O Mundo de Nelm

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Ripley
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O Mundo de Nelm

Postby Ripley » 08 Sep 2009 15:43

Do alto da sua cadeira elevada, o Barão von Holstein suspirava cofiando os longos bigodes encerados e olhando os vilãos que escreviam a custo cada uma das letrinhas dos seus nomes nos campos acanhados dos impressos. Que haveria de fazer? Aquela gente iletrada tirava-o do sério, fazendo-o ler em voz alta os documentos de ponta a ponta para poderem perceber o que diacho estavam a assinar. Bons velhos tempos em que bastava a nobreza fazer um rabisco e usar o sinete para tornar válida uma carta de foral ou uma transmissão de terras!
Mas a República tornara tudo mais complicado, aquela história dos direitos iguais era um completo disparate. Algumas pessoas não tinham nascido para pensar por si próprias, pronto! E para ter um negócio muito menos! Qual era o mal de o dizer? Não compreendia porque tanta gente o olhava de forma estranha quando o exclamava após mais um dia submetido à tortura da burocracia empedernida de uma repartição.

Enquanto olhava enfadado para os bilhetes de identidade dos outorgantes (ah, onde estavam os títulos, os pergaminhos de quem tinha o seu nome no Gotha ?) a sua imaginação esvoaçava para a torre envidraçada onde a sua princesa o esperava.

Suspirou novamente e disse para com os seus botões brasonados "Só mais umas horas, Leandra!".


Enquanto isso, Leandra, a princesa que fora educada entre gordas salsichas e choucrute, franzia as sobrancelhas sobre manuais de programação - o que agora chamavam aos compêndios de magia. E de facto estava próximo da magia o que Leandra fazia acontecer com um toque aqui e outro ali. Ou era isso o que o Barão dizia, alheio a minhoquices de bits e bytes.
A princesa desbravava as páginas tornando-se Mestre de Sherpint, uma categoria bastante respeitada num mundo onde "a nobreza já não tinha valor para as gentes" – novamente as exclamações de von Holstein a faziam sorrir. Leandra estava determinada a, como sempre, ser reconhecida por aquilo que fazia e do que era capaz, não por ser a futura Baronesa. Para ela, pergaminhos eram os manuais de Magia Basic ou VBA – ou seja, antiguidades empoeiradas.

E quando não estava embrenhada nesses estudos magico-cibernéticos, a princesa mergulhava num mundo só seu, recheado de personagens imaginários capazes das coisas mais fantásticas e também das mais cruéis. Só aligeirava o semblante quando clicava num par de teclas para mostrar a janela de conversatório à distância - mais conhecida como Mensageiro Pessoal - onde debatia assuntos referentes às suas viagens imaginárias com outros estranhos em terra estranha, como Sian'Ey, uma dama oriental gorducha que lhe comentava as pontuações ortográficas dos diálogos algoz/vítima.



No fim de mais um dia densamente recheado de assinaturas, papéis e odores corporais pouco agradáveis amontoados do outro lado do pequeno balcão de atendimento, o Barão fez-se à estrada no seu cavalicoque ronceiro – era um homem previdente que não levava o seu melhor corcel para a cidade, já que era um antro de ladrões, uns mais bem vestidos e falantes do que outros – para esperar a sua princesa.


Quando ela desceu da sua torre, tinha o sobrolho franzido.

- Que se passa, minha princesa? Quem te turvou a fronte com preocupações? Foi porventura essa implacável gorducha que faz pouco de mim no conversatório tratando-me pelas iniciais do nome de um escritor plebeu de histórias de horror que dariam pesadelos ao Demo?

Ainda imersa na mais recente das suas ficções cientifico-macabras, Leandra levantou os olhos para o Barão e fitou-o bem de frente. Von Holstein conhecia aquele olhar. A princesa estava prestes a terminar mais um texto e muitos acabavam de forma semelhante.

- Ó Love ... qual achas que é a forma mais sangrenta e teatral de matar uma pessoa?
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"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: O Mundo de Nelm

Postby Samwise » 08 Sep 2009 16:11

Ehehehe...

Está bem engraçado. A última frase é um must.

Isto tem continuação, certo?

