Boca do Inferno

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Ripley
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Boca do Inferno

Postby Ripley » 18 Aug 2009 15:36

Hoje não calcei as sandálias, aquelas sandálias finas de que gosto.
Não, hoje preciso de mobilidade, preciso de voltar por momentos aos meus tempos de maria-rapaz, cabra montesa, trepadora, alpinista a fingir, rainha das encostas mais ou menos escarpadas. Hoje trouxe os meus ténis, bons para correr, trepar ou fugir. Ou apenas para caminhar em solo irregular e pedregoso.

Paro o carro e desligo as luzes.
Fico alguns momentos sentada no interior, num silêncio quebrado pelo bombar abafado dos altifalantes de outro veículo próximo. Saio devagar e o vento lança-me os cabelos soltos sobre a cara, inundando-me as narinas do cheiro frutado do amaciador. Amarro o cabelo com um elástico que costumo trazer no bolso, tranco o carro e afasto-me.
Adiante, alguns jovens, falando quase aos berros sobre a forte batida da música (mas aquilo é música ?), riem alto e bebem cervejas em série, a ajuizar pelas garrafas que jazem a seus pés como um exército derrotado. Não me vêem. Trouxe roupa escura, embora seja hábito usar roupa escura. Mas hoje confundo-me com a noite, negro sob o negrume da noite sem luar.
Escolhi a hora de propósito para não ter que explicar a algum vigilante mais ou menos atento que sei perfeitamente que o sítio é perigoso mas que o conheço muito bem.

Uma onda rebenta com fragor e deposita num fiapo de vento gotas fugazes de maresia que me reacendem a memória de Verões perdidos no tempo, dias solarengos em que aquela mesma maresia me despertava o riso enquanto trepava mais um pouco, pé aqui, mão ali, a cana presa nas rochas em baixo e eu deitada ao sol nas rochas em cima, imperceptível a quem não se aventurasse mais perto como se estivesse oculta nalguma desconhecida dobra do espaço.
Os meus pés ainda sabem os caminhos invisíveis sobre as rochas e levam-me até à beira do meio-poço onde o mar ruge ao fundo, protestando contra a prisão incompleta de onde se evade a cada vaga mas de onde não consegue, de facto, ir embora.

Sobre a rocha a pique abro o peito e tiro o rendado dos momentos guardados entre as cordas do mecanismo que me bate cá dentro, maquineta que sopra incessantemente o teu nome no meio do seu surdo tiquetaquear. Folheio-os, detendo-me aqui e ali em olhares, toques e sabores cheios de significantes e significados até chegar ao último pedaço, ao último fragmento, ao recorte de tempo onde revivo o momento em que me apercebi que nada mais era para ti a não ser uma página já virada, uma história já lida e vivida.
Enovelo as recordações com um travo ácido, deposito sobre elas um breve beijo antes de as deixar cair sobre a branca espuma das ondas que se fazem ouvir metros abaixo.

Afasto-me e conduzo, regresso a casa vencida, ainda em silêncio, ainda ouvindo o teu nome a cada batimento do coração, oca, vazia de mágoas mas também de amor, vazia, vazia de tudo o que fomos um dia, todos os sonhos e projectos incumpridos que recordo de cada vez que o sal do mar que trago nos olhos me invade os lábios - mas que jazem agora no fundo rochoso sob as águas da Boca, para sempre inacessíveis, para sempre perdidos.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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