Por Clã e Império!

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Lady Entropy
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Por Clã e Império!

Postby Lady Entropy » 06 Oct 2009 12:48

L5R (Legend of the Five Rings) é um jogo de Roleplay que decorre no mundo de Rokugan, uma versão fantástica do Japão feudal, com samurais, ninjas, monstros e magia.

Aqui à uns anos, escrevi uma série de mini-contos baseada nas três personagens que eu e duas outras amigas jogavamos, e, estando em tuguês, decidi partilhar.


Por Clã e Império!

"Where is the horse and the rider?
Where is the horn that was blowing?
They have passed like rain on the mountains.
Like wind in the meadow.
The days have gone down in the West,
Behind the hills,
Into Shadow.
How did it come to this?"

- JRR Tolkien "O Senhor dos Aneis"
"I believe in pink. I believe that laughing is the best calorie burner. I believe in kissing, kissing a lot. I believe in being strong when everything seems to be going wrong. I believe that happy girls are the prettiest girls. I believe that tomorrow is another day and I believe in miracles."

— Audrey Hepburn

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Re: Por Clã e Império!

Postby Lady Entropy » 06 Oct 2009 12:49

Episódio 1 - The Unicorn Clan Coup

Parte I - A Loba

Moro agarrava com força a yari nas suas mãos. Parecia uma coisa tão fragil... como poderia suportar a força da investida de centenas de quilos de músculo e casco? E eles estavam já tão próximos.

O chão estremecia sob as toneladas de cavalo em movimento, e Moro gritava para que os homens que a rodeavam se mantivessem firmes. Ela sabia que eles não percebiam as suas palavras, mas sabia também que o que eles precisavam era de saber que eles não estavam sós ali. Que ela era samurai, e que mesmo assim estava ali com eles, olhando a morte de frente. O seu instinto gritava-lhe para fugir, que era uma loucura enfrentar assim uma carga de cavalaria -- que não iria sair dali viva. Mas Moro ignorava os apelos do seu bom-senso. Ela iria deter a cavalaria mais poderosa do Império.

Ou morrer a tentar.


***

"O meu casamento foi cancelado?? Mas, pai..."

"Silêncio, Moro. Tu sabes o porquê da minha decisão."

Moro havia mordido os lábios. Sim, ela sabia.

Moto Chagatai, o lider da familia Moto, tinha traido o Império: demasiado contacto com os gaijin para lá das fronteiras e (segundo alguns rumores) com os Kolat, havia decerto corrompido a pouca honra que ele tinha, e depois de um breve conflito interno com as outras familias dos Unicórnio, alistou-as para a sua causa a bem ou a mal. Trouxe também auxilio das terras gaijin, incluindo soldados das estepes e as infernais armas de pólvora. Porque na sua visão, Chagatai queria um Império unido, não um local onde uma palavra dita em corte fosse capaz de mandar clãs inteiros para a guerra. Um local onde actos e não palavras construissem o futuro. E se para isso tivesse que esmagar tudo sob os cascos dos seus cavalos... que assim fosse.

Chagatai tinha virado as costas ao Império. E com ele, também o haviam feito os seus dois filhos: Ryuusai e Nittai, ambos educados em terras estrangeiras durante a maior parte das suas vidas e ambos tão impiedosos como o pai.

Ryuusai era o homem que fora seu noivo.

E para sua grande vergonha, e para seu grande desespero, Ryuusai era o homem que ela amava.

***

O chão tremia sob os seus pés. Ela sabia agora qual era a sensação de estar no caminho de uma onda gigante e ver como ela se aproximava, inexorável, impiedosa.

Os cavalos estavam sobre eles.

Durante um segundo tudo se silenciou à sua volta. Tudo parecia imóvel ao seu redor. Seria assim a loucura? Seria assim a morte?

Então ela provou de novo a realidade. O subito som era quase ensurdecedor depois do silêncio; o movimento era quase profano depois da imobilidade total. Gritos. Relinchos. Sons de madeira a estalar. O impacto foi tão violento, que Moro deslizou dois metros para trás.

