Memórias

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Ripley
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Re: Memórias

Postby Ripley » 05 Mar 2010 14:57

Parte V

A “Regresso às Estrelas” parecia diferente. Mal tinha espaço para a tripulação quanto mais dar-se ao luxo de desperdiçá-lo com enfermarias, refeitórios e outros espaços tipicamente reservados aos luxuosos paquetes das dispendiosas companhias de viagens inter-estelares.
Ou talvez fosse ela que estava diferente ... na verdade nunca gostara do ambiente claustrofóbico de um porão, e muito menos na companhia de um morto. Devia estar a imaginar coisas.
Uma estranha sensação de vertigem desequilibrou-a e de repente viu-se a flutuar na imponderabilidade. O motor de Grav desligara-se. Numa antepara um comunicador crepitou e a voz aflita de Zed instou-a a apresentar-se o mais rapidamente possível na ponte.
Deitando para trás as preocupações com a geografia da nave, Maddox impulsionou-se pelo corredor fora, tendo o cuidado de dobrar o corpo perto das curvas tal como aprendera na Academia para minimizar a área de possíveis impactos. De pega em pega ergueu-se pelo poço que ligava a ponte ao resto da nave.

Em frente dos comandos Zed afadigava-se tentando fazer o trabalho que evidentemente deveria ser desempenhado por três pessoas. Maddox avaliou rapidamente a situação e debruçou-se sobre uma das consolas matraqueando vários comandos que ajudaram a estabilizar o motor de Grav e tiveram o efeito de apagar muitas fileiras de luzinhas vermelhas. Perdida a imponderabilidade os movimentos deles tornaram-se mais precisos e eficazes. Em breve, entre os dois, tinham domado a rebelde nave e puderam por fim sentar-se nas cadeiras, olhando em volta sem nada dizerem.

A ponte assemelhava-se imenso a uma cúpula abobadada donde a partir do topo irradiava um mapa celeste com a posição da “Regresso às Estrelas” assinalada por um triângulo vermelho. O holograma mostrava em fonte pequena os nomes dos sistemas habitados/colonizados. A triste realidade era que o mais próximo estava fora do alcance duma nave com um tanque de plasma seco. A menos que… se pudessem efectuar a Manobra de Lyvette. Era uma esperança. Ténue, decerto, mas que valia a pena tentar.

- Que dizes, lindinha, arriscamos? – Zed olhou-a, sabendo que também Maddox pensara no mesmo. E se ela pensara nisso…
- Zed, em mais de mil Manobras apenas 10 foram um sucesso. – a voz do instrutor da Academia que num longínquo dia de Primavera lhes explicara os prós e os contras da Manobra descoberta por Gaspar Lyvette soou-lhe aos ouvidos como se o homem estivesse ali presente. Acima de tudo ouviu os números: 3000 naves perdidas por ano; mil tentativas de manobras registadas em caixas negras posteriormente encontradas por equipas de salvamento; 10 manobras conseguidas. Números pouco animadores
- Façamos então por ser uma dessas 10, lindinha. – afirmou peremptoriamente Zed. Debruçou-se sobre a consola e começou a reprogramar o computador de bordo.
- Zed. Só uma coisa.
- Diz lindinha.
- Pára de me chamar lindinha.
- Está bem… lindinha. – Zed adorava provocá-la

Encolhendo os ombros e disposta a ignorá-lo o mais possível Maddox começou a meter na fila de execução da memória central as rotinas e sub-rotinas necessárias para a Manobra.
- A propósito Zed, Hypnus está no porão.
- Ai sim? A fazer o quê?
- Está morto. Não recuperou da necrose. Alguma ideia porque terá falecido?
- Nenhuma. É apenas mais um mistério para resolvermos…
- Sim. Um mistério, de facto. – Maddox observara sub-repticiamente as reacções de Zed e não pudera deixar de notar um certo ar de alívio. Doravante teria de ter muito cuidado. O seu único aliado a bordo daquela nave estava lá em baixo, envolto numa carapaça pseudo-metálica, e não mais lhe poderia prestar auxílio.


