David Marçal e a Homeopatia

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pco69
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David Marçal e a Homeopatia

Postby pco69 » 20 Jan 2015 12:40

http://www.publico.pt/ciencia/noticia/d ... ar-1682691

(...)
O seu livro Pseudociência suscitou polémica, em particular pelo que é dito sobre a homeopatia, que é só um dos aspectos de falsa ciência abordados. Essas reacções também chegaram ao PÚBLICO, quando Carlos Fiolhais publicou um artigo de opinião (Ciência diluída) sobre o livro, em que considera a homeopatia “a mais disparatada das assim chamadas medicinas alternativas”. Por que acha que este assunto provoca tantas emoções? Isso surpreendeu-o?
A reacção não me surpreendeu porque a homeopatia é uma grande indústria, que abarca desde as multinacionais farmacêuticas, que produzem os remédios homeopáticos, até aos homeopatas que os receitam. Todos os envolvidos têm de agir como se aquilo fizesse sentido, até os pacientes. Há muita gente convencida de que a homeopatia tem algum fundamento científico, o que, pura e simplesmente, não é verdade. E essa falsa ideia foi criada através de um grande conjunto de argumentos de autoridade, que começa pela venda dos remédios homeopáticos em farmácias. Para muitas pessoas, isto é um sinal de que a homeopatia é uma coisa séria. Mas não é e as farmácias não deviam vendê-los, pois deste modo minam a confiança que nelas é depositada.



Frequentemente, há notícias que têm como base uma única fonte, que pode ser um único artigo científico ou uma única pessoa, cujas ideias são publicadas sem qualquer contraditório ou espírito crítico. Vive-se num regime de ditadura do “engraçadismo” em muitas redacções: que importa se isto tem fundamento científico ou não, é muito engraçado! E assim publicam-se notícias com títulos como “Dormir nu pode reduzir o risco de diabetes” ou “Homens que cuidam dos filhos têm os testículos mais pequenos”. Isto retrata a ciência como um conjunto de curiosidades avulsas, ou seja, o terreno fértil para a pseudociência.

Os partidários da homeopatia, como não têm provas, reagem cada vez que alguém põe em causa a sua autoridade. Basta ver que grande parte das críticas a Carlos Fiolhais se baseia em minar a sua autoridade, dizendo que é um físico que não percebe nada do assunto. Não interessa quem ele é, não interessa quem eu sou e não interessa quem eles são. Interessam as provas.

E por que é que a homeopatia não é ciência?
Porque não há provas científicas que demonstrem que os remédios homeopáticos tenham mais eficácia terapêutica do que um comprimido de açúcar. E a razão é muito simples: são comprimidos de açúcar. Preparados a partir de uma “tintura-mãe”, que pode ser qualquer coisa desde leite de cadela até cicuta, tanto faz, que depois é diluída dezenas de vezes, de modo que, no final, não sobra nada. A probabilidade de encontrar uma única molécula da tintura-mãe num preparado homeopático vulgar é equivalente à de ganhar o Euromilhões várias vezes seguidas.

Há estudos científicos – no sentido da palavra “científicos” – sobre a homeopatia? E o que concluíram?
Há. Para além da ciência fundamental, que mostra que os remédios homeopáticos são só água e o açúcar do excipiente, há ensaios clínicos. Num ensaio clínico, é comparada a eficácia terapêutica de um medicamento em teste com a eficácia de um tratamento em tudo igual, mas sem o princípio activo, ou seja, com um placebo. Os remédios homeopáticos comportam-se como placebos nos ensaios clínicos bem concebidos. Produzem uma sensação de melhoras subjectiva e transitória, mas nenhum problema sério de saúde se trata com placebos. Para os que não são sérios, um chá de limão com mel sai mais barato e tem mais efeito fisiológico.

