Pendurados

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Aignes
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Pendurados

Postby Aignes » 11 Oct 2008 19:05

Ontem o ALA a falar com o Mário Crespo dizia qualquer coisa como aos fim-de-semana as pessoas se viam confrontadas consigo próprias, sem a escapatória do trabalho e do quotidiano. Um bocado inspirada nisso, escreveu-se isto. Apesar de não achar grande coisa, foi a primeira coisa que escrevi desde há muito tempo que não me apeteceu mandar para a reciclagem automaticamente assim que a terminei de escrever. E o BBdE agora até tem grande movimento na secção de escrita, portanto pareceu-me que já estava na hora de se pôr qualquer coisa por aqui.



Penduramo-nos nos dias seguidos, das manhãs madrugadas cedo pingamos arrastados até às noites fechadas, sorrateiras, sobre nós, que nos encontram debruçados sobre qualquer coisa que nos ocupe o tempo. No entremeio vingamos surdos, pequenos, não vingados, antes sobrevividos. Fechamos os olhos ao sol forte, embalados pelo constante vaivém dos nossos passos, das vozes dos outros, das pastas carregadas de documentos importantes que na verdade não nos importam, do telemóvel, cuja bateria aguenta dias a fio, sem ser tocada. Da chuva, não nos protegemos, nem do semáforo que ficou vermelho e que não nos impede de atravessar a rua, o buzinar frenético soa-nos distante, que pena que o carro não acertou. A comida esquece-nos, o estômago, se resmunga, é ignorado como tudo o resto, mais uma voz de queixa arrastada para o fim do cérebro, donde tudo só sai noutros momentos. As conversas são fúteis, o livro que lemos já não tem a magia de outros, já não nos prende, não nos segue, não nos cativa a mente durante o dia inteiro. As pessoas passam e deixam um testemunho fraco, uma assinatura de presença, não poucas vezes esbatida no nevoeiro da memória, em que nem a rubrica consegue perdurar. A voz desapareceu; o aspecto físico já não resta. Talvez demore um pormenor qualquer, como uma peça de roupa invulgar, um riso soltado forte demais, um olhar mais prolongado.
Entre a cadência que nos encontra pendurados, não vemos nada que nos sorria, saímos cedo e entramos tarde, é sempre de noite quando metemos ou tiramos a chave da porta da casa que não parece a nossa, não a sentimos como nossa. O sofá não é confortável, não arranjamos maneira de nos sentarmos nele, nem com dez almofadas enfiadas debaixo de nós, espremidas debaixo dos braços ou entre as pernas. A cama não tem o cheiro que queríamos, cheira a outra pessoa, mesmo quando só nós a usamos. A toalha com que nos secamos à noite é áspera, mas também a água, essa, não nos molha, e o shampôo não faz espuma como gostamos.
Muito raramente, encontra-se um momento que perdura, é um toque ao de leve na superfície, um fôlego grande e cheio de ar, de oxigénio bem mais puro do que aquele que respiramos todos os dias. Alguém desconhecido que semi-sorri para nós, por ter cometido uma simpatia sem querer, a que respondemos com um semi-sorriso e que nos leva o resto do caminho a brincar na cara, mas que mais ninguém vê, por já ser de noite. Um olhar prolongado e partilhado, um olhar castanho cansado, que nos aquece a pele apesar do frio. O melhor de todos: sentir os olhos húmidos pelo riso descontrolado, há quanto tempo.
Quebram-se então os dias, chega o fim-de-semana. Não há um despertador que nos termine os sonhos que nos atormentam, depois, o dia inteiro. A obrigação dos dias úteis perde-se, instala-se o vazio do sol de domingo, dos filmes ocos que dão à tarde, do zapping mecânico e fastidioso de sábado à noite. Temos tempo de nos olhar ao espelho, de manhã, há tempo para reparar em como não somos nada daquilo que quisemos ser um dia, há muitos anos, quando tínhamos toda uma vida para manipular. Conseguimos ver as marcas na pele cansada, os olhos descaídos e sem brilho, as rugas na testa, o cabelo escorrido a precisar de ser pintado outra vez, os óculos que sentimos terem sido comprados ontem e que já levam dez anos em cima. Olhamos o que nos pertence, o que nos espalha o apartamento de tralha, as camisas penduradas no nosso armário, a roupa interior bem dobrada na gaveta. Nada daquilo nos pertence, ao fim-de-semana. Não fomos nós que escolhemos, trouxemo-la por engano, não tem nada a ver connosco, alguém as pôs lá e nós vestimos.
Segunda-feira recomeça. Rependuramo-nos no fio condutor, as mãos que sangram do peso, do esforço, pingando vermelhas para o chão, enquanto deslizamos das primeiras horas da manhã até ao final do dia. Se deixamos um rasto pingado no chão, pequenas pintas escarlate, ninguém repara.



Ah, almost forgot: Esta pessoa TEM MAIS DE 18 ANOS e aceita ser sodomizada à bruta nos comentários que lhe são feitos
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

Pedro Farinha
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Re: Pendurados

Postby Pedro Farinha » 11 Oct 2008 22:43

Não mereces ser sodomizada... pelo menos por este texto. Está bem escrito e descreve muito bem o desalento dos dias. Não é daqueles textos que me dá ganas de escrever ou de ver como continuaria, mas li-o até ao fim sem que a boca se encancarasse num bocejo e ficaria bem como crónica em qualquer revista domingueira de jornal diário.

Vai botando textos Aignes, quanto mais variedade, mais qualidade.

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azert
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Re: Pendurados

Postby azert » 12 Oct 2008 00:46

"Temos tempo de nos olhar ao espelho, de manhã, há tempo para reparar em como não somos nada daquilo que quisemos ser um dia"

Meu deus, andáste a espreitar no meu espelho! :ohmy:
:mrgreen4nw:

Este texto a propósito dos dias, bem podia ser a propósito dos anos. A mim acontece-me, mesmo sem a ajuda do espelho, desencontrar-me da imagem que tinha sonhado para mim própria. E descobrir o vazio dos dias, como o retratas aqui. Dói um bocadinho lê-lo.
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Re: Pendurados

Postby Samwise » 16 Oct 2008 11:08

Apesar de algo desconexo, desarrumado e trapalhão (coisa que aliás é mais ou menos assumida no "prefácio" e na hilariante nota pós-texto), no texto há um olhar cínico a varrer minuciosamente a nossa dolorosamente-assumida condição de objectos de sociedade. A vida própria é um bem raro que se encontra desvirtuado pelos cinco dias úteis da semana - e nos dois que restam, nem energia nos sobra para fingirmos outras coisas...

o livro que lemos já não tem a magia de outros, já não nos prende, não nos segue, não nos cativa a mente durante o dia inteiro.


Há uns meses atrás mandei os livros dar uma curva... mas entretanto o prazer voltou.

Sam
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Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

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Re: Pendurados

Postby Aignes » 16 Oct 2008 14:22

Agradeço os comentários. E saber que as palavras que escrevemos são, de alguma forma, partilhadas por outros, é sempre uma boa sensação. :wink:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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