A sanita

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Aignes
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A sanita

Postby Aignes » 28 Oct 2008 00:17

A sanita. Ela olhou para a sanita colocada entre as suas pernas acocoradas. O que julgou ser uma sanita, o branco-sujo deformado por movimentos rotativos. Não parava quieta, só rodopiava, alguém puxara o autoclismo com força suficiente para levar a sanita atrás. Vai-me engolir, vou ser sugada. Pior, vou molhar as calças todas. Rezou a deus. Só quero acertar na merda da sanita. As mãos suadas, alagadas em frio, escorregaram-lhe pelas paredes de azulejo escrito a marcador. Acertou. A cerâmica estava gelada e arrepiou-lhe a pele até ao cérebro, o que funcionou momentaneamente. Sentada, fechou os olhos. Sim, sentada numa casa-de-banho pública sabe-se lá onde, agora também não se conseguia lembrar do nome do sítio. Paciência. Algo lhe pressionava as têmporas e fazia o estômago revoltar-se um bocadinho mais, as náuseas pareciam percorrê-la ritmadas por esse barulho. Ah, música. Não sabia se a música ecoava na sua cabeça, se ecoava nas paredes do cubículo minúsculo da casa-de-banho, o som baixo e insistentemente igual, lembrava-lhe qualquer coisa. Qualquer coisa escondida na sua memória, cobertores bafientos a cheirar a álcool cobriam-na, onde era? Concentrou-se no som grave e compassado. Máquinas. As máquinas a trabalhar na fábrica do pai. Deus, a fábrica do pai. Tinha uma casa-de-banho enorme e papel higiénico com flores cor-de-rosa, coisas da D. Angelina. A D. Angelina, que a deixava fazer desenhos nas costas de documentos não-tão-importantes e que usava os casacos castanhos sempre iguais e o cabelo enrolado numa posição respeitável, os três filhos a transparecerem-lhe no cansaço de cada vez que respirava. A D. Angelina, detentora de uma adoração incompreensível pelo pai, cada entrada matinal pela porta do escritório era uma brisa de renovação, uma razão para viver, mais um dia. Uma razão para viver. Oh deus, não estava em condições para memórias. Voltou a pôr os cobertores no sítio. Outra náusea pareceu nascer-lhe do nada. Encostou a cabeça à porta de madeira imunda, o fecho estragado permanentemente na posição verde. Sim, este cubículo está livre. Sim, não está ninguém neste cubículo. A pessoa que este corpo habita morreu no último funeral a que foi. Atirou-se para dentro da cova, como nos filmes, e foi enterrada com o caixão. Abriu a boca para receber as pazadas de terra, deitou-se de lado na madeira dura, enrolou-se sobre si própria. A tia a dizer «Era tão boa moça», o homem do talho, «Era muito educada, isso era», a mãe que chorava e nada dizia. Deixou as mãos arrastarem-se para a cara. Tocou a face que mal sentia como sua, uma carne mole e seca que não respondia a estímulos. Mas não, o funeral não fora seu. As palavras de significância nenhuma não tinham sido para si e não conseguira seguir o caixão. Contorceu a cara de dor e deixou que lágrimas poucas lhe escorregassem por entre os dedos, o rímel pingando para o chão. Estava tão cansada. Será que na sua respiração se notavam os três filhos que não tinha? Deus, não se devia ter deixado chegar a tal estado, com os rodopios mentais e a insegurança física de espaço o mundo parecia-lhe menos real e a sua mente a verdade. Confiar no que quer que fosse que o seu cérebro lhe transmitia agora era um erro. Sim, ainda estava suficientemente consciente para reconhecer esse facto. As memórias afluíam-lhe como projecções na porta escrita da casa-de-banho, translúcidas por entre declarações de amor e lições de vida escritas a caneta ou cravadas na madeira. Sim, ela também amaria o ------ se ele viesse aqui levantá-la pelos braços. O cérebro, de novo. O cadáver do pai surgia-lhe sólido e cruel à sua frente, mais do que as outras realidades todas, surpassando-as, como é que estava ali com ela, naquele espaço tão diminuto? Até conseguia sentir o aroma daquela porcaria que ele fumava... que bem que cheirava. Piscou os olhos, passou os dedos com cuidado por baixo deles, por entre as vibrações da sua visão viu-os (aos dedos) negros e molhados. Esticou o braço até ao suporte do papel. Estava vazio. Nem sequer havia papel com flores cor-de-rosa.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: A sanita

Postby Pedro Farinha » 28 Oct 2008 00:23

Muito bem Aignes, consegui sentir todo o mundo a girar à volta da personagem, quer o real do cubículo quer o das suas memórias. gostei especialmente da forma como começa.

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Re: A sanita

Postby Samwise » 28 Oct 2008 11:30

Hehe. Gostei de como utilizas um espaço apertado e repugnante para fazer soltar uma torrente de recordações e de pensamentos na mente da protagonista, devidamente amparados em emoções.

A julgar pelas reacções desta mesma protagonista, diria que ela está ligeiramente "tocada" por substâncias terceiras...

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Re: A sanita

Postby chinaski » 28 Oct 2008 12:24

Bom conto.

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Re: A sanita

Postby azert » 28 Oct 2008 19:35

Gostei especialmente da D. Angelina. Gostei também da "morte por simpatia" da personagem (quando ela diz que se "atirou" para a cova). E gostei muito do texto a partir daí.
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Re: A sanita

Postby Aignes » 29 Oct 2008 00:03

Agradeço a leitura e os comentários. Pensei realmente que o texto estava uma salganhada e que as coisas não estavam lá muito bem encadeadas, mas parece que até ficou bonzinho. :smile:

Samwise wrote:A julgar pelas reacções desta mesma protagonista, diria que ela está ligeiramente "tocada" por substâncias terceiras...


Pois..se calhar não está tão explícito como devia estar. Os «cobertores bafientos a cheirar a álcool» que cobriam a sua memória eram para tirar dúvidas de que assim é.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
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And I am dumb to tell the crooked rose
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