Diria que a homeopatia, como outras áreas, usa termos científicos para ter credibilidade, mas depois recusa os resultados dos estudos científicos sobre ela?
Sem dúvida. Por exemplo, os partidários da homeopatia habitualmente reconhecem que não resta qualquer molécula da tintura-mãe nos preparados homeopáticos. Mas dizem que a água retém a memória das moléculas que teve dissolvidas. Essa memória da água é inventada. Mas, para a justificar, os homeopatas recorrem a todo o tipo de explicações delirantes com termos científicos, desde a física quântica à teoria da relatividade. Só que isso não é verdade, não há nada na física quântica que justifique uma memória da água. A palavra “quântica” é simplesmente evocada sem qualquer sentido, tal como no caso das pulseiras Power Balance.

O que diria a quem conta as suas histórias pessoais e diz ter melhorado de doenças graves devido à homeopatia?
Que fico muito contente com as melhoras, mas que isso não significa que elas sejam devidas à homeopatia.
(...)
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

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Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: David Marçal e a Homeopatia

Postby Samwise » 25 Feb 2015 22:45

Uma resposta ao Marçal...

A prova experimental da homeopatia e Benveniste (por Fernando Belo)

Não defendi a homeopatia como ciência, não tenho competência para isso. Mas cito dois Prémios Nobel, ambos vivos.

1. David Marçal e Carlos Fiolhais mostram como ler um texto que critica as suas próprias posições é susceptível de desentendimentos tais que nem merecem resposta taco a taco (nome, título, editora, data, não chegam para identificar um psiquiatra?).

Pretendem claramente denunciar a minha capacidade de argumentação, a qual não se deu como a dum ‘cientista’, que não sou, apesar de ter tido na minha juventude uma licenciatura em engenharia civil pelo IST, antes de vir a ensinar Filosofia da Linguagem na Faculdade de Letras de Lisboa. A tese de doutoramento sobre a epistemologia da Linguística estrutural abriu-me inesperadamente acesso à questão da relação entre a fenomenologia (Husserl, Heidegger, Derrida) e as principais descobertas científicas do século XX, a saber a teoria do átomo e da molécula, a biologia molecular, interdito do incesto e exogamia como nó do social (Lévi-Strauss), a dupla articulação da linguagem, a teoria das pulsões de Freud. O interesse desta descoberta (ver o meu blogue filosofia com ciências) é antes de mais filosófico, mas as várias ciências são reorientadas fenomenologicamente umas em relação às outras. As ciências foram geradas adentro da filosofia (Galileu e Newton consideravam-se filósofos da natureza), foi Kant quem as separou da metafísica permitindo-lhes ganhar autonomia conceptual e metodológica. Essa tarefa esgotada nos seus efeitos, é pelo contrário a questão da unificação dos saberes que é hoje um dos mais graves problemas do conhecimento, a que esta aliança entre ciências e filosofia permite uma achega, contando nomeadamente com Prigogine. Dito isto, vamos à homeopatia.

2. A leitura do texto póstumo de Jacques Benveniste, Ma vérité sur la ‘mémoire de l’eau’, 120 páginas na Teia, mostra que, ao contrário do que consta nos mentideros cientistas que Fiolhais e Marçal repetem como verdade revelada, ele resolveu laboratorialmente a questão da homeopatia sem ter no entanto conseguido explicar teoricamente essa solução experimental. A história da ciência e da técnica europeia tem muitas situações destas, soluções empíricas de questões que não se entendem teoricamente. Um dos casos mais conhecidos é o da máquina a vapor, comercializada em 1776 e que só foi compreendida teoricamente com a termodinâmica um século depois. Durante um século, o seu paradigma científico permaneceu ‘eficaz’ empiricamente, adiado o seu complemento teórico; pode-se pensar que seja actualmente a situação da homeopatia, eficaz como terapia de medicina e em busca de complemento teórico à experimentação laboratorial conseguida em vários laboratórios, como Benveniste conta num texto duma honestidade límpida. Porque é que a história dele não contará, só a dos que o não leram e repetem apenas o que ouvem ou lêem?

