Regresso ao Futuro

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Ripley
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Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 06 Sep 2010 18:43

I


Sentado na enfermaria, o comandante abanou a cabeça ao ver os fotogramas. Os danos pareciam não ser significativos, mas quanto tempo demorariam a reparar?
Uma sonda orbital de análise topográfica confirmara-lhe terem atingido o seu destino mas os dados não batiam certo. Se a sua ideia estivesse correcta, talvez fosse complicado obter o material necessário.
Activou o intercom de pulso.

- Nada no espectro rádio, Takei?
- Nada, senhor.
- Aglomerados populacionais?
- Nada de significativo. Raras concentrações luminosas e as existentes são de muito baixa intensidade.
- Ok. Avise-me quando o Doohan tiver a estimativa de reparação. E diga ao tenente Nestor para vir ter comigo cá abaixo.
- Sim, senhor.

O jovem tenente engoliu em seco antes de se aproximar da porta da enfermaria. Respirou fundo, aprumou-se e avançou. Logo que o sensor o detectou, a porta abriu-se automaticamente.

- Não fique aí especado, tenente. Entre.
- Sim, senhor.
- Novidades?
- Nada, senhor. Confirmei que se trata da Terra mas o silêncio é total. Não há qualquer sinal dos satélites.
- Raios... devemos ter vindo parar à era pré-reconstrução. Eu sabia que tínhamos saltado no tempo mas não pensei que fosse tanto. Arranjou-nos um belo sarilho, sabia?
- Meu comandante, eu... eu...
- Bah, a culpa foi minha. O Nimoy estava inconsciente e eu vim para aqui. Deixei-o no comando sem nunca me ter lembrado que você nunca tinha feito uma manobra de Lyvette sozinho. Todas as probabilidades estavam contra si, tenente. Eu é que deveria ter comandado o salto.
- Comandante, o senhor não estava bem! O pedaço de antepara atingiu-o em cheio na cabeça e...
- Chega, tenente. No relatório assumirei total responsabilidade pelo sucedido. Não quero destruir-lhe a carreira, mas vou dar-lhe um pequeno castigo. Os instrumentos da sonda de exploração não devem ter sido afectados. Vai aterrar no continente principal e iniciar uma observação de varrimento à procura de um satélite que ainda funcione.
- Sim, senhor!

...

A cabeça do comandante ainda latejava. O scanner indicara tratar-se de uma contusão ligeira e o dispensador automático de medicamentos injectara-lhe um analgésico mas estava a demorar a fazer efeito. Olhou para o lado, onde Nimoy repousava na outra marquesa. Se fosse o raio do verdusco a comandar o salto teria corrido bem! Mas com ambos incapacitados, o jovem tenente assumira o comando segundo as suas ordens.
Oh, raios! Porque é que não proibira o rapaz de tentar uma Lyvette? Porque não, porque sim, porque... a verdade é que ele teria feito o mesmo. Teria tentado a manobra, e ainda que já a tivesse executado antes, nunca havia garantias de que corresse bem. Fora o caso mais uma vez.

...

- Comandante! Will! Will!
- Hã? O que...? Ah, és tu, Nimoy! Adormeci?
- Efeito do analgésico, comandante. Tomei a liberdade de pedir um ponto de situação.
- E?
- E os dados são contraditórios. O tenente Nestor comunicou não ter localizado qualquer sinal de satélite e inquiriu se deve regressar a bordo ou permanecer em observação.
- Ele que fique lá até novas ordens. Vai ser bom para lhe arrefecer os ânimos.
- Will, meu amigo... tu também terias saltado atrás da nave pirata.
- Eu sei, e é isso que me impede de lhe dar um castigo a sério. Falaste com o Doohan?
- Sim. Diz que as reparações não são complicadas, o escudo dissipou a maior parte da energia. Mas precisa de fulerite para os sensores.
- Não sei se isso será fácil. Acho que viemos parar à época pré-reconstrução. Sabes, depois do...
- Sim. Mas algo não bate certo. Deveríamos ter encontrado vestígios das grandes cidades. Mesmo uma aniquilação em larguíssima escala não destruiria tudo.
- Não, mas a homeostase desencadeou uma série de fenómenos naturais que podem ter acabado com o resto.
- Hmm, é possível. Vou computar essa possibilidade e voltarei a falar contigo depois.