Sam
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Re: O Mundo de Nelm

Postby azert » 08 Sep 2009 16:30

Oh pobre nobreza, forçada ao convívio com plebeus!!  :mrgreen4nw:
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Re: O Mundo de Nelm

Postby Ripley » 08 Sep 2009 17:55

"O Conversatório pode, de facto, mudar a vida das pessoas!"

Foi com este pensamento que Poiuy, bibliotecária na Cidade Augusta, activou a janela mágica, que é como quem diz, o écran do computador.

Estranho mundo este, onde a magia fazia parte do dia-a-dia à mistura com processadores Octo-Core de 32 GHz que funcionavam associados a teclados de madeira (faia nas versões mais acessíveis, ébano ou teca para os mais abonados) e baterias à base de mijo de burro (substância abundante dado o elevado número de asnos no planeta, a par de uma elevada produção de cidra). O mesmo pensamento ocorrera-lhe pela enésima vez no espaço de poucos meses.

De facto, fora graças ao Conversatório que a sua vida dera uma volta. Poiuy vivia sozinha com os seus gatos e os seus livros, dedicando-se à cultura e ao puro prazer de ler. Mas estas eram qualidades que não impressionavam os magnatas da Cidade Augusta que controlavam todos os negócios, mágicos ou não. Fechada a sua biblioteca por falta de leitores, Poiuy tentava um novo início de carreira onde pudesse usar as suas capacidades críticas e a sua língua afiadamente certeira. Mas os poderes estabelecidos não apreciavam essas qualidades excepto quando presentes em si próprios ou nos seus familiares. Como Poiuy não se propunha a servir de capacho a ninguém, uma nova oportunidade tardava em aparecer.

No Conversatório, o seu Cavaleiro esperava-a.

Para muitos um bárbaro inculto, Xédoufínicz era dono de uma nobre alma recheada de imaginação – e por vezes de indignação na mesma medida. Dedicava-se este cavaleiro, nas suas horas vagas, a pugnar pela qualidade e diversidade das obras literárias disponibilizadas às gentes em geral, sem formar opiniões desmeritórias de quem não apreciasse epopeias épicas mas condenando acintosamente os magnatas tacanhos e seus fiéis lacaios que decidiam que "não era isso que os leitores queriam". O cavaleiro acreditava na inteligência e cultura dos seus semelhantes apesar de os encontrar repetidamente entregues a devorar tretas-de-cordel que ele próprio abominava, respeitando acima de tudo o direito à livre escolha dos livros preferidos.

No seu dia-a-dia Xédoufínicz batalhava através de sucessivas reuniões dos Cavaleiros das Linhas de Código, manifestando o seu desagrado pela perda de tempo que era convocar uma reunião para preparar outra reunião – tempo esse que poderia ser muito melhor empregue a escrever o terceiro tomo da sua saga ou a pensar na sua amada.
Até se aproximar de Poiuy, Xédoufínicz era, quase na mais pura acepção do termo, um cavaleiro negro, pois que de tal cor se preferia vestir. Falhava o facto de não se deslocar habitualmente a cavalo mas a pé ou de bicicleta, meios mais compatíveis com as suas longas pernas e o seu gosto por calcorrear as ruas da Cidade Augusta.
Mas depois de conhecer a bibliotecária, embora as suas vestes continuassem a ser preferencialmente escuras, os pensamentos do cavaleiro tinham começado a ser mais coloridos e o seu diálogo no Conversatório era diariamente inundado de flores à chegada da sua querida.

O Cavaleiro lamentava a possibilidade de uma próxima expedição dos Cavaleiros à terra dos Astecas, que o afastaria do convívio com Poiuy e o bando de estranhos em terra estranha que costumavam encontrar-se nas sessões conjuntas do Conversatório, numa sala que ele próprio criara para o efeito. Era aí que Xédoufínicz debatia as suas ideias sobre cultura e inteligência, divulgando uma invulgar página de psicologia que reunia definições fora do habitual para determinados fenómenos de massas e da qual era fervoroso adepto.

