Black and Blue

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White Rabbit
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Postby White Rabbit » 09 Nov 2009 21:21

Falava-se à boca cheia que a S. levava do namorado. Tinha mais dez anos que ela, divorciara-se da mulher e estava constantemente a pedir-lhe o dinheiro que ela ganhava a trabalhar enquanto estudava. Certo dia, ela apareceu na faculdade com os dois olhos enfeitados por manchas negras, a cara inchada. Perguntei-lhe o que lhe tinha acontecido. «Bati contra uma porta», respondeu-me. «E magoaste os dois olhos?», insisti, olhando-a bem no fundo dos olhos, através das manchas que os cercavam e que nem a maquilhagem tinham conseguido disfarçar. Ela encolheu os ombros, esboçou uma tímida tentativa de sorriso e baixou os olhos. «E como raio fizeste uma coisa dessas», insisti, «para teres feito esse serviço à cara? Bateste de frente, foi?»Ela sorriu mas não respondeu. Depois, absorta com os meus próprios botões, acabei por esquecer o assunto e nunca mais lhe fiz perguntas.

Estava um calor de rachar. Ainda assim, a C. andava de gola alta, de mangas compridas e calças. O Sol convidava ao bronze, mas a C. estava cada vez mais pálida, cadavérica e com ar doente. Os olhos cada vez mais encovados faziam-me lembrar um coelho assustado. Uma conversa de circunstância com o guarda nocturno enquanto ambos esperávamos o autocarro deixou-me esclarecida.«Estive quase para me meter», confessou-me ele, indignado. «Vi-a a correr por ali abaixo, e depois ele apareceu a correr atrás dela e deixou um empurrão e a rapariga caiu ao chão», disse-me, e depois deu uma passa no cigarro. «Depois deu-lhe dois pontapés e quando ela se levantou, ele deu-lhe uma bofetada e atirou-a outra vez ao chão.» Nova passa. «Filho-da-puta! Aquilo não se faz. Desgraçada da miúda!» Mais uma baforada de fumo, enquanto o ouço em silêncio, e a seguir diz, em jeito de desculpa: «Sabe, eu não me quis meter, entre marido e mulher não se deve meter a colher, mas meteu-me impressão vê-lo ali a bater na rapariga, e não poder fazer nada...»Abanei a cabeça, sem saber o que dizer. Se tivesse presenciado a situação, talvez tivesse feito o mesmo, não sei. Mas a partir daí nunca mais consegui olhar para o P.S. sem sentir um nó de nojo misturado com raiva a apertar-me o estômago.

A R. tinha três cadeiras atrasadas. Nos primeiros dias da época de exames, o pai deu-lhe uma tareia tão grande que ela teve de ficar de cama durante duas semanas. Fugiu de casa. Anos de psiquiatras e caixas de fluoxetina depois, vi-a dias depois de uma biópsia que fez para tentar determinar um problema de saúde. Não parecia ter 25 anos, parecia ter mais 50 em cima. A certa altura vi na televisão que um homem tinha sido assassinado pela filha, em legítima defesa, no bairro onde ela morava. Só consegui voltar a respirar depois de ter falado com a R. para me certificar que não tinha sido nada com ela.
A A. estava a estudar juntamente com a P., cada uma na sua secretária. De súbito, vindo do nada, aparece o G., namorado da P., entra de rompante por ali adentro, agarra nela pelos cabelos, atira-a ao chão e desata aos pontapés a ela. Sempre na presença da A., uma miúda de 18 anos acabada de sair das saias da mãe, que ficou ali tolhida de terror, a pensar que provavelmente seria a próxima. Quando se fartou, foi-se embora. Mas a P. continuou a namorar com o G., e continuou a levar tareias.

Todas estas raparigas eram universitárias. Todas estas raparigas eram vítimas de violência extrema. Todas elas eram muito jovens. E nunca ninguém levantou um dedo contra os seus agressores.
A realidade deveria ser proibida.