Silenciosamente como era seu hábito, Nimoy saiu da enfermaria deixando o comandante deitado. Este sentia-se exausto apesar de ter dormido várias horas e voltou a adormecer num ápice.
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---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 06 Sep 2010 18:54

II



- Kelley! O que raio é que me deu?
O médico de bordo aproximou-se com um sorriso enviesado.
- Eu? Não lhe dei nada. Foi o computador da nave que avaliou o seu estado e administrou a medicação. Eu só aprovei.
- Não brinque comigo, Kelley! Sou necessário na ponte!
- Will, a nave está pousada. O Nimoy está a tratar de tudo e ninguém precisa de si neste momento. Descanse, é uma ordem!

Segundos depois retinia o intercom do comandante. Este mostrou um sobrolho franzido ao médico, como que dizendo que tinha razão, que era mesmo necessário na ponte. Kelley riu-se.

- Oh, vá lá então! Senão fica aqui a magicar no que se passa e não descansa na mesma.

Sentindo-se ainda um pouco zonzo, o comandante levantou-se e caminhou devagar até ao elevador. A rápida deslocação causou-lhe náuseas mas dominou-as e entrou na ponte, pálido e suado. Com passos hesitantes, aproximou-se da sua cadeira e deixou-se cair sentado.

- Relatório, Takei.
- Senhor, o tenente Nestor comunicou. Diz que lhe parece ter detectado movimento no mar e pede autorização para se reposicionar mais perto da costa.
- Nimoy, que te parece?
- A ausência de comunicações e o baixo índice de concentrações luminosas levam-me a acreditar que será seguro efectuar tal reposicionamento.
- É incrível como já nos conhecemos há tantos anos e ainda não me habituei à tua forma de falar. Continuo a achar que pareces um computador!

Os restantes elementos da tripulação presentes na ponte sorriram de forma não muito disfarçada. Era normal da parte do comandante ter aqueles remoques, o que talvez indicasse que se sentia melhor. Mas Nimoy olhou-o com o costumeiro ar impassível.

- Lamento mas a minha comunicação durante o período de serviço resume-se ao essencial, cingindo-se aos factos e sem abordar conjecturas. Admito a hipótese de que isso se assemelhe à ideia que vocês, humanos, têm sobre os computadores.
- Se não existisses tinhas que ser inventado! Talvez pudessem criar um personagem de holovisão baseado em ti, seria muito engraçado.
- Comandante, não vejo nada de engraçado na minha forma de comunicar.
- Isso é porque não percebes nada de humor... Takei, informe o tenente Nestor de que o reposicionamento foi autorizado.
- Sim, senhor.
- Novidades do Doohan?
- Está a tentar canibalizar fulerite de aparelhos não essenciais, comandante.
- Certo. Ele que continue. Se não precisam de mim agora, vou deitar-me antes que o Kelley mande um drone de serviço arrastar-me pelo uniforme até à enfermaria.



O comandante dormia quando o tenente estabeleceu nova ligação com a nave. Nimoy passou-a para a sua consola.

- O comandante está a descansar, Nestor. Fale.
- Senhor, estou posicionado num promontório. De acordo com os dados da projecção, deveria existir perto deste local uma grande cidade.
- Tenente, temos razões para crer que nos deslocámos no tempo até à era da pré-reconstrução terrestre. É natural que não detecte nada.
- Senhor, então deveriam existir ruínas. Mas não há nada! Sobrevoei alguns quilómetros de zona costeira e não há sinais de que alguma vez este local tenha sido habitado em larga escala! Acha... acha possível que tenhamos vindo parar a um universo paralelo?
- Tenente, essas teorias eram populares na literatura pseudo-científica do segundo e terceiro milénios. Até hoje nada foi estabelecido na prática. Por algum motivo eram cognominadas "ficção". Deixe-se de teorias e dê-me factos. Que tem a dizer sobre os movimentos para que nos alertou?
- Estão ainda a alguma distância, senhor. O sensor indica que se tratam de embarcações de pequeno calado, mas o estado do mar impede-as de se aproximarem muito.
- Tecnologia das embarcações? Material?
- Primitiva, senhor. O material aparenta ser de origem biológica. Não me parece que possuam algo que nos possa ajudar nas reparações.
- Registado, Tenente. De momento não nos é possível ainda descolar. Se essas embarcações se aproximarem desta área, ordeno que tome medidas para as impedir.
- Como... como sugere que faça isso, senhor?
- Deixo isso à sua iniciativa. Os humanos são bons nisso. Mas primeiro estabeleça uma ligação por feixe paralelo para me enviar uma cópia do banco de dados da sonda. Com o rastreio que efectuou deve ter registado o posicionamento de outros corpos espaciais de forma mais fidedigna do que aquela de que disponho.

