Monstro das Bolachas

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White Rabbit
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Monstro das Bolachas

Postby White Rabbit » 14 Apr 2009 14:07

O texto já tem um ano, mas ando mesmo sem pica para material novo...

Tenho em casa um monstrinho das bolachas que de cada vez que se apanha na cozinha mete-se à frente do armário/despensa a bater na porta e a palrar, ou melhor, a exigir «dá-dá-dá-dá-dááááá», e é giro ver aquela coisinha pequena, uma pessoa em miniatura, já a demonstrar aquilo que quer, enfim, adiante, e lembrei-me de umas bolachas que adorava em pequena, na altura que ainda não precisava de contar os minutos, só aqueles que faltavam até dar os desenhos animados que só davam uma vez por dia e se perdêssemos aqueles, azar, não havia mais, só no outro dia, porque na altura não havia nem Panda nem Nickelodeon nem Disney nem nada, muito menos florisecas e morangos azedos e fora de prazo, e lembrei-me das bolachas que eram redondas e pequenas e sabiam a bolacha e não a corantes e cada uma delas tinha o desenho de um signo do Zodíaco, acho que se chamavam Catraias, e eu ficava furiosa porque só encontrava os Gémeos e os Aquários e os Carneiros, era raro encontrar os Sagitários e pensava aqui para com o meu contador de minutos que raio é que a fábrica das bolachas teria contra os Sagitários, era uma injustiça, coitados de nós, que já não nos bastava fazermos anos em cima do Natal e só recebermos uma prenda que dava para as duas coisas, que grande chatice, para ainda sermos discriminados só porque havia um gajo qualquer que não ia à bola com os centauros que praticam tiro com arco, e pronto, senti uma certa saudade e uma onda de nostalgia a latejar no coraçãozito do Coelho Branco, mas porque diabo é que deixaram de fazer as Catraias, se fazem tanta coisa porque não fazer aquelas bolachinhas para gáudio dos monstrinhos das bolachas como o meu, enfim, tanta coisa que se perdeu, mas ao mesmo tempo há tantas coisas novas que estes pequenos prazeres, como mordiscar as Catraias enquanto se viam os desenhos animados, já não têm importância porque se antes não tínhamos quase nada agora temos tanta coisa que não conseguimos dar conta de tudo, e o ritmo alucinante dos dias de hoje leva-me a pensar que isto não passa de um erro, como se Deus estivesse a assistir ao filme da nossa existência e se tivesse aborrecido tanto que carregou no botão fast forward, ou então que alguém se enganou na velocidade de rotação da Terra e ela está agora a girar mais depressa como se fosse um tapete de corrida do ginásio que se acelerou demasiado (corre, coelhinho, corre, senão cais do tapete).
A realidade deveria ser proibida.

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Ripley
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Re: Monstro das Bolachas

Postby Ripley » 14 Apr 2009 14:39

1) Ainda se encontram catraias - mas agora cobertas de chocolate e disfarçadas de "Tuchas" ou algo assim. Dei por isso ao reparar que as bolachas tinham relevo por baixo do chocolate; raspei-o e ... puff: um signo.

2) Concordo contigo, há tanto à disposição que não se consegue dar conta de tudo, chego a duvidar que os garotos de hoje se divirtam tanto como eu quando pequena ou sequer a metade disso, um iogurte não era só iogurte e não tinha açucar, eram azedos e de comer à colher, depois de comidos as embalagens eram lavadas e serviam para casinhas dos bonecos tipo Estrunfes e Abelha Maia, ainda por cima agora a mania é chamar nomes diferentes aos mesmos bonecos e fazer novas dobragens aos desenhos animados antigos, já a canção do Dartacão não tem a mesma piada e há vozes mesmo esquisitas como a do gajo que diz no anúncio que ele é não é parvo embora eu ache que a voz dele, essa sim, é parva por isso não percebo como o põem a fazer dobragens, se calhar tinha piada se falasse sob o efeito do hélio e aí sim fazia jus à tal velocidade excessiva de que te queixas quando dizes que Deus fez fast forward aos nossos dias ...
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Monstro das Bolachas

Postby azert » 14 Apr 2009 16:10

WR, uma das coisas que aprecio nos teus textos, é o encadeamento de ideias - verdadeiros cestos de cerejas! :thumbsup:


O que mais pena me dá que o meu filho não possa experimentar, é o brincar na rua.

Ainda sou do tempo de ir para os prédios em construção explorar aqueles antros de coisas para nós incríveis, como montes de areia, que tão afincada e prazenteiramente desmanchavamos, de pedaços de precioso tijolo que usavamos como giz ou patela no jogo da macaca (ainda alguém joga à macaca? ou ao espeto? ou à corda? ou ao elástico - o meu objectivo era conseguir saltar no 6º).

Hoje em dia há demasiados carros, demasiados rostos de feições pedófilas, demasiados perigos, e poucas crianças, pouco tempo e pouca vontade. Hoje, os pais comprometidos têm de proteger os rebentos e enchê-los de atenção, quase não lhes deixando espaço para brincarem, explorarem e errarem entre pares.

Mas falávamos das catraias. E as bombocas, que já não sabem ao de antigamente? E eu, quando deixei de usar totós e soquetes e comecei a olhar mais para trás do que para a frente?
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