Yaris haviam quebrado. Pulsos e braços tinham fracturado. Muitos haviam morrido. Mas a primeira onda da carga de cavalaria fora detida, e os cadaveres de cavalos e cavaleiros, empalados nas lanças, formavam agora uma muralha que impediria um ataque eficaz durante algum tempo.

Moro respirou de novo. Eles não tinham penetrado aquele flanco.

Perguntou-se se do outro lado do seu exército, os lanceiros tinham sido tão afortunados.

E perguntou-se o que faria quando encontrasse Ryuusai.

O seu coração pertencia-lhe.

Mas a sua alma pertencia ao Império.


***
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Re: Por Clã e Império!

Postby Lady Entropy » 06 Oct 2009 12:50

Episódio 1 - The Unicorn Clan Coup

Parte II - O Filho do Demónio


Yorimaru respirou fundo e contou mentalmente até três.

Um.

Ele estava calmo. Focado. Tudo se desenrolava à sua frente lentamente, um bailado mortifero de lâminas brilhando sob o sol.

Saída pela esquerda. Men kaishimen. Um inimigo caído no chão.

Dois.

Um samurai vive como morre. Sem pensar no futuro. Sem pensar no passado. No momento, apenas.

"E nessa calma
Havia uma beleza
para além quaisquer palavras.
Não mais corpo ou espirito...
... pena ou espada...
... macho ou fêmea..."


Três.

O seu sangue rugia. Sentia-"o" dentro de si, a lutar contra as amarras de disciplina que "o" seguravam dentro do seu coração.

Ataque sem restrição. Furia. Descontrolo. Ashigaru Unicorn tombavam à sua frente. A morte cantava no fio da sua espada.

O demónio estava a ganhar forças.

ELE NÃO PODIA LIBERTAR-SE!


***

O shugenja falou lentamente, como se temesse as notícias que trazia:

"Senhor... o seu filho... ele --"

A voz do senhor Akodo soou calma, tranquila -- mas um gume de cólera adivinhava-se por trás dela: "Fala. Que tem o meu filho?"

"Akodo-dono, ele... não é vosso filho."

Houve silêncio durante um longo momento. A calmaria agoirava a pior das tormentas: "O meu filho nasceu há menos de uma hora, Shugenja. Tu supervisionaste o parto, e por muito que as tuas habilidades sejam reconhecidas, não te sabia capaz de determinar a linhagem de alguém sem recorrer à magia dos Ikoma."

"... Ele tem sangue Oni."

"COMO?!" o senhor Akodo levantara-se, os seus olhos pontos de aço gelado.

"Sim, meu senhor." o Shugenja tremia já.

"O meu filho é corrompido pelas Shadowlands?"

"Não, senhor. Ele tem... sangue Oni. O pai era um Oni."

A furia dera lugar a uma calma fria, branca, como metal demasiado aquecido até ao ponto de perder a cor. "Ele-- alguma vez mostrará sinais da Taint?"

"Não... não sei. É possível que não.... nunca vi nada assim... Talvez se mandasse chamar um especialista Kuni, ele--"

Akodo Iojiro interrompeu o shugenja com um gesto imperioso: "Mais alguém sabe?"

"Senhor?!"

"Mais alguém sabe disto?"

"Não, senhor... mal descobri vim--"

Havia uma fria deliberação na voz do samurai Lion, como se estivesse a dar ordens a esquadrões prontos a marchar sobre o campo de batalha. "A tua honra e leais serviços são valiosos, shugenja. Mas não posso admitir que duvides da fidelidade da minha mulher." Cada palavra medida e calculada para ter efeito total "Por isso, concedo-te permissão para cometeres seppuku, expiando assim a culpa que cairia sobre a tua familia por insultares assim a tua senhora."

O shugenja inclinou-se até ao chão, sem hesitar. "Hai."

***

O seu pai verdadeiro era um Oni.

Sangue jorrava de multiplas feridas no seu corpo, mas ele sempre gostara da dor. A dor é pura. A dor é algo bom. A dor lembra-te que ainda estás vivo.