3. Não defendi a homeopatia como ciência, digo no início do § 3 do meu texto de 29/01 que não tenho competência para isso. Cito dois Prémios Nobel, ambos vivos, um médico laureado pelos seus trabalhos sobre a sida, o outro físico inglês laureado em 1973, que conheceu de perto Benveniste.

4. "Em recente entrevista concedida à revista Science de 24 de dezembro de 2010, o virologista Luc Montagnier, ganhador do prémio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2008 pela descoberta do HIV, defendeu Benveniste, que se tornou alvo de chacota (ganhou o antiprémio IgNobel) e descrédito quando declarou que a diluição alta usada em homeopatia tem efeitos biológicos. Montagnier publicou pesquisa relatando a detecção de sinais electromagnéticos produzidos por "nanoestruturas aquosas" de sequências de DNA bacteriano biologicamente activas. "Benveniste foi rejeitado por todos, porque estava muito à frente. Ele perdeu tudo - seu laboratório, seu dinheiro (...) Eu acho que ele estava em grande parte certo. O problema era que seus resultados não eram 100% reprodutíveis", declarou Montagnier. "Não posso dizer que a homeopatia está certa em tudo. O que posso dizer agora é que as altas diluições estão corretas. Altas diluições de alguma coisa não são nada. São estruturas de água que imitam as moléculas originais (...) Há uma espécie de medo em torno desse tema na Europa. Disseram-me que algumas pessoas têm reproduzido os resultados de Benveniste, mas têm medo de publicá-los por causa do terror intelectual promovido por pessoas que não entendem isso," completou o virologista.

5. “Em relação aos seus comentários sobre afirmações acerca da homeopatia, as críticas centradas sobre a quantidade incrivelmente pequena de moléculas presentes numa solução depois de ter sido diluída repetidamente são algo que não tem sentido, já que os defensores dos remédios homeopáticos atribuem os seus efeitos não às moléculas presentes na água, mas às modificações da estrutura da água. Uma simples análise pode sugerir que a água, sendo um fluido, não pode ter uma estrutura do tipo que tal imagem exigiria. Todavia casos como os dos cristais líquidos, que fluem como um fluido normal e podem manter uma estrutura ordenada em distâncias macroscópicas, mostram os limites de tais maneiras de pensar. Não houve, tanto quanto eu saiba, qualquer refutação à homeopatia que permaneça válida actualmente depois de se ter em conta este ponto concreto. Um tema relacionado é o fenómeno, afirmado por Yolene Thomas, colega de Jacques Beneviste, e outros, como bem estabelecido experimentalmente, dito a “memória da água”. Se for válido, isso terá um significado além da homeopatia em si mesma e atesta a visão limitada da comunidade científica moderna que, em vez de se apressar a provar tais asserções, a sua única resposta foi expulsá-las da discussão.” (Brian D. Josephson, University of Cambridge).


E uma contra-resposta à resposta ao Marçal... :mrgreen:

A fraude da água em que a homeopatia se afoga (por Carlos Fiolhais e David Marçal)

Unificar saberes é louvável. Unificar saberes e pseudo-saberes é um disparate.

Fernando Belo assinou no PÚBLICO em 18 de Fevereiro um artigo de opinião, no qual insiste na apologia da homeopatia com base numa fraude científica.

Belo cita um texto do autor principal da fraude, o francês Jacques Benveniste, que curiosamente se intitula “A minha verdade sobre a 'memória da água'”. Nisso concordamos: é a “verdade” dele, que nada tem a ver com o conhecimento científico. Belo evoca ainda declarações de Luc Montagnier e de Brian Josephon, em apoio à causa homeopática da memória da água. Montagnier ganhou em 2008 o Nobel pela descoberta do vírus VIH nos anos 80 e não por divagações sobre a “memória” da água quando tinha quase 80 anos. Josephson ganhou o Nobel da Física em 1973 por um trabalho sobre condutividade nos anos 60 e não por todo um conjunto de ideias delirantes que tem vindo a apresentar após o prémio. Não é a autoridade de Benveniste, Montagnier, Josephson ou de quem quer que seja que prova a existência de algo que não existe. Os cientistas podem ter opiniões, mas a ciência não são opiniões de cientistas. Para passarem a ser conhecimento científico, essas opiniões têm de ser fundamentadas com provas experimentais e estas têm de ser confirmadas por outros grupos de investigação. Não é seguramente o caso das experiências da memória da água de Benveniste.