- Zed ... por muito mal que as coisas tenham corrido, não vejo como teríamos vindo parar aqui numa viagem de rotina a Ceres. Ou me contas a verdade ou não há Lyvette para ninguém ... tu não o podes fazer sem mim.
- Tinhas que perguntar, não é lindinha ? Pois bem, não era a Ceres que nos dirigíamos. Para te dizer a verdade, vim no encalço do teu pai.

Thanatos? Que teria ele a ver com isto ? interrogou-se Maddox.
- Zed, o meu pai desapareceu no espaço há uma década. Achas que o conseguirias encontrar passado tanto tempo ?
- Humm, expliquei-me mal ... Não vinha à procura dele, vinha na mesma rota à procura do mesmo que ele. Foi por isso que fiz o acordo com o teu tio ... só ele tinha a informação que eu queria.
- E era por isso que o querias ver morto? – atirou Maddox.
- Hein ??? Eu ??? Deves estar a fazer confusão, lindinha.

Maddox ignorou a provocação e olhou para Zed de soslaio. Ela lembrava-se bem da cara que Zed fizera quando lhe dera a notícia da morte de Hypnus. E por falar nisso ... uma ideia acorreu-lhe à mente, mas por algum motivo achou melhor não a revelar a Zed.
- Vou fazer de conta que acredito ... mas exijo saber do que viemos à procura.

Encolhendo os ombros, Zed suspirou. Garota teimosa ... era verdade que sem ela não conseguiria fazer a Manobra de Lyvette: em todos os casos bem sucedidos tinham sido precisos dois elementos para a levar a cabo. Decidiu contar-lhe a verdade.

- Há 10 anos atrás, o teu pai partiu em pesquisa. Oficialmente, dirigia-se a Titã, mas o plano de voo não era bem esse. Sendo uma pessoa influenciada pelas ideias da tua avó, sempre acreditou numa Entidade Superior que regesse o Universo, embora rejeitasse a ideia de Deus ou Deuses quer vingadores quer carinhosos para os humanos. Foi ridicularizado por muita gente, mas continuou firme nas suas convicções e nunca se inibiu de falar nelas e pesquisar tudo o que pôde sobre relatos de “Encontros Imediatos com o Divino”. Suspeitou da existência de algo ou alguém real, por trás de todos os relatos que não foram dados como falsos ... e decidiu partir em busca disso. Tudo apontava para um local onde as leis da física não existem e a causalidade é violada. As coordenadas do último registo de presença dele no espaço não são longe daqui, segundo Hypnus ...

- Dizes tu que foi ele quem te deu essas coordenadas ?
- Bem ... dar, não deu ... eu saquei-lhe essa informação quando negociámos o nosso humm, “acordo”.
Zed não parecia interessado em partilhar com ela as razões que o teriam levado a ele, pessoalmente, a seguir o mesmo trilho do pai. Maddox voltou a insistir:
- E tu, Zed, vieste porquê?
- Ora, lindinha, isso devia ser óbvio ... para já, tenho uma duração de vida muito superior a qualquer humano 100% orgânico, e já fiz tanta coisa na vida que poucas constituem hoje em dia um desafio para mim. E depois ... tenho uma curiosidade louca em saber o que Thanatos descobriu. Para além do facto de querer tentar sacar a recompensa por informações sobre o seu paradeiro que a tua mãezinha ofereceu ...

Ela olhou para Zed com um misto de ódio e desprezo. Créditos, sempre a pensar em créditos. Mesmo quando parecia pensar em algo mais transcendente, a mente daquele que já nem podia considerar homem continuava virada para o lucro.

Concentrou-se em obter os dados indispensáveis para tentar a Manobra de Lyvette. Estava decidida a ser um dos 10 a conseguir.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Postby Ripley » 05 Mar 2010 14:59

Parte VI

Com os dados à sua frente, Maddox fez alguns cálculos rápidos.
- Zed ... vai ser à tangente. Queres mesmo arriscar ?
- Temos alguma coisa a perder ?
Ela não respondeu. Abriu o modo de programação e inseriu algumas linhas de código no interface navegacional. Agarrou os comandos manuais semelhantes aos arcaicos joysticks de computador que figuravam nos museus.
- Estás pronto ? – inconscientemente, assumira o comando.
- Quando quiseres, lindinha.

