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Postby Ripley » 10 Mar 2009 01:06

Nota prévia: Há uns anos atrás fiz umas incursões pela FC. Foi aliás aí que conheci o Mestre PotatoFace-T, o meu primeiro editor :mrgreen4nw: .

Estas foram as vinhetas de 2004, a primeira delas incluída na extinta Hyperdrivezine ...
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Postby Ripley » 10 Mar 2009 01:08

Memória

Ninguém me ouve.
Ninguém me responde.
Estou farto de emitir apelos em todas as direcções que constam do banco de dados.
Talvez os danos tenham sido piores do que pensei, não tenho leituras.
Edess está caído no chão, nada mais posso fazer por ele. Kipat geme sem cessar. Os gritos e uivos de dor tornaram-se num murmúrio. O sangue empapa o chão. Nem sequer tenho forma de a ajudar. Tentei aceder ao controle de suprimentos médicos em busca de um analgésico, um sedativo, qualquer coisa que a ajude e a mim. Não consegui.

Já não suporto o barulho, não consigo raciocinar. Sou a única esperança que têm e não consigo fazer nada a não ser emitir apelos constantes até que a pilha nuclear se acabe.
Levir não dá qualquer sinal. Estava no porão quando se deu o ataque. Não deve ter sobrevivido.
Espero que nos venham resgatar depressa. Quanto mais não seja, porque querem de volta o alienígena que está no porão, num compartimento crioestático. Os dados do tubo de estase chegam até mim mas não fazem qualquer sentido. Não sei se o alienígena que lá está dentro estará vivo ou não.

Porque raio optaram por fazer este transporte ? Dinheiro, sempre o dinheiro. O mesmo dinheiro que quase acabou comigo quando piratas espaciais atacaram a nave onde seguia, há 2 megaciclos atrás.
Edess e Levir sabiam do perigo, mas o dinheiro da Federação falou mais alto. Onde tinham eles a cabeça quando aceitaram transportar aquele ser de outra galáxia ? Os manda-chuvas da Federação pensaram em salvar os cabedais dos seus meninos da Frota, suspeitava-se que alguém viria em busca do alienígena. Calhou-nos a nós levar com o impacto de um canhão de beta-plasma no casco.

Kipat continua a gemer. O seu corpo está muito danificado. A única esperança para ela é salvarem-na a tempo de a converter numa UCCI. Para muitas naves que seguem as rotas comerciais, uma UCCI (Unidade Central de Controlo Interno) é o que as salva da morte certa. Uma UCCI é uma bio-AI. Um computador aliado ao cérebro de uma pessoa, às suas memórias e experiência. É-lhe dado um tratamento de supressão de emoções para que não tenha um esgotamento; ser uma UCCI é uma responsabilidade tremenda.
Algumas UCCI têm a memória de astronautas que atingiram a idade da reforma mas querem continuar ligados ao espaço a que devotaram as suas vidas. Outras, como a desta nave, têm uma UCCI com a memória biológica de um astronauta cujo corpo não pôde ser salvo.
É a única esperança de Kipat. Sei o suficiente de biologia centauriana para ver que ela não vai durar muito mais.
Continuo a emitir na direcção de todas as colónias da Federação e todas as rotas conhecidas. Alguém me há-de ouvir.
Kipat soergue-se a custo. Arrasta-se na direcção do posto principal e passa a mão tremente pela consola táctil.
- Dai ? Sei que vou morrer ... os socorros não chegarão a tempo. És o melhor amigo que alguma vez tive ... só é pena ter-te conhecido tão tarde, queria ter nascido dois megaciclos antes ... para ver como eras, quando eras humano. Gostaria de te poder abraçar ... – uma golfada de sangue sai-lhe pela boca e ela cai de novo no chão.

Choraria se ainda tivesse olhos. Não é fácil ser uma UCCI.

