Vilas e Ovelhas Ranhosas III

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zé.chove
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Vilas e Ovelhas Ranhosas III

Postby zé.chove » 17 Nov 2009 18:41

Um incêndio. Um lugar morto. Um dente podre entre o casario desarrumado encosta abaixo. E decerto um espírito ensandecido que agora vagueia em busca de morada. E nem o calor das vigas enegrecidas conforta... Mas decerto depois de envolvido nas vinhas selvagens e abrunhos-juvenis... reconstrói-se o lugar. Uma churrascada e abençoa-se de novo o lugar semeado de vinho novo.

Acidez. Aqui os frutos não chegam a amadurecer. Vergam os ramos com o peso rijo da juventude. A geada corrói a pele. Queima. O solo traga a fruta esquecida pelo vento. Acidificam-se as entranhas dos rebentos raivosos por uma dentada amorosa que não chegou a ser desferida. Tanto sumo que ficou por verter.

O sangue escorre pelo degrau. A faca. A cozinha escancarada revela a fornalha onde se refastelam os gatos. A chaminé larga esconde a fuligem até ao céu. A sujidade escondida imprime carácter às coisas. É assim...

A bosta das vacas que se acumula nos estábulo se não é removida enrijece como argamassa. Anos e anos de bosta acumulada reforçaram os alicerces do nosso estábulo. Os pintassilgos debicam o feno repisado.

A tia T... guarda o feno num poço. As compridas forquilhas a prumo cravadas na palha ameaçam os céus. Ninguém guarda o feno em poços. Ao final da tarde quem se aproximassse podia ouvir os guinchos das lutas de grandes ratazanas perdidas entre o feno. Ninguém gosta de ser interrompido nos seus actos íntimos, muito menos pelos seus semelhantes.

Ninguém discute a proveniência das águas do rio. A água é preguiçosa e vai moldando os leitos em curvas quase humanas. As azenhas abandonadas são como segredos escondidos na frondosidade da galeria fluvial. Um corpo insepulto, um nado morto, uma relíquia partida, um braço amputado: os nossos segredos apodrecem entre o húmus esquecido na sombra.

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Re: Vilas e Ovelhas Ranhosas III

Postby Samwise » 17 Nov 2009 19:13

zé chove wrote:A tia T... guarda o feno num poço. As compridas forquilhas a prumo cravadas na palha ameaçam os céus. Ninguém guarda o feno em poços. Ao final da tarde quem se aproximasse podia ouvir os guinchos das lutas de grandes ratazanas perdidas entre o feno. Ninguém gosta de ser interrompido nos seus actos íntimos, muito menos pelos seus semelhantes.


:rofl:

Um texto todo feito à base de fortes e "aromáticas" sugestões. Sugestivas sugestões, diria que.

Está muito bom. :notworthy:
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Re: Vilas e Ovelhas Ranhosas III

Postby Pedro Farinha » 17 Nov 2009 20:40

Muito bem escrito e descrito.

Para ser um 10/10 bastaria que, para além da descrição sugestiva e consubstanciada em palavras saborosas, houvesse uma mensagem que eu não descortinei.

Mas, mais uma vez, gostei mesmo muito.

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zé.chove
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Re: Vilas e Ovelhas Ranhosas III

Postby zé.chove » 18 Nov 2009 14:36

Obrigado. Só falta a história! Essa parte tá mais difícil de parir...


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