O fato castanho com uma risquinha preta

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White Rabbit
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O fato castanho com uma risquinha preta

Postby White Rabbit » 17 Dec 2008 15:04

Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim para abafar os gritos e os choros de dor que ecoavam por toda a casa. Avancei em câmara lenta, muito devagar, passo a passo, ou se calhar flutuei, não me lembro de ter mexido as pernas para andar. Em silêncio, dirigi-me ao guarda-fatos e abri-o. Percorri com a ponta dos dedos todas as peças que lá estavam penduradas até encontrar o que pretendia. Tirei o cabide com o fato castanho com uma risquinha preta que usaste apenas uma vez. Com cuidado, pousei-o em cima da cama, não queria amarrotá-lo para que não parecesses desmazelado. Depois procurei a camisa. De seda cor de pérola, feita por medida. Havia muitas, e tinham-me dito para levar uma outra, mas quis aquela, não sei se por vontade própria ou se por estar numa espécie de transe. Escolhi um cinto ao acaso, o primeiro que me veio à mão. Depois foi a vez de abrir a gaveta da roupa interior, aquela que eu nunca gostava de abrir quando me calhava ter de arrumar as roupas da casa. Era quase uma profanação abri-la, e peguei nas primeiras coisas que me vieram à mão, sempre com a respiração suspensa, umas cuecas azuis, umas meias castanhas e uma camisola interior branca porque estava frio, e fechei-a rapidamente, como se receasse que algum monstro saísse dali a qualquer instante. Fui buscar os sapatos. Castanhos cor de mel, aqueles de que mais gostavas. Pensei por instantes se ainda te serviriam, mas desviei a minha atenção para a peça que faltava. A gravata. Por mais que me esforce, não me consigo lembrar da gravata. Mesmo tendo-se passado dezoito anos desde esse dia, recordo-me do cheiro do after-shave que emanava das roupas, das cores, da textura do tecido do fato, do toque sedoso e do brilho da camisa, mas não consigo recordar-me de como era a gravata, nem mesmo se tentar evocar a imagem mais dura, aquela em que estavas deitado no caixão por entre flores brancas.
Juntei tudo. Pendurei a camisa juntamente com o fato, enrosquei a gravata no cabide, enfiei o par de meias dentro de um dos sapatos e agarrei em tudo, sempre com muito cuidado para não amarrotar, e dirigi-me à porta para entregar o saque. Do outro lado esperava-me o cangalheiro que te iria vestir pela última vez.
A realidade deveria ser proibida.

Pedro Farinha
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Re: O fato castanho com uma risquinha preta

Postby Pedro Farinha » 17 Dec 2008 15:17

Tu é que fazes anos e tu é que nos dás uma prenda !!!

Muito bom White Rabbit, num registo diferente do teu habitual mas é um texto muito bem conseguido, está tudo lá. Os sentimentos, o ritmo certo para que, aos poucos, vamos identificando a situação, as imagens bem construídas.

:notworthy: :notworthy: :notworthy:

Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim para abafar os gritos e os choros de dor que ecoavam por toda a casa. Avancei em câmara lenta, muito devagar, passo a passo, ou se calhar flutuei, não me lembro de ter mexido as pernas para andar.


:notworthy: :notworthy: :notworthy:

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Re: O fato castanho com uma risquinha preta

Postby White Rabbit » 17 Dec 2008 15:21

Pedro Farinha wrote:Tu é que fazes anos e tu é que nos dás uma prenda !!!

Muito bom White Rabbit, num registo diferente do teu habitual mas é um texto muito bem conseguido, está tudo lá. Os sentimentos, o ritmo certo para que, aos poucos, vamos identificando a situação, as imagens bem construídas.

:notworthy: :notworthy: :notworthy:

Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim para abafar os gritos e os choros de dor que ecoavam por toda a casa. Avancei em câmara lenta, muito devagar, passo a passo, ou se calhar flutuei, não me lembro de ter mexido as pernas para andar.


:notworthy: :notworthy: :notworthy:





Este texto é uma espécie de purga, ou de catarse, o que queiram chamar-lhe. Não é à toa que foi postado hoje.
A realidade deveria ser proibida.

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Re: O fato castanho com uma risquinha preta

Postby azert » 17 Dec 2008 15:48

Também o vazio que fica depois que alguém parte devia poder embrulhar-se assim, nos melhores panos, e levar a enterrar para sempre.
Ainda não passei pela morte de nenhum ente querido, mas já sei o que é a perda em vida (não sabemos todos?).
Se há por aí uma perda, aceita em compensação o ganho de um bando de indivíduos que por entre páginas de livros vai criando laços de algo que, mesmo que não possa ser chamado de amizade, não anda muito longe disso.
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Re: O fato castanho com uma risquinha preta

Postby Aignes » 17 Dec 2008 17:44

White Rabbit wrote:e uma camisola interior branca porque estava frio


:smile: Muito bonito. As palavras no texto têm o vazio daquilo que descrevem.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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