2004 / Inspirado pela short-story de Joan D. Vinge "Tin Soldier"
Last edited by Ripley on 03 Mar 2010 18:54, edited 1 time in total.
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Re: Memórias

Postby Ripley » 10 Mar 2009 01:10

And now for something completely different

Descia pela calçada, desatento. Nem reparava nas outras pessoas.
Ruminava numa teoria que lhe tinha surgido de madrugada. Coisa parva, acordar assim, a pensar em ... antigravidade. Mas parecia ser a solução para o problema que estava a tentar resolver no Instituto.
Bom, se não fosse, ao menos podia utilizá-la no texto de FC que andava a escrever para uma revista a ver se ganhava uns cobres.

Foi por isso apanhado de surpresa quando algo apareceu à sua frente.
Algo grande. Amarelo.
“Esta agora ... estes ladrões mascaram-se de tudo e mais alguma coisa para assaltar um gajo!”. O mais engraçado é que até era um fato muito bem feito. Parecia mesmo o ...
Uma arma surgiu, apontada ao seu abdómen.
- Não tenho dinheiro! Não sei quem és, mas não deves ser português, pá ! Senão, sabias que um investigador mal ganha para comer ...
Uma mão de quatro dedos, coberta de feltro amarelo, arrancou-lhe a pasta, espalhando uns quantos papéis no passeio. Mais papéis voaram enquanto aquela criatura na sua frente parecia procurar algo. De repente, parou. Segurava os apontamentos da “tal” teoria.
- Isso não, pá ! Não te serve de nada, e para mim é importante ! Vais fazer-me repetir os cálculos todos se me estragas esse papel, porra !
A criatura olhou para ele, com um ar que se poderia imaginar pensativo. Mas com uma máscara (seria máscara ?) daquelas era impossível saber o que estava a passar pela cabeça do ladrão.
A arma, com um aspecto estranho, subiu na direcção do seu nariz.

Uma voz sintetizada, com um som estranho como se tentassem imitar um boneco de desenhos animados, soou:
- En-tão é me-lhor a-ca-bar con-ti-go. Não nos po-de-mos dar ao lu-xo de re-pe-ti-res es-tes cál-cu-los.
- Mas ... mas ... mandaram-te de algum instituto estrangeiro ? Epá, eu não me importo de partilhar os dados, mas não me estragues os apontamentos, caramba !
-Ca-la-te !!! Vo-cês não es-tão pre-pa-ra-dos pa-ra u-ti-li-zar is-to.

Uma dor estendeu-se repentinamente por todo o seu corpo. De costas no chão, viu a criatura amarela afastar-se.



Num qualquer telejornal das 20h00 o jornalista anunciou:
“Investigador do LNEC encontrado morto numa rua de Lisboa. Testemunhas dizem que foi atacado por ...










... Winnie the Pooh.”
Last edited by Ripley on 03 Mar 2010 18:51, edited 1 time in total.
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Re: Memórias

Postby Samwise » 10 Mar 2009 01:46

Do primeiro conto lembrava-me vagamente - e agora que ando a ler o "Vast", essas ideias da bio-AI reproduzem-se em parágrafos de recente leitura :mrgreen4nw: -; o segundo, o tal que é "grande e amarelo", está bem engraçado. Algo me diz que andam aí reminiscências da infância de alguém...

Começo a fazer sentido a associação da tua pessoa ao teu nick... (algo que ainda não tinha entrado aqui na cabeça do je).

Sam
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Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

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Re: Memórias

Postby Ripley » 10 Mar 2009 01:51

Samwise wrote:Começo a fazer sentido a associação da tua pessoa ao teu nick... (algo que ainda não tinha entrado aqui na cabeça do je).


Explica-me essa como se tivesse cinco anos, Master Sam ...
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Re: Memórias

Postby Samwise » 10 Mar 2009 02:02

Ripley, ou Lt. Ripley, é um nome que associo à saga Sci-fi "Alien". Até agora, aqui no fórum, ainda não tinha visto de tua parte uma declaração tão explícita dedicada a este género.

Pelos vistos, ainda leste umas "coisinhas" e viste umas "coisinhas". :smile:

Sam

P.S. Isto e mais aquilo que disse na tertúlia quando te conheci (e fui logo reprimido por um coro de insultos das outras pessoas presentes)... :blush:
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Re: Memórias

Postby Pedro Farinha » 10 Mar 2009 08:49

Achei bastante piada ao primeiro texto. O segundo nem tanto, ou antes está engraçada a ideia mas acho que podia ter sido melhor explorada.