Com a mão direita, ela carregou a rotina no computador de bordo e iniciou o processamento.
Os motores aqueceram subitamente, famintos de plasma.
Não tinha dito nada a Zed, mas ia tentar voltar para trás.
Levou o motor principal ao máximo do rendimento antes de iniciar a manobra.
- AGORA ! – gritou.
Zed tinha igualmente agarrado os comandos manuais e parecia agora formar uma entidade única com a cadeira de comandante, as mãos crispadas nos comandos de potência e os lábios contraídos num ricto de esforço.
A aceleração colou Maddox à cadeira, e foi com esforço que ela disse:
- N-n-não la-la-laarr-g-g-gues-s-s os c-c-com-mman-d-doossss, têmmm que es-t-t-aaarrr no m-m-áx-x-i-mmmooo!
Ela própria agarrava os comandos de direcção, levando a nave a um ponto determinado à sua frente, antes de iniciar a inflexão que esperava os levasse de volta ao ponto de entrada no hiperespaço.
Os olhos picavam-lhe com o esforço de os manter abertos, fixos no painel, aguardando que o programa lhe informasse que tinha chegado ao ponto de viragem.
- Desliga os motores! – gritou para Zed.
Quando as coordenadas piscaram à sua frente, torceu os comandos no que em terra seria uma viragem à esquerda capaz de fazer um veículo capotar. A “Regresso às Estrelas” gemeu com o esforço, o metal envelhecido ameaçando desintegrar-se.

Maddox sentia o suor escorrer pela face como uma catarata. Não podia falhar! Não podia!
- Liga os motores outra vez ... AGORA !!!
Num último esforço, os motores quase exauridos voltaram a acender-se, dando o impulso final na direcção que ela determinara.
Por fim, as coordenadas que não paravam de correr à sua frente como insectos endoidecidos mostraram-lhe os números que queria.
Soltou a mão direita e terminou abruptamente o programa. Os tanques estavam completamente vazios, a nave estava à deriva ... mas estava onde ela pretendera que estivesse.
Sentiu o corpo amolecer, como se a energia quase sobre-humana que fora obrigada a invocar se esvaísse subitamente.

A seu lado, Zed tremia. O seu corpo não tinha sido preparado para aguentar tal tensão, embora as peças tivessem o selo de garantia de Taywan II, o planeta que era o maior centro de produção de componentes miniaturizados.

O som da voz fê-los dar um grito.
- Mas que raios se passa aqui ? Estou farto de dar tombos !
Voltaram-se em uníssono para o poço de passagem e, completamente perplexos, viram a cabeça de Hypnus surgir rente ao chão. Tinha o aspecto saudável, isto é tão saudável quanto seria de esperar em alguém com mais de sessenta anos e com o seu gosto pelo bom vinho, como quando iniciaram a fatídica viagem.
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Re: Memórias

Postby Ripley » 05 Mar 2010 15:00

Parte VII


Branca, Maddox gaguejou. – Tu ... tu estavas ... – Não terminou a frase. Algo de estranho se deveria ter passado.
- Como te sentes, tio ?
- Parece que dormi cem anos ... a boca sabe-me a papel de música.
Acompanhou o tio ao scanner do 3º posto, levando-o deliberadamente para longe de Zed, e ligou o modo de diagnóstico. Mas segundo as leituras, o tio continuava morto e bem morto.
O seu intelecto brutalmente aumentado dizia-lhe que não era possível, e afirmava que não estava louca. Tinha que haver outra explicação. Deixou uma parte do cérebro a trabalhar no assunto e voltou para o seu posto, fazendo uma última verificação aos dados do computador. Tudo parecia estar a funcionar no mínimo. Aquela manobra gastara quase toda a energia da nave.

Levantou-se e voltou para junto de Hypnus. Como suspeitara, os dados do scanner continuavam todos a dar negativo. Aquele corpo não poderia estar vivo.

- Tu não és o Hypnus. – As palavras saíram-lhe sem dar por isso.
Hypnus deu uma risadinha sarcástica.
- Só tu darias por isso, minha querida. Realmente, não sou o teu tio. Utilizei este corpo como avatar para me introduzir aqui e ver as vossas reacções.

