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zé.chove
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Postby zé.chove » 27 Jan 2010 18:29

Desde pequeno começou a escarafunchar,
com a unhita mole o imenso bloco de calcário
sobre o qual a sua mãe o dera à luz
- para sempre lá ficaram, cada vez mais esbatidas,
as manchas do sangue materno.-
Sempre a raspar ao de leve, talvez uma poeira diária.
Ao princípio com a displicência das crianças como se fosse uma brincadeira.
Debicando aqui e ali quedava maravilhado,
com os reflexos do sol nos cristais pétreos.
Mais tarde com determinação até que lhe sangrassem as unhas,
nalguma protuberância que mais o incomodasse.
Não sabia nessa altura o que o levava a esgravatar na pedra.
Nunca chegou a perceber se o desgaste
da pedra era provocado pelo seu esforço ou pela chuva.
Por vezes passava dias a sentir toda a pedra deitado de costas
esfregando com as mãos o frio monólito,
roçando-o também com o corpo até adormecer satisfeito.
Com o passar dos anos a pedra foi-se moldando ao seu corpo.
Mais tarde reparou que o seu corpo se deformara
de encontro aos obtusos ângulos da sua laje fria.

philo
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Re: Bloco

Postby philo » 27 Jan 2010 20:41

Este texto levou-me imediatamente a pensar no Covil do Kafka...tenho que confessar que a tua escrita abala a minha indiferença, aquece-me as mãos e transporta-me para as profundezas da terra, mas de uma coisa tenho a certeza chove, apesar de escarafunchares a terra ressequida tu voltas sempre com as unhas imaculadas, percebes? Esbanjas dor nos textos mas pressinto que és um individuo são, parece-me que existe suficiente distanciamento para escreveres com clarividência e talento.

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zé.chove
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Re: Bloco

Postby zé.chove » 27 Jan 2010 23:56

Indivíduo são? Sem dúvida. Acho que sou calmo e ponderado. Percebi a ideia das mãos limpas. Faço um esforço por não me deixar levar pelas "paixões".
Não conheço esse Covil do Kafka estou curioso.
Obrigado pela visita.

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Samwise
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Re: Bloco

Postby Samwise » 28 Jan 2010 01:52

Acho este poema espantoso.

Talvez o que mais gostei de ler teu, Zé Chove.

Por acaso também me lembrou Kafka. Talvez por encerrar em si todo o mistério sobre o que se está a passar ao certo mas sem nunca fugir ao assunto. É um enigma em formato de revelação.
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Re: Bloco

Postby philo » 28 Jan 2010 11:38

O Covil,

Um Ser escavava túneis intermináveis, labirínticos, ocultava a entrada do seu covil e vivia assombrado pela possibilidade que alguém nele pudesse entrar. A ideia que alguém o possa descobrir aterroriza a personagem e este vive num terror constante, ele deseja viver camuflado no seu covil protector e todo o seu tempo é passado a eliminar as pistas que possam induzir a sua presença debaixo da terra, imagino-o a alimentar-se de raízes, toupeiras e outros seres que habitam na penumbra estes subterrâneos da alma, é um livro que instila uma profunda paranóia no leitor.


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