Relativamente ao primeiro acho que conseguiste bem, desde o principio percebia-se que havia algo diferente no narrador, entrar no espírito da UCCI. No entanto esta UCCI tem bastantes sentimentos face à explicação que vem depois, a conversão manteve-lhe a emotividade. :smile: E gostei da UCCI ler os dados mas os mesmos não lhe fazerem sentido... às vezes sinto-me uma UCCI danificada na minha vida real.

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Re: Memórias

Postby Ripley » 10 Mar 2009 11:39

Samwise wrote:Ripley, ou Lt. Ripley, é um nome que associo à saga Sci-fi "Alien".


Nem mais! Por uns momentos pensei que tivesses jogado OGame :mrgreen4nw: em vez de andares a par da Nostromo.

In space, no one can hear you scream ... Há uns anos uma alma caridosa emprestou-me a Alien Quadrilogy em DVD e foi um fartote de extras e Director's Cut's que já ninguém me aturava.
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Re: Memórias

Postby Ripley » 03 Mar 2010 19:28

Cheguei à conclusão que nunca tinha postado aqui o meu-mas-não-só-meu maior texto. Sim, o maior exactamente por não ser só meu. Foi feito a seis mãos vai para seis anos (jáá ?????) e publicado na Hyperdrivezine.
O desafio: tentarem perceber quem escreveu o quê.
Co-autores: Je-Moi-Me-Myself, Mr. PotatoFaceBigT e DragãoQuântico (não se riam, foi mesmo assim).
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Re: Memórias

Postby Ripley » 03 Mar 2010 19:31

O Guardião

Parte I

Maddox esfregou os olhos e praguejou. Que raio lhe teriam adicionado à bebida na noite passada ? Que diria a mãe ao saber que não tinha dormido na sua camarata e saído para celebrar ? “Bem ...” pensou com um sorriso “não é todos os dias que se obtém a nota mais alta alguma vez conseguida por um aluno de Astronavegação da Academia Espacial de Utopia V ...”.
Decididamente, tinha que se levantar. Olhou as roupas desordenadas aos pés do beliche.
Beliche? Agora que reparava melhor, nem sabia onde estava ... onde teria ido com aqueles idiotas dos seus colegas para vir parar nem sabia onde ?
Rodou as pernas magras para fora do beliche e enfiou o macacão de cadete. Ao levantar-se, sentiu um leve desequilíbrio que atribuiu ao excesso de bebida da véspera.
Mas ao abrir a porta do cubículo ...

- Zed ?
- Maddoxxxxx ! Ainda bem que acordaste, estava a ver que tinha que te levar um balde de café ...
- Zed ... isto é uma nave ??? – Não sabia porquê, a nave parecia-lhe familiar.
- Não, claro que não ... vindo de ti, essa é uma pergunta estúpida ... não se vê logo que é um armário de vassouras ??
Maddox gemeu agarrando a nuca dorida.
- Como é que eu vim aqui parar ?
- Ahh, quanto a isso ... senta-te, temos que conversar – disse, apontando uma cadeira de braços na ponte. – Não te lembras de vir para cá ontem ?
- Se me lembrasse, achas que estava a perguntar ? – respondeu Maddox de mau humor.
- Bem, ontem parecias ter um enorme interesse em visitar a minha nave quando te disse quem estava cá estava ... escusado será dizer que não o encontraste, dado que desmaiaste logo que puseste o pé a bordo. – Zed sorria com ar trocista.- Talvez o melhor seja mesmo ir buscar o tal balde de café...

