente poderia deslocar-se às instituições de acolhimento. E quando lhe falaram no seu próprio internamento, explicou que estava melhor em casa e que, se fosse para uma instituição, não conseguiria mais visitar a família.

Chalana acha que foi a demonstração de inteligência de Bruno que impediu a situação de descambar. "Este menino é que está a segurar a família toda." A câmara aceitou o pedido para adiar a ordem de despejo, quando Chalana se comprometeu a conseguir o dinheiro para pagar a dívida. Mas a Segurança Social recusou o pedido de auxílio económico. Propôs que deixassem o apartamento, para arrendarem outro numa "ilha", cujo primeiro mês de renda ajudariam a pagar. Mas as casas disponíveis nas "ilhas" não têm casa de banho interior, essencial para o Bruno.

A “cultura da pobreza”

A situação está num impasse e Chalana partiu para a luta. Tentou sensibilizar os candidatos às eleições autárquicas. Escreveu ao provedor de Justiça. Enviou uma carta ao secretário de Estado da Segurança Social, Marco António Costa. Por fim, contactou o presidente da Comissão Parlamentar de Segurança Social e Trabalho, da Assembleia da República, José Canavarro. O provedor respondeu prontamente, remetendo-o para a Segurança Social. Dos outros, nem uma reacção, desde Junho.

Chalana é um homem numa guerra permanente. Não representa o sistema: usa-o, mas é o seu principal inimigo. "Não há complacência. Ao mínimo erro, as pessoas são excluídas, punidas. Os assistentes sociais têm um poder excessivo, que usam para tramar as pessoas. São de uma exigência, rigor, dureza e agressividade para com os pobres, como mais nenhum serviço tem em Portugal."

O que se esperaria do sistema é que ajudasse as pessoas a romper o círculo da pobreza e da exclusão. Mas Chalana vê que não há saída para as novas gerações. "Não há mobilidade social ascendente. A segunda geração não tem oportunidades. Não têm empregos nem escolaridade. Quem é que dá trabalho a um habitante do Lagarteiro? Já estão no mesmo caminho dos pais. Todos os miúdos que conheci quando aqui comecei a trabalhar já estão a traficar droga ou a arrumar carros."

É cruel a "cultura da pobreza". Em vez de se unirem, "os pobres estão sempre uns contra os outros". E atacam os que os ajudam. Chalana recorda o caso de uma mulher a quem ele conseguiu que um oculista fabricasse gratuitamente as lentes de que o filho necessitava. Quando os óculos chegaram a casa, pelo correio, a mulher verificou que as lentes eram novas, mas a armação era a antiga. Ficou furibunda. "Aquele porco!", gritou. "Pensa que por eu ter estado presa e viver no Lagarteiro pode cuspir na minha cara?" Não satisfeita, a mulher foi a outro oculista comprar a armação e mandou pôr na conta do Chalana.

"Quando estas coisas acontecem, penso: Chalana, vai estudar." E põe-se a ler livros de filósofos e sociólogos. "Os óculos novos eram muito importantes para ela, que não tem mais nada. Para poder mostrar. Toda a gente gosta de ter poder. De ser reconhecido na escala social. Perdoei-lhe."

Da mesma forma, não é fácil entender como é que alguém que não tem dinheiro para alimentar os filhos e pede ajuda social não deixa de pagar 70 euros por mês para ter serviço MEO. Ou que se recusem a ir comer às cantinas sociais. "As pessoas têm vergonha de ir a essas cantinas. Acham que lá só estão os drogados, os incapazes, os falhados. E querem demarcar-se deles, para sentir que ainda têm uma hipótese."

Chalana percebe que a opinião pública não seja solidária, mas não os intelectuais. "Demitiram-se. Não há ninguém, respeitado, com credibilidade, com autoridade, que venha dizer: isto já chega! Mais não! Os pobres estão completamente abandonados à sua sorte."

José Vilela está sentado numa cadeira de rodas, na sala do seu pequeno apartamento da Rua do Lagarteiro. Tem uma expressão serena no rosto largo e macilento, e o cabelo cuidadosamente penteado, uma T-shirt vermelha e os pés descalços. Dá um ar de Michael Douglas, em miniatura. O corpo está imóvel, mas os olhos não param. Percorrem a sala, confirmando que tudo permanece no lugar: o quadro a óleo, na parede, representando o Porto à noite, um retrato dele próprio, pintado pelo seu mestre, a máquina, equipada com duas enormes botijas de oxigénio, que lhe permite respirar.

