Ficções

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Ripley
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Ficções

Postby Ripley » 24 May 2010 13:46

Do fingimento dos poetas

Em meia dúzia de linhas, criamos/recriamos realidades alternativas/virtuais/deslocalizadas no espaço-tempo.
Espraiamos uma dor real espelhando-a na fantasia - impessoalizada; no tempo - deslocada. Até que se torne tão irreal como um sonho. Ou um pesadelo.

Concentramos a dor imaginária nesse espaço/tempo retratado, virando contra ela as baterias da negação.
Negando a dor imaginada, afastamos a dor real, ficcionando-a para recreação, nossa e de outrem.

Por fim, terminado o expurgo, rimo-nos dizendo que tudo é virtual, irreal, imaginário. Rasgando as folhas escritas rasgamos também o retrato ficcionado, ficcionário, lançando-as num vento de alívio, também ele muitas vezes fictício, fingido.

Mas só nós sabemos onde, no meio de tudo isso, se quedou a realidade, mudamente escondida sob o manto da fantasia.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Ficções

Postby Aignes » 24 May 2010 17:15

Muito bom. Boa descrição de um tema que já não é novo. ^_^
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Ficções

Postby Pedro Farinha » 24 May 2010 22:34

Ripley wrote:Mas só nós sabemos onde, no meio de tudo isso, se quedou a realidade, mudamente escondida sob o manto da fantasia.


Já não é mau, por vezes, chega a um ponto em que nem o próprio sabe onde começa a realidade e acaba a fantasia

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Re: Ficções

Postby Samwise » 24 May 2010 22:41

Do fingimento dos poetas surge por vezes a mais doce das realidades, ainda que real apenas na mente de quem a criou. Só por esse facto, o fingimento dos poetas é comparável à bola da criança no final do poema do Gedeão.

Gostei muito desta pequena/grande reflexão, Ripley, que junta realidade e imaginação num jogo de espelhos em que as partes de confundem e alternam (e ainda que atravessada pot um travozito de amargura).
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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