Natureza Morta

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zé.chove
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Natureza Morta

Postby zé.chove » 06 Feb 2011 02:29

chicoteio o ar indiferente
e o vento imemorial e sem razão
atinge as melenas do cabelo
esbofeteia-me
e só me resta mais uma cerveja
na geleira
a chuva explode lá fora
e as dúvidas afogam-me no lava-loiças
as beatas boiam amarelas na sanita
e os olhos amarelos de diabitas
arrebitas o coração no sofá
e excitas
minha vontade de fanecas fritas
as baratas escondidas nas esquinas
e cruzando livres o balcão as formigas
abres as pernas com calças de licras
e a libido desperta firme e hirta
deseja o lábio da ave triste
minha esposa aflita
e o cómodo todo em eco grita
e o caudal do ventilador agita
as saias da vizinha
e enfim liberta a endorfina
a vontade maligna sibila
os baby-grows espalhados nos espaldares improvisados da cozinha
os cinzeiros atafulhados de cinza
uma barba grisalha e fina
collans de fidro em fim de vida
um triciclo sem rodas
e um vaso com cactos ressequidos
as portas abertas que há muito se partiram os gonzos
e na rádio a chuva poluída sobre as ondas hertzianas
sobre a mesa fedem três tocadas bananas
e em toda a atmosfera os reis são os minúsculos mosquitos
todas as palavras proferidas são ordens e voujás entediados
os pneus do alonso acompanham o varejar das moscas orgulhosas
as plantas gritam de sede
e ainda temos de ir à Missa
e os pedaços ressequidos de frango sobre a mesa
entre chaves de casa, saleiros, óculos de sol, facturas por pagar
um cão em cima duma cadeira coçada pelo próprio
nos quartos as camas amassadas exalando os suores de morfeu
camadas de pó sobre os livros nunca lidos sulcados de pintelhos
junto às janelas pequenos insectos mortos
falhas na parede ajeitadas com bochechos de cimento
algures um papel de parede enfolado
ouvem-se a milhas uns sussurros de vizinho distorcido pelos corredores de mármore frio
cebola avinagrada pelas portas do frigorífico
tardes infindas ao ritmo seco duma bola de basket algures no pátio
tanto tédio que adormece as moscas sobre os reposteiros verde ácaro de veludo napolitano
depois duma sesta esmurrada nos olhos
e uma cagada merecida lendo uma revista sobre os lamas extintos
e com o sol escondido por trás do estore nunca visto
orgulhoso como um recruta envergo de novo o pijama

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