- Foi à tua procura que o meu pai partiu ?
- Acho que sim ... e encontrou-me. Creio apenas que não sou aquilo que ele pensava encontrar. Para um humano, colocou-me algumas questões pertinentes, mas depois não gostou das respostas. Ainda esteve comigo algum tempo ... mas depois quis partir. Só que eu não podia deixá-lo ir embora com as respostas.
- Mataste-o ?
- Não. Poderia tê-lo feito, mas não. Na realidade ainda não decidi o que fazer com ele. Queria ver-vos primeiro ... em toda a existência deste Universo, foram muito poucos os que conseguiram chegar até mim.
- Isso não faz sentido ... não és um ser omnipotente e omnisciente ?
- Maddox, fazia melhor ideia do teu intelecto. Achas mesmo que não tenho mais nada que fazer do que andar a controlar todo e qualquer acontecimento, todas as vossas ínfimas acções ? Foi para isso que inventei a Física, Pi, os números primos, o princípio da causalidade, o livre arbítrio que vos decidi dar. Deixei-vos sozinhos a ver como se safavam; como calculei, primeiro inventaram um Deus criador, depois uma montanha deles, depois vieram os que renegaram totalmente essas ideias ... nada que não tivesse acontecido antes noutras paragens.

O cérebro de Maddox funcionava a anos-luz por segundo.
- É verdade que existem então outros Universos ?
- Para onde pensas que desapareceram tantas naves ? Nem todas foram destruídas ... Eu criei os buracos-de-verme para vos facilitar a vida, mas há sempre algum engraçadinho que tenta alterar as manobras a meio do percurso ... a partir daí, se entram num universo que não é da minha competência, já não é nada comigo. Já tenho tanto que fazer com os meus ...
- Não passas então de um deus-aprendiz, crias-nos e depois não te interessas pela nossa sorte.
- Eu dei-vos a inteligência e o livre arbítrio. Que mais querias que fizesse ? Outros como eu criaram universos onde os minerais pensam e as plantas andam, depois ficam a ver a sua evolução muito quietinhos. Eu fiz-vos com vida curta e inteligência capaz de se desenvolver e aprender. O mesmo que vocês tentaram fazer, primeiro com os computadores e depois com as IA. Quem é então o aprendiz ?
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Re: Memórias

Postby Ripley » 05 Mar 2010 15:02

Parte VIII


Zed surgiu atrás dela de repente, empunhando uma arma. Maddox virou-se, e calculou que com um golpe bem aplicado conseguiria fazê-la saltar antes que ela disparasse. Mas queria primeiro ouvir o que Zed tinha a dizer.

- Com que então és tu ... eu bem sabia que os microfones escondidos haveriam de revelar a sua utilidade – o riso mesquinho distorcia-lhe as feições.
- Sabes que não adianta nada usares uma arma contra mim, não sabes ? Posso com a maior facilidade abandonar este corpo e passar para outro, até para o teu ... queres ver ?

Num instante, o corpo de Hypnus caía no chão e nos olhos de Zed via-se uma expressão de horror. Após poucos segundos, Hypnus levantou-se ... mas a expressão de loucura permanecia em Zed.
- Que lhe aconteceu ? – perguntou Maddox.
- Nada que não tenha acontecido antes a outros humanos. Quiseram saber como era ser eu ... mas a vossa biologia, o vosso cérebro não permite abarcar a totalidade sobre mim. Foram dados como clinicamente loucos. Houve excepções, mas os outros também não os levaram a sério. Chamaram-lhes doidos, visionários, profetas ...

- Nem sei como te chamar ... Deus, Criador, o quê ?
- Chama o que quiseres, é-me indiferente.
- E que vais fazer de nós agora ?
- Bem ... o teu pai merece viver, esforçou-se para chegar até mim e veio com uma atitude positiva. Deves calcular no entanto que não o posso enviar de volta para Utopia V ... outros poderiam ter a mesma ideia que o teu amigo ali. Acho até que vou reanimar o irmão para lhe fazer companhia ... não vai ter muito com quem falar. Quanto a ti ... tenho uma proposta para te fazer.