Maddox não respondeu. Lembrava-se vagamente de ter encontrado Zed no bar onde fora com os colegas cadetes ... ele aproximara-se do grupo e falara-lhe de alguém que ambos conheciam e se encontrava a bordo da sua nave ... diabos o levassem!
- Bebe isto – disse Zed atirando-lhe um recipiente semelhante a um biberão.- Receita minha anti-ressaca.
Embora com ar desconfiado, Maddox aceitou. Ao fim de alguns goles, a cabeça estava nitidamente mais leve e começava a lembrar-se ...
- Escuta, Zed ... ontem disseste-me algo acerca do ... Hypnus?
- Ahhh, começas então a lembrar-te ...
De súbito, Maddox apercebeu-se porque a nave lhe parecera familiar. Já a tinha visitado várias vezes ... era a nave de seu tio, Hypnus. Olhou em volta, acabando por vê-lo a um dos lados, junto aos écrans de interface navegacional. Correu para ele e abraçou-o.

- Hypnus ... há quanto tempo ...
- Maddox ... tinha saudades tuas ... sabia que conseguirias uma bela nota na Academia, serias o orgulho de teu pai.- Maddox estremeceu ao pensar no pai, desaparecido no espaço havia uma década.
- Aaahhhh, que emocionante, esta pequena reunião familiar ... Agora acabem com isso, temos que nos preparar para a aceleração. Maddox, senta-te e prende-te ao arnês de segurança.
- Zed ... onde pensas que nos levas ? Eu tenho que voltar, tenho que tratar do meu estágio. – Ao acabar o curso da Academia, cada cadete tinha que passar por um estágio, que poderia durar um ano numa nave da Armada, ou dois numa nave comercial sob as ordens de um comandante com pelo menos 10 anos de experiência.
- O teu estágio está tratado ... vais fazê-lo aqui – respondeu Zed com ar zombeteiro.
- Estás louco ? Leva-me de volta para baixo, JÁ !!!!!
- Para quê tanta confusão ??? O teu estágio pode ser feito a bordo de uma nave comercial, desde que sob as ordens de um comandante experiente e aprovado pela Academia ... tens dúvidas de que o teu tio cumpra os requisitos? Ou estás a esquecer-te do contratozinho que selaste, Maddox ?
- De que estás a falar? EU NÃO SELEI CONTRATO NENHUM !!! – Maddox gritava a plenos pulmões.
- Pois ... não sei bem porquê, ontem pareceste pensar que era um termo de responsabilidade para poderes viajar num vaivém não blindado até aqui ... não sei de onde te terá vindo tal ideia – Zed olhava para a cúpula da nave unindo os dedos com ar inocente.
- Quero ver esse contrato !!! Hypnus ... ajude-me, por favor ! – suplicou Maddox.
- Não posso fazer nada ... ele é especialista em trapaças e artimanhas. Foi assim que me ficou com a nave; lembras-te de há uns anos eu ter estado com problemas na Armada, antes de pedir passagem à vida civil ? – Maddox assentiu.- Tu nunca soubeste a verdadeira história ... nessa noite eu estava perdido de bêbado quando os contrabandistas assaltaram a nave da Armada. Se isso se tivesse sabido na altura, tinha ido a Tribunal Marcial. Mas o Zed propôs-me um negócio ... deporia a meu favor se eu aceitasse trabalhar para ele. E assim, ele testemunhou que eu fora atingido por trás, na cabeça, por um dos contrabandistas – de facto, ele próprio, que beneficiou de uma amnistia por dar informações que permitiram a captura do resto do bando. O testemunho foi aceite, eu fiquei com a folha limpa ... depois apresentei demissão “por motivos de saúde” e vim trabalhar com ele. Não estava era à espera que fosse como empregado na minha própria nave ... – disse com ar amargo.

