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Postby Aignes » 10 Mar 2009 01:44

Os seus cabelos eram ruivos, muito ruivos. Eram ruivos como uma tocha ardente, um farol desalinhado pelo vento em fios como dedos querendo qualquer coisa, revoltos. A sua pele era pálida translúcida, naquela parte do peito entre o pescoço e os seios desenhavam-se as veias a roxo, escritas como um mapa para o seu corpo, pequenas pintas castanhas espaçadas cobrindo suavemente a palidez, mas não a disfarçando. Os pequenos pontos adensavam-se sobre o nariz, um pouco nos ombros, e estavam majestosamente pintados nas suas maçãs do rosto. Nos braços notava-se melhor a sua tez um tanto cadavérica, um tom esquisito, uma aura pouco saudável, nem por isso menos bela. Na sua face recortavam-se uns lábios roxos pelo frio e gretados pelo vento. Finos, muito finos, comprimidos numa expressão de desinteresse desesperado, como de alguém preso no mesmo sítio há mais anos do que consegue contar. Os seus olhos de um azul pálido em dias de sol eram hoje o espelho daquelas águas e daquele céu, eram cinzentos e sem vida, tremendo e agitando-se, as ondas que explodiam contra a areia e o vento que movia as nuvens em vórtices descontrolados: sem vida. As mãos tinham a pele sensível da exposição prolongada às intempéries e agarravam-se encrespadas à rocha, as unhas cravadas com bocados de concha e areia espetados na carne, os nós dos dedos pálidos, de osso a rasgar a pele, que se espetavam contra a chuva pequenina que caía, agora. Era o vento e a chuva e o mar tumultuoso que batiam nela e na rocha, o corpo a pingar, agora húmido seco ao vento, agora encharcado, e os cabelos a tocha que já vislumbramos ao longe. Dos seus mamilos hirtos pinga água salgada que escorre criando um pequeno lago no seu umbigo quando o mar acalma entre duas ondas; os seus pequenos seios espetados ao vento.

Lentamente, como que absorta em pensamentos profundos e como se não fizesse parte de si, movimenta a cauda muito lentamente na água. Sente as correntes fortes que puxam as suas escamas para o fundo, que a tentam seduzir acariciando-lhe a barbatana imensa, que brilha como prata quando a deixa emergir e receber alguns raios de sol fugidios. O instinto que não lhe é humano continua a chamá-la, o conforto das águas calmas da profundidade pede a sua presença nos seus braços, a grande escuridão quer tocar os seus movimentos teleósteos. Ainda não. Observa com um aborrecimento concentrado a linha da costa, o recorte superior dos precipícios que descem para este abismo. Não há farol além dos seus cabelos e não há vida nestes dias de tempestade. A vida esconde-se em grutas e puxa os ninhos para dentro da rocha e fecha conchas e recolhe-se dentro de si própria e das paredes de pedra que continuamente resistem a esta força inexpugnável. Desce o olhar, agora. Há um homem dentro de água. Um par de mãos mantém um ritmo constante de aparecimentos e desaparecimentos sobre e sob as águas movimentadas: cada espaço entre ondas é mais um alento para vir ao de cima, cada onda um inferno de espuma e água dentro do seu corpo como se o quisesse rebentar. Ela sabe como é. A sua túnica branca encharcada é um peso enorme que o puxa, as botas já as perdeu há muito. Sente a cabeça pesada da água que já engoliu, esbraceja mais um bocado.

Ela olha para a mancha de cabelo negro que acompanha o ritmo daquelas mãos esbracejantes. Não há aflição no seu olhar, não há urgência nos movimentos de salvamento que não faz, não há um grito ecoado naquelas rochas de séculos observados, não há qualquer sentimento dentro do seu peito que descrave as suas mãos da rocha e faça bater a sua cauda de peixe até ao homem. Por trás de si os restos mortais da caravela ainda se quebram violentamente contra alguns rochedos perdidos, pedaços de madeira flutuam como caixões de memória até à praia, onde se vão prostrar, desalentados, e os seus corpos inchados de água no fundo do mar são já debicados pelo próximo passo da cadeia alimentar. Este sobreviveu. Este agita os braços e não quer morrer. Este é igual aos outros todos que estes olhos sem vida já viram mil vezes, já salvaram mil vezes, já deixaram ir mil vezes. A todos os outros cujas mãos se recusaram a aceitar o negrume e esta imensidão revolta que os queria levar, talvez os mais fortes, talvez os mais estúpidos. Igual a tantos outros. Com uma corrente ele ficou virado para ela, não pode deixar de ver por entre picos e vales de água a sua figura flamejante no alto da pequena rocha. As mãos estenderam-se com mais força, respirou com mais vontade, até gritou. Afinal estava ali alguém, só precisava de uma mão. Ela olhou para a sua figura imergindo e emergindo continuamente. Era só uma braçada. Uma braçada e uma mão. Ela viu os outros todos no seu rosto, e os outros todos que não queriam o mar, os outros todos que encharcados depositava na areia, os outros todos que iam e não voltavam, os outros todos que não olhavam para trás. E ela entre os bocados de madeira e a imensidão daquele mar todo outra vez. A sétima onda veio, finalmente. A sétima onda rebentou contra os precipícios afiados espetados mar adentro. Uma mancha escura esbatida contra o negro daquela rocha. Os seus olhos não tremeram, nem mudou o movimento calmo da sua cauda. Era espuma e as águas escarlate escuras.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Ruivo

Postby Pedro Farinha » 10 Mar 2009 08:37

Muito bom Aignes sob quase todos os aspectos. Desde a descrição física da sereia

A sua pele era pálida translúcida, naquela parte do peito entre o pescoço e os seios desenhavam-se as veias a roxo, escritas como um mapa para o seu corpo, pequenas pintas castanhas espaçadas cobrindo suavemente a palidez, mas não a disfarçando.
até os sentimentos e a forma como ao ver aquele naufrago, ela reflecte sobre todos os outros e a sua frustração.

