Amor Impossível

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Aignes
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Amor Impossível

Postby Aignes » 22 Jan 2009 14:15

Sinto-as a dividirem-se, como se não fossem parte de mim. Por baixo, lá em baixo, estico-me ao máximo, sinto-as a dividirem-se. Sugo o que posso, e a terra a absorver-me também, pulsa, enterro-me, não há vento nem trovão que me arraste, que me leve, que me queime, estou agora por dentro e a terra cobre-me. Passaram dezenas de anos, de estações, de vidas curtas que não me dei ao trabalho de saber por serem tão ínfimas, saberia que as minhas lágrimas quando partissem seriam insuportáveis, por isso não as conheci. Tornei-me mais rugosa, deixei que as camadas me fossem rodeando, cada vez mais espessas, cada vez mais depósitos de suberina e células mortas por dentro. Já não sinto tanto o sangue a correr-me nos vasos, não é que tenha parado, mas é tão lento. O sol já não me aquece tanto e já não me apaga a fome. Sinto as folhas a agitarem-se e os estomas a abrir, mas nada que me faça sacudir os ramos como antigamente. Estou velha, tão velha. Em breve morrerei, já vi mais gerações de filhos crescerem e morrerem do que uma mãe deve ver, e nem o consolo das sementes no solo, quentes por entre o húmus que alimento, me tira desta opressão, deste sentimento enclausurado. Quando eu mais queria desenterrar as raízes e rolar rio abaixo protegida no meu tegumento, é quando estou mais presa, estas raízes já não saem daqui, este corpo já não vai a lado nenhum.

Queria ter voz, ao menos, para te dizer o que folhas esvoaçantes e troncos gemendo não conseguem dizer. O que durante todos estes anos guardei no profundo espaço protegido no centro das minhas veias. A tua rocha construída, de granito velho, tão velho como aqueles tempos em que não havia cá ninguém que pudesse falar. A tua rocha cinzenta sarapintada e negra, a tua forma esculpida pelo tempo. Quando chove observo as gotas a escorrerem-me pelo corpo e penso que esta mesma água deixa marcas na tua carne morta, na tua inorgânica composição. Penso no gelo que abre frieiras e te parte, quando no frio do pico do inverno me cubro de branco, esperando que repares que estou vestida de branco e como fico tão bonita ao pé de ti, tu és escuridão e eu sou a luz, tu és matéria morta e eu sou vida. Mas, devagarinho, aprendi a sentir a neve derreter e o manto de ilusões onde me envolvi partir-se um bocadinho mais, até restar esta carcaça velha, qualquer dia tão desprovida de vida como tu.

Amaldiçoo todos os dias ter caído nesta pequena reentrância ao pé do teu corpo, quase uma extensão de ti, quando era tão nova que não tentei procurar outros destinos, outros poisos. E tu cobriste-me de sombra, e nem um olhar me foi dirigido, nem uma palavra. Amaldiçoo todos os dias quando acordo e te vejo aí, mas queria tanto que sentisses as minhas folhas quando caem no Outono e ficas coberto de vermelho, do meu sangue, da minha natureza. Queria tanto que desses conta como são suaves a cair, e as carícias premeditadas que levam na sua descendência leve.


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A inaugurar oficialmente o meu cantinho (agradeço, já agora, a atenção). :smile:
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Re: Amor Impossível

Postby Pedro Farinha » 23 Jan 2009 00:37

Achei interessante e original este monologo da árvore para uma estátua (?), rocha (?). Mas, e apesar de ficar muito bem a inauguração do teu cantinho, não foi das coisas que já mostraste das que mais me agradou. não porque não esteja bem escrita que está. Acho que talvez haja uma ausência de ritmo ou de outra coisa qualquer que prenda o leitor.

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Re: Amor Impossível

Postby Samwise » 23 Jan 2009 11:02

Eu tenho uma opinião algo contrária à do Pedro - achei este texto excelente, entre os que mais gostei dos que te vi escrever.

É muito belo e sereno. Há uma figura de estilo qualquer (agora não me lembro como se designa) que atribui sentimentos e humanismos a coisas que não estão estão habilitadas a tê-los - e aqui temos uns mistura de várias dessas dimensões do ponto de vista de uma árvore: sentidos, sentimentos (amor, desilusão), pensamentos, recordações, ... tudo numa celebração angustiante à vida que passa, que vai passando, e que inevitavelmente chegará a um fim.

A última frase está muito boa para encerrar a narração! :notworthy:

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Re: Amor Impossível

Postby Lazy Cat » 23 Jan 2009 13:08

Sam, será a personificação, a figura de estilo que procuras? Ou será outra qualquer que também não me lembro?

Gostei deste texto. Confesso que não me cativou logo nas primeiras palavras, pelo que li na diagonal. Mas depois percebi que o sujeito era uma árvore, e voltei atrás para ler como deve de ser. E gostei, sim senhora, gostei muito. =)
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Re: Amor Impossível

Postby Samwise » 23 Jan 2009 13:12

Lazy Cat wrote:Sam, será a personificação, a figura de estilo que procuras? Ou será outra qualquer que também não me lembro?

Gostei deste texto. Confesso que não me cativou logo nas primeiras palavras, pelo que li na diagonal. Mas depois percebi que o sujeito era uma árvore, e voltei atrás para ler como deve de ser. E gostei, sim senhora, gostei muito. =)


Sim, Lazy, era a personificação que andava à procura (ver shoutbox :tongue:). Também considerei figura "animismo", que é ligeiramente diferente ("Atribuição de vida a seres inanimados"), mas julgo que uma árvore não se qualifica como sendo um ser inanimado...

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Re: Amor Impossível

Postby Lazy Cat » 23 Jan 2009 13:24

Oops! A shoutbox passou-me ao lado. Peço desculpa :biggrin:

Pois um animismo era o que a árvore queria fazer com o seu objecto de devoção. =P Por acaso fiquei sem perceber muito bem o que era... Uma rocha? Uma estátua? Bem, era qualquer coisa de pedra!
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Re: Amor Impossível

Postby Aignes » 24 Jan 2009 01:17

Era uma rocha, era...um bloco de granito qualquer. Obrigada pelos comentários.

Eu também não gosto muito do resultado dos meus textos quando tento escrever sobre um tema mais para o lamechas. Primeiro, só surgem assim muito de vez em quando, e depois acho-os sempre, bem...lamechas. Não é o meu tema preferido, e isso se calhar nota-se de uma forma ou de outra. Este surgiu por causadesta imagem, apesar do conceito depois ter sido um bocadinho alterado.

Mas este como é uma árvore e tal, até disfarça. :rolleyes:
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