José Vilela tem 73 anos, uma doença grave, uma pensão de reforma de 400 euros, uma renda de casa de 375. Sobram-lhe 25 euros por mês para todas as despesas. Há pouco, chegou uma conta de electricidade de 312,69 euros. Não pagou, porque não tinha dinheiro, mas isso quase lhe custou a vida.

A solidão de Vilela seria absoluta se não fosse Pureza. É uma antiga namorada, uma viúva ainda hoje de grandes encantos, que vem quase todos os dias lavá-lo, dar-lhe comida, limpar-lhe a casa.

De resto, Vilela não tem ninguém. Existe uma filha, mas não ajuda, diz ele. E um número indeterminado de filhos, de mães variadas, que não mantêm qualquer relacionamento com o pai. "São vadios" é a definição que Vilela considera apropriada. E que não o embaraça, porque é a marca de um estilo de vida, a aura indelével de marialva que será nele a última a morrer. Sedutor e artista, é isso que ele é. Mesmo que mal consiga respirar.

Como um actor de Bollywood

José Ruas Vilela não teve aquilo a que se chama uma vida exemplar. Nasceu na freguesia da Sé, viveu a infância na Rua da Bainharia, uma das mais pobres da cidade. Fez a 3.ª classe "por favor", diz. O pai, tal como ele, "teve muitos filhos, de muitas mulheres". Uma família enorme, ou seja, ninguém. José Vilela teve um emprego: sapateiro. Diz ele. Do outro lado do sofá, Pureza gesticula que não. "Nunca trabalhou", sussurra. "Sempre viveu das mulheres."

Chalana confirma que, quando foi preciso pedir um atestado de residência para Vilela, surgiram sete endereços diferentes. "Ele dava as moradas das mulheres." Vivia com várias e com nenhuma. Como amigos, tinha os ciganos. Esses, ainda hoje o visitam, vêm sempre perguntar se está melhor.

Numa fotografia pendurada na parede surge Vilela, com pouco menos de 50 anos. Um homem alto e moreno, bonito, de olhos coruscantes como um actor de Bollywood. A seu lado está Mendes da Silva, o seu mestre de pintura. Foi quando o conheceu, aos 48 anos, que mudou de vida.

Aprendeu a pintar e dedicou-se às paisagens nocturnas. Ele, que nunca fizera nada de útil, acabou reconhecido pela comunidade artística. Vai agora buscar os álbuns, os recortes: exposições e prémios em Espanha, em França, no Brasil. Artigos no Comércio do Porto, na Voz de Gaia. Foi convidado para expor no Japão, pouco antes de adoecer. Já não aceitou.

A doença respiratória era irreversível. O atelier, numa das divisões da casa, está agora abandonado, os quadros inacabados. Vilela não pode levantar-se, mal consegue falar. Após o esforço de algumas frases, precisa de uns minutos para recuperar, em silêncio, ofegante e aflito.

Em Dezembro foi internado. Os médicos deram-lhe dias de vida, mas esteve um mês no hospital e regressou a casa. Foi nessa altura que chegou a conta da EDP. Tinham lá ido na sua ausência e fizeram uma estimativa. "Eu não gastei electricidade naquele mês, estive no hospital." Vilela não pagou, e veio o aviso: a electricidade seria cortada.

Nos momentos de aflição, Chalana é chamado. Viu que a situação era grave e escreveu uma carta à EDP. "Neste momento, o utente permanece em casa sob vigilância médica com máquinas ligadas à electricidade que lhe garantem a oxigenação e a administração do soro. Se o fornecimento de electricidade a esta casa for interrompido, as máquinas desligam e o idoso morre. Face ao exposto, venho por este meio solicitar a V. Exa. autorização superior para celebrar um plano de suaves prestações mensais de 20 euros."

Chalana enviou várias cartas com este pedido, acompanhadas por um atestado do hospital, sem obter resposta. Ouviu-a por fim, quando se dirigiu pessoalmente às instalações da EDP: "Isto é uma empresa que vende energia. Quem consumir tem de pagar. Se não pagar, cortamos o fornecimento."

À Segurança Social, Chalana pediu apoio para o pagamento da renda. Conseguiu um subsídio de 70 euros, apenas durante dois meses. À Câmara Municipal pediu uma casa, num bairro social. Disse que seriam necessários dois quartos, a pensar no atelier. "É isso que o mantém vivo, a arte." A câmara não disponibilizou casa nenhuma.