Com isto, Nimoy desligou o canal vídeo. O canal áudio assobiou subitamente, registando o emparelhamento, e os dados começaram a ser descarregados para a consola. O imediato acompanhou visualmente a transferência e franziu o sobrolho. Algo ali não fazia sentido. Era melhor falar com o comandante.
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 06 Sep 2010 19:23

III


- Entre, Nimoy. Por mais que o mande, ele não dorme. Diz que não consegue!
- Qual o estado físico do comandante, Dr. Kelley?
- Ora, o que seria de esperar depois de uma pancada na cabeça. Mas o Will é pior do que uma mula e eu já não sou um rapazola com força para o segurar.
- Mula?
- Um mamífero terrestre conhecido pela sua teimosia.
- Comparação adequada, doutor. Permite que fale com ele? Tenho dados novos para analisar.
- Vá, vá. Enquanto não for lá contar-lhe vai-se retorcer todo a tentar ouvir o que estamos a dizer.

- Will, tenho novidades.
- E estavas a perder tempo a falar com o Kelley? O raio do homem não me quer dar alta. É mesmo teimoso, pior do que uma mula
- Para um animal extinto, encontra-se muito presente na vossa linguagem.
- O quê? Bah, não interessa. Conta-me tudo!
- Pedi ao tenente Nestor que me transferisse os dados do banco da sonda. Estão mais completos do que os nossos uma vez que efectuou o varrimento para detectar satélites.
- E? O que tem?
- Programei o computador para fazer os cálculos, mas a minha análise prévia indica que não estamos na Terra da pré-reconstrução.
- Não? Mas... estamos na Terra, não estamos?
- Sim. Mas num período muito anterior.
- Raios! Não vão aparecer aí dinossáurios de repente, pois não? Os movimentos no mar de que o Nestor falou?
- Embarcações humanas, Will. Mas aproximarem-se desta nave causaria um problema muito grande. Um registo de um evento assim poderia até alterar a história terrestre.
- Humm, percebo.
- Dei ordens ao tenente para tomar medidas que impeçam as embarcações de se aproximar de nós.
- Sim, o rapaz é inteligente e é capaz de ter alguma ideia de jeito. E quanto às reparações?
- O Doohan diz que demorará alguns dias. Mas a falta da fulerite implica que não teremos sensores e isso tornará impossível calcular correctamente o salto.
- Não me apetece propriamente andar a saltar pelo espaço-tempo, Nimoy.
- A perspectiva também não me agrada, Will. Vou ajudar o Doohan com um inventário de tudo o que possa conter os nanocristais necessários e que possa ser reaproveitado.

Com isto, Nimoy levantou-se e saiu sem se despedir, como era seu hábito. O comandante permaneceu recostado olhando para o tecto da enfermaria. Estava a tentar lembrar-se de algo mas a tarefa parecia impossível no estado em que se encontrava.

- Kelley!
- Diga, Will.
- Algum dos seus instrumentos trabalha com fulerite?
- Com fulerite? Não, acho que não. Quer dizer, o bioscanner talvez. E algumas coisas usam fulerenos mas de outro tipo.
- Estou aqui a tentar lembrar-me, mas...
- Will, durma! Sem descansar o cérebro dificilmente se lembrará de alguma coisa de jeito.
- Kelley, eu ainda sou o comandante!
- E eu sou o seu médico. Posso declará-lo em estado de incapacidade temporária. É isso que quer?
- Humm, não. Isso não.
- Então vá dormir. Eu acordo-o se houver alguma novidade.

Resmungando, o comandante fechou os olhos. Incrivelmente, adormeceu em poucos minutos. Talvez não fosse alheio a isso o facto do doutor lhe ter deitado subrepticiamente umas gotas de um líquido incolor na água do copo.
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 06 Sep 2010 19:50

IV


A consola da enfermaria zumbiu.
- Kelley.
- Como está o comandante, doutor?
- Ainda a dormir. Dei-lhe uma dose de cavalo.
- Cavalo? Mais um dos vossos mamíferos tão presentes na linguagem?
- Exactamente. De que precisa, Nimoy?
- Tenho dados para apresentar. Mas se o comandante está a repousar não quero prejudicar a sua recuperação.
- Para um verdusco, você até é muito atencioso! Quando acordar, eu digo-lhe que pretende falar com ele.

Quando desligou, Kelley ficou calado, a matutar. Fulerite... fulerite...
Desde que Will falara no assunto, andava às voltas a tentar lembrar-se de algo – se calhar o mesmo que o comandante tentava recordar.
De repente, bateu na testa e ligou à ponte.

