Coração gigante

User avatar
Ripley
Edição Limitada
Posts: 1219
Joined: 30 Jan 2009 02:10
Location: Under some mossy rock
Contact:

Coração gigante

Postby Ripley » 22 Jan 2010 15:51

Lisboa, Fevereiro de 2040 - Centro de Congressos
Palestra: Ainda é necessário o voluntariado nos dias de hoje?


Levanta-se e caminha na direcção do palco. Apresentam-na ao microfone, ela sorri e olha em redor. Há nela um brilho, como um halo que a rodeia por inteiro. Mas não são as jóias que captam a atenção. Ela não as usa. Traz uma roupa prática que parece ter sido escolhida para andar na terra batida em vez de no meio de um público engravatado e enroupado de tecidos caros.

Começa a falar do seu mais recente projecto em África e depressa envolve toda a assistência numa magia doce que nos faz querer dar o algo de nós – apenas porque a vemos dar tudo de si.
Mostra fotos e slides, fala das crianças com quem conviveu ao longo dos anos e dos adultos em que se tornaram, com um orgulho igual ao de uma mãe. Revê-se em todas aquelas pessoas de que fala, ouve-se o vibrato na sua voz, a emoção ao dizer que o Jean foi adoptado por um casal húngaro e hoje é engenheiro, a Samira por americanos e é bióloga, o pequeno Kambata veio para Portugal e tornou-se professor.
Embarga-se-lhe a voz quando fala dos que perdeu para a malária, a cólera e tantas doenças que para nós são nomes vagos que a vacina manteve à distância.

Sorrio ao vê-la, relembrando as nossas conversas de há trinta anos, quando ela queria adoptar uma criança haitiana ou africana.

- Siss, eles precisam de alguém... e eu quero muito ter um filho.
- Tonta, adoro que sejas assim, mas isso é tão complicado... já pensaste na dificuldade logística disso? Elas não falam português, estarão carentes e amedrontadas num país estranho. Tu terias que dar 100% do teu tempo a uma criança nessas condições, mas tens que trabalhar para vos sustentar. Como farias?

Mesmo por telefone adivinhei logo o repuxar teimoso do lábio inferior enquanto pensava no assunto. Sabia que ela não ia afastar totalmente a ideia, que iria remoer o assunto. Remoeu, triturou, digeriu. Um dia telefonou-me dizendo que tinha sido aceite numa missão de uma ONG e que ia para África. A voz vibrava e tremia, ouvia-a rir e chorar ao mesmo tempo. Estava radiante.

Nessa altura tornei-me a sua voz à distância . Criei-lhe uma página no facebook que ia actualizando com as fotos, os textos, os pedidos de ajuda que ela me encaminhava semanalmente. Canalizava as respostas dos inúmeros interessados para a ONG que a contratara. Receberam mais voluntários, embrulhos, caixotes e contentores. Cavaram valas, limparam riachos, fizeram tijolos, casas, escolas.


Os anos passaram e ela volta a casa de tempos a tempos. De cada vez traz um ar mais cansado mas mais feliz. A voz é límpida quando se dirige às pessoas comovidas que a olham com respeito por tudo o que fez. Ela não quer o seu respeito, não quer a sua pena, não por ela. Quer respeito pela causa das crianças e pena pelas condições em que vivem. Gesticula. Fala do companheiro, que fica no centro de apoio tomando conta das crianças da aldeia como se fossem deles. Os seus? Bem, os dois filhos e os cinco netos vão durante as férias ajudá-los. Abandonam as marcas, os gadgets e as roupas caras para ajudar a cavar poços e levantar paredes de adobe. Os cinco pequenos brincam na terra e na lama com os outros, enxotam as cabras e ajudam a preparar as refeições.

Mais uma vez apela à bondade e à caridade da audiência. Pede voluntários, pede roupas e cadernos, medicamentos e comida, ou dinheiro para comprar tudo isto. Pede-nos que sejamos solidários para quem tem bem menos do que nós. Sinto as lágrimas nos olhos e vejo-as na face dos que me rodeiam e ninguém tem vergonha de estar a chorar. Ela tem sempre este efeito sobre as pessoas. Toca-as.


É esta a minha irmã adoptiva, com um coração do tamanho do mundo e arredores. Quando crescer quero ser como ela.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

Return to “Lt. Ripley”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 2 guests

cron