Nessas sessões conjuntas, onde o bando de teimosos que se auto-denominava "Não Existem Livros Maus" ou NELM – que incluía a própria Poiuy, o Barão von Holstein e sua princesa Leandra, a oriental gorducha, uma viúva nada desconsolada, um inventor e um espião desempregado, entre muitos outros – se juntava para dizer disparates, trocar ideias e informações sobre as poucas entidades que tentavam furar o bloqueio dos magnatas editoriais, o nobre cavaleiro perdia de quando em vez a paciência e soltava um "WAAAAG!!!" que assustava os presentes e reforçava a ideia de que o pobre Xédoufínicz era, de facto, um bárbaro inculto.

Um certo dia, quando as conversas e ideias trocadas já eram mais do que muitas, e já irritado com o Lobo Lamparinas e seus parceiros de sueca, o cavaleiro barafustou:

- Estou aqui estou a criar uma sociedade secreta para dar cabo da pose desse bando de chacais!

Fez-se silêncio no Conversatório durante alguns instantes.

Poucos se terão apercebido – mas a Revolta estava prestes a começar.
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Re: O Mundo de Nelm

Postby Lovecraft » 08 Sep 2009 17:56

azert wrote:Oh pobre nobreza, forçada ao convívio com plebeus!! :mrgreen4nw:



Tem sim e não vai ser bonito de ver.

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Re: O Mundo de Nelm

Postby Samwise » 08 Sep 2009 18:05

NELM----> :biggrin: (gostava de ver a tua tabela de associação de nomes, visto que apenas duas situações se me apresentam reveladas, as do barão - que já teve resposta :mrgreen4nw: - e a do espião desempregado, que parece ser o Jorge dos Santos)

Dobro a língua toda a tentar soletrar os nomes dos personagens...

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Re: O Mundo de Nelm

Postby shadow_phoenix » 08 Sep 2009 18:05

Gostei do texto.

Não gostei muito foi desse gajo, o tal de Xédoufínicz. Parece um parvalhão.  :buba:

A bibliotecária é que parece interessante. Não tens por aí o número dela?  :dribble:

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Re: O Mundo de Nelm

Postby Gaminha » 08 Sep 2009 18:07

Samwise wrote:NELM----> :biggrin: (gostava de ver a tua tabela de associação de nomes, visto que apenas duas situações se me apresentam reveladas, as do barão - que já teve resposta :mrgreen4nw: - e a do espião desempregado, que parece ser o Jorge dos Santos)

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Não estou a perceber... Leandra é um nome bem giro! :cool:

Vais ter resposta, ai vais, vais...

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Re: O Mundo de Nelm

Postby Ripley » 08 Sep 2009 18:07

Samwise wrote:NELM----> :biggrin: (gostava de ver a tua tabela de associação de nomes, visto que apenas duas situações se me apresentam reveladas, as do barão - que já teve resposta :mrgreen4nw: - e a do espião desempregado, que parece ser o Jorge dos Santos)

Dobro a língua toda a tentar soletrar os nomes dos personagens...

Sam


Sammy dearest!
TODOS os que assistem às sessões do Conversatório sabem quem são os personagens principais :devil2: ... e sobre o espião remeto-te para a primeira GTN :mrgreen4nw:
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Re: O Mundo de Nelm

Postby Samwise » 08 Sep 2009 18:12

Ripley wrote:
Samwise wrote:NELM----> :biggrin: (gostava de ver a tua tabela de associação de nomes, visto que apenas duas situações se me apresentam reveladas, as do barão - que já teve resposta :mrgreen4nw: - e a do espião desempregado, que parece ser o Jorge dos Santos)

Dobro a língua toda a tentar soletrar os nomes dos personagens...

Sam


Sammy dearest!
TODOS os que assistem às sessões do Conversatório sabem quem são os personagens principais :devil2: ...


Pois, mas eu como não assisto (nem tenciono assistir), estou com um burro a olhar para um palácio (quem sabe se não estou até a contribuir para carregar alguma baterias enquanto espero que se me faça luz... :mrgreen4nw:).

e sobre o espião remeto-te para a primeira GTN :mrgreen4nw:


Maledita memória! Num estou a ver quem seja...

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Re: O Mundo de Nelm

Postby Ripley » 08 Sep 2009 18:18

Samwise wrote:Pois, mas eu como não assisto (nem tenciono assistir), estou com um burro a olhar para um palácio (quem sabe se não estou até a contribuir para carregar alguma baterias enquanto espero que se me faça luz... :mrgreen4nw: ).