- Nimoy.
- Meu velho, acho que já sei.
- O doutor sabe muita coisa. De que fala exactamente?
- Não me venha com coisas. Já sei onde há fulerite!

Kelley quase seria capaz de jurar que vira um ar de admiração no rosto de Nimoy, mas isso seria impossível de provar.

- O Will, o Doohan e eu recebemos umas bugigangas do Comando Principal. Um troféu por trinta anos de serviço.
- Acho que sei de que fala, doutor. Um objecto de cristal com um holograma?
- Exactamente. No reverso do trambolho há um pequeno écran de dados, que nos dá o tempo real do Comando e outras tretas. Isso é capaz de ter fulerite, não?
- Terei que examinar de perto um desses troféus.
- Venha aqui ter, o meu está a fazer de pesa-papéis.

Minutos depois, Nimoy entrava na enfermaria onde Kelley o aguardava com um objecto oblongo e cristalino.

- Cá está. Olhe aqui a parte de trás.
- Tem razão, doutor. Creio que isto é uma buckybola.
- Fulerite?
- Sim, fulerite. Pode orgulhar-se. Talvez tenha assegurado o nosso regresso a casa.
- Eu não ligo a isso e acho que o Doohan também não. Mas o Will... não sei.
- Doutor, eu conheço o comandante. Ele não poria a preservação de um objecto de colecção à frente da missão.
- É capaz de ter razão, Nimoy. Vá-se lá embora, despache-se.


Mais tarde, sobre a bancada de trabalho do sector de engenharia, Doohan exibia alegremente as esferas retiradas dos troféus.

- Diabos me levem se alguma vez pensei que estas coisas tivessem utilidade!
- Vamos conseguir?
- Sim... acho que sim.
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 06 Sep 2010 20:08

V


Na sua consola da ponte, Nimoy verificava os dados do computador. A sua análise fora quase exacta. O salto para o tempo passado fora de vários séculos... a Idade Média terrestre era algo recente naquele "quando". Ligou para a engenharia.

- Doohan.
- Qual a progressão dos trabalhos?
- Dentro de algumas horas os sensores estarão reparados.
- Registado. Vou chamar o tenente Nestor de volta.
- Coitado do rapaz, isso é que foi um castigo...

Mudando de canal, Nimoy estabeleceu ligação com a sonda. De repente ouviu ruídos que não conseguiu identificar.

- Tenente Nestor?
...
- Tenente Nestor!
- Desculpe, senhor! Estava a repelir um novo grupo de embarcações que se aproximavam.
- Tenente, retorne à nave. Quando chegar quero um relatório exaustivo dos meios que utilizou para se assegurar de que essas embarcações não chegavam a este local.
- Sim, senhor.

Mais tarde, o tenente surgiu na ponte e saudou os colegas.

- Então, tiveste contacto com os locais?
- Como é que foi?
- Tenho que fazer um relatório para o Nim... o imediato. Depois conto tudo.
- Tenente!
- Sim, senhor!
- Relatório verbal resumido primeiro. Com isso os seus colegas ficarão já satisfeitos e poderei colocar-lhe algumas questões.
- Bem, senhor, vieram várias embarcações no primeiro grupo. Lembrei-me de que estamos num tempo passado e que possivelmente não saberiam reconhecer uma sonda. Então emiti algumas projecções hologramáticas e activei o comunicador externo no volume máximo.
- Que aconteceu?
- Devem ter achado que eu era um monstro e fugiram.
- Mas falou em primeiro grupo...
- Senhor, estive ali bastante tempo. Apareceu depois outro grupo e repeti o que tinha feito.
- Projectou sons?
- Hã... senhor, falei apenas. Com a voz amplificada devo tê-los assustado bastante.
- O que lhes disse?

O tenente pareceu embaraçado.

- Tenente?
- Senhor, disse o meu nome e que lhes ordenava que voltassem para trás.
- Só isso? Não disse de onde vinha?
- Não, senhor! Apenas o meu nome e ordens para dar meia volta.
- Parece-me sensato. Esperemos que o sucedido se perca no folclore local ao longo dos tempos.
- Senhor? O comandante... como está?
- O Dr. Kelley mantém-no em sono prolongado até ter a certeza de que não há lesões. Por isso eu vou computar o salto mas será você quem vai dar início à manobra, tenente.
- Senhor???
- Pelos meus cálculos, o comandante quereria que quem nos trouxe até cá nos levasse de volta. Vá repousar um pouco e prepare-se para partir.
Last edited by Ripley on 07 Sep 2010 17:32, edited 1 time in total.
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 06 Sep 2010 20:17

Epílogo



Diário estelar
Data interna: 5638/66
A nave ODD-1702 prepara-se para partir, executando uma manobra de Lyvette em reversão da que nos trouxe até a este ponto no espaço-tempo.
O comandante encontra-se temporariamente incapacitado. O imediato, senhor Nimoy, computou todos os dados. De acordo com o protocolo, estando o imediato entregue a tarefas astronavegatórias de precisão, assumi o comando da nave.