A fraude da memória da água está descrita no nosso livro Pipocas com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência (Gradiva, 2012). O trabalho, que analisava uma reacção alérgica designada por desgranulação dos basófilos, foi publicado na Nature a 30 de Junho de 1988. O extraordinário no artigo de Benveniste et al. é a afirmação de que essa reacção era desencadeada em basófilos (células de sangue) por um alérgeno, quando este se encontrava numa diluição tão grande como as usadas em remédios homeopáticos. Ou seja: os autores alegavam que uma solução do alérgeno em que já não há nenhuma molécula deste é capaz de originar uma reacção alérgica. Imagine-se que uma pessoa apanha uma bebedeira com uma garrafa de vinho, em que o vinho foi diluído a ponto de não haver qualquer vinho na garrafa, mas apenas água… que se lembra do vinho. Do ponto de vista da segurança rodoviária, esta substituição do vinho tem todo o nosso apoio. Mas, como toda a gente sabe, água não é vinho.

As experiências tiveram de ser repetidas na presença de uma comissão de peritos, que incluía o editor da Nature, John Maddox, o investigador de fraudes científicas Walter Stewart e o ilusionista James Randi. Maddox suspeitava que a explicação dos resultados extraordinários poderia residir num truque de prestidigitação, ou seja, alguém adicionava de um modo imperceptível uma quantidade apreciável de alérgeno às amostras (enquanto distraía a comissão de peritos com um tubo de ensaio, por exemplo). Numa primeira fase, a equipa de Benveniste reclamou ter replicado os resultados. Foi então que a comissão pediu aos investigadores que realizassem um ensaio às cegas. Os tubos contendo as várias diluições foram levados para uma sala à parte onde apenas estava a comissão de peritos. Estes removeram a identificação de cada tubo e substituíram-na por um código. A correspondência entre cada amostra e o código foi colocada num envelope fechado, colado no tecto do laboratório. Foi então feita uma experiência em que os operadores não sabiam que amostras correspondiam a que diluições. Os resultados extraordinários não se confirmaram. De algum modo, conscientemente ou não, a equipa de Benveniste tinha viciado a experiência, de modo a obter os resultados que lhes interessavam. Um mês depois, foi publicado na Nature um artigo sobre o assunto com um título elucidativo: “As experiências com diluições elevadas são um equívoco.”

Apesar de desacreditado pela comunidade científica, como é, aliás, habitual nestes casos, Benveniste não se ficou. Criou uma área a que chamou "biologia digital", segundo a qual as moléculas comunicam entre si através de sinais electromagnéticos de baixa frequência, passíveis de serem gravados. Segundo ele, essas gravações seriam capazes de provocar reacções biológicas. Benveniste chegou a alegar que conseguia enviar essas “assinaturas electromagnéticas” das moléculas através da Internet. Em 1999 a Fundação Randi ofereceu um milhão de dólares a quem conseguisse demonstrar, em condições experimentais controladas, a transferência da “assinatura electromagnética de uma molécula” através da Internet. O prémio continua por reclamar. Não sabemos se um milhão de dólares é coisa que interesse a Fernando Belo. Nós, se houvesse maneira de demonstrar essa assinatura de uma forma honesta, não hesitaríamos.

Uma palavra sobre a “unificação dos saberes”, ponto de partida do artigo de Belo: concordamos que tal unidade deve ser procurada, mas não à custa da admissão de erros grosseiros. Unificar saberes é louvável. Unificar saberes e pseudo-saberes é um disparate.
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Re: David Marçal e a Homeopatia

Postby Bugman » 26 Feb 2015 09:35

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