- Mas ... mas ... vou passar aqui dois anos ?- gemeu Maddox.- E ... os meus amigos? A minha vida?
- Três anos, minha querida ... o tempo de ir e voltar de Ceres. E quanto aos teus amigos ... quantos deles ainda o seriam quando te tentassem convencer a partilhar o teu beliche durante um ano de estágio a bordo ? – Ao ver Maddox enrubescer, Zed riu-se.- Não te tinha passado isso pela ideia ?? Eu sei que tu nunca quiseste ser muito feminina, mas ... olha que continua a notar-se que não és um rapaz! E já agora, por falar nisso ... já que vamos passar os próximos três anos juntos, que tal ... humm ... um bocadinho de companhia à noite ?
A mão de Maddox ficou subitamente marcada na face de Zed.
- Pfftttt ... armada em virgenzinha púdica ... ainda hás-de suplicar pelos meus carinhos, garota idiota!
Maddox levantou a outra mão, tentando atingi-lo ... mas Zed foi mais rápido, segurando-a pelo pulso.- Não voltes a fazer isso, minha linda ... vais achar as noites a bordo muito solitárias.
O joelho direito dela golpeou-lhe as virilhas, num ataque antigo mas nem por isso menos eficaz.- Não voltes a fazer isso, meu paspalho ... da próxima não será com o joelho – disse, enquanto passava por cima do seu corpo contorcido no chão.

Voltou ao cubículo de onde saíra e trancou a porta. Maddox leu e releu o contrato que selara com a sua impressão digital, não percebendo como fizera um disparate daqueles.
Pensara realmente estar a selar um termo de responsabilidade para viajar num vaivém não blindado ... após longas guerras em que milhões de seres humanos tinham perecido, muitos homens e mulheres tinham ficado estéreis ... os que não o eram, foram fortemente desencorajados a viajar pelo espaço, dado que as radiações com que se poderiam cruzar eram capazes de fazer o mesmo efeito. Deveriam sempre viajar a bordo de naves blindadas, a menos que assinassem um termo de responsabilidade como o que ela pensara ter selado.
Nem ela poderia ter estudado na Academia se não fosse ser filha de quem era. Thanatos, herói da Armada. Thanatos, que fora sozinho em busca de uma nave atacada por piratas e a conseguira trazer de volta, remendada com fio de cobre e cuspo. Ela adorava o pai. E caíra na esparrela. Sabia agora no que estava a pensar quando aceitara o convite de Zed. Pensara no tio, Hypnus ... em saber se teria notícias de Thanatos. A avó fora uma entusiasta do estudo da mitologia, e isso notava-se nos nomes que dera aos filhos. Ainda bem que Eliasa, sua mãe, não partilhara essa paixão.
“Thanatos, meu pai ... que foi feito de ti ??? Não acredito que tenhas morrido no espaço. Não acredito! Talvez tenhas sido feito prisioneiro ... talvez estejas a sofrer ... ohh meu pai, a falta que sinto de ti agora!”.

Ao sentir os preparativos para a aceleração, deitou-se e prendeu-se com a rede existente nos beliches para o efeito. "É melhor aproveitar para descansar um pouco ..." pensou. E adormeceu rapidamente.
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Postby Thanatos » 03 Mar 2010 21:11

Uhhhh, a trip down memory lane. ^_^
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Postby Ripley » 04 Mar 2010 03:06

Parte II

O tempo dentro dum cone de aceleração hiperespacial é esticado até aos limites da percepção da mente humana. Para quem estivesse de for a ver pareceria que a nave e os seus tripulantes se vertiam lentamente como um líquido algo xaroposo que escorresse por um funil. Para os tripulantes sujeitos à estranha física do buraco-de-verme o tempo fora dos limites do cone eram meros traços de luz incompreensíveis. Esta era a única forma de saltar as vastidões galácticas sem demorar séculos. No entanto os números eram frios. A Relatividade não perdoava e todos aqueles que ficavam para trás seriam apenas uma memória quando chegassem a Ceres.

Maddox acordou sobressaltada sentindo as lágrimas aflorarem-lhe aos olhos. O seu primeiro pensamento foi para os amigos da Academia. Não se despedira de ninguém. Fora engajada à força para servir com o Zed e o tio Hypnus numa missão comercial aborrecida contra a sua vontade. Mas que parva fora! Devia ter visto que da parte do Zed nada de bom viria. Bem, mas agora não valia a pena estar a admoestar-se. Tinha de se preparar para as estranhas visões que decerto iria experimentar. Não raras vezes os viajantes dos buracos-de-verme travavam diálogos com criaturas míticas, personagens históricas ou ficcionais ou até com familiares há muito falecidos. Quem a iria visitar? Quem iria partilhar consigo as dobras do espaço-tempo contínuo?

