Noite de nevoeiro

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Ripley
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Noite de nevoeiro

Postby Ripley » 14 Apr 2010 17:38

Nota prévia: este é o prólogo de um projecto que iniciei. Coloquei-o aqui para ter algum feedback sobre a forma e possível interesse. Mas também para espicaçar um bocadito quem pensa que a criatividade da sai-fai tuga actual se resume a duas ou três figuras publicadas e muito ufanas disso...
Quanto à qualidade isso é outra conversa - mas não, eles não são os únicos
:twisted:


Noite de nevoeiro

A nave pousou com um zumbido surdo.
Dois seres envergando fatos espaciais verificavam qualquer coisa num visor e um deles falou com uma voz que parecia o sibilar de uma serpente, típico da língua theriana (para facilitar a leitura, os diálogos foram traduzidos).

- Onde estamos, Klorn?
- Ponto de encontro número 23-tau.
- Tens a certeza de que estamos em Trrah?
- Certeza? A equivalente à confiança no navegador automático. Foste tu quem inseriu as rotas e os pontos de contacto.
- Não te armes em espertinho... Isto não parece Trrah! Era suposto aquilo lá em baixo estar cheio de gelo!
- Mpal, isso foi antes da tua missão a Vnoo ... Trrah tem períodos termicamente instáveis. Isso já tinha sido documentado pelo Grande Astrologista Xukey nas observações do megaciclo passado. Tu vieste numa altura de glaciação!
- Não estou muito convencido, Klorn. E lá porque és genro do Xukey não tens que o achar a autoridade máxima em astrologismo.
- Quem lhe deu essa categoria foi o Chefe do Conselho Universal, Mpal... Hument louvou-o no seu discurso e prestou-lhe homenagem.
- Balelas!!! Só defendes as opiniões de Hument por ser co-irmão da tua matriarca mais velha!
- Não vale a pena discutir, Mpal. A verdade é simples: o navegador automático seguiu as tuas coordenadas relativas, que foram validadas pelo Centro Exploratório. Se não há gelo lá em baixo é porque não estamos na altura dele!

Mpal resmungou algo sobre o nepotismo na Divisão Astro-exploratória do Conselho para o Desenvolvimento e virou-se para outro monitor, procurando sinais de vida.

- Estava ali qualquer coisa há pouco, Klorn. Eu sei que estava.
- Mas qual o problema, Mpal? O Centro não exigiu que o exemplar estivesse vivo.
- Pois não – mas os créditos no nosso registo serão maiores!
- Hmm... tens razão. Então procura lá outra vez.

- Lá está outra vez! Klorn, apanhámos um! Mas... o sinal é irregular...
- Talvez esteja doente ou ferido...
- É provável, sim! Então talvez torne mais fácil a recolha!

Levantou-se rapidamente e dirigiu-se à porta estanque. Klorn chamou-o.
- Mpal, coloca o capacete! A atmosfera pode não ser respirável!
Com uma risada, Mpal abriu a porta enquanto Klorn, alarmado, tentava alcançar o respirador mais próximo.
- Não sejas medricas, Klorn, é seguro... ou achas que quando cá estive não andei já a explorar sem capacete? Vá, podes ir fazer queixinhas ao teu sogro quando voltarmos. Por mim, vou apanhar o espécime!

Devagar, Mpal desceu a rampa. A nave estava envolta em vapor – a temperatura ambiente era muito mais alta do que se recordava.



O chão estava juncado de formas de vida inertes. O sensor não detectou sinais de vida em qualquer delas e Mpal foi avançando. Não se lembrava de ter visto alguma vez tão grande concentração de bípedes no mesmo sítio. E estes tinham forma e tamanho diferentes dos que encontrara na sua última visita.
Um deles, meio soterrado pelos outros, emitiu um som e Mpal apressou o passo. Confirmou os ténues sinais que lhe abriam a possibilidade de um reconhecimento acrescido (e traduzido em créditos) no regresso ao lar e pegou no bípede com os membros superiores possantes.