Um Oni que tomara forma humana para seduzir a sua mãe.

Ele mataria o clã Unicorn inteiro se fosse preciso.

A guerra era o seu elemento. Desde criança que vivera com o facto que todos os dias enfrentava o seu pior inimigo, numa batalha sem tréguas ou rendição.

Por Clã!

Por um segundo pensou nas duas samurai-ko que estavam com ele ali, Moro e Nagato, lutando por algo maior que eles todos. O que as fazia seguir em frente? Porque tinham escolhido a via da espada? O caminho mais duro?

Pelo Império!


Ele sabia porque o fazia. Porque "ele" estava sempre à espera para se libertar, e apenas o doce sabor do sangue inimigo derramado o acalmava.

Porque "ele" era Akodo Yorimaru.

E "ele" era o seu pior inimigo.

***
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Re: Por Clã e Império!

Postby Lady Entropy » 06 Oct 2009 12:52

Episódio 1 - The Unicorn Clan Coup

Parte III - Filha do Momento

Nagato olhou em volta rapidamente, tentando avaliar a situação, tarefa não muito fácil quando se está no meio de uma batalha, onde uma distração de um segundo é convite suficiente para a desgraça acontecer: ambos os exércitos começavam a ressentir-se do longo tempo a que já durava a batalha, o solo estava escorregadio do sangue e do suor dos homens -- enquanto sobre eles todos, o sol tisnava a prumo, implacável.

O calor era insuportável e, por si só, era responsável por multiplas baixas de ambos os lados. Por um instante apenas, a Mirumoto olhou o céu: se ao menos chovesse... o Outono já ia avançado e nem sinais de nuvens, nem uma gota de chuva. A água seria sem dúvida uma benção celestial - para o seu lado pelo menos, pois negaria aos Unicórnio a terrível vantagem que lhes era conferida pelas suas armas de pólvora, que não funcionariam se o pó negro estivesse húmido.

De súbito, ouviu o som do passo pesado de um cavalo atrás de si: voltou-se muito lentamente, e apenas a alguns metros estava uma Battlemaiden, que havia sem dúvida conseguido penetrar as defesas dos flancos.

Nagato havia sido criada para a glória da batalha. Sentiu o peso reconfortante das suas armas, uma lâmina para cada mão - esta era a dança do dragão, tão graciosa como letal.

Olhou a sua inimiga, uma ultima vez, e com coragem no coração e o Vazio na mente, enfrentou a carga, esperando pelo instante.

***
Há quantos anos ele não provava o viver? O gosto de ser espirito feito carne, de ser mortal, de conhecer o mundo através de olhos?

<!--coloro:blue--><!--/coloro-->... Eterno...<!--colorc--><!--/colorc-->

Que era para ele a eternidade? Que era para ele um instante?

<!--coloro:blue--><!--/coloro-->... Tudo e Nada...<!--colorc--><!--/colorc-->

Ele era Ryujin. Ele era eterno e constantemente renascido. Ele era imortal e no seu corpo nasciam e morriam estrelas.

Ele era um Rei Dragão, e a Àgua era a sua amante e a sua súbdita.

Durante séculos, milénios, segundos, instantes, eras, vivera no seu palácio sob o manto aquoso do mar. Mas o Rei Dragão apesar de eterno, cansava-se.

Queria provar a carne.

Queria provar o tempo.

Queria provar a mortalidade.

Por isso, e, cada vez mais frequentemente, aproveitava uma nuvem de passagem, ascendia a ela, e ia dançar nas gotas de chuva que caiam sobre a terra fértil, observando o mundo debaixo de si, do qual sabia tão pouco. Quiçá já houvera sabido mais... mas fora à tanto tempo... tudo estava esquecido agora.

Um dia, vira-a, uma mulher humana banhando-se nas suas águas. A curiosidade havia-o espicaçado: sentia ainda nela sangue de dragões... mas diluido pelas gerações de sangue humano sobre sangue humano. Fascinado pelo sentimento da sua própria curiosidade, havia-a seguido dias e semanas e instantes. Mas a época das chuvas havia passado, e as nuvens já não vinham para o carregar até ela.