Gostei mesmo muito.

A única coisinha, pequenina, que acho que poderias ter feito diferente: era teres colocado alguns parágrafos no texto para deixar respirar. E para que a mancha do texto ficasse mais atraente. Pelo menos para mim, mesmo num texto desta dimensão - vê-lo assim tão compacto é factor de dissuasão da sua leitura. - Mas isto são peanuts.

O resto está mesmo muito bem, com algumas partes que me encheram as medidas como por exemplo.

Não há aflição no seu olhar, não há urgência nos movimentos de salvamento que não faz, não há um grito ecoado naquelas rochas de séculos observados, não há qualquer sentimento dentro do seu peito que descrave as suas mãos da rocha e faça bater a sua cauda de peixe até ao homem. Por trás de si os restos mortais da caravela ainda se quebram violentamente contra alguns rochedos perdidos, pedaços de madeira flutuam como caixões de memória até à praia, onde se vão prostrar, desalentados, e os seus corpos inchados de água no fundo do mar são já debicados pelo próximo passo da cadeia alimentar. Este sobreviveu. Este agita os braços e não quer morrer. Este é igual aos outros todos que estes olhos sem vida já viram mil vezes, já salvaram mil vezes, já deixaram ir mil vezes.



:notworthy: :notworthy: :notworthy:

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Re: Ruivo

Postby Aignes » 10 Mar 2009 12:19

Obrigada pelas palavras, Pedro. E por leres isto às 7 da manhã :blink:

Tens razão, o texto estava um bloco assustador. Já editei e pus uns parágrafos no meio para disfarçar, se bem que agora que já está escrito já não consigo pôr mais parágrafos sem que me pareça esquisito.
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Re: Ruivo

Postby Ripley » 10 Mar 2009 13:27

Aignes, fiquei siderada.
Há normalmente uma tendência para encararmos as sereias como algo com características muito humanas. Aqui fizeste exactamente o oposto.
A tua sereia é um ser vivo, capaz de raciocínio mas ainda assim inumano, indiferente. Com olhos que não tremem.
E a descrição do ambiente marinho cativou-me muito :smile:
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Ruivo

Postby croquete » 10 Mar 2009 15:02

Aignes.
:smile:
Gostei muito de ler o texto.
O ambiente está muito bem criado, é original na prespectiva sem ser rebuscado.
E usas muito bem os adjectivos.
O comentário sobre os parágrafos parece-me interessante, diz respeito ao ritmo do texto, uma ideia seria coloca-los (os parágrafos) a seguir às repetições de palavras na mesma frase.
Assim:
"Lentamente, como que absorta em pensamentos profundos e como se não fizesse parte de si, movimenta a cauda muito lentamente na água."
ou
"Este é igual aos outros todos que estes olhos sem vida já viram mil vezes, já salvaram mil vezes, já deixaram ir mil vezes."

Ponho como analogia a diferença entre comer um bolo de uma só vez ou aos bocadinhos, como os gulosos.
Os leitores (e também falo por mim) são gulosos.

Mas isto é só técnica de escrita, o que é bonito e importante, está lá.

:thumbsup:

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Re: Ruivo

Postby azert » 10 Mar 2009 16:03

Um texto recheado de excelentes descrições!! :notworthy: Para referi-las todas, teria que copiar o texto quase todo, por isso, deixo apenas uma referência a uma imagem de que gostei especialmente:
<!--sizeo:1-->[size=50]<!--/sizeo-->
<!--sizeo:1-->[size=50]<!--/sizeo-->pedaços de madeira flutuam como caixões de memória até à praia<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->
Concordo com a observação do Pedro relativamente à mancha do texto (que tu já alteraste). Confesso que ontém à noite, perante tanta palavra junta, não me atrevi a ler o texto. :blush: Ainda bem que o fiz hoje.
Image Image

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Re: Ruivo

Postby Aignes » 11 Mar 2009 20:12

Agradeço os comentários e as sugestões. :smile: Já agora, por acaso ninguém me consegue confirmar o plural de vórtex?
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Re: Ruivo

Postby Thanatos » 11 Mar 2009 20:16

Aignes wrote:Agradeço os comentários e as sugestões. :smile: Já agora, por acaso ninguém me consegue confirmar o plural de vórtex?


Moça, não seja por isso! O teu problema é que vórtex é na nossa língua vórtice, sendo o plural vórtices. :wink:
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Ruivo

Postby Aignes » 11 Mar 2009 20:25

Thanatos wrote:
Aignes wrote:Agradeço os comentários e as sugestões. :smile: Já agora, por acaso ninguém me consegue confirmar o plural de vórtex?


Moça, não seja por isso! O teu problema é que vórtex é na nossa língua vórtice, sendo o plural vórtices. :wink:


Ah, I see... bem, vou alterar. Pena que vórtex é tão mais giro.
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