Cabo da Roca

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Ripley
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Cabo da Roca

Postby Ripley » 19 Aug 2009 18:42

Rocha, entenderia. Roca ... não.
Rochas, rochas, rochas e Mar a perder de vista.

Olho em volta e reparo nela. Os meus olhos detêm-se na figura sentada direita, com as mãos numa posição de abandono sobre os joelhos metidos para dentro.
Tem um ar inescrutável e não consigo deixar de a olhar. Meditará sobre o seu futuro? Ou sobre o seu passado? Não faço ideia. Não ouso aproximar-me, poderia incomodá-la. Lentamente, o semblante quase impassível muda, ostentando agora meia sugestão de sofrimento interior. As sobrancelhas estão franzidas e poderia jurar que morde o lábio. Indecisa? Aflita? Não sei.

Alguns turistas vagueiam tirando fotografias. Ignoram-na como se ali não estivesse, caminham até se deter em frente dela, falando muito alto.
"Olha-m'isto! E se eu caísse daqui ??"
"Pára com as palhaçadas, pá! Ouviste ?!"
"Não sejas chata, vá ... anda cá olhar para o mar, vê lá que lindo!"
Aproximam-se da beira da falésia, a menos de um metro dela, como que inconscientes da sua presença. Caminham demasiado perto do precipício até chegarem ao pé de mim.
"Então, tirou alguma foto gira ?" Sorrio sem responder.
"Deve ser estrangeiro, não lhe ligues e vamos."
"Cambada de bifes, pensam que isto é tudo deles ..."

Afastam-se, barulhentos como chegaram, pisando chorões. Em breve não passam de um ruído distante de risos e exclamações.
Então ela levanta-se e reparo que está descalça. Dirige-se para o sítio onde ainda há pouco estavam os incómodos turistas e olha para baixo. O meu coração falha uma batida. Estará a pensar atirar-se dali?
Quero ir até ela, dissuadi-la, dizer-lhe que deve haver decerto algo por que viver - mas não consigo mover-me, hipnotizado por aquela imagem em movimento sereno.
Avança e recua ao longo do rebordo, olhando, medindo, espreitando.
A dada altura senta-se no chão com os pés pendurados pela beira do abismo. Quero chamá-la mas nem um som me sai da boca. Apoia-se nas mãos e num instante desliza para baixo, abandonando o meu campo de visão.

Liberto da minha imobilidade, caminho depressa até ao sítio onde estava. Vejo-a descendo a escarpa como se fora um insecto com cola nos dedos, agarrando-se a pequenas reentrâncias e tufos de vegetação, com movimentos rápidos mas calculados. Em breve atinge a base do rochedo e as ondas lambem-lhe já os pés nus, batem nas rochas mais à frente e molham-na de salpicos. Trepa a uma dessas rochas e olha para o mar durante alguns minutos.

Subitamente, ante a minha mirada incrédula, despe-se e fica nua sob o sol, diante do mar cuja ondulação agreste levanta ao rebentar gotículas a vários metros de altura. Abre os braços como se colhesse a luz na pele, planta em forma humana absorvendo energia para a fotossíntese. Avança mais um passo e parece respirar fundo. Vira-se e vê-me ali em cima. Sorri e acena. Com a boca seca olho para ela, vendo detalhes em que não tinha reparado e que a tornam diferente de qualquer mulher que já tenha visto. Volta-se de novo e mergulha na cava da onda seguinte, para reaparecer uns metros à frente. Acena de novo e torna a mergulhar. Não a volto a ver.




Talvez seja do sol. Um golpe de calor. Uma insolação. Mas sinto-me calmo e lúcido, nada de febre nem dor de cabeça.


Talvez seja melhor não contar a ninguém o que presenciei porque não acreditarão em mim. Será pois o meu maior segredo: que aqui, onde a terra acaba e o mar começa, vi uma sereia voltar para casa.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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