Corrector de Sonhos (Crónicas do "Dar a Volta ao Papel")

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Corrector de Sonhos (Crónicas do "Dar a Volta ao Papel")

Postby Lady Entropy » 19 Mar 2012 18:58

A história do "Corrector de Sonhos" apareceu sem querer durante um exercício de escrita exponencial: o objetivo deste exercício era fácil: começar numa frase de 3 palavras apenas -- e depois passar para 6, 12, 24, 48 -- sempre numa frase só (ou seja, nada de comer pontos finais e trocá-los por vírgulas), com a condição que TODAS as palavras que fossem utilizadas nas frases anteriores voltassem a ser utilizadas.

A primeira frase foi, literalmente, a primeira estupidez que me veio à mente (e no exercício seguinte viria transformar-se no estranho conto do Corrector da Bolsa que vende sonhos).

***

Ontem, vendia sonhos.

Ontem, vendia sonhos e comprava esperanças.

Ontem, caminhava pela Rua da Solidão enquanto vendia sonhos e comprava esperanças.

Ontem, criatura insatisfeita, caminhava só pela Rua da Solidão quando encontrei um velho que, curvado, cantava sem voz, enquanto vendia sonhos e comprava esperanças.

Ontem, sentindo-me uma criatura insatisfeita quando caminhava só pela Rua da Solidão, encontrei um velho que, curvado sobre o dia que se alongava, cantava, sem voz, uma canção de embalar para os filhos que nunca tinha tido, enquanto vendia sonhos de infância e comprava esperanças de um doce futuro.
"I believe in pink. I believe that laughing is the best calorie burner. I believe in kissing, kissing a lot. I believe in being strong when everything seems to be going wrong. I believe that happy girls are the prettiest girls. I believe that tomorrow is another day and I believe in miracles."

— Audrey Hepburn

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Re: Corrector de Sonhos (Crónicas do "Dar a Volta ao Papel")

Postby Lady Entropy » 19 Mar 2012 19:06

O que começou de forma tão quase banal descambou completamente quando nos foi dito que escrevêssemos um conto livre (desde que as frases não tivessem mais que 5 palavras, e o conto, no total, tivesse 77 palavras).

Por algum motivo, estava ainda obcecada com a ideia de alguém comprar sonhos e vender esperanças, e não sei porque, comecei a ter flashbacks com os correctores da bolsa. Ocorreu-me que se alguém conseguisse vender sonhos, ficaria rico nas épocas de crise (esperança de certeza que ia fechar sempre em baixa, porque é o que toda a gente tem apenas...).

O resto saiu sem querer.

***

Ontem, vendia sonhos.
Hoje, compro-os.
A esperança caiu a pique. Já as memórias não. Os valores mantinham-se estáveis.
Compra. Vende. Vende. Compra. Sou mercador de desejos.
A Bolsa fechou por hoje. Não houve grandes surpresas. Os sonhos ficaram em alta. Amanhã, ligo à Dona Margarida. Quer alguns sonhos de Nobel. Ter-los-ei no portfólio às dez.
Telefono à Lídia. Vou chegar tarde.
Chego a casa de rastos. Apanho-a com o padeiro. Gosta mais dos sonhos dele.
Cabra.
"I believe in pink. I believe that laughing is the best calorie burner. I believe in kissing, kissing a lot. I believe in being strong when everything seems to be going wrong. I believe that happy girls are the prettiest girls. I believe that tomorrow is another day and I believe in miracles."

— Audrey Hepburn


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