Falcão Navegante - II

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Ripley
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Falcão Navegante - II

Postby Ripley » 03 Feb 2010 16:43

Sento-me ao sol, num banco de pedra gasta.
Olho para a concha das minhas mãos: vazia. Os sonhos que ali habitaram, como pérolas, quebraram-se como um barco numa tempestade oceânica, esfumaram-se como nuvens desfeitas pelo vento marítimo, desapareceram como pedras que se afundam nas profundezas.
Devia aproveitar a corrente, subir a um lugar alto e levantar voo. Devia. Mas desabituei-me e perdi a vontade de voar sozinha por períodos longos.
Suspiro e recordo.

Sonhei que fôssemos Mar e quis que as nossas águas comungassem até que ninguém soubesse ao certo onde um terminava e o outro começava. Quis que fôssemos como as águas mediterrânicas, onde não se tem a certeza dos limites do Jónico ou do Adriático... juntos, lado a lado, partilhando uma fronteira amorosamente difusa e invisível. Juntos mas não o mesmo, partilhando espaços e mantendo separadas as identidades.

Sonhei que fôssemos Navegantes, enfrentando ondas e tempestades, ventos e calmarias, sóis abrasadores e noites estreladas. De mãos dadas partilhando os momentos de uma longa viagem.
Mas tu partiste sem mim rumo ao Oceano, grande e bravio. Entre nós se agigantaram as Colunas de Hércules e eu fiquei para cá do estreito, sulcando águas menos profundas e ondas mansas onde as minhas lágrimas se perderam, água salgada na água ainda mais salgada, as mãos desertas das tuas.

Atraquei o barquito agora inútil que um dia quisera ser escuna e onde quis que para sempre navegássemos juntos, recolhi as velas tombadas e desci para o cais. O Ged ficou como eu, em doca seca, o bojo arredondado sem ondas que o embalem, a quilha sem um destino para onde ir.
Afastei-me sem olhar para trás, caminhei ainda com pernas de mar até o primeiro jardim que se me apresentou, sentei-me e aqui me deixei ficar, olhando para as mãos.

Sim, porque nestas mesmas mãos que se entrelaçavam nas tuas eu trazia sonhos - luminosos mas sólidos, como pedras preciosas - e dentro de mim, ocultos atrás de um chakra, algo que julgava serem projectos, realidades futuras adiadas por conveniências mais burocráticas do que necessárias.
Oh, era capaz de voar como um falcão peregrino, tinha asas maiores que as de uma águia e no olhar a certeza do destino para onde ia, tinha o mar como horizonte e a terra a meus pés.
Hoje? Tenho sobre as asas dobradas um xaile rasgado que não me aquece e aos pés um monte de cacos, fragmentos dos sonhos que guardava como tesouros. Rodeia-me uma aura de tristeza, como um nevoeiro onde perco os passos, sem rumo, deixando marcas desalentadas que depressa se apagam.

Os arrojados projectos, tornados dúbios, são agora meras fantasias, baças, magras, esquálidos reflexos dos seus antecessores, mas que por vezes ainda me apaziguam um pouco a alma e por isso as escondo, ao cantinho, no mesmo bolso do coração onde te guardei a ti.
Talvez um dia, como a pequena vendedeira de fósforos, as tire e incendeie para me aquecer e iluminar. Mas ambos sabemos como essa história terminou.

Até lá, acredito ainda que o fim é algo em aberto.
Que existem possibilidades não exploradas, meios, rotas ainda por descobrir.
Que existam sonhos inquebráveis que se tornam realidades incontornáveis.
Acredito, e às vezes ainda sonho.

Então, talvez uma destas noites os nossos sonhos se toquem, pontes para um reino paralelo.
Talvez esta noite, ou uma destas noites, nesse mundo irreal, possa de novo estar um pouco contigo.
Se assim for, não estranhes se num amanhã qualquer acordares com uma recordação.
Porque uma destas noites, no mundo dos sonhos, voltarei a voar - e procurar-te-ei para te segurar nas mãos e dizer-te uma vez mais que te amo.

Até lá, aqui me fico. Sentada ao sol, contemplando as mãos em concha.
Vazias.
Last edited by Ripley on 24 Mar 2010 16:04, edited 1 time in total.
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Re: Falcão Navegante

Postby Samwise » 03 Feb 2010 17:24

Uma longa e sentida "recordação", envolta numa espessa névoa de figuras de estilo: imagens, metáforas, comparações, personificações...

Retenho esta singela frase que considero bastante evocativa:

Ripley wrote:Se assim for, não estranhes se num amanhã qualquer acordares com uma recordação.
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: Falcão Navegante

Postby Madame Butterfly » 03 Feb 2010 22:54

Ripley wrote:Hoje? Tenho sobre as asas dobradas um xaile rasgado que não me aquece e aos pés um monte de cacos, fragmentos dos sonhos que guardava como tesouros. (...)
Então, talvez uma destas noites os nossos sonhos se toquem, pontes para um reino paralelo.
Talvez esta noite, ou uma destas noites, nesse mundo irreal, possa de novo estar um pouco contigo.
Se assim for, não estranhes se num amanhã qualquer acordares com uma recordação.
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Amei este texto. Não tenho palavras para adjectivar o quanto gostei destas frases...


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