Maddox ouviu em silêncio. Ele estava farto daquele universo, já tinha canalizado matéria suficiente através dos buracos negros para outro ao lado e queria começar um novo projecto. Mas aquele também fora criação sua, não podia deixá-lo abandonado sem um Guardião, a menos que ela aceitasse ... seria capaz de viver sem um corpo ? Eon após eon de vigilância perene ?

Era um dilema. Sabia que nunca poderia rever os seus entes queridos, ele não o permitiria. Aguentaria voltar para junto de outros humanos e ser dada como louca ? Poderiam até colocá-la em estase como por vezes faziam com os considerados incuráveis.
Mesmo que isso não acontecesse, sabia que se sentiria para sempre distante dos outros humanos. Estaria para sempre só.
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Re: Memórias

Postby Ripley » 05 Mar 2010 15:04

Epílogo


Relatório da Nave-Patrulha “Pioneiro”:

Encontrada nave “Regresso às Estrelas” perto do ponto de salto para o hiper-espaço. Dois tripulantes desaparecidos, um morto. Causa de morte do tripulante não identificável.

Observações:
O tripulante morto é uma mulher jovem. Foi encontrada numa cápsula de estase, e não foi identificada a causa de morte. Dados bio-fisiológicos indicam tratar-se de Maddox Arhenes-Tuup, finalista de Astronavegação da Academia Espacial de Utopia V do ano de 3752.

Fim de relatório.

Nota do capitão:
Estranho, nunca tinha visto nada assim ... não sabemos do que morreu, mas parece que ela soube, e morreu feliz. Tanta serenidade naquele rosto ... parece ter visto algo divino.


-----------


[Vista da Via Láctea; Voz Off]

Eu sou o Guardião.

Em tempos fui uma mulher inteligente e orgulhosa. Em tempos fui humana.
Sei que o Outro fez o que achou melhor. Quis apenas dar a minha ideia sobre o destino a dar aos humanos que conheci, e o Outro aceitou.

Zed foi colocado na Terra, numa zona conhecida como América Central antes de desaparecer sob as águas. Vi-o há pouco tempo; persuadiu os outros humanos, mais primitivos, a fazer pirâmides e a observar cuidadosamente o céu. Ensinou-os a fazer um calendário astronómico.

Quanto a Thanatos e Hypnus ... foram levados juntos para a antiga Europa, para uma outra época, mais primitiva ainda.
Antes de me despedir deles, disse-lhes que ajudassem os humanos no que pudessem sem nunca revelar a verdade sobre o criador deste universo. Optaram por ajudá-los com o Sonho, o Esquecimento e a Morte. Creio que os humanos os tomaram por deuses...

O Outro aconselhou-me a ler a Ficção Científica dos humanos – há-de me servir de divertimento, e também para identificar as mentes suficientemente curiosas e inovadoras que um dia talvez venham à minha procura.
Com o tempo, talvez um dia possa escolher um sucessor, e eu possa tentar criar um universo à minha medida.
Não sei, ainda tenho muito a aprender sobre este.


-§- FIM -§-
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Re: Memórias

Postby Samwise » 05 Mar 2010 17:08

....waaaaay down memory lane...

Ripley, quando comecei a ler o conto não reparei na mensagem que deixaste antes, a informar que tinha sido publicado no Hyperdrivezine.

À medida que fui avançado, uma daquelas sensações de desnorte completo começou a tomar conta de mim - um daqueles dejá vu's recorrente - eu conhecia vagamente esta história e os nomes dos personagens também não me era nada estranhos. A primeira ligação que fiz foi ao Filhos de Athena e estive para te perguntar de onde tinha vindo isto.

Depois, ao andar para trás no tópico, lá dei com a tal mensagem - e que boas recordações me trouxe. Recordações que remontam aos tempos iniciais do BBdE e às pessoas que conheci nessa altura. :tu:

Quanto ao texto: soborosíssimo. Da primeira vez que o li, nesses tempos saudosos do Hyperdrive, não tinha nenhuma cara para associar a três dos protagonistas... ;)
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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