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Re: Black and Blue

Postby Anibunny » 09 Nov 2009 21:39

Apesar de ter "adorar" este tema (visto que muitos dos temas que tento retratar nas minhas "histórias" têm a ver com a problemática da mulher/homem) mesmo assim acho que o texto parece demasiado frio em estilo de espécie de notícia ou anúncio televisivo! Estava à espera de uma história! :sad:

E nunca ninguém levantou um dedo contra os seus agressores.



Na verdade só uma percentagem muito pequena das mulheres é que denunciam estes casos de violência :sad:

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Re: Black and Blue

Postby White Rabbit » 09 Nov 2009 21:45

Anibunny wrote:Apesar de ter "adorar" este tema (visto que muitos dos temas que tento retratar nas minhas "histórias" têm a ver com a problemática da mulher/homem) mesmo assim acho que o texto parece demasiado frio em estilo de espécie de notícia ou anúncio televisivo! Estava à espera de uma história! :sad:


Foi essa a intenção, noticiar, em vez de narrar, para abanar um pouco as consciências. Estes eram casos muito próximos de mim, e aquele que me tocou mais foi o da R., que sofreu horrores nas mãos do pai. Era uma família indiana, pertencente à casta mais elevada, e ainda assim ele portava-se como um animal. A própria psiquiatra dela ficou afectada com as descrições da violência que ele exercia sobre ela e sobre a irmã. As outras, tinham escolha, podiam largar os namorados. Agora o caso dela era bem mais difícil, porque a mãe calava-se, não tinha família a quem recorrer nem independência económica para sair de casa. A certa altura, os serviços sociais da universidade intervieram e salvaram-na, porque uma das vezes ela deu-lhe luta, daí o meu medo ao ver a notícia, daí ter pensado que podia ter sido ela.
A realidade deveria ser proibida.

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Re: Black and Blue

Postby Sofiushka » 09 Nov 2009 21:55

É uma realidade muito infeliz... e é estranho como este tipo de coisas, tão comuns por aí, só têm direito a atenção especial quando o desfecho é trágico. Fora isso, geralmente anda fora da consciência colectiva, ninguém pensa nisso. E claro, isso potencia manter ideias arcaicas como "entre marido e mulher não se deve meter a colher" na mente do povo.

Tenho no entanto a ideia que a denúncia às autoridades pode ser feita "oficialmente" por pessoas próximas ou testemunhas, sem ser necessário a vítima apresentar queixa. Não tenho a certeza, mas acho que desde que haja marcas evidentes na vítima, não tem que ser ela a apresentar a queixa. Pelo menos, foi qualquer coisa que ouvi dizer uma amiga minha que trabalha na Cruz Vermelha.

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Re: Black and Blue

Postby Anibunny » 09 Nov 2009 21:59

Por acaso às vezes ouvia moveis a cair em casa dos meus vizinhos e eles aos berros e quis ligar à policia porque já se estava a tornar uma rotina, mas a minha mãe proibiu-me a dizer que não nos devíamos de meter... o que me roeu os fígados todos. Nunca soubemos se ele lhe batia ou não, mas acho que ela também andava na faculdade a tirar biologia

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Re: Black and Blue

Postby White Rabbit » 09 Nov 2009 22:19

Sofiushka wrote:Tenho no entanto a ideia que a denúncia às autoridades pode ser feita "oficialmente" por pessoas próximas ou testemunhas, sem ser necessário a vítima apresentar queixa.


Há alguns anos a violência doméstica passou a ser um crime público, o que significa que a denúncia pode ser feita por outra pessoa que não a vítima.
Mas ainda assim, prevalece a política do «não é nada comigo»...
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Re: Black and Blue

Postby zé.chove » 10 Nov 2009 16:49

Este texto fez me lembrar uma música da Cat Power chamada "Names".
Faz-me confusão ouvir falar nestes temas porque não conheço ninguém que tenha sofrido assim...

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Re: Black and Blue

Postby pco69 » 10 Nov 2009 17:53

Já agora, também há 'elas' agressoras e nesse caso, a sociedade acaba por desprezar mais a vítima do que a agressora....
E antes de repotarem 'oficialmente', creio que podem denunciar o caso à APAV.
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...


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