<!--coloro:blue--><!--/coloro-->... Tinha de chegar até ela...<!--colorc--><!--/colorc-->

Há quantos anos ele não provava o viver? O gosto de ser espirito feito carne, de ser mortal, de conhecer o mundo através de olhos?

<!--coloro:blue--><!--/coloro-->... Há demasiados anos...<!--colorc--><!--/colorc-->

E assim o Rei Dragão tomou uma forma de carne e mortalidade. Como serpente rastejou, seguindo o odor do sangue que corria nas veias da sua humana. Só queria um instante, uma eternidade, uma vida com ela.

Ela iria carregar a sua semente e o reeniciar do Grande Ciclo. Ela iria dar à luz o próximo Rei Dragão... Assim, Ryujin poderia regressar ao Vazio. O mundo já nada continha que o interessasse, ele já havia vivido muito, pensado todos os pensamentos e sonhado todos os sonhos que a sua forma de espirito poderia conter. Agora, queria apenas dormir. Dormir um sono de instantes. E cada instante haveria de conter todas as eras da humanidade.

Foi um instante até chegar até ela, e deixar que os afiados dentes de serpente desta sua forma mortal se enterrassem na carne macia humana. A sua semente tinha entrado nela... agora, era uma questão de esperar.

<!--coloro:blue--><!--/coloro-->... Esperar uma eternidade. Esperar um instante...<!--colorc--><!--/colorc-->

Ryujin voltara a dançar outra vez na chuva quando o seu espírito se fez vida. Da sua semente havia nascido carne. A família da sua humana ficara surpreendida com a súbita gravidez, que há já tanto esperavam mas que até ali não tinha sido possível, e que acontecera tão subitamente.

Num instante.

Mas eram humanos, e eram felizes. E amaram aquele pedaço de espírito feito carne, ela, a filha de Ryujin, ela que haveria de ser criada para a glória da batalha; ela que haveria de estar num campo de batalha desejando a chuva, sem saber que ao fazê-lo, desejava o seu verdadeiro pai; ela que não saberia que era mais que humana até ao instante certo.

A eternidade não era mais que um instante.

***

Durou apenas um instante.

A força do impacto fizera Nagato ser projectada pelo ar, o seu corpo gritando de dor, ossos quebrando, sangue escapando-se, a vida partindo veloz.

Partindo num instante apenas.

Estava a morrer. Havia substimado a sua inimiga e pagara caro por isso. A dor era quase insuportável, mas mais insuportável ainda era o terrível frio que a estava a invadir. Era como se o tempo passasse cada vez mais devagar.

Como se cada instante durasse uma eternidade.

Uma voz soou ao seu ouvido, e nela estava contida toda a eternidade, e todos os instantes entre cada segundo:

<!--coloro:blue--><!--/coloro-->"A tua hora ainda não chegou... Não podes morrer porque ainda não viveste... Lembra-te de quem és -- e chama por mim quando te lembrares..."<!--colorc--><!--/colorc-->

A vida regressou, e com ela a dor... e com ela, a consciência -- não sabia como, não sabia porquê, mas sabia apenas... que Yorimaru havia caído tentando defendê-la -- que Moro, tombada mais adiante, estava presa entre a vida e a morte...

E que a mesma lâmina que a havia atingido a ela... os tinha feito tombar também -- e a morte que ela trazia apenas tinha sido detida pelo grande general Hida... cuja vida Moro havia comprado com a sua.

Tudo durara apenas um instante.

Um instante.

Uma eternidade.

***
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Re: Por Clã e Império!

Postby Thanatos » 06 Oct 2009 14:36

As regras do jogo eram demasiada areia para a minha camioneta. Piores só mesmo a do Dune!

Mas como dá para ver o setting podia dar ficções interessantes. Aliás se bem me lembro chegaram a sair uns romances «oficiais».
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!


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