Fumo

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Aignes
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Fumo

Postby Aignes » 15 Feb 2009 02:19

Fascina-me o acto de levar um cigarro aos lábios e sorver deliciadamente o fumo que dele se evapora. Dois dedos erguidos segurando levemente o cigarro subtilmente periclitante dirigem-se à boca e transportam o alívio como se escrito pelas linhas cinza que revoluteiam pelo ar. A minha mãe fumava e era mais bonita enquanto fumava. Semicerrava os olhos de uma maneira quase sedutora, enquanto juntava os lábios num formato amoroso, a posição descontraída que se seguia, a cabeça que pendia para um lado enquanto expirava o fumo com a boca ligeiramente virada para cima, lentamente, muito devagar, com todo o cuidado. Era de manhã e ela estava na ombreira da porta encostada, eu chegava pequeno de pés quase nem tocando no chão para bolachas de chocolate ao domingo de manhã, ela era uma figura reconfortante, negra recortada contra o sol quente, o brilho incandescente do cigarro a arder na ponta das mãos. Mais tarde, ela era a figura esbelta recortada contra o brilho da cidade quando eu chegava tarde a casa, a ponta viva do cigarro ardendo contra o escuro da noite e da solidão dela. Às vezes parecia que era mais uma estrela, aquele bocado brilhante que lhe era tão intrínseco, era a estrela que a guiava, e ela sorvia-lhe o brilho como se o quisesse dentro do peito.

As mulheres da minha vida fumavam todas e ao fim de algumas comecei a suspeitar que a influência da minha mãe teria alguma razão nisso. Consigo vê-las a todas a fumarem, sentadas na mesa da cozinha, ou reclinadas no sofá, ou de pé à minha espera, ou entre os lençóis ainda desmanchados. De muitas já não me lembro dos pormenores, do nome, da casa, do tacto das suas peles debaixo das minhas mãos. Mas a todas ainda consigo imaginar cada posição enquanto sorviam o cigarro, cada particularidade dos cheiros das marcas diferentes que fumavam, uma que transportava as entranhas do cigarro numa pequena caixa de metal, e os seus dedos experientes que enrolavam a mortalha e a pequena língua afiada que se revelava para lamber o papel. Ela dizia que lhe sabiam melhor assim, feitos à mão, na altura.

Há uma fotografia do meu avô a fumar de uma cigarrilha comprida em cima da cómoda do corredor da minha avó velhinha. A fotografia tem tantos anos que está amarelada e deslavada, parece-me sempre que mais uns dias e desaparece qualquer vestígio de que alguma vez albergou um ser humano. A minha avó dizia que ele parecia da nobreza, naquela fotografia. Que quando ela o conhecera era assim, bonito, parecia um galã dos filmes. Dizia que sentia falta do cheiro do fumo que ele fazia quando fumava e do sabor do tabaco na sua boca quando o beijava. Quer dizer, esta parte ela não dizia mesmo, mas eu imagino que seja verdade.

Desta forma rodeado, nem imagino porque nunca fumei. Falta de curiosidade, por estar tão habituado a vê-lo à minha volta. Talvez não quisesse desmistificar o acto, como poderia eu admirar uma mulher a fumar, estando eu de cigarro na mão? Que subtileza haveria num gesto que eu próprio repetiria mil vezes, como poderia não se tornar banal, como poderia satisfazer-me?

O médico tinha um maço de cigarros no bolso da bata branca quando me disse por outras palavras que os meus pulmões eram negros, mesmo negros, e que apodreciam pelo cancro que os carcomia. Quando me disse que mais valia a pena ter fumado toda a vida, pela maneira como estavam. Quando me encaminhou porta fora, uns minutos depois, e quando pela primeira vez na vida pensei quem me dera ter um cigarro para fumar.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

Pedro Farinha
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Re: Fumo

Postby Pedro Farinha » 15 Feb 2009 14:35

Muito bom Aignes. Gostei particularmente do primeiro parágrafo e da forma como é descrita a mãe do ponto de vista do filho. Depois, a parte das mulheres poda estar um pouco melhor, a meu ver, ou seja acho que não conseguiste (eu também não conseguia9 dar imagens tão fortes como deste relativamente à mãe ou ao avô sob os olhos da avó. E, finalmente, le grand finale, um twist inesperado ainda que tipico - morremos sempre pela mão do que admiramos.

:thumbsup:

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Re: Fumo

Postby Aignes » 17 Feb 2009 23:14

Obrigada, Pedro. Só me lembrei de matar o senhor quando já ia a meio do texto.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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