Vamos agora partir da Terra, do local conhecido como Madagáscar. Fomos bem sucedidos em impedir a aproximação de embarcações locais da nave, o que poderia comprometer o registo histórico terrestre e o desenvolvimento futuro.

A manobra iniciar-se-á dentro de zero-cinco macrossegundos.
Rumo inicial três-sete-dois-sete, impulsão warp dois vírgula oito com redução e mudança de rumo no momento a indicar pelo imediato.
Tempo previsto de chegada a Galaxity: desconhecido.

Fim de entrada.

O comandante interino,
Tenente Adam Nestor
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Samwise » 07 Sep 2010 16:56

Fiquei com dois sentimentos contraditórios depois de ter terminado a leitura. Por um lado a saborosa satisfação de ter percorrido em fan-fiction um mini-episódio do Star Trek, respeitante dos ingredientes principais e dos trejeitos da série original e com os nomes das personagens a soarem a qualquer coisa conhecida :mrgreen: , por outro lado um amargozinho na boca por ter sido uma experiência relativamente breve e superficial - uma vez que as linhas mestras da história já estavam definidas, podias ter desenvolvido um pouco mais os acontecimentos e tornado a intriga mais rica em... tudo. Aventuras, diálogos, utilização da tecnologia, características das personagens, animais terrestres que confundem o Nimoy ...

Não sei houve alguma condição que te impedisse de desenvolver mais o conto, mas fica a ideia para pegares no que está feito e acrescentares mais "densidade narrativa".

Tive de ir saber quem era o Nestor. Não me lembrava de ver tal nome nos créditos da série ou dos filmes. Será este?
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 07 Sep 2010 17:03

Sammy, o tenente Nestor foi pura invenção minha.
Talvez a coisa não se tenha tornado suficientemente evidente. É possível que um pouco mais de "enriquecimento" narrativo permita situar as coisas temporalmente.

Por agora, sugiro-te algo muito simples: relê a descrição do que ele diz ter feito para assustar as embarcações... e no final lê o nome dele em voz alta. ;)
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Samwise » 07 Sep 2010 17:17

:lol!:

(F-U-N-N-Y-!)


Confesso que aquela menção a Madagáscar não (me) ajudou...
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Bugman » 10 Sep 2010 11:19

Por acaso percebi o Adam Nestor logo à primeira, mas Madagáscar despista um pouco!

Também fiquei com a sensação fan-fiction do Sam, mas gostei do trabalho feito e penso que em dimensão se ajusta ao local onde foi divulgada.
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Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Sofiushka » 19 Sep 2010 11:16

Muito bom, Ripley, muito engraçado. Até ao fim pensei que o pobre Nestor fosse morrer, e que a embarcação primitiva fossem vikings, mas tudo ficou esclarecido com o monstro holográfico :P

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Re: Regresso ao Futuro

Postby João Arctico » 20 Sep 2010 14:04

A estória é fluida e cativante :tu:
Um senão... (vocês sabem do que eu estou a falar :pissed: )
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 20 Sep 2010 14:29

Obrigado a todos pelos comentários :)

Quanto ao nosso Polenord...

João Arctico wrote:Um senão... (vocês sabem do que eu estou a falar :pissed: )


Andas armado em Octávio? É que eu não percebi - mesmo!
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Re: Regresso ao Futuro

Postby João Arctico » 20 Sep 2010 14:42

Ripley wrote: Andas armado em Octávio? É que eu não percebi - mesmo!

Vide comentário da autora em 07 Sep 2010 04:03 pm (não sei qual o fuso). Ah. Há quem chame a isso de "spoiler", não é? Modernices... :devil:
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Re: Regresso ao Futuro

Postby Ripley » 20 Sep 2010 14:50

João Arctico wrote:Vide comentário da autora em 07 Sep 2010 04:03 pm (não sei qual o fuso). Ah. Há quem chame a isso de "spoiler", não é? Modernices... :devil:


Aii, picuinhas, Jaun!
Não foi bem um spoiler, já que o texto está ali integralmente. E como, supostamente, terias lido o texto antes de ler os comentários... :twisted:
Receei é que mais gente tivesse o mesmo problema que o Gamgee e resolvi atalhá-lo de imediato.
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