Presos no arnês Zed e Hypnus mergulhavam nos seus próprios fantasmas, submersos num mar de luzes e sons, enquanto fora das escotilhas o espaço e o tempo dobravam-se um sobre um outro como uma manta. Zed sorria levemente, vendo na cacofonia de cores um seu velho camarada de armas. O amigo acenava-lhe de longe enquanto do alto dum céu acobreado caíam os mísseis da Facção Vermelha. Milagrosamente o amigo ficou intacto e continuava-lhe a acenar enquanto o bunker onde Zed se escondia se tornava cada vez mais pequeno, encolhendo e encolhendo, a luz vinda do exterior diminuindo até não ser mais que uma leve frincha branca matizada de azul e verde. O sorriso de Zed tornou-se um esgar de dor. As paredes do bunker abateram-se, só que em vez de o soterrarem foi o seu ex-camarada que morreu sob toneladas de terra e betão.

A seu lado Hypnus travava diálogo com Samuel Clemens, discutindo os buracos de lógica em Huckleberry Finn. O escritor lançava veeementemente os braços ao ar e rebatia todos os pontos de Hypnus, mas este não se dava por abatido e voltava à carga. Sabia que a discussão seria inútil. Já a tivera centenas de vezes antes, mas adorava-a sempre pelo puro prazer da retórica.

Utopia V desvaneceu-se no espaço e no tempo.

A pequena nave afastou-se a velocidades cada vez mais altas, rumo ao sistema de Sagitário, rumo ao pequeno asteróide Ceres. No seu interior Maddox, Zed e Hypnus defrontavam os seus fantasmas pessoais ignorantes do que o futuro lhes reservava.

Na consola uma luz verde passou a vermelha. Dois mostradores perderam pressão e um circuito apagou-se. Os motores calaram-se e a nave ficou à deriva dentro do cone hiper-espacial, tombando para um destino incerto, qual túmulo tecnológico. Uma pequena bóia de emergência foi expulsa para o espaço normal ficando de imediato a assinalar a última posição conhecida da nave “Regresso às Estrelas”. Os monitores das correntes hiper-dimensionais passariam por aquela região do espaço dentro de um par de horas. Os dados vectoriais seriam retransmitidos para o Centro de Controle de Tráfego em Utopia V e se tudo corresse bem uma equipa de salvamento estaria em posição de partida em menos de três horas. Ainda havia esperança para a “Regresso às Estrelas” e para os seus tripulantes. Mas o destino é traiçoeiro e quis que a pequena bóia ficasse na rota de colisão de um micro-meteoro que ao embater nela a velocidades superiores a 600 kms-hora a rasgasse completamente, silenciando-a. Apenas detritos de silício ficaram a marcar o lugar onde momentos antes estivera a emitir o apelo.
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Re: Memórias

Postby Ripley » 04 Mar 2010 19:41

Parte III



Depois de uma longa discussão com a imagem da mãe, que a invectivava por ter partido sem se despedir, abandonando-a como o pai o fizera, Maddox adormecera outra vez chorando.
Acordou com o som estridente da sirene de desaceleração que indicava o regresso ao espaço normal. Levantou-se a custo e dirigiu-se à ponte, onde constatou que Zed também estava acordado e já a rezingar. Ignorando-o, dirigiu-se a Hypnus. Este parecia ainda adormecido, mas ao olhá-lo mais de perto Maddox assustou-se. Do canto da boca de Hypnus escorria um fino fio de sangue.
- Zed ? Que se passa? O Hypnus não acorda ... está a sangrar ... que faço ?

Zed levantou-se da cadeira e arrastou-se até Hypnus. Tocou-lhe levemente na face, onde o sangue deixara a sua marca.
- Lindinha, o sangue está seco ... o que quer que tenha acontecido, não foi agora. Liga aí esse scanner médico do lado direito e vem ajudar-me, há luzes vermelhas a piscar no painel.
- Mas ... mas ... não o posso deixar assim !
- Maddox, não é um pedido, é uma ordem ! Até sabermos o resultado do scanner, é melhor não lhe tocar – por isso vem ajudar-me ! Ou na Academia só te ensinaram teoria ? Não é suposto teres sido a melhor aluna em não sei quantos séculos ?