Bem, se beberes bastante cidra talvez ajude. Mas descansa que também terás o teu papel na epopeia.

Samwise wrote:
e sobre o espião remeto-te para a primeira GTN :mrgreen4nw:


Maledita memória! Num estou a ver quem seja...

Sam


Vai ver as legendas das fotos, vai ... mas depois não comentes, sff - sempre é uma forma de a malta perder a preguiça se quiser mesmo saber de quem se trata.
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Re: O Mundo de Nelm

Postby Ripley » 08 Sep 2009 22:43

Editado o título.
Nem todos os capítulos vão ser sobre casalinhos amorosos ... já tinha dito que havia também monstros e fadas, não já?
Pois acrescentem a isso os meio-humanos também :devil:
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Re: O Mundo de Nelm

Postby Tzimbi » 08 Sep 2009 22:45

Posso ser uma fada? :hypocrite: :hypocrite: :hypocrite:

Nice work, Rip!

S.

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Re: O Mundo de Nelm

Postby Ripley » 08 Sep 2009 23:31

Neste estranho mundo existiam personagens sui generis - totalmente diferentes de todos os outros.
Embora com aparência humana, não o eram inteiramente. Descendiam de investigadores biogenéticos que tinham sonhado modificar a humanidade mesclando-a com outros seres vivos; tinham começado exactamente pela sua própria descendência, tal como o resto da equipa.

Dois deles não renegavam a sua ascendência e eram presença habitual no Conversatório. Pietari Vehnäjauho, o meio-grou e Alix Långstrump, a meia-garça, tinham tal como os outros um aspecto perfeitamente indistinguível dos outros humanos à excepção duma altura um pouco acima do normal. Os ornitogenes tinham-lhes proporcionado longas pernas que os faziam sobressair do resto da multidão; isso tornava-se francamente evidente nas reuniões do grupo de Nelm.

Ao contrário de Pietari e Alix, outros meio-humanos tentavam por todos os meios ocultar a sua herança genética. Directio Pilum, o meio-marreta, era ainda assim dos que mais convivia com o grupo, atirando comentários sarcásticos aqui e ali quando lhe dava na telha - sem no entanto ter alguma vez participado numa das animadas sessões de debate do Conversatório. Aliás, isso acontecia com boa parte dos membros de Nelm, a começar por um dos seus líderes, Gamgee.

Alix Långstrump, a Terminóloga, vivia no meio de palavras. A maioria das suas horas acordada eram passadas no meio de significantes e significados, orientando todo um enxame de obreiras que se dedicavam a traduzir línguas estrangeiras, umas mortas e outras impronunciáveis. A própria Alix era especialista em mais do que uma dessas línguas, fazendo com que fosse sua a decisão de escolha do melhor termo para definir qualquer uma obscura e indescritível expressão idiomática. Não se sabia se os ornitogenes lhe tinham também influenciado a qualidade de audição, fazendo-a percepcionar as variantes linguísticas com uma enorme clareza acústica.

Por sua vez, Pietari Vehnäjauho, o Índjiniar, só pensava em voar. Rejeitava o epíteto profissional que lhe coubera e preferia auto-denominar-se Uíndpéçandja. Tudo isto tinha a ver com a sua paixão pela liberdade dos ares. Os seus tempos livres eram passados a inventar fantabulásticas máquinas voadoras, na sua maioria movidas a pedais. Era um estranho passatempo para alguém cujo trabalho estava ligado aos subterrâneos de Olisipópolis e Pietari acrescentava-lhe ainda a escrita: textos em que a sua imaginação voava até cidades flutuantes ou se debruçava atentamente sobre uma parte anatómica que a sua herança não lhe proporcionara grandemente.
Não tinha penas - mas também não tinha cauda. Talvez fosse por isso que os traseiros humanos o fascinavam - e aí só Alix parecia compreendê-lo.

Pietari era um sonhador. Alix ria-se quando ele lhe dizia que um dia construiria para residir um enorme domo ... em forma de rabo.
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Re: O Mundo de Nelm

Postby Gaminha » 09 Sep 2009 09:16

Malucou de vez!
:mrgreen4nw:


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