Voltou a entrar na nave carregando o ser inanimado. Quando o colocou sobre a plataforma de análise, Klorn juntou-se-lhe, visivelmente entusiasmado. Ambos tiraram lentamente o revestimento de placas metálicas que cobria parte do corpo do bípede.
- Isto está cheio de incongruências, Klorn! Sob as placas, o bípede tem pele nua, como vês... mas o analisador diz que tem sangue quente!
- O que tem isso, Mpal? Já encontrámos outras espécies de sangue quente antes...
- Aqui em Trrah? Não como estas, Klorn! Os bípedes que vi na outra missão eram escamosos de sangue frio e os gigantes peludos de sangue quente eram quadrúpedes! Mas nem uns nem outros cobriam os corpos com materiais artificiais!
- Vamos limpar o espécime para ver melhor...
- Vamos mas é levá-lo já para casa antes que morra! Os estudiosos que o limpem, alimentem e analisem...


A nave estremeceu com um zumbido em crescendo. Os suportes de aterragem levantaram-se do pó no meio do intenso vapor causado pelo diferencial térmico entre o ar ambiente e a liga amino-metálica arrefecida da nave theriana.

Lentamente, a nave elevou-se no céu.



Foi assim que, numa noite de nevoeiro, D. Sebastião I de Portugal partiu para Therios.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Noite de nevoeiro

Postby Samwise » 14 Apr 2010 18:30

Ripley, gosto do teu estilo de escrita, em que resultado estaria perto de um conceito de Ficção Científica Soft (não no sentido contrário a Hard, mas mais perto do Light) se este existisse. E agradável de seguir e dá para brincar um pouco com as situações e com os diálogos dos personagens. Imaginando esta cena com um tratamento mais à séria, teríamos uma equipa de extra-terrestres bem mais nervosa e preocupada com possíveis adversidades por parte dos alienígenas do planeta terra. Teríamos também uma descrição muito mais sangrenta das "sobras" no campo de batalha. Isto é não é uma crítica negativa, é apenas o evidenciar de um estilo concreto escolhido parra narrar a história. Já encontrei este estilo no outro conto que ganhou o concurso.

Como crítica concreta ( :mrgreen: ), não entendo como uma raça de extraterrestres viajantes das estrelas, e que aparentemente têm uma lifespan de milhares (ou milhões) de anos, considera uma incongruência a evolução natural das espécies e o nascimento civilizacional num planeta com as características da terra.

- Isto está cheio de incongruências, Klorn! Sob as placas, o bípede tem pele nua, como vês... mas o analisador diz que tem sangue quente!
- O que tem isso, Mpal? Já encontrámos outras espécies de sangue quente antes...
- Aqui em Trrah? Não como estas, Klorn! Os bípedes que vi na outra missão eram escamosos de sangue frio e os gigantes peludos de sangue quente eram quadrúpedes! Mas nem uns nem outros cobriam os corpos com materiais artificiais!


Dizes que isto é o prólogo para um projecto que iniciaste. Só posso dizer que estou com vontade de ver esse projecto aparecer à luz do dia. Tinha piada D. Sebastião regressar finalmente ao convívio dos portugueses, numa noite de nevoeiro... ;)
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Re: Noite de nevoeiro

Postby MAGG » 14 Apr 2010 18:51

Ripley wrote:Foi assim que, numa noite de nevoeiro, D. Sebastião I de Portugal partiu para Therios.


Cativaste o meu interesse especialmente com esta ultima frase :tu:

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Re: Noite de nevoeiro

Postby Ripley » 14 Apr 2010 18:53

Comentário ao comentário ;) do Sammy:
Digamos que Mpal é um bocadinho... trengo. :rolleyes: Ao andar de planeta em planeta a recolher amostras não tem noção de quanto tempo terrestre de facto passou desde a última visita, até porque entretanto teve a missão de Vnoo. Foi uma questão de jogar com a contracção temporal - que para os estáticos vai dar ao mesmo que uma grande lifespan - em viagens em diferentes direcções/destinos/distâncias espaciais. Como na última visita a Terra estava em período glaciar, foi "fácil" imaginar que ele estaria "a leste" da evolução sofrida... até porque em organismos de vida mais curta as evoluções/mutações são normalmente mais rápidas.

Tinha ainda outra agravante à "trenguice", que eliminei porque queria que isto fosse apenas um teaser, mas que ajudava a explicar a atitude/forma de estar de Mpal quer em relação às missões quer para com Klorn. Se conseguir levar o projecto a bom porto, isso irá surgir mais tarde... e mais não digo por agora.


@Magg: toda a história começou com a partida de D. Sebastião... depois é que inventei o resto :mrgreen:
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