"Ele levava-me a bailes, a casas de fado, coisas que o meu marido nunca me proporcionou", diz Pureza. "Foi maravilhoso. Chamava-me "freirinha". Mas não era nada meigo. Só o era naqueles momentos. Depois mentia, magoava-me muito. Ele batia nas mulheres, mas elas voltavam sempre. Ao princípio vivia aqui com outra, e não me dizia nada. Estes homens da noite vivem muito da mentira."

No outro lado da sala, em surdina, Vilela também está cheio de vontade de se queixar. "Esta deu-me água pela barba", diz, esticando o queixo para Pureza. "Ela é boa é para dar ao gato. Mas agora vem aqui ajudar, não posso dizer nada."

Vê-se que tiveram uma relação intensa e atribulada. Parece que se odeiam. Mas porque continua ela a vir aqui? "Por pena", responde. "Ele não tem mais ninguém." Pureza vai nos 83 anos, mas Vilela não sabe. Nunca lhe perguntou a idade. O seu interesse por ela é débil e pobre, escasso como o ar que respira. Como se o que o está a salvar fosse não a memória equívoca daquela mulher ainda apaixonada, mas a sua própria aura de Casanova da Bainharia. Desesperadamente, ele não aceita a justiça da vida, mas é tudo a que tem direito, nem um bónus.

O país onde nasceu confina-o ao deserto de si próprio. Ele que fez tudo o que lhe era pedido. Lá, na rua onde os artesãos medievos fabricavam bainhas para punhais, Vilela cumpriu. Foi amado pelas mulheres, respeitado pelos ciganos. Um vencedor.

Que faltou então? Onde falhou? Talvez não devesse ter pintado aqueles nocturnos. Os quadros onde transfigurou a noite rufia do Porto.

"Aquele quadro foi o último que o meu mestre pintou", diz Vilela olhando para o seu retrato. "Morreu quando o terminava." Aponta com os dedos finos e brancos para um ponto algo imperfeito do seu rosto, na tela. O ponto onde o mestre interrompeu a pintura, para morrer. "Esta é a sua última pincelada", diz Vilela, como se deter o último gesto criativo do mestre o defendesse da sua imperfeição. Nos filmes, os homens têm a vida toda para se reencontrarem.
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Re: P... que os pariu

Postby urukai » 01 Oct 2013 12:02

Não tenho tempo para ler tudo e o que li é triste e confrangedor.

Mas a verdade é que a solução não é atirar dinheiro para cima das pessoas. A solução seria apoiá-las durante um período para que então conseguissem arranjar emprego e subsistir sozinhas. Não tenho solução mas tem de haver algum tipo de alternativa para estas pessoas que não o simples subsídio por existirem.

Claro que quando depois comparamos isto com a merda do assalto que foi o BPN e outros tantos, sentimos uma revolta cá dentro e achamos que algo vai mal no reino de Portugal.

Ando mesmo deprimido com isto tudo. E tenho uma boa vida.

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Re: P... que os pariu

Postby elsefire » 01 Oct 2013 12:43

Em todo o lado os governos e os políticos não são grande coisa. Não devemos esperar que sejam eles a resolver os problemas que estão à nossa porta, porque eles simplesmente não o farão. No japão percebi uma coisa que me parece importante. Os políticos também são na generalidade corruptos, mas o que faz a diferença naquele país é o povo, é as pessoas que se unem para resolver os problemas que afectam a sociedade. Não esperam pelos políticos para os resolver. Por isso é que desastres como o de fukushima são resolvidos em tempo record. O que faz a diferença em qualquer país é o povo é as pessoas não os políticos. Não podemos esperar que façam alguma coisa para mudar seja o que for. Até pode ser que o façam, mas quando? talvez tarde demais. Como cidadãos de um país temos o direto e o dever de cidadania de ajudar até onde podemos para tornar este nosso país um país melhor, porque também temos o direito e o dever de poder amar o nosso povo português. Chega de esperar, de lamúrias porque eles são sempre assim e não mudam. Vamos fazer nós próprios o que eles não querem fazer. Basta a cada um só um bocadinho muito pequenos a mais de si para dar aos outros e nem precisa de ser dinheiro, basta a nossa disponibilidade e solidariedade.


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