Contrariada, Maddox acompanhou-o e sentou-se junto dos écrans navegacionais.
Não reconhecia nada do que via. Do lado direito, uma mancha assemelhava-se à nebulosa de Caranguejo mas não havia certezas de nada.
Zed carregava furiosamente em vários botões e écrans tácteis. Nada lhe parecia dar uma resposta sobre o que tinha acontecido. Só sabia que era suposto estar a aproximar-se de Ceres e não era lá que decididamente se encontravam.

- Zed ... onde estamos ? – perguntou Maddox a medo.
- Lindinha, sei tanto como tu. Activa aí o modo de pesquisa para tentar encontrar algo reconhecível, estrelas, galáxias, sei lá, procura ! Só sei que os injectores não respondem, estamos literalmente a boiar aqui no espaço ...

Maddox pôs a correr o programa de pesquisa. Rotinas e subrotinas corriam no écran sem dar resposta. Levantou-se e foi consultar o scanner médico ligado a Hypnus; o écran assinalava uma zona no cérebro a azul, e ela carregou num botão para lhe dar a leitura “traduzida”. Empalideceu ao ler o diagnóstico. Dilatação de vasos ... derrame ... necrose celular.
Hypnus estava paralisado. Teria que ser reanimado para se saber a verdadeira extensão dos danos. Conseguiria mexer-se ? Conseguiria falar ?
Maddox seleccionou no écran de diagnóstico a preparação sugerida pelo programa. Um blister redondo inserido num adesivo cutâneo surgiu no braço da cadeira de Hypnus, e ela colou-a sobre a carótida do tio.
Deixou que o preparado se impregnasse e voltou para junto dos écrans navegacionais.
O programa continuava a correr, mas uma referência destacava-se já num écran lateral ... ela estava certa, o corpo identificável mais próximo era a Nebulosa de Caranguejo – mas mesmo esse estava a alguns anos-luz de distância.

- Maddox ... vai comer qualquer coisa. Não adianta estares aí a matar a cabeça enquanto eu não descobrir o que correu mal.
- Queres que te traga alguma coisa ? Uma tablete, um batido ?
- Não, lindinha ... já há algum tempo que não ingiro o que vocês consideram “comida”. Tenho as minhas cápsulas de nanonutrientes e basta.

Ela olhou para Zed como se nunca o tivesse visto antes. Não sabia que ele era parcialmente protético ... não se notava nada.
Zed adivinhou-lhe os pensamentos:
- Sim lindinha, já há algum tempo que o meu corpo não é inteiramente humano ... umas peçazinhas aqui, outras acolá, nada de especial. Vivo mais uns anitos que os outros, e sempre posso substituir as peças que se desgastem.


Enquanto Maddox se dirigia à pequena copa, Zed continuou a perscrutar os écrans e a ler indicadores. Não achara necessário dizer a Maddox que mandara inserir uns quantos implantes cerebrais que lhe permitiriam interagir directamente com o sistema central de naves como aquela, sem uma IA residente. Conectou-se ao sistema ... e o que leu deixou-o gelado.
Um dos tanques de propulsão não tinha leituras. Erro de sensores ou tanque vazio ?
A primeira hipótese era relativamente fácil de resolver, tinham peças sobressalentes para a reparação. Se fosse a segunda ... Zed olhou em volta como se estivesse pela primeira vez a aperceber-se de que talvez aquela nave se tornasse no seu túmulo. O plasma ainda existente nos outros tanques talvez não fosse suficiente para atingir alguma colónia humana. Lembrava-se de ter lido qualquer coisa sobre uma colónia que se ia instalar na zona do Caranguejo ... mas não imaginava quanto tempo teria já passado fora do cone hiper-espacial.
Tentou obter leituras, mas os dados eram confusos ... alguns indicadores estavam decididamente baralhados, não poderiam de forma alguma ter andado para trás no tempo.

