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Ripley
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Postby Ripley » 09 May 2012 17:54

HBD
(Irian - o cansaço)


Há um desconforto que não consigo identificar, um cansaço quase extremo que se alastra ao espírito e faz com que qualquer esforço, físico ou mental, pareça para além das minhas forças.

É como se um manto de desalento me cobrisse e tolhesse o corpo - este corpo que não sinto como meu.
Levou muito tempo a apreender mas habituei-me ao conceito de corpo e mente como duas entidades unas mas independentes até certo ponto. Talvez por isso já não estranhe (ainda que não compreenda nem goste) estar a funcionar em piloto automático. Meras rotinas - (sobre)viver.


Estou cansada de fingir uma normalidade que não é minha.
Ajo como é suposto agir, falo como é suposto falar, rio quando é suposto rir. Mas são (re)acções sem sensações, apenas o que esperam de mim - não aquilo que realmente sou atrás da imagem que vêem.
Sou muito mais do que pensam e ninguém me compreende. Tentam, mas quedam-se longe, sem sequer aflorar a fímbria de uma asa do ser ardente com que me identifico. Da minha boca saem palavras quando gostaria de expelir labaredas... acabo por sorrir de uma forma tão enviesada que se transforma num esgar de insatisfação, quase desprezo por este corpo com que me arrasto.

Um dia desabafei dizendo que todos estamos de passagem mas que os meus dias estão contados, que acabarei por deixar a terra e que estou até ansiosa por isso. Primeiro pensaram que eu tinha uma doença terminal. Depois quiseram internar-me, medicar-me, psicanalisar-me, com receio de uma tentativa de suicídio.

Aprendi a calar-me, a não desabafar, a não partilhar o que penso e/ou sinto.
Afasto-me das pessoas, inventando afazeres. O convívio custa; a incompreensão é um fardo.


Ao anoitecer, no terraço, recosto-me a olhar para as estrelas.
Deixo-me invadir pela saudade e de olhos molhados conto os dias que faltam para o fim do meu tempo aqui.


Fecho os olhos.
Não é fácil estar a mais de cem anos-luz de casa.

[título editado]
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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