Para os escritores

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Aignes
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Para os escritores

Postby Aignes » 20 Oct 2009 23:48

Hoje o mundo está a meus pés. Não porque eu seja mais do que os outros, não porque tudo o resto me seja inferior, mas porque caminho sobre o mundo com uma aura nauseada à minha volta, como se não lhe tocasse, eu invisível, Jesus caminhando sobre a água. Não é que tenha asas dobradas que se desenrolam nesta tristeza, que me puxem um bocadinho mais acima (afinal sou tão pequena-insignificante no meio de toda a gente que faz a multidão da hora de ponta), não é que veja melhor nem oiça melhor. É como se tivesse caminhado imenso, imenso, e agora estou aqui sobre todos os outros, a olhá-los do alto de uma montanha coberta de gelo, porque aqui em cima é solitário e frio e o vento assobia quando passa por nós e pelas frinchas da rocha negra. Deito-me no chão. Vejo os milhares de pares de sapatos que passam por mim, indiferentes, até uma velhota me dirigir a voz preocupada e o segurança do metro me levantar por um braço. Sigo por entre o resto das pessoas, apoiada pelos rostos que não me vêem. Mas sim, é verdade, mesmo deitada no chão sou maior do que tudo o resto, mesmo que me pisem quando por mim passam sem querer saber qual o meu nome ou porque me deitei no chão, mesmo assim estão aos meus pés.

Somos maiores pela indiferença, pela maneira como frios, olhamos calculistas para um pormenor interessante, como somos cientistas do mundo observável que nos rodeia, e sem poder senti-lo directamente absorvemos tudo com os olhos, sôfregos, e ainda assim indiferentes; quando nos olham algo interessados e curiosos não olhamos directamente e escondemos o sorriso triste que levamos o resto do caminho. Da nossa voluntária ignorância do estado dos outros nasce esta superioridade, como antropólogos infiltrados, depois vimos para casa escrever os resultados de um dia de pesquisa, adornando-os de coisas belas e palavras que soem bem e construções frásicas que evidenciem as coisas mais interessantes que vimos hoje. Às vezes, matamos um deles, e que prazer nos dá o sangue escorrendo da nossa caneta, perfurando o papel suavemente como um crime passional. Também nos dói, porque ainda hoje os conhecemos já estão a morrer; mas às vezes há felicidades que nos trazem lágrimas aos olhos, e essas lágrimas mancham o sangue coagulado da nossa página onde morrem uns e nascem outros, estes agora apaixonaram-se e deixem-nos gozar enquanto podem, enquanto não nos aborrecermos e lhes tirarmos este bocadinho.

Do meu canto pequeno e insignificante, passo o meu olhar analítico e transparente por cima deles todos. Remoo de joelhos encostados ao peito e cabeça contra o vidro a minha frieza de cientista. Alguns olham de volta, outros ignoram, outros nem se apercebem. Devagarinho, pequenas gotas de vidas pendentes como fios de pérola vão brotando da ponta da minha caneta. Sinto-me uma transgressora, alterar os factos desta maneira, ver segundos sentidos onde não existem, dar-lhes uma história, um nome, uma vida, palavras que saem das suas bocas que nunca saíram. Sorrio. Hoje o mundo está a meus pés.



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Isto faz lembrar o que dizia o outro: "Porque eu sou do tamanho do que vejo/E não do tamanho da minha altura..."

Deste não gosto muito, mas já não escrevia há uns bons tempos.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Para os escritores

Postby Arsénio Mata » 21 Oct 2009 00:16

Aignes wrote:Somos maiores pela indiferença, pela maneira como frios, olhamos calculistas para um pormenor interessante, como somos cientistas do mundo observável que nos rodeia, e sem poder senti-lo directamente absorvemos tudo com os olhos, sôfregos, e ainda assim indiferentes


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Gostei muito, especialmente desta parte... :thumbsup:
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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Re: Para os escritores

Postby Pedro Farinha » 21 Oct 2009 00:51

Eu gostei Aignes, pode não ser dos teus melhores, mas gostei da perspectiva fria e sobranceira do cientista que ao mesmo tempo (quase) parece ter alguma inveja dos "mortais" que sentem e vivem a vida quotidiana.

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Re: Para os escritores

Postby Ripley » 21 Oct 2009 10:06

Aignes wrote:Devagarinho, pequenas gotas de vidas pendentes como fios de pérola vão brotando da ponta da minha caneta. Sinto-me uma transgressora, alterar os factos desta maneira, ver segundos sentidos onde não existem, dar-lhes uma história, um nome, uma vida, palavras que saem das suas bocas que nunca saíram. Sorrio. Hoje o mundo está a meus pés.


:thumbsup:
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Re: Para os escritores

Postby Samwise » 21 Oct 2009 10:24

Está um bocado trapalhão na gramática, mas o conteúdo é muito bom. Gosto da forma como moldas esse conteúdo utilizando as ferramentas estilísticas - o teu estilo. :smile:
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Re: Para os escritores

Postby Aignes » 21 Oct 2009 21:48

Obrigada pelos comentários :smile:

E sim, foi escrito assim um bocado às três pancadas.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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