Ou podiam ?
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---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Memórias

Postby MAGG » 04 Mar 2010 21:50

próximos capítulos ? .... :pipoca:

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Re: Memórias

Postby Ripley » 05 Mar 2010 14:54

Parte IV

[VOICE OFF]
[Cenário: Galáxia Espiral]

Uma das coisas que sempre me irritaram em histórias de FC com viagens no tempo (sim, porque EU leio histórias de FC; aliás são as únicas que me suscitam alguma curiosidade. Acho curioso o modo como os humanos tentam reinventar a Realidade do seu (MEU!) Universo, estupidamente pensando que aquele que habitam é o único que EU criei!) é o facto de os personagens passarem psicologicamente incólumes a uma experiência tão extrema para a sua frágil biologia.
Talvez esse facto tenha a ver com o relativo desconhecimento que os humanos têm do que é a "consciência" e de como um salto no tempo a influencia.
Imaginem a consciência como um baralho de cartas (parábolas destas sempre foram o meu forte!). O efeito provocado por um salto no tempo corresponderá a voltar a baralhar essas cartas. No entanto, ao regressar ao espaço normal, as propriedade físicas do cérebro pressionam as "cartas" a retomar a sua posição inicial. Assim, embora num primeiro momento tudo pareça estar igual (devido à componente "fantasma" da consciência; mas isso já é uma discussão técnica entre deuses que ficará para outra altura), em breve se manifestam algumas alterações, geralmente ténues: alguns esquecimentos, memórias falsas, deja-vu...
Excepcionalmente, o resultado final desse "baralhar" poderá ser considerado melhor (do ponto de vista adaptativo) que a configuração original. Tal foi o caso de Maddox.
As suas inegáveis potencialidades, subaproveitadas e desencorajadas por um sistema académico idiota, e os seus vastos conhecimentos teóricos, derivados de um estudo baseado no "empinanço", advogado pelo mesmo sistema académico idiota, foram recombinados para produzir um intelecto verdadeiramente superior.
Tão superior, que chamou a MINHA atenção...

[FADE OUT]

[FADE IN]

Maddox foi atravessada por uma potente onda de náusea, chegando mesmo a perder a visão. Apenas o instinto de se agarrar à moldura da comporta para a copa impediu que se estatelasse no chão.
Aos poucos, a náusea foi diminuindo de intensidade, acabando, estranhamente, por não deixar sinal da sua passagem.
Maddox olhou para o interior da copa, oblívia para o facto do seu olhar possuir agora um brilho que antes não possuía, incerta sobre a razão pela qual tinha ido até ali. Lembrou-se do tio, e ingeriu apressadamente uma tablete energética.
Em passo acelerado, voltou para o scanner médico. Uma olhadela rápida ao monitor revelou que Hypnus não tinha respondido positivamente ao preparado administrado. A necrose celular tinha já aumentado, provocando danos irreversíveis.
Decidida, com gestos seguros e impessoais, Maddox proferiu uma curta prece entredentes e desligou o tio do apoio vital. Após mais alguns comandos electrónicos, Hypnus foi envolvido numa película que rapidamente endureceu, ganhando uma textura metálica e um aspecto prateado. Um outro comando respondeu ao seu pedido, fazendo aparecer um pequeno vagão de transporte que levaria Hypnus para o porão, já que lhe era impossível levá-lo sozinha.
Seria lançado no Espaço que tanto amava. Mas ela teria de deixar essa cerimónia para depois.
Maddox bloqueou o vagão junto a uma antepara. Os mortos não sentem desconforto, mas ela decerto não se sentiria bem sabendo que havia um cadáver aos trambolhões no porão.
Com esse assunto por ora arrumado, Maddox tomava o seu destino nas próprias mãos; mal se apercebia da sua súbita auto-confiança e capacidade de decisão, dissipando por fim o eco da sua fraqueza anterior - produto estrito do ambiente cultural de uma Academia subliminarmente machista.
Desarmada, preparou-se para voltar